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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Rouxinol do Rinaré: Raquel de Queiroz — do Nordeste para o mundo

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Quando Deus quer neste mundo
Renovar a esperança,
Faz brotar a flor no campo,
Símbolo de vida e bonança,
E entre os seres humanos
Nascer mais uma criança.

O século vinte desponta,
A vida se descortina,
Se escuta um som esperado:
O choro de uma menina...
Nasce Rachel de Queiroz
Nessa Terra Alencarina.

Veio ao mundo em Fortaleza,
Com ajuda de Miliquinha.
A bisavó e parteira
Trouxe ao mundo a bisnetinha,
Na antiga Rua da Amélia,
Ali nasceu Rachelzinha.

Para que o leitor não ache
Confuso o poema meu,
Esclareço que essa rua
Onde então Rachel nasceu,
Chamada Rua da Amélia,
Hoje é Senador Pompeu.

Com quarenta e cinco dias
De nascida, Rachel sai
Da casa da bisavó
E para Quixadá vai
Nos braços de sua mãe,
Sob os cuidados do pai.

Bela, saudável e esperta
Da maneira que nasceu,
A menina Rachelzinha
Também se desenvolveu,
Brincando com seus irmãos
Naquele mundinho seu.

No sertão quixadaense,
Rachel viveu com saúde
Boa parte da infância,
Gozou bem a juventude
Ali, no Sítio do Junco,
Tomando banho de açude.

Cultura lá na fazenda
Ela via no terreiro:
Dança de bumba-meu-boi,
Vaquejada e violeiro,
Sendo a arte de raiz
O seu contato primeiro.

Em companhia dos livros,
Viveu num lar de leitores.
Foi formando seu caráter
Com elevados valores,
Envolvida na magia
Do mundo dos escritores.

Sua mãe, Dona Clotilde,
Afeita à literatura,
Era uma mãe prestimosa
E amante da cultura,
Sempre estimulou nos filhos
O gosto pela leitura.

Rachel se instruiu precoce
Por seus dotes naturais.
Demorou a ira à escola,
Mas, curiosa demais,
Aprendeu a ler em casa
Sob as instruções dos pais.

Com apenas cinco anos
Com um esforço sem par,
Tentou ler Ubirajara
Um dos livros de Alencar.
Repetia os nomes próprios
Que conseguiu decifrar.

Em companhia dos livros
Nunca ela só se sentia,
Seus amigos de infância
Eram as obras que lia,
Viajava na leitura
Pro mundo da fantasia.

Do livro “Vinte mil léguas
Submarinas”, que leu,
Do escritor Júlio Verne,
As aventuras viveu
No açude da fazenda
Num “faz de conta” só seu.

Flutuando ali, nas águas,
Em um tronco de madeira,
No submarino “Nautillus
Viajou desta maneira.
Sentia-se em alto mar
Rachel, nessa brincadeira.

Sempre amou aquelas terras
Com suas rústicas paisagens.
As pessoas do lugar
Tornaram-se personagens
Dos livros que ela escreveu
Nas diversas abordagens.

Com seus dez anos de idade
Rachelzinha sai um dia
Passeando na fazenda,
Tendo o pai por companhia.
Este lhe mostrava as terras
Que a menina herdaria.

Disse-lhe o pai: “Rachelzinha,
Quando você se casar,
Não esqueça” é nessas terras
Que você deve morar”.
E até o lugar da casa
Chegou a determinar.

Rachel, com seus onze anos,
Foi pra escola afinal.
Ingressou, após uns testes,
Logo no Curso Normal
No Colégio Imaculada,
Sito lá na Capital.

No ano de vinte e cinco,
Deixa a instituição.
Com quinze anos de idade
Ela fez a conclusão
Do Curso Normal, na escola,
Sua única formação.

Ao receber o diploma,
A moça se recolhia
Na fazenda em Quixadá,
Seu recanto de alegria.
Entre afazeres domésticos,
Lia muito, todo dia.

No ano de vinte e sete,
Precisaram se mudar
Rachel tinha outros irmãos
Necessitando estudar.
Então, próximo a Fortaleza
A família foi morar.

Juntinho da Porangaba,
Em um sítio sem igual:
Açude, um belo pomar,
A casa era especial,
E se podia ir de trem
Pro centro da Capital.

Ali Rachel tinha o hábito
Nas tardes calmas, fagueiras,
De se balançar na rede
Armada junto às mangueiras,
Ao céu aberto, em deleite,
Nas leituras costumeiras.

Lendo um dia O CEARÁ,
Um certo artigo a conduz
A escrever uma crítica
Como Rita de Queluz.
Com seu estilo de texto,
A um emprego fez juz.

Era seu primeiro emprego,
Pra Rachel, grande conquista.
Do exercício nascia
A excelente cronista,
Despontava a escritora
Nos passos da jornalista.

Na saga dos nordestinos
Há um tema recorrente:
A seca, cruel fenômeno,
O qual marcou nossa gente.
E pra Rachel de Queiroz
Também não foi diferente.

Ela, que vivenciou
Na seca o triste dilema,
Leu de Rodolfo Teófilo
Seus livros sobre o problema.
Por fim, decide abordar
De outra forma esse tema.

Fez as pesquisas de campo
Para elementos colher.
Dedicou-se dia e noite,
Leu tudo o que pode ler.
Assim, seu primeiro livro
Rachel começa escrever.

Mas a moça adoeceu
E a mãe lhe fazia medo:
“Pode ser tuberculose,
Fique em casa, durma cedo!”
Porém Rachel produziu
Todo o romance em segredo.

Intitulou-o O QUINZE,
Com muita simplicidade.
Mas foi seu primeiro passo
Rumo à notoriedade
No ano em que completava
Seus vinte anos de idade.

Com os seus próprios recursos,
O QUINZE foi publicado.
Depois, por uma editora
Foi o livro relançado.
Com o Prêmio Graça Aranha
O mesmo foi contemplado.

No ano de trinta e nove
Vai para o Rio de Janeiro,
Como jornalista ativa
Escrevia o tempo inteiro
Pro Diário de Notícias
E pra revista O Cruzeiro.

Mais e mais se revelou
Como fecunda escritora,
Poetisa, teatróloga,
Foi ainda tradutora
E em diversos jornais
Foi cronista e redatora.

Escreveu pra criançada,
Com sua pena sensata:
“Andira”, “O menino mágico”,
E outro livro, onde trata
Da história de dois pintinhos,
“Cafute e Pena-de-Prata”.

Bem mais de duas mil crônicas
Nossa Rachel escreveu.
Com Cem Crônicas Escolhidas,
Seleta edição nos deu,
E a Donzela e a Moura Torta
Que todo o Brasil já leu.

Com vários livros Rachel
Conquistou premiação:
Com o romance As Três Marias
(Que foi pra televisão),
O Quinze, O Menino mágico
E, no teatro, Lampião.

No ano cinquenta e quatro
A sua mãe faleceu.
Ao repartirem as terras,
Rachel, de pronto, escolheu
Aquelas que na infância
Seu pai Daniel lhe deu.

Viaja pra Quixadá,
Sertão saudoso e querido,
E ergue a casa no canto
Que seu pai tinha escolhido.
Seu lar, retiro e xodó,
Que nunca foi esquecido.

Rachel, em setenta e sete,
Mudou uma tradição:
Eleita pra Academia
Envergou o seu fardão,
Foi a primeira mulher
Naquela agremiação.

Foi muito homenageada
Em vida, nossa Rachel.
Tornou-se nome de escola
Até mesmo em Israel...
Seus prêmios e homenagens
Não cabem neste cordel.

No ano dois mil e três,
No seu mês de aniversário,
Do Rio, lá no Leblon,
Partiu pra outro cenário.
Deixou a vida e se foi
Sem alarde ou comentário.

Sua morte repentina
Nosso país abalou
Quando, em rede nacional,
O jornal noticiou.
Na fazenda “Não Me Deixes
Todo empregado chorou!

Rachel de Queiroz, porém,
Nos deixou grande legado.
Nos romances que escreveu
Com estilo consagrado
Fica pra sempre, entre nós,
Seu nome imortalizado!

____________________
Rachel de Queiroz, do Nordeste para o mundo  Rouxinol do Rinaré, ilustrações de Jabson Rodrigues, 2015, Editora IMEPH, Fortaleza  CE; Rouxinol do Rinaré, ou Antonio Carlos da Silva, nascido em 1966, cearense do distrito do Rinaré (antes pertencente a Quixadá), município de Banabuiú, poeta cordelista, passou uma parte de sua infância no sertão do Ceará e, outra parte, em Pindaré-Mirim MA; nos anos 90, mudando-se para Pajuçara, distrito de Maracanaú  CE, foi fundador da SOCIARTE  Sociedade dos Amigos de Rodolpho Theophilo e dos periódicos literários A Porta Cultural dos Aletófilos e O Benemérito, com a colaboração de outros amigos e poetas; com mais de oitenta títulos publicados, entre cordéis e livros, foi diversas vezes premiado e teve seu trabalho citado em jornais e revistas do Brasil e da França (revistas Latitudes, Quadrant e Infos Brèsil); seu livro de cordel O Alienista foi adotado em projetos da Biblioteca Nacional e das escolas de Belo Horizonte  MG, além de ter feito parte do catálogo de literatura da feiras de Frankfurt, Alemanha, e Bolonha, Itália; Rouxinol do Rinaré também atua como revisor e ministrante de oficinas de cordel; bibliografia: em cordéis, O Papagaio Real ou o Príncipe de Acelóis, Ali Babá e os quarenta ladrões, O ladrão de Bagdá, O folclore brasileiro, A lenda do guaraná, Raquel de Queiroz —  vida, obra e um adeus, Patativa do Assaré deixa o nordeste de luto, Oscar Niemeyer, o gênio da arquitetura, O testamento de Judas, Raul Seixas e Elvis Presley  o encontro de dois mitos, Raul Seixas e Paulo Coelho — buscando o sonho e magia, Os grandes feitos de Rodolfo Teófilo, A história do Filósofo Diógenes, o Cínico (em parceria com Francisco Bento) e tantos outros títulos de autoria individual ou em parceria com diversos poetas cordelistas; muitos folhetos de sua autoria foram editados como publicações infanto-juvenis, infantis e outros estudos literários: O Sapo com medo d’água, O Gato de BotasO Alienista, em cordelCordel  — Rouxinol do Rinaré (coletânea), Cordel: Criar, Rimar e Letrar (em parceria com Arlene Holanda, para professores e interessados em técnica de produção de cordel), As férias de Terezinha (infantil) etecetera; atualmente reside em Fortaleza — CE.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Paulo de Tarso: O Quinze

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[baseado no romance de Raquel de Queiroz]

O Quinze foi retratado
Pela escritora Raquel
Falando da grande seca
Bem mais amarga que fel
Faço aqui minha abordagem
Escrevendo com coragem
Meu folheto de cordel.

Nossa escritora Raquel
Retrata seu Quixadá
Mas essa seca malvada
Maltratou meu Ceará
Meu pai também me contou
Que essa “braba” castigou
Minha querida Tauá.

Mesmo quem tinha recursos
Passou certa precisão
Pois se tinha pra comer
Pra o gado, não, tinha não
E muitos pobres morreram
E os que sobreviveram
Vagavam pelo sertão.

Na fazenda Logradouro
A dona Inácia morava
Mas devido a grande seca
Ela com a neta estava
Indo para Fortaleza
Mas lembrava com tristeza
O que sua gente passava.

O povo de dona Inácia
Continuava presente
Enfrentando aquela seca
Com o sol bravo e ardente
Principalmente o sobrinho
De Conceição, o carinho
Conhecido por Vicente.

Chico Bento aqui vai ser
Personagem principal
Retirante que deixou
Seu belo torrão natal
Pois na fazenda Aroeiras
Abriam-se as porteiras
Dos cercados e curral.

A dona abandonou tudo
Sem dor e nem piedade
Chico Bento e a família
Partiram para a cidade
Jogados à própria sorte
Enfrentando vida e morte
Despidos de vaidade.

O Vicente ao Chico Bento
Comprou tudo que restava
Pois ficar sem um serviço
A ele não interessava
E não tendo outra opção
Deixou seu velho torrão
Para a cidade marchava.

Foi ele pra Quixadá
Arranjar umas passagens
Porque se ficasse ali
Chico viria só visagens
E nada mais lhe restava
Triste pro campo olhava
Vendo a terra sem pastagens.

O agente das passagens
Não tendo bom coração
Para o pobre Chico Bento
Falou dessa forma então:
“Não posso nada arranjar
Aconselho a viajar
Compassado pelo chão.”

Chico Bento retrucou:
“Meu Deus que falta de sorte
Ouvi dizer que o governo
Estava dando transporte
Se formos andando a pé
Mesmo com bastante fé
Vamos só buscar a morte.”

O agente disse: “azar,
Dê seu jeito, retirante
Saia pelo mundo afora
Que nem um ‘judeu’ errante
Você sem nada no bucho
Tá igualmente um cartucho
Não me aborreça arrogante.”

Seca de setenta e sete
nada de trem existia
Retirante já andava
Do Ceará à Bahia
Era percorrendo chão
Sem fazer reclamação
Viajava com alegria.

Chico Bento saiu triste
E foi logo reclamar
Para o senhor Zacarias
Com quem iria pegar
O dinheiro das vaquinhas
Suas últimas coisinhas
Pra ligeiro viajar.

E seu Zacarias disse:
“O governo dá transporte
O seu preposto nos rouba
E, do que vem, faz o corte
Pode mesmo acreditar
O povo tem que pagar
Para fugir da má sorte.”

Chico Bento retornou
Furioso e revoltado
Cordulina, sua esposa,
O viu bastante zangado
Procurou logo saber
Pra que pudesse entender
Aquele seu mal estado.

“O governo tá do lado
De quem não tá na pobreza!”
Cordulina disse: “Chico,
Não caia nessa tristeza
A grana que recebeu
De cachaça já bebeu
Deixe de tanta moleza.

“Vamos viajar por terra”
Pra Cordulina falou:
“Deus nos deu esse destino,
Inverno aqui não chegou”
Botou na burra a cangalha
Juntando surrão de palha
E a longa estrada pegou.

Essa obra que exalta
A virtude nordestina
A própria Raquel pagou
Era quase uma menina
Seu pai dinheiro emprestou
Logo a mídia elogiou
Essa nossa alencarina.

E foram dias difíceis
Para o pobre Chico Bento
Pois os filhos reclamavam
Daquele caminhar lento
Mesmo sem ter estrutura
Farinha com rapadura
Era, sim, bom alimento.

E na estrada encontraram
Um grupo de retirante
Que duma vaca tirava
O couro naquele instante
Chico Bento observou
E ligeiro perguntou:
“Vão levar isso a diante?”

“Essa vaca tá é podre!
Vamos no mato jogar!
Nossa comida tá pouca
Mas vamos aproveitar
Precisamos de união
Pois em cima desse chão
Poucos vão nos ajudar.”

E vejam quanta grandeza
Daquele bravo vaqueiro
Mesmo pobre sem ter nada
Pensava no companheiro
Dividindo seu comer
Amenizando o sofrer
E sendo até conselheiro.

E Chico seguiu viagem
Sem nada para comer
A meninada chorando
Sem água para beber
Era com toda certeza
Uma cena de tristeza
Um terrível padecer.

Cordulina disse: “Bento,
Aquela rede novinha
Comprada no Quixadá
Feita com bonita linha
Vá à bodega trocar
Alguma coisa arranjar
Êta que vida ‘mesquinha.’”

“O bodegueiro orgulhoso
Só esse pouco pagou
Dizendo: ‘a rede tá velha’
E logo a cara fechou”
Sem nada ter a fazer
O jeito foi receber
E com emoção chorou.

E no lugarejo Castro
Mocinha foi procurar
Um serviço pra fazer
Pois precisava ganhar
De Bento era cunhada
Mas já estava cansada
Daquele perambular.

Chico Bento e a família
Caminhavam lentamente
Josias viu mandioca
E saiu constantemente
Comeu ali mesmo crua
Pois era vontade sua
De fome estava doente.

Josias foi piorando
Coitado, não teve sorte
E depois do sofrimento
Veio, sim, a triste morte
Aquela criança nova
Ficou ali numa cova
Enterrada sem suporte.

Conceição em Fortaleza
Cumpria bem a missão
Visitando todo dia
A grande concentração
Com uma imensa peleja
Vendo a gente sertaneja
Naquela triste aflição.

E numa dessas passagens:
“Conceição, não me conhece?”
“Sim, você é Chica Boa!”
“Aqui muito se padece
Um sofrimento profundo
Porque pobre nesse mundo
Precisa viver em prece.”

“Como está meu Quixadá?”
“Naquela mesma tristeza,
Gado morrendo de fome,
Uma tremenda pobreza
Perdi meu pobre marido
Naquele lugar sofrido
Vim aqui pra Fortaleza.”

“Diziam que o Governo
Estava dando comida
Eu vim experimentar
Mas nessa vida sofrida
É difícil o caminhar
Não sei onde vou parar
Acho que estou perdida.”

Conceição muda o assunto:
“Dê notícias do meu povo,
Como vai tia Idalina?
E Vicente, cabra novo?
“Dona Idália vai bem,
E Vicente tá que nem
Um pinto dentro do ovo.”

“Foram lá pra Quixadá
Mas o Vicente ficou
Para cuida da fazenda
Do seu gado que restou
Num sofrimento tamanho
Com seu pequeno rebanho
E ele já se acostumou.”

Conceição chegou em casa
‘Mãe Nácia’ já esperava
Mas notou ligeiramente
Que a neta estranha estava
Quis saber qual a razão
De tamanha solidão
E ela assim lhe contava:

“Vi no campo, Chica Boa
Falou de tia Idalina,
Deu notícia de Vicente,
De Lourdinha e das ‘menina’
Estão lá no Quixadá
E só o Vicente está
Na labuta matutina.”

“Mas você está estranha!”
A dona Inácia exclamou,
“Sim, estou mesma, ‘Mãe Nácia’
Com o que Chica contou
Vicente ‘tá’ com um fardo
A filha do Zé Bernardo
Sua vergonha acabou?”

E grande mágoa ficou
No peito de Conceição
Pois achava que Vicente
Tinha purificação
Queria ele do seu lado
Já tinha até planejado
Ganhar o seu coração.

Raquel retrata n'O Quinze
A questão do preconceito
Para a moça Conceição
Não era nada direito
Vicente se apaixonar
Pensando até em casar
Com uma ‘zinha’ do eito.

Chico Bento prosseguia
Caminhando sem destino
Deixando ficar pra trás
Josias, pobre menino
Faltava-lhe condição
Que triste situação
Era mesmo um peregrino.

Iam minguando a miséria
Por milagre aguentando
Embora sempre ouvindo
Os meninos reclamando
Chico Bento e Cordulina
Diziam: “a seca assassina
Aos poucos tá nos matando.”

Chegando em Baturité
Chico Bento decidiu
Vender a pobre burrinha
E novamente seguiu
Num caminhar renitente
Feito um pobre penitente
Na longa estrada sumiu...

A fome os consumia
De forma bem alarmante
Cordulina quase morta
Num andar estonteante
Pelo amor de Deus pedia
E já quase em agonia
Com olhar arrepiante.

Foram avistando uma cabra
Chico Bento, nem pensou
Matou-a ligeiramente
E com a faca sangrou
Mas o dono apareceu
Aquilo lhe entristeceu
Com a carne não ficou.

Chico Bento lhe implorou
Pediu: “pelo amor de Deus,
Deixe pra gente um pouquinho
Para alimentar os meus
Ficarei grato, senhor,
Lhe terei eterno amor
Pense que esses são seus!”

O homem embrutecido
Nada pra ele cedeu
Quanto mais ele pedia
Dizia ele? “plebeu,
Com atitude macabra
Você matou minha cabra
Roubando o que era meu.”

Chico dizia: “senhor,
Tenha de nós compaixão
Estamos com muita fome
Não temos nenhum tostão!”
O homem jogou as tripas
Querendo lhe dar chulipas
E gritou: “pega, seu cão!”

O fato juntou-se à terra
E água, não tinha, não
E Pedro, filho de Bento
Saiu com um camburão
“Dê uma aguinha senhor!”
“Saia daqui por favor
Vá dando o fora ladrão!”

Era muita humilhação
Pra quem foi sempre honesto
O que ele ali passava
Num momento tão funesto
Era grande a precisão
Daquele pobre cristão
Passando por desonesto.

A Mocinha que ficou
Em Castro na estação
Fora mandada embora
E com a trouxa na mão
A casa do bodegueiro
Foi ser o seu paradeiro
Arranjou novo patrão.

A dona Eugenia dizia:
“Só sabe louça quebrar
Não serve pra fazer nada
Querendo até namorar
Aquilo é mesmo ‘mundiça’
Nunca vi tanta preguiça
Só veio me atrapalhar.”

E Conceição na sua luta
Deixava em casa sua vó
Dona Inácia reclamava
Porque vivia quase só
Lembrava-se do seu povo
Pedia pra no ano novo
Está no seu Cafundó.

Na calçada ela saiu
Quando viu distantemente
Alguém muito parecido
Com aquela sua gente
A pessoa se aproximou
E dona Inácia gritou:
“É você, grande, Vicente?”

“Sou eu mesmo tia Inácia!
Deixei lá o meu torrão
Vim aqui na capital
Resolver uma questão
Uma tal compra que fiz
A um Sujeito infeliz
Que não manda essa ração.”

“Um caroço de algodão
Para o gado alimentar
Tudo que tinha no campo
Já fez foi se acabar
Os bichos estão a sofrer
Quero logo resolver
E bem ligeiro voltar.”

Xique-xique e juazeiro
Serviam de alimento
Uma luta bem constante
Um imenso sofrimento
No sertão de Quixadá
E também lá em Tauá
Que terrível desalento!

Nisso entrou Conceição
Bem espantada ficou
Ao ver o primo Vicente
Mas ligeiro se lembrou
Do que disse ‘Chica Boa’
O seu amor era à-toa
Logo o semblante mudou.

Vicente logo entregou
Uma carta de Lourdinha
Que falava dos parentes
E pedia uma comprinha
Um vestido elegante
Conceição naquele instante
Entrou lá na camarinha

Mas quando ela voltou
Vinha estranha e diferente
Pois lembrava a todo instante
Daquilo que fez Vicente
Aborrecida estava
E quase nada falava
Muito triste descontente.

Vicente nada entendeu
Porque tanta indiferença
O motivo que levou
Toda aquela mal querença:
“Não sei mesmo o que é que há
Vou para o meu Quixadá
Onde está minha sentença.”

Na longa estrada da vida
Chico estava sem destino
De repente sentiu falta
De Pedro, pobre menino
Pra o Acarape partiu
Perguntou, mas ninguém viu
Ficou logo em desatino.

Alguém lhe disse: “seu moço!
Procure seu delegado
Que com certeza ele vai
Irá dar-lhe um resultado
Naquela casa caiada
É sua ‘santa’ morada
Lá não ficará largado.”

O retirante bateu
À porta do delegado
Para pedir-lhe ajuda
Pois tava contrariado
Cordulina em agonia
Desmaiando padecia
Já de semblante alquebrado.

“Donde você é caboclo?”
 O delegado indagou:
“Eu sou lá do Iguatu
Mas Quixadá me criou
Venho lá das Aroeiras
A dona abriu as porteiras
E todo gado soltou.”

“Aquela velha é desgraça
A ninguém faz um favor
Até mesmo pelos seus
Ela nunca teve amor
Lá eu perdi o que tinha
Aquilo é mesmo morrinha
Que assusta o bom criador.”

“Você é compadre Bento!”
“Sou eu mesmo, meu compadre!”
“Doninha venha pra cá,
Receba nossa comadre!”
Ela disse: “Santo Deus!
Coitada dela e dos seus
Valei-me meu Santo Padre!”

O delegado ordenou
Que fossem atrás do menino
Não sei para onde foi,
Muito menos seu destino
Caboclos, vão procurar
Quando o menino encontrar
O pagamento eu defino...!

Os caboclos procuraram
Voltaram sem resultado
E disseram: “Seu Luís
Andamos pra todo lado
Foi visto com comboieiros
Mas não tivemos roteiros
Onde ele tinha parado.”

Que destino a Rachel
Dará a Bento e aos seus?
Com certeza já pagaram
Seus pecados para Deus
Esperamos bom destino
Para aquele peregrino
Que ‘representa’ os plebeus.

Chico Bento em Fortaleza
Desceu na grande estação
Indo com sua família
Pra grande concentração
Lá todo mundo era igual
Naquele triste curral
Sempre estava Conceição.

Conceição os descobriu
De baixo dum cajueiro
Chico Bento acabrunhado,
Alquebrado, sem dinheiro
Cordulina decadente
Ninguém estava contente
Sofria aquele vaqueiro.

Conceição disse: “compadre,
É ali que vão ficar
E os levou ligeiramente
Para um pequeno lugar
Vamos buscar a ‘ração’”
E Bento estirava a mão
Com um gesto esmolar.

“Mesmo com pouca comida
Aqui já há diferença
E bem melhor ainda é
Ter a sua ‘santa’ presença
Joguei a honra no chão
Passei até por ladrão
Quero sim, a renascença.”

“Vou procurar um serviço!”
Conceição disse: “Tá certo
Lá no açude do Tauape
Um lugar limpo e aberto
Para ganhar é pesado
Mas ganhará bom trocado
É melhor que no deserto.”

Conceição falou: “Comadre,
Vou criar meu afilhado
Com muito afeto e carinho
Pra viver sempre ao meu lado!”
“Vou falar com Chico Bento
Nosso pequeno rebento
Será muito bem cuidado.”

Chico Bento embarcou
Pro Sudeste do País
Levando só a pobreza
Com desbotados anis
Era tudo diferente
Lá tinha uma nova gente
Com certeza dois Brasis.

No início de dezesseis
Quando i inverno chegou
Mãe Nácia pro Quixadá
Novamente retornou
Conceição veio deixá-la
Muita gente a esperá-la
Um foguetório estourou.

Raquel contou triste fato
Do seu belo Quixadá
Seu Miguel Gomes de Freitas
Contou-me do meu Tauá
O quinze foi bem feroz
Um tal padrasto algoz
Castigando o Ceará.

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____________________
O Quinze — Cordel de Paulo de Tarso (baseado no romance de Raquel de Queiroz), 3ª edição, setembro de 2011, Gráfica e Editora Canindé, Tauá — CE; Paulo de Tarso Bezerra Gomes, nascido em 1963, tauaense e cearense, formado em História pela Universidade Federal do Ceará, é professor, poeta cordelista e músico repentista; o poeta tem uma centena de cordéis publicados e 2 CDs de poesias populares; bibliografia: Quando os bichos estudavam, A chegada de seu Lunga no céu, A moça que leiloou a virgindade, A morte do rei do baião, A santa que chora  as lágrimas de rosa mística, A trágica morte dos Mamonas Assassinas, Da ficção à realidade  Nova York em chamas, O ABC do Patativa, O assassinato de Daniela Perez, O beato José Lourenço e o caldeirão, Professor dos cornos, Raquel  nossa escritora no céu, Tragédia que matou o campeão Ayrton Senna, O Quinze, etecetera, etecetera, etecetera; pertence à Academia Tauaense de Letras.