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[traduzido por Maria Luisa
de Abreu Lima Paz]
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É também graças a [Paul
Jakob] Deussen [1845 —
1919] que sabemos de um incidente, em fevereiro de 1865, que ganhou certa
notoriedade e tem importância em qualquer consideração sobre a posterior
insanidade de Nietzsche. Segundo afirma, Nietzsche lhe contou que viajara
sozinho a Colônia; um cocheiro o conduziu num passeio pela cidade e, por fim,
ele pediu que o levasse a um bom restaurante. Segundo afirma, Nietzsche lhe
contou que viajara sozinho a Colônia; um cocheiro o conduziu num passeio pela
cidade e, por fim, ele pediu que o levasse a um bom restaurante. Em vez disso,
foi levado para um bordel. “De repente me vi rodeado por meia dúzia de figuras
com lantejoulas e véus, que me olhavam com expectativa”, dizia Nietzsche.
“Fiquei mudo por um instante. Depois, fui instintivamente até um piano que
havia na sala como se fosse o único ser vivo ali e toquei alguns acordes. Eles
quebraram o encanto e saí correndo.” Na opinião de Deussen, este incidente foi
singular na vida de Nietzsche e as palavras mulieram nunquam attigit poderiam se aplicar a ele. Já não se pode
concordar com isso, pois temos hoje evidências das quais Deussen não dispunha
quando escreveu. É praticamente certo que a doença que vitimou Nietzsche foi
uma demência paralítica; isso significa que certamente deve ter contraído
sífilis, e a maioria dos que estudam sua vida concorda que ele a contraiu,
provavelmente na juventude. [Clarence] Crane Brinton [1898 — 1968] afirma: “O fato de Nietzsche ter
mesmo tido sífilis pode ser considerado comprovado (até onde uma coisa do tipo
pode ser comprovada)”; Walter [Arnold] Kaufmann [1921 — 1980] é mais cauteloso ao afirmar:
“Tudo que podemos dizer — e todos os tratados médicos sérios e não
sensacionalistas sobre o assunto parecem concordar com isto — Nietzsche muito
provavelmente contraiu sífilis.”. Richard Blunck [1895 — 1962] reproduz
evidências a partir das quais é impossível duvidar de que Nietzsche tenha se
tratado de uma infecção sifilítica com dois médicos de Leipzig durante o ano de
1867, embora talvez não tenha sido informado quanto à natureza de sua
enfermidade. Como a contraiu ainda é uma questão estritamente especulativa,
embora não seja muito difícil deduzir: um jovem na situação de Nietzsche
dificilmente teria entrado em contato com a doença em outro lugar que não um
bordel. H. W. Brann [ ? — ? ] sugere que o poema “Die Wüste wächst” inserido na
quarta parte de Zaratustra é uma reminiscência de uma visita a um bordel,
baseando sua sugestão em alguns ecos no poema das palavras usadas por Nietzsche
para descrever a Deussen sua experiência de fevereiro de 1865; Thomas Mann [1875
— 1955] supõe que, depois de ter sido levado a um deles contra sua vontade,
tenha retornado voluntariamente. Seja como for, as evidências existentes
descartam qualquer necessidade de acreditar que Nietsche herdou a insanidade de
seu pai e que, portanto, “sempre foi louco”. Pois seu destino estava longe de
ser incomum. A sífilis não tinha cura e, por isso, em geral o paciente não era
informado de que a contraíra: a consequência era uma vida pontuada de acessos
cada vez mais graves de uma “doença misteriosa” que muitas vezes terminava em
loucura e morte prematura. Já foi sugerido que Nietzsche possa ter contraído sífilis
quando trabalhou como enfermeiro na Guerra Franco-Prussiana, mas a partir das
evidências apresentadas por Blunck de que já se tratara da doença em 1867.
Torna-se impossível que a tivesse contraído apenas em 1870 e improvável que
viesse a ter contato com ela de alguma outra forma que não esta apenas
sugerida.
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Nietzsche — uma biografia: R. J. Hollingdale, Tradução de
Maria Luisa de Abreu Lima Paz e Prefácio da edição revisada de Little Venice,
1ª edição, 2015, Edipro, São Paulo — SP; Reginald John “RJ” Hollingdale (1930 —
2001), britânico nascido em Streatham, distrito londrino, Inglaterra,
autodidata, aos 16 anos abandonou a Bec Grammar School, Totting, tornou-se
jornalista, foi biógrafo e tradutor de filosofia e literatura alemã; trabalhou
em um jornal de Croydon, bairro londrino, foi subeditor no The Guardian e crítico
no The Times Literary Supplement; mesmo sem formação universitária foi eleito presidente
de uma sociedade acadêmica e atuou como professor visitante na University of Melbourne,
Australia; suas obras: Nietzsche: The Man and his Philosophy (Nietzsche: O homem
e sua filosofia,biografia, 1965 e edição revisada, 1999), Thomas Mann: A Critical
Study (biografia, 1973), A Nietzsche Reader (1978), Western Philosophy: An
Introduction (1994) ...; traduziu Essays and Aphorisms, selections from Parerga
and Paralipomena, by Arthur Schopenhauer (1973), Electives Affinities, by Goethe
(1978), Tales of Hoffmann, by E. T. A. Hoffmann (1982), Aphorisms, by Georg Christoph
Lichtenberg (1990), além de várias obras de Nietzsche.