domingo, 31 de janeiro de 2016

Aurélio Buarque de Holanda *: Amar-te —- não por gozo da vaidade, . . . [soneto]

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Amar-te  não por gozo da vaidade,
Não movido de orgulho ou de ambição.
Não à procura da felicidade,
Não por divertimento à solidão.
                                                 
Amar-te  não por tua mocidade
 Risos, cores e luzes de verão 
E menos por fugir à ociosidade,
Como exercício para o coração.

Amar-te por amar-te: sem agora,
Sem ontem, sem futuro, sem mesquinha
Esperança de amor, sem causa ou rumo.

Trazer-te incorporada vida fora,             
Carne de minha carne, filha minha,
Viver do fogo em que ardo e me consumo.


* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910  1989), alagoano de Passo de Caramagibe, formado em Direito pela Faculdade de Recife, foi filólogo, lexicógrafo, professor, tradutor, ensaísta e crítico literário, mas também um poeta bissexto *; desde 1938 passa a residir no Rio de Janeiro, onde continuou suas atividades no magistério como professor de Português e Literatura Brasileira; publicou contos e crônicas na imprensa carioca e trabalhou na Revista do Brasil; em 1941 inicia o seu trabalho de lexicógrafo, publicando diversas edições do Dicionário Aurélio, ou Aurelião, ou Aurélio, amplamente reconhecido e utilizado por estudantes, professores, pesquisadores e leitores da língua portuguesa; sua obra: Dois Mundos (contos, 1942), Linguagem e Estilo de Eça de Queirós (ensaio, 1945), Mar de Histórias  antologia de contos da literatura universal (em colaboração com Paulo Rónai, volumes I, II, III, IV, V, VI, VII, VIII, IX e X, de 1945 a 1988), Contos Gauchescos e Lendas do sul (edição comentada do texto de Simões Lopes Neto, 1949), O Romance Brasileiro de 1752 a 1930 (1952), Roteiro Literário do Brasil e de Portugal (antologia literária da língua portuguesa, em colaboração com Álvaro Lins, 1956), Território Lírico (ensaios, 1958), Enriqueça o seu Vocabulário (filologia, 1958), Vocabulário Ortográfico Brasileiro (1969), Novo Dicionário da Língua Portuguesa (1972), O Chapéu de meu pai (edição revista e reduzida de Dois Mundos, 1974), Mini-dicionário da Língua Portuguesa (1977); como tradutor, Aurélio Buarque verteu para a língua portuguesa várias obras, entre elas Poemas de Amor, de Amaru, Pequenos Poemas em Prosa, de Baudelaire, além dos contos para a coleção Mar de Histórias; Aurélio, no Brasil, virou sinônimo de dicionário.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Charles Bukowski: um poema rude

O Amor É Um Cão Dos Diabos | Amazon.com.br
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[traduzido por Pedro Gonzaga]

eles seguem escrevendo
despejando poemas…
jovens garotos e professores universitários
esposas que bebem vinho durante a tarde
enquanto seus maridos trabalham,
eles seguem escrevendo
os mesmos nomes nas mesmas revistas
todos escrevendo um pouco pior a cada ano,
lançando uma coletânea de poesias
despejando mais poemas
é como um concurso
é um concurso
mas o prêmio é invisível.

eles não escreverão contos ou artigos
ou romances
apenas seguirão
despejando poemas
cada um soando mais e mais como os outros
e menos e menos como eles mesmos,
e alguns dos garotos se cansam e desistem
mas os professores nunca desistem
e as mulheres que bebem vinho durante a tarde
nunca nunca nunca desistem
e novos garotos chegam com novas revistas
e há alguma correspondência entre homens e mulheres
algumas fodas
e tudo é exagerado e estúpido.


quando os poemas são recusados
eles os reescrevem
e mandam para a próxima revista na lista,
e eles fazem leituras
e todas as leituras que conseguem
de graça na maioria das vezes
esperando que alguém finalmente os reconheça
finalmente os aplauda
finalmente os congratule e reconheça o
talento deles
estão todos tão certos de suas genialidades
há tão pouco autoquestionamento,
e a maioria deles vive em North Beach ou Nova York,
e seus rostos são como seus poemas:
iguais,
e conhecem uns aos outros e
se congregam e se odeiam e se admiram e se escolhem e se
descartam
e seguem despejando mais poemas
mais poemas
mais poemas
o concurso dos cretinos:
tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap, tap…

Resultado de imagem para charles bukowski
Charles Bukowski

an unkind poem
  
they go on writing
pumping out poems ...
young boys and college professors
wives who drink wine all afternoon
while their husbands work,
they go on writing
the same names in the same magazines
everybody writing a little worse each year,
getting out a poetry collection
and pumping out more poems
it's like a contest
it is a contest
but the prize is invisible.
  
they won't write short stories or articles
or novels
they just go on
pumping out poems
each sounding more and more like the others
and less and less like themselves,
and some of the young boys weary and quit
but the professors never quit
and the wives who drink wine in the afternoons
never ever ever quit
and new young boys arrive with new magazines
and there is some correspondence with lady or men poets
and some fucking
and everything is exaggerated and dull.
  
when the poems come back
they retype them
and send them off to the next magazine on the list,
and they give readings
all the readings they can
for free most of the time
hoping that somebody will finally know
finally applaud them
finally congratulate and recognize their
talent
they are all so sure of their genius
there is so little self-doubt,
and most of them live in North Beach or New York City,
and their faces are like their poems:
alike,
and they know each other and
gather and hate and admire and choose and discard
and keep pumping out more poems
more poems
more poems
the contest of the dullards:
tap tap tap, tap tap, tap tap tap, tap tap ...
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O amor é um cão dos diabos — Charles Bukowski, Tradução de Pedro Gonzaga, 2015, reimpressão L&PM Pocket, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Henry Charles Bukowski Jr. (1920  1994), ou Heinrich Karl Bukowski, alemão de Andernach, que desde os três anos de idade viveu nos Estados Unidos (inicialmente em Baltimore e depois em Los Angeles), foi poeta, contista e romancista; em 1939, inicia o curso de jornalismo e literatura pela Los Angeles City College; põe-se a escrever, é expulso de casa, passa a morar em pensões e, sem emprego, desiste da faculdade; convivendo com o alcoolismo, e com vida errante, passando por várias cidades americanas, trabalhou em empregos temporários como faxineiro, frentista, motorista de caminhão; depois, ingressou nos correios, trabalhando como carteiro por quatorze anos; aos 49 anos largou o emprego para se dedicar à carreira de escritor; escreveu e publicou: Flower, Fist, and Bestial Wail (coletânea de poesias, 1960), It Catches My Heart in its Hands (coletânea de poesias, 1963), Confessions of a Man Insane Enough to Live Beasts (1965), Post Office (Cartas na Rua, romance, 1971), Factótum (romance, 1975), Love is a Dog from Hell (O amor é um cão dos diabos, poesias, 1977), Women (Mulheres, romance, 1978), Shakespeare Never Did This (não-ficção, 1979) e tantos outros títulos em verso e prosa e não-ficção; Bukowski, com Cartas na Rua, romance que o tornaria famoso, passa a fazer uso de seu alterego Henry Chinaski que o acompanha na quase totalidade de seus romances.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Augusto de Lima: No Mar

Em verde-negro, esconso lenho
Discorro o mar, de além a além...
O céu me pede o que eu não tenho,
O mar me nega o que ele tem.

O céu me pede a crença e o pranto,
Matar-me a sede o mar não quer;
Mesmo com o mar posso no entanto
Da minha mágoa o céu encher?

Quem me mandou a esta viagem?
Donde parti? Quando embarquei?
Qual meu roteiro? A que paragem?
Devo voltar? Não sei, não sei.

Que estranha voz... rumor das vagas...
Sombras além... névoas talvez...
Quem sabe? Estão próximas plagas
Onde aportar por uma vez.

Não tem a névoa essa figura,
O mar não fala. É uma ilusão,
Pensar em praia é uma loucura,
Aves não há nesta amplidão.

Desmaia a luz... o vento esfria,
Na água dormente a ressonar...
Por que o tremor que me arrepia,
Fitando o céu, fitando o mar?

Cai sobre mim a Noite imensa.
Que ela confunde em seu negror
As sombras vãs da minha crença,
A rouca voz do meu pavor!

Mudez e treva, olvido e nada...
Melhor. Não sinto o espectro meu.
No berço-esquife a alma encerrada
Pensa talvez que já morreu!

(Poesias. H. Garnier, Rio de Janeiro,
 1909, p. 249 — 250.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antônio Augusto de Lima (1859 1934), mineiro de Congonhas de Sabará (hoje, cidade de Nova Lima ), fez seus estudos no Seminário de Mariana, no Colégio do Caraça, no Liceu Mineiro em Ouro Preto e graduou-se na Faculdade de Direito de São Paulo (1882); além de poeta, foi jornalista, magistrado, jurista, professor e político; escreveu e publicou Contemporâneas (1887, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro), Símbolos (1892, Tipografia Leuzinger, Rio de Janeiro) e Poesias (1909, Garnier, Rio de Janeiro).

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Honório Armond: Filosofando

Honório Armond, O Príncipe Dos Poetas Mineiros, Zenaide Viei
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Esta particular filosofia,
que em tudo me faz ver a cova aberta,
trazendo os meus Sentidos sempre alerta
na ingrata previsão do Último Dia;

esta peculiar hipocondria
aos que têm sempre a Vida erma e deserta
é-me guarda e broquel... e me acoberta
dos males que esta idéia aos mais traria...

morrer é renascer... é recompor
novo Ser que virá à Luz da Vida
varando de uma cova os sete pés!

meu sistema ideal, consolador,
resume-se na frase definida:
Memento, homo, quia pulvis es!

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Honório Armond  O Príncipe dos Poetas Mineiros, Organizado por Zenaide Vieira Maia, 2007, Gráfica e Editora Cidade de Barbacena, Barbacena MG; Honório Armond (1891 1958), mineiro de Barbacena, foi professor e poeta bilíngue; lecionou Português e teve seus poemas registrados em periódicos mineiros, cariocas e paulistas; escreveu e publicou Ignotae Deae (1917), Perante o Além (1921), Les Voix e Les Bonheurs (1932); escrevia seus poemas ora em português, ora em francês; em 1927, com o patrocínio do jornal Diário de Minas, foi eleito 'Príncipe dos Poetas Mineiros', em concurso realizado por jovens modernistas mineiros liderados por Carlos Drummond de Andrade; seus poemas, dispersos em jornais, revistas e arquivos literários (jornais Cidade de Barbacena e Diário de Minas, revistas Acaiaca, Radium e Revista da Academia Mineira de Letras, Arquivo de Guimarães Rosa, entre outros periódicos) foram reunidos e ganharam uma nova edição em Poesia Completa de Honório Armond (2011); pertenceu à Academia Mineira de Letras.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Alberto de Oliveira: O Ninho

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O musgo mais sedoso, a úsnea mais leve
Trouxe de longe o alegre passarinho,
E um dia inteiro ao sol paciente esteve
Com o destro bico a arquitetar o ninho.

Da paina os vagos flocos cor de neve
Colhe, e por dentro o alfombra com carinho;
E armado, pronto enfim, suspenso, em breve,
Ei-lo balouça à beira do caminho.

E a ave sobre ele as asas multicores
Estende, e sonha. Sonha que o áureo pólen
E o néctar suga às mais brilhantes flores;

Sonha... Porém de súbito a violento
Abalo acorda. Em torno as folhas bolem...
É o vento! E o ninho lhe arrebata o vento.

(Poesias, segunda série,
Livraria Garnier, Rio, 1912, p. 232.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira,  1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Antonio Mariano Alberto de Oliveira (1857 1937), fluminense de Palmital de Saquarema, farmacêutico e professor, foi poeta e figura de destaque do Parnasianismo; publicou Canções românticas (1878), Meridionais (introdução de Machado de Assis, 1884), Sonetos e poemas (1885), Versos e Rimas (1895), que reuniu em Poesias — primeira série (1900), e mais Poesias — segunda série (1906), Poesias — terceira série (1913) e Poesias — quarta série (1927).

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Solano Trindade: Quem tá gemendo?

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Quem tá gemendo, 
Negro ou carro de boi? 
Carro de boi geme quando quer, 
Negro, não.
Negro geme porque apanha.
Apanha pra não gemer...

Gemido de negro é cantiga
Gemido de negro é poema... 

Geme na minh′alma,
A alma do Congo,
Do Níger, da Guiné,
De toda África enfim...
A alma da América... 
A alma Universal... 

Quem tá gemendo?
Negro ou carro de boi?

(Poemas de uma vida simples  1944)

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Poemas Antológicos de Solano Trindade, Seleção e Introdução de Zenir Campos Reis, 2ª. edição, 2011, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Francisco Solano Trindade (1908 1974), pernambucano de Recife, foi ativista, poeta, pintor, folclorista e teatrólogo; viveu no Recife, no Rio de Janeiro, no Embu das Artes (SP); militante das causas do povo negro, ajudou na realização e participou do I Congresso Afro-Brasileiro (Recife, 1934), atuou também no II Congresso (Salvador, 1936); escreveu e publicou Poemas Negros (1936), Poemas de uma Vida Simples (1944), Seis Tempos de Poesia (1960) e Cantares ao meu Povo (1962).

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Olavo Bilac: A Boneca

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Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
"É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca . . .


1904  Poesias Infantis

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Poesia Infantil — Cadernos Poesia Brasileira (diversos autores), Prefácio de Luís Camargo, 1996, Instituto Cultural Itaú, São Paulo — SP; Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865 1918), nascido no Rio de Janeiro, foi poeta expoente do parnasianismo, cronista e jornalista; colaborou em publicações periódicas como as revistas A Bruxa, Careta, A Cigarra, A Imprensa, A Leitura, Branco e Negro, Brasil-Portugal e Atlântida; escreveu Poesias (1888), Crônicas e Novelas (1894), Crítica e Fantasia (1904), Conferências Literárias (1906), Tratado de Versificação (1910), Dicionário de Rimas (1913), Ironia e Piedade — crônicas (1916) etc; foi autor da letra do Hino à Bandeira.