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sábado, 27 de junho de 2026

Fernando Pessoa: Que se abram as janelas para o dia entrar . . . [trecho de Epitalâmio*]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

I
Que se abram as janelas para o dia entrar
Como um estrondo ou um mar!
Recanto de vã sombra que não reste qual
Recorde o nocturnal.
Ou diga ao comparar do espírito que há coisas tristes!
Hoje tudo são chistes!
É manhã! Manhã alta! O Sol ergueu-se inteiro
E já do abismo veio
Em que a passada noite além da fímbria invista
Do horizonte persista.
Desperta a noiva agora. Oh, como treme toda
De ver que o dia esponta
Cuja tão prestes noite os corações em boda
Fará bater tão perto quanto a carne encontra.
Pensai como ela se alegra de um seu ir-se temido,
E os olhos não abre por temer que o prazer tema.
Ora da esperança chega o prazo tão dorido.
Como pensar não sabe que pensar extrema.
Oh, deixai-a demorar-se um dia ou um instante
Para ajustar-se ao transe
Que o seu pensar não sabe como há-de aceitar!
Porque é real o dia está como que irada.
Se o que deseja quer, quisera-se ficando.
Confuso é seu sonhar
Do sono à lenta beira que disseminada
A exacta esperança faz remotamente ondear.

(Lisboa, 1913)

Fernando Pessoa

I
Set ope ali shutters, that the day come in
Like a sea or a din!
Let not a nook of useless shade compel
Thoughts of the night, or tell
The mind's comparing that some things are sad,
For this day all are glad!
'Tis morn, 'tis open morn, the full sun is
Risen from out the abyss
Where last night lay beyond the unseen rim
Of the horizon dim.
Now is the bride awaking. Lo! she starts
To feel the day is home
Whose too-near night will put two different hearts
To beat as near as flesh can let them come.
Guess how she joys in her feared going, nor opes
Her eyes for fear of fearing at her joy.
Now is the pained arrival of all hopes.
With the half-thought she scarce knows how to toy.
Oh, let her wait a moment or a day
And prepare for the fray
For which her thoughts not ever quite prepare!
With the real day's arrival she's half wroth.
Though she wish what she wants, she yet doth stay
Her dreams yet mergèd are
In the slow verge of sleep, which idly doth
The accurate hope of things remotely mar.

(Lisbon, 1913)

* Nota de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...:
          "O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes." [Introdução geral ‘O heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

Fernando Pessoa: XVIII — Iô! Iô! Eis que escorre um suco e raiva do prazer . . . [trecho de Epitalâmio*]

 
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[versão em português por Jorge de Sena]

[ . . . ]

XVIII

Iô! Iô! Eis que escorre um suco e raiva do prazer
Por entre as redes destas formas
Que ora anseiam de verdade por despir-se e lutar
Sobre a carne um do outro
O combate que enche o ventre e deposita leite
Nas tetas que um homem venceu,
A batalha lutada com raiva de unir e ajustar
E não de ferir ou matar!
Iô! Iô! Sede ébrios como o dia e a hora!
Berrai, gargalhai, esmagai!
De clamor os próprios pensamentos, que não digam
Um suspiro sequer de idade ou morte!
Agora é tudo juventude absoluta, e as dores pequenas
Que trilam as veias plenas
São elas mesma tensas numa imensa alegria palpitante
Que se suspende de excesso.
Expulsai da ideia tudo o que não é carne e o dar
Do leite macho que faz a vida!
Rapai repiques de prazer como erva do chão
Encontrada nos matagais da alma!
Fazei que o vosso grande cio dispersamente se elegre
Com risos e vozes,
Como se toda a terra, o céu ardente e ó ar que treme
Fossem portentoso címbalo!

[ . . . ]

Fernando Pessoa

XVIII — Io! Io! There runs a juice of pleasure´s rage . . . [Epithalamium]

XVIII
Io! Io! There runs a juice of pleasure's rage
Through these frames' mesh,
That now do really ache to strip and wage
Upon each others' flesh
The war that fills the womb and puts milk in
The teats a man did win,
The battle fought with rage to join and fit
And not to hurt or hit!
Io! Io! Be drunken like the day and hour!
Shout, laugh and overpower
With clamour your own thoughts, lest they a breath
Utter of age or death!
Now is all absolute youth, and the small pains
That thrill the fillèd veins
Themselves are edged in a great tickling joy
That halts ever ere it cloy.
Put out of mind all things save flesh and giving
The male milk that makes living!
Rake out great peals of joy like grass from ground
In your o'ergrown soul found!
Make your great rut dispersedly rejoice
With laugh or voice,
As if all earth, hot sky and tremulous air
A mighty cymbal were!

* Notas de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...:
     O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes. [Introdução geral ‘O heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

sábado, 2 de maio de 2026

Fernando Pessoa: XIX — Deitai fogo à grande hora flamenga! . . . [trecho de Epitalâmio*]

 
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[versão em português por Jorge de Sena]

[ . . . ]

XIX

Deitai fogo à grande hora flamenga!
Embotai todo o sentido de repouso!
Lançai a golpes essa alegria mesmo onde eles magoam
As mãos que brincam de evitá-los!
Levai para a cama todas as coisas que convidam
A estar nu qual se quer!
Rasgai, arrancai, como terra quem tesouro busca
Quando a argola do cofre espreita.
Os pensamentos que encobrem pensamentos dos actos do cio,
Que este grande dia incita!
Agora parece que todas as mãos espremem seios como
Se quisessem que o seu suco dêem!
Agora parece que todas as coisas se emparelham,
A carne endurecida sufocando a carne suave,
E pernas peludas e nádegas lançadas para abrir
As brancas pernas entre que se metem.
Contudo estes mistos pensamentos em cada espírito só falam
Do dia o impulso de amor à solta.
Do homem o anseio por ter sentido a posse,
Da mulher o homem de ter sobre,
A maré abstracta da vida claramente inundando
Dos corpos a praia concreta.
E contudo algo disto ao real dia é doado.
Agora saias são levantadas nos quartos das criadas,
E as baias do ventre prostituído
Abrem-se ao cavalo que entra num galope,
Quase tarde, já eminente o jacto.
E mesmo agora um convidado mais velho enreda
Uma rapariga corada em escuro canto à parte,
E fá-la devagar mover a dele carne exposta.
Vede como ela gosta, e algo no seio lhe palpita,
De sentir que a própria mão trabalha o dardo que se avança!

[ . . . ]

Fernando Pessoa

XIX — Set the great Flemish hour aflame! . . . [Epithalamium]

XIX
Set the great Flemish hour aflame!
Your senses of all leisure maim!
Cast down with blows that joy even where they hurt
The hands that mock to avert!
All things pick up to bed that lead ye to
Be naked that ye woo!
Tear up, pluck up, like earth who treasure seek,
When the chest's ring doth peep,
The thoughts that cover thoughts of the acts of heat
This great day does intreat!
Now seem all hands pressing the paps as if
They meant them juice to give!
Now seem all things pairing on one another,
Hard flesh soft flesh to smother,
And hairy legs and buttocks balled to split
White legs mid which they shift.
Yet these mixed mere thoughts in each mind but speak
The day's push love to wreak,
The man's ache to have felt possession,
The woman's man to have on,
The abstract surge of life clearly to reach
The bodies' concrete beach.
Yet some work of this doth the real day don.
Now are skirts lifted in the servants' hall,
And the whored belly's stall
Ope to the horse that enters in a rush,
Half late, too near the gush.
And even now doth an elder guest emmesh
A flushed young girl in a dark nook apart,
And leads her slow to move his produced flesh.
Look how she likes with something in her heart
To feel her hand work the protruded dart!

* Nota de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...: 
     O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes. [Introdução geral ‘O heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
____________________
Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

domingo, 5 de abril de 2026

Fernando Pessoa*: “E aqui, memória ou estátua, ficaremos . . . [Antínoo — trecho]

 
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[versão em português por Jorge de Sena]

[ . . . ]

“E aqui, memória ou estátua, ficaremos
O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos
Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.
Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.
Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar
Das curvas eras. Só por ti apenas,
Que, um deles, no ido bando houveras ido,
Viriam, qual dormissem, para despertar

“Então o fim dos dias, renascendo Jove
E Ganimedes a servi-lo em seu festim,
Solta da morte a nossa alma dual veria
E recriada em dor, em medo, em alegria —
Tudo o que o amor contém;
Vida — toda a beleza que luxúria faz
Do vero amor do amor, no encanto fascinada;
E se a nossa memória a pó se reduzisse,
Uma divina raça do fim das idades
Nossa unidade dual ressuscitava.”

Ainda chovia. Em leves passos veio a noite
Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.
A mesma consciência de eu e de alma
Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.
O Imperador imóvel jaz, e tanto que
Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem
A dor que era inda sal nos lábios seus.
Algo distante fora tudo: um manuscrito
Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era
Que halo é em torno à lua quando a noite chora.

A cabeça pousava sobre os braços, estes
No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.
Os seus olhos fechados cria abertos, vendo
O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.
Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.
Do tombante negrume o vento ergueu-se
E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;
E o Imperador dormia.
                                     Os deuses vieram
E algo levaram, qual não senso sabe,
Em braços de poder e de repouso invisos.

Fernando Pessoa

Antinous

[ . . . ]

«And here, memory or statue, we shall stand,
Still the same one, as we were hand in hand
Nor felt each other's hand for feeling feeling.
Men still will see me when thy sense they take.
The entire gods might pass, in the vast wheeling
Of the globed ages. If but for thy sake,
That, being theirs, hadst gone with their gone band,
They would return, as they had slept to wake.

«Then the end of days when Jove were born again
And Ganymede again pour at his feast
Would see our dual soul from death released
And recreated unto joy, fear, pain —
All that love doth contain;
Life — all the beauty that doth make a lust

Of love's own true love, at the spell amazed;
And, if our very memory wore to dust,
By some god's race of the end of ages must
Our dual unity again be raised.»

It rained still. But slow-treading night came in,
Closing the weary eyelids of each sense.
The very consciousness of self and soul
Grew, like a landscape through dim raining, dim.
The Emperor lay still, so still that now
He half forgot where now he lay, or whence
The sorrow that was still salt on his lips.
All had been something very far, a scroll
Rolled up. The things he felt were like the rim
That haloes round the moon when the night weeps.

His head was bowed into his arms, and they
On the low couch, foreign to his sense, lay.
His closed eyes seemed open to him, and seeing
The naked floor, dark, cold, sad and unmeaning.
His hurting breath was all his sense could know.
Out of the falling darkness the wind rose
And fell; a voice swooned in the courts below;
And the Emperor slept.
                                            The gods came now
And bore something away, no sense knows how,
On unseen arms of power and repose.

Lisbon, 1915

* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra, abaixo, trecho do que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, expõe na Introdução Geral “O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Fernando Pessoa*: Epitáfios** [I, II e III]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

I
Passamos e sonhamos. Sorri a terra. A virtude é rara.
Idade, o dever, os deuses pesam na cônscia ventura.
Pelo melhor espera e ao pior prepara-te.
A soma da proposta sageza nisto fala.

II
A mim, Cloé, donzela, os poderosos fados deram,
Que era nada para eles, às populosas sombras.
Assim querem os deuses. Duas vezes sete eram só meus anos.
Jazo esquecida em meus prados distantes.

III
Da minha “vila” no alto longamente olhei
A murmurante urbe;
Depois, um dia a toga (farto de vista vida, solta a torpe esperança)
Passei sobre a cabeça
(O mais simples gesto sendo a maior coisa)
Qual fora uma asa erguida.

Fernando Pessoa

Inscriptions [I, II and III]

I
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.

II
Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.

III
From my villa on the hill I long looked down
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.

Notas:
* do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, escreve na Introdução Geral “O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
** de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses, acerca dos Epitáfios:
“Usámos, para esta secção, em grande parte, o nosso artigo “Inscriptions, de Fernando Pessoa”, publicado no suplemento literário de O Comércio do Porto, de 9 de Setembro de 1958, e que apresentava as traduções dos catorze poemas, que agora se publicam nesta edição.”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalammium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos ainda não publicados em livro.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Fernando Pessoa*: XXVI — The world is woven all of dream and error (O mundo é teia urdida só de sonho e de erro . . . [soneto])

 
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[versão em português por Adolfo Casais Monteiro e Jorge de Sena]

XXVI

O mundo é teia urdida só de sonho e de erro
E uma certeza apenas tem nossa verdade —
Que quando perscrutamos o mental espelho
Nada sabemos nele por saber dali.
Das coisas um só lado é quanto o espelho sabe,
E o sabe congelado em solidez perdida.
Dupla mentira é pois sua verdade; o que
Seu mostrar mostra vero é falso e está nenhures.
Pensar enubla o momentâneo senso
Co' uma estranheza, e nunca que o ser estranho mais
O idear perplexo obtém: tiramos das palavras,
Vero, mudável, certo, só o sentido delas.
       Sabemos falso o mundo, não o que é verdade.
       Mas pensamos, sabendo que jamais sabemos.

Fernando Pessoa

XXVI

The world is woven all of dream and error
And but one sureness in our truth may lie —
That when we hold to aught our thinking's mirror
We know it not by knowing it thereby.
For but one side of things the mirror knows,
And knows it colded from its solidness.
A double lie its truth is; what it shows
By true show's false and nowhere by true place.
Thought clouds our life's day-sense with strangeness, yet
Never from strangeness more than that it's strange
Doth buy our perplexed thinking, for we get
But the words' sense from words — knowledge, truth, change.
       We know the world is false, not what is true.
       Yet we think on, knowing we ne'er shall know.

(35 Sonnets — 1918)

* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra, abaixo, trecho do que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, expõe na Introdução Geral “O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 — 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambas em 1918), English Poems I e II e English Poems III (ambas em 1921), além de Mensagem (1934), única obra editada e publicada em português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos ainda não publicados em livro.