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sábado, 2 de maio de 2026

Fernando Pessoa: XIX — Deitai fogo à grande hora flamenga! . . . [trecho de Epitalâmio*]

 
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[versão em português por Jorge de Sena]

[ . . . ]

XIX

Deitai fogo à grande hora flamenga!
Embotai todo o sentido de repouso!
Lançai a golpes essa alegria mesmo onde eles magoam
As mãos que brincam de evitá-los!
Levai para a cama todas as coisas que convidam
A estar nu qual se quer!
Rasgai, arrancai, como terra quem tesouro busca
Quando a argola do cofre espreita.
Os pensamentos que encobrem pensamentos dos actos do cio,
Que este grande dia incita!
Agora parece que todas as mãos espremem seios como
Se quisessem que o seu suco dêem!
Agora parece que todas as coisas se emparelham,
A carne endurecida sufocando a carne suave,
E pernas peludas e nádegas lançadas para abrir
As brancas pernas entre que se metem.
Contudo estes mistos pensamentos em cada espírito só falam
Do dia o impulso de amor à solta.
Do homem o anseio por ter sentido a posse,
Da mulher o homem de ter sobre,
A maré abstracta da vida claramente inundando
Dos corpos a praia concreta.
E contudo algo disto ao real dia é doado.
Agora saias são levantadas nos quartos das criadas,
E as baias do ventre prostituído
Abrem-se ao cavalo que entra num galope,
Quase tarde, já eminente o jacto.
E mesmo agora um convidado mais velho enreda
Uma rapariga corada em escuro canto à parte,
E fá-la devagar mover a dele carne exposta.
Vede como ela gosta, e algo no seio lhe palpita,
De sentir que a própria mão trabalha o dardo que se avança!

[ . . . ]

Fernando Pessoa

XIX — Set the great Flemish hour aflame! . . . [Epithalamium]

XIX
Set the great Flemish hour aflame!
Your senses of all leisure maim!
Cast down with blows that joy even where they hurt
The hands that mock to avert!
All things pick up to bed that lead ye to
Be naked that ye woo!
Tear up, pluck up, like earth who treasure seek,
When the chest's ring doth peep,
The thoughts that cover thoughts of the acts of heat
This great day does intreat!
Now seem all hands pressing the paps as if
They meant them juice to give!
Now seem all things pairing on one another,
Hard flesh soft flesh to smother,
And hairy legs and buttocks balled to split
White legs mid which they shift.
Yet these mixed mere thoughts in each mind but speak
The day's push love to wreak,
The man's ache to have felt possession,
The woman's man to have on,
The abstract surge of life clearly to reach
The bodies' concrete beach.
Yet some work of this doth the real day don.
Now are skirts lifted in the servants' hall,
And the whored belly's stall
Ope to the horse that enters in a rush,
Half late, too near the gush.
And even now doth an elder guest emmesh
A flushed young girl in a dark nook apart,
And leads her slow to move his produced flesh.
Look how she likes with something in her heart
To feel her hand work the protruded dart!

* Nota de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...: 
     O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes. [Introdução geralO heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

domingo, 5 de abril de 2026

Fernando Pessoa*: “E aqui, memória ou estátua, ficaremos . . . [Antínoo — trecho]

 
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[versão em português por Jorge de Sena]

[ . . . ]

“E aqui, memória ou estátua, ficaremos
O mesmo um só, qual de mãos dadas éramos
Nem as mãos se sentiam por sentir sentir.
Ver-me-ão os homens quando o que és entendam.
Podiam ir-se os deuses, no vasto rodar
Das curvas eras. Só por ti apenas,
Que, um deles, no ido bando houveras ido,
Viriam, qual dormissem, para despertar

“Então o fim dos dias, renascendo Jove
E Ganimedes a servi-lo em seu festim,
Solta da morte a nossa alma dual veria
E recriada em dor, em medo, em alegria
Tudo o que o amor contém;
Vida toda a beleza que luxúria faz
Do vero amor do amor, no encanto fascinada;
E se a nossa memória a pó se reduzisse,
Uma divina raça do fim das idades
Nossa unidade dual ressuscitava.”

Ainda chovia. Em leves passos veio a noite
Fechando as pálpebras cansadas dos sentidos.
A mesma consciência de eu e de alma
Tornou-se, qual paisagem vaga em chuva, vaga.
O Imperador imóvel jaz, e tanto que
Semiesqueceu onde ora jaz, ou de onde vem
A dor que era inda sal nos lábios seus.
Algo distante fora tudo: um manuscrito
Que se enrolou. E o que sentira a fímbria era
Que halo é em torno à lua quando a noite chora.

A cabeça pousava sobre os braços, estes
No baixo leito, alheios a senti-lo, estavam.
Os seus olhos fechados cria abertos, vendo
O nu chão negro, frio, triste, sem sentido.
Doer-lhe o respirar tudo era que sabia.
Do tombante negrume o vento ergueu-se
E tombou; lá no pátio ecoou uma voz;
E o Imperador dormia.
                                     Os deuses vieram
E algo levaram, qual não senso sabe,
Em braços de poder e de repouso invisos.

Fernando Pessoa

Antinous

[ . . . ]

«And here, memory or statue, we shall stand,
Still the same one, as we were hand in hand
Nor felt each other's hand for feeling feeling.
Men still will see me when thy sense they take.
The entire gods might pass, in the vast wheeling
Of the globed ages. If but for thy sake,
That, being theirs, hadst gone with their gone band,
They would return, as they had slept to wake.

«Then the end of days when Jove were born again
And Ganymede again pour at his feast
Would see our dual soul from death released
And recreated unto joy, fear, pain
All that love doth contain;
Life all the beauty that doth make a lust

Of love's own true love, at the spell amazed;
And, if our very memory wore to dust,
By some god's race of the end of ages must
Our dual unity again be raised.»

It rained still. But slow-treading night came in,
Closing the weary eyelids of each sense.
The very consciousness of self and soul
Grew, like a landscape through dim raining, dim.
The Emperor lay still, so still that now
He half forgot where now he lay, or whence
The sorrow that was still salt on his lips.
All had been something very far, a scroll
Rolled up. The things he felt were like the rim
That haloes round the moon when the night weeps.

His head was bowed into his arms, and they
On the low couch, foreign to his sense, lay.
His closed eyes seemed open to him, and seeing
The naked floor, dark, cold, sad and unmeaning.
His hurting breath was all his sense could know.
Out of the falling darkness the wind rose
And fell; a voice swooned in the courts below;
And the Emperor slept.
                                            The gods came now
And bore something away, no sense knows how,
On unseen arms of power and repose.

Lisbon, 1915

* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra, abaixo, trecho do que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, expõe na Introdução GeralO heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Fernando Pessoa*: Epitáfios** [I, II e III]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

I
Passamos e sonhamos. Sorri a terra. A virtude é rara.
Idade, o dever, os deuses pesam na cônscia ventura.
Pelo melhor espera e ao pior prepara-te.
A soma da proposta sageza nisto fala.

II
A mim, Cloé, donzela, os poderosos fados deram,
Que era nada para eles, às populosas sombras.
Assim querem os deuses. Duas vezes sete eram só meus anos.
Jazo esquecida em meus prados distantes.

III
Da minha “vila” no alto longamente olhei
A murmurante urbe;
Depois, um dia a toga (farto de vista vida, solta a torpe esperança)
Passei sobre a cabeça
(O mais simples gesto sendo a maior coisa)
Qual fora uma asa erguida.

Fernando Pessoa

Inscriptions [I, II and III]

I
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.

II
Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.

III
From my villa on the hill I long looked down
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.

Notas:
* do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, escreve na Introdução GeralO heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
** de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses, acerca dos Epitáfios:
Usámos, para esta secção, em grande parte, o nosso artigo “Inscriptions, de Fernando Pessoa”, publicado no suplemento literário de O Comércio do Porto, de 9 de Setembro de 1958, e que apresentava as traduções dos catorze poemas, que agora se publicam nesta edição.
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalammium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos ainda não publicados em livro.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

Fernando Pessoa*: XXVI — The world is woven all of dream and error (O mundo é teia urdida só de sonho e de erro . . . [soneto])

 
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[versão em português por Adolfo Casais Monteiro e Jorge de Sena]

XXVI

O mundo é teia urdida só de sonho e de erro
E uma certeza apenas tem nossa verdade
Que quando perscrutamos o mental espelho
Nada sabemos nele por saber dali.
Das coisas um só lado é quanto o espelho sabe,
E o sabe congelado em solidez perdida.
Dupla mentira é pois sua verdade; o que
Seu mostrar mostra vero é falso e está nenhures.
Pensar enubla o momentâneo senso
Co' uma estranheza, e nunca que o ser estranho mais
O idear perplexo obtém: tiramos das palavras,
Vero, mudável, certo, só o sentido delas.
       Sabemos falso o mundo, não o que é verdade.
       Mas pensamos, sabendo que jamais sabemos.

Fernando Pessoa

XXVI

The world is woven all of dream and error
And but one sureness in our truth may lie
That when we hold to aught our thinking's mirror
We know it not by knowing it thereby.
For but one side of things the mirror knows,
And knows it colded from its solidness.
A double lie its truth is; what it shows
By true show's false and nowhere by true place.
Thought clouds our life's day-sense with strangeness, yet
Never from strangeness more than that it's strange
Doth buy our perplexed thinking, for we get
But the words' sense from words — knowledge, truth, change.
       We know the world is false, not what is true.
       Yet we think on, knowing we ne'er shall know.

(35 Sonnets — 1918)

* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra, abaixo, trecho do que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, expõe na Introdução GeralO heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português nascido em Lisboa, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous e 35 Sonnets (ambas em 1918), English Poems I e II e English Poems III (ambas em 1921), além de Mensagem (1934), única obra editada e publicada em português; traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos ainda não publicados em livro.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Fernando Pessoa: Abram as janelas e escancarem as portas . . . [trecho de Epitalâmio*]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

III
Abram as janelas e escancarem as portas
Para que nada de noite resista,
Ou, como esteira de navio no mar, sobreviva
Ao que a fez existir!
Jaz a noiva no leito, como esperando que a vontade
Se torne mais audaz ou mais forte
Para forçá-la a erguer-se, ou mais frágil, para expulsar o medo,
E ela se levante como se um dia vulgar fosse o que está.
Que há-de ser uma noiva na cama com um homem
As partes em que é mulher insistem
E mensagens enviam a vergonha banindo
Do ser sonhada só em névoa sem forma.
Abre os olhos, e o tecto vê por cima
Que fecha a pequena alcova,
E pensa, até que feche outra vez os olhos,
Que um outro tecto conhecerá esta noite,
E outra casa, outro leito, ela deitada
Como mal imagina; e assim
Os olhos fecha para não ver o quarto que ela
Depressa não mais verá.

(Lisboa, 1913)

Fernando Pessoa

III
Open the windows and thee doors all wide
Lest aught of night abide,
Or, like a ship's trail in the sea, survive
What made it there to live!
She lies in bed half waiting that her wish
Grow bolder or more rich
To make her rise, or poorer, to oust fear,
And she rise as a common day were here.
That she would be a bride in bed with man
The parts where she is woman do insist
And send up messages that shame doth ban
From being dreamed but in a shapeless mist.
She opes her eyes, the ceiling sees above
Shutting the small alcove,
And thinks, till she must shut her eyes again,
Another ceiling she this night will know,
Another house, another bed, she lain
In a way she half guesses; so
She shuts her eyes to see not the room she
Soon will no longer see.

(Lisbon, 1913)

* Nota de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...:
O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes.” [Introdução geralO heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Fernando Pessoa*: Era em Adriano fria a chuva fora. . . . [Antínoo — trecho]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

Era em Adriano fria a chuva fora

Jaz morto o jovem
No raso leito, e sobre o seu desnudo todo,
Aos olhos de Adriano, cuja cor é medo,
A umbrosa luz do eclipse-morte era difusa.

Jaz morto o jovem, e o dia semelhava noite
Lá fora. A chuva cai como um exausto alarme
Da Natureza em acto de matá-lo.
Memória do que el´ foi não dava já deleite,
Deleite no que el´ foi era morto e indistinto.

Ó mãos que já apertaram as de Adriano quentes,
Cuja frieza agora as sente frias!
Ó cabelo antes preso p´lo penteado justo!
Ó olhos algo inquietantemente ousados!
Ó simples macho corpo feminino qual
O aparentar-se um deus à humanidade!
Ó lábios cujo abrir vermelho titilava
Os sítios da luxúria com tanta arte viva!
Ó dedos que hábeis eram no de não ser dito!
Ó língua que na língua o sangue audaz tornava!

Ó regência total do entronizado cio
Na suspensão dispersa da consciência em fúria!
Estas coisas são coisas que não mais serão.
A chuva é silenciosa, e o Imperador
Descai ao pé do leito. A sua dor é fúria,
Porque levam os deuses a vida que dão
E a beleza destroem que fizeram viva.
Chora e sabe que as épocas futuras
O fitam do âmago do vir a ser;
O seu amor está num palco universal;
Mil olhos não nascidos choram-lhe a miséria.

Antínoo é morto, é morto para sempre,
É morto para sempre, e os amor’s todos gemem.
A própria Vénus, que de Adónis foi amante,
Ao vê-lo, então revivo, ora morto de novo,
Empresta renovada a sua antiga mágoa
Para que seja unida à dor de Adriano.

[ . . . ]

Fernando Pessoa

Antinous

The rain outside was cold in Hadrian’s soul.

The boy lay dead
On the low couch, on whose denuded whole,
To Hadrian's eyes, whose sorrow was a dread,
The shadowy light of Death's eclipse was shed.

The boy lay dead, and te day seemed a night
Outside. The rain fell like a sick affright
Of Nature at her work in killing him.
Memory of what he was gave no delight,
Delight at what he was was dead and dim.

O hands that once had clasped Hadrian's warm hands,
Whose cold now found them cold!
O hair bound erstwhile with the pressing bands!
O eyes half-diffidently bold!
O bare female male-body such
As a god's likeness to humanity!
O lips whose opening redness erst could touch
Lust's seats with a live art's variety!
O fingers skilled in things not to be told!
O tongue which, counter-tongued, made the blood bold!

O complete regency of lust throned on
Raged consciousness's spilled suspension!
These things are things that now must be no more.
The rain is silent, and the Emperor
Sinks by te couch. His grief is like a rage,
For the gods take away the life they give
And spoil the beauty they made live.
He weeps and knows that every future age
Is looking on him out of the to-be;
His love is on a universal stage;
A thousand unborn eyes weep with his misery.

Antinous is dead, is dead for ever,
Is dead for ever and all loves lament.
Venus herself, that was Adonis' lover,
Seeing him, that newly lived, now dead again,
Lends her old grief's renewal to be blent
With Hadrian's pain.

[ . . . ]

* Nota do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra, abaixo, trecho do que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, expõe na Introdução GeralO heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não publicados em livro.