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[versão
em português, por Jorge de Sena]
I
Que se abram as janelas para o dia entrar
Como um estrondo ou um mar!
Recanto de vã sombra que não reste qual
Recorde o nocturnal.
Ou diga ao comparar do espírito que há coisas tristes!
Hoje tudo são chistes!
É manhã! Manhã alta! O Sol ergueu-se inteiro
E já do abismo veio
Em que a passada noite além da fímbria invista
Do horizonte persista.
Desperta a noiva agora. Oh, como treme toda
De ver que o dia esponta
Cuja tão prestes noite os corações em boda
Fará bater tão perto quanto a carne encontra.
Pensai como ela se alegra de um seu ir-se temido,
E os olhos não abre por temer que o prazer tema.
Ora da esperança chega o prazo tão dorido.
Como pensar não sabe que pensar extrema.
Oh, deixai-a demorar-se um dia ou um instante
Para ajustar-se ao transe
Que o seu pensar não sabe como há-de aceitar!
Porque é real o dia está como que irada.
Se o que deseja quer, quisera-se ficando.
Confuso é seu sonhar
Do sono à lenta beira que disseminada
A exacta esperança faz remotamente ondear.
(Lisboa, 1913)
I
Set ope ali shutters, that the day
come in
Like a sea or a din!
Let not a nook of useless shade
compel
Thoughts of the night, or tell
The mind's comparing that some
things are sad,
For this day all are glad!
'Tis morn, 'tis open morn, the full
sun is
Risen from out the abyss
Where last night lay beyond the
unseen rim
Of the horizon dim.
Now is the bride awaking. Lo! she
starts
To feel the day is home
Whose too-near night will put two
different hearts
To beat as near as flesh can let
them come.
Guess how she joys in her feared
going, nor opes
Her eyes for fear of fearing at her
joy.
Now is the pained arrival of all
hopes.
With the half-thought she scarce
knows how to toy.
Oh, let her wait a moment or a day
And prepare for the fray
For which her thoughts not ever
quite prepare!
With the real day's arrival she's
half wroth.
Though she wish what she wants, she
yet doth stay
Her dreams yet mergèd are
In the slow verge of sleep,
which idly doth
The accurate hope of things
remotely mar.
(Lisbon, 1913)
* Nota de
Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses publicados...:
"O epitalâmio, na sua origem grega, era estritamente uma canção cantada por jovens (rapazes e donzelas) ante a câmara nupcial, segundo explica Dionísio de Halicarnasso, na sua Retórica, alguns anos antes da Era Cristã. Mas tornara-se, já muito antes, na literatura grega, uma forma artística cultivada, por exemplo, por Safo ou Teócrito. Os gregos não o confundiam, como mais tarde artisticamente o veio a ser, com himenaios, que era o cântico processional que acompanhava a casa os recém-casados e que é descrito já em Hesíodo e na Ilíada de Homero. Os latinos tomaram para si o epitalâmio literário, e deles cerca de dezassete chegaram até nós, sendo os mais antigos e melhores os de Catulo. Mas eles tinham, oriunda da Etrúria e do Lácio, uma velha tradição: a das festas “fesceninas”. Estes festivais rurais, correspondentes às colheitas, incluíam a aparição de adolescentes (homens apenas), com máscaras ou as caras pintadas, cantando versos obscenos. O costume verificava-se também nas festas matrimoniais, e, gradualmente, na civilização romana, os versos fesceninos passaram a corresponder ao que os gregos chamavam himenaios, ou cântico processional, como uma tradição — que a Europa cristã e rural longamente conservou e ainda conserva — de acompanhar os noivos à câmara nupcial com chufas e piadas indecentes." [Introdução geral ‘O heterônimo Fernando Pessoa...’ deste Poemas Ingleses publicados...]
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Poemas Ingleses publicados por
Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos,
edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas
ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas
de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de
Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra
Pessoa (1888 — 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da
língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor;
fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial
School, todas em Durban — África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês;
em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor
me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época:
A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro
(1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e
crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos
de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva
produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos
e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares;
em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para
o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O
Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea —
revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês,
Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets
(1918), English Poems I e II e Ephitalamium ou English Poems III [escrita em
1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada
e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan
Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito
e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos até então não
publicados em livro.