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quarta-feira, 19 de abril de 2023

Félix Pacheco: Quem já chegou onde eu cheguei e encara . . . [soneto]

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Quem já chegou aonde eu cheguei e encara
A vida tal qual é, sabendo-a incerta,
Larga porta, medonha, sempre aberta,
Para a dor, que não morre e que não pára,

Não me reduz diante da sorte amara,
Não cede, não sucumbe, não deserta;
E o novo e grande mal só lhe desperta
A ambição de insistir no que buscara.

Glórias, fortuna, aplausos, tudo passa...
A mocidade, o amor, nada perdura,
E o que mais se deseja não se alcança.

Mas, perto da asa lúgubre, que esvoaça,
Atrás de nós, outra asa nos segura,
E onde acaba a ilusão, põe a esperança!

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; José Félix Alves Pacheco (1879 1935), piauiense de Teresina, formado em Direito, foi advogado, jornalista, político, poeta e tradutor; trabalhou nos jornais O Debate e Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro; como político, foi deputado, senador e ministro de estado; escreveu e publicou Chicotadas, poesias revolucionárias (1897), Via Crucis (1900), Mors-amor (1904), Luar de Amor (1906), Poesias (1914), Ignezita (1915), Tu, Só Tu (1917), Lírios Brancos (1919), Em louvor de Paulo Barreto (1921), A ‘Canaã’ de Graça Aranha (1931) e outros títulos; traduziu Baudelaire.

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Félix Pacheco: Perséfone

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Velhos mitos pagãos da Grécia das legendas!
Fantásticas ficções doiradas do Levante!
Perséfone fugiu do báratro distante,
E anda agora a correr outras estranhas sendas!

Tem vermelhos vulcões na túnica de rendas.
Chamas lambem-lhe os pés, sobem-lhe colo adiante.
Mudam-lhe o rosto em fogo e a cabeça, triunfante,
Conserva o resplendor das trevas e das lendas!

Não lhes faleis de amor, que o dela é cega e vários!
Perséfone fugiu dos diabos e do inferno
Para vos seduzir... Fechai-lhe vossos hinários!

Ela não pode amar... Plutão, por mal eterno,
Ao corpo ideal lhe deu as chamas por vestuários,
Mas na alma infiel lhe pôs toda a algidez do inverno!

(Poesias — 1914. Rio de Janeiro: Jacintho
 Ribeiro dos Santos, pp. 61—2.)

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Félix Pacheco — Série Essencial 55, Academia Brasileira de Letras, Organização de Marcos Santarrita, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Félix Alves Pacheco (1879 1935), piauiense de Teresina, formado em Direito, foi jornalista, político, poeta e tradutor; trabalhou nos jornais O Debate e Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro; como político, foi deputado, senador e ministro de estado; escreveu e publicou Chicotadas, poesias revolucionárias (1897), Via Crucis (1900), Mors-amor (1904), Luar de Amor (1906), Poesias (1914), Ignezita (1915), Tu, Só Tu (1917), Lírios Brancos (1919), Em louvor de Paulo Barreto (1921), A ‘Canaã’ de Graça Aranha (1931) e outros títulos; traduziu Baudelaire.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Félix Pacheco: O Poeta e o Tempo

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São sempre iguais na idade os deuses e as quimeras.
O poeta é um deus também. Pertence-lhe o infinito.
Perdido na amplidão sempiterna do mito,
Fica de todo alheio ao desfilar das eras.

Sucumbam gerações no círculo restrito
E passem no vaivém sem fim, as primaveras
O poeta há de viver, para além das esferas,
Magnífico e imortal na glória do seu rito.

Eclípticas de sóis, movimentos dos astros,
Outonos e verões correndo atrás dos invernos,
Tudo isso diz que o mundo anda também de rastros.

A própria formosura é vã nesses infernos:
o sepulcro dispersa em pó os alabastros.
Unicamente Deus e o Poeta são eternos.

(Poesias — 1914.
 Rio de Janeiro: Jacintho Ribeiro dos Santos, pp. 63—4.)

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Félix Pacheco — Série Essencial 55, Academia Brasileira de Letras, Organização de Marcos Santarrita, 2012, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; José Félix Alves Pacheco (1879 1935), piauiense de Teresina, formado em Direito, foi jornalista, político, poeta e tradutor; trabalhou nos jornais O Debate e Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro; como político, foi deputado, senador e ministro de estado; escreveu e publicou Chicotadas, poesias revolucionárias (1897), Via Crucis (1900), Mors-amor (1904), Luar de Amor (1906), Poesias (1914), Ignezita (1915), Tu, Só Tu (1917), Lírios Brancos (1919), Em louvor de Paulo Barreto (1921), A ‘Canaã’ de Graça Aranha (1931) e outros títulos; traduziu Baudelaire.

sábado, 4 de julho de 2015

Félix Pacheco: Estranhas lágrimas

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Lágrimas... Noutras épocas verti-as.
Não tinha o olhar enxuto como agora,
 Alma, dizia então comigo, chora,
Que o pranto diminui as agonias.

Ah! Quantas vezes pelas faces frias,
Por mal do meu amor que se ia embora,
Gota a gota rolando, elas outrora
Marcaram noites e marcaram dias!

Vinham do oceano da alma, imenso e fundo,
Ondas de angústia, em suspiroso arranco,
Numa desesperança acerba e e louca.

Nos olhos, hoje as lágrimas estanco;
Mas rolam todas, sem que as veja o mundo,
Sob a forma de risos  pela boca.

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Os Mais Belos Sonetos Brasileiros — Seleção e Notas de Edgard Rezende, da Academia Fluminense de Letras — Prefácio de Oliveira e Silva, 2ª edição, 1947, Casa Editora Vecchi Ltda., Rio de Janeiro — RJ; José Félix Alves Pacheco (1879 1935), piauiense de Teresina, formado em Direito, foi jornalista, político, poeta e tradutor; trabalhou nos jornais O Debate e Jornal do Commercio, no Rio de Janeiro; como político, foi deputado, senador e ministro de estado; escreveu e publicou Chicotadas, poesias revolucionárias (1897), Via Crucis (1900), Mors-amor (1904), Luar de Amor (1906), Poesias (1914), Ignezita (1915), Tu, Só Tu (1917), Lírios Brancos (1919), Em louvor de Paulo Barreto (1921), A Canaã de Graça Aranha (1931) etc.; traduziu Baudelaire.