sexta-feira, 31 de março de 2023

Maiakóvski: A Sierguéi Iessiênin*

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[traduzido do russo para o francês por Simone Pirez e Francis Combes, e do francês para o português por Daniel Fresnot]

Partistes
como dizem
para o outro mundo.
O vazio...
Estais planando,
até o bordado de estrelas.
Chega de adiantamentos
e de pinga.
Sobriedade.
Não, Iessiênin
isto não é
zombaria.
Na minha garganta
nada de escárnio
mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo
com uma mão de cera hesitando
agitar
o saco
de vossos próprios ossos.
Parai,
deixai para trás!
Que idéia é essa
de derramar
no vosso rosto
este giz mortal?
Vós
que sabíeis escrever coisas
como ninguém
no mundo.
Por quê?
E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
“De quem é a culpa?
Muito a dizer...
mas sobretudo
lhe faltava ‘ligação’1
O resultado?
Muita cerveja e vodca.”
Dizem
que vos deveríeis
ter trocado a boemia
pela classe;
A classe vos teria influenciado,
fim das brigas.
Mas essa classe
a sua sede
ela a sacia com kvas?2
A classe
ela também, para beber
entende um bocado.
Dizem
que se vos houvessem juntado
alguém de Sentinela3
teríeis
feito
muitos progressos:
poderíeis
a cada dia
escrever
vossos cem versos,
chatos
e compridos
como Doronine4.
Para mim
se este delírio
se tivesse realizado
vós teríeis
muito mais cedo
sobre vos mesmo se atacado.
Melhor
morrer de vodca
do que de tédio!
Nem a forca
nem a faca
nos darão a chave
desta perda.
Talvez
se tivesse havido tinta
no Hotel Inglaterra
o Senhor poderia ter evitado
de se cortarem as veias.
Os imitadores se alegram:
“Bis!”
Todo um pelotão
que faz
sobre si mesmo, justiça.
Por que
aumentar
o número dos suicídios?
Melhor seria
aumentar
a produção de tinta!
Para sempre
agora
esta língua
fica presa atrás destes dentes.
É duro
e deslocado
fazer mistérios
O povo
aquele que cria a língua
perdeu
um de seus artesãos
farristas
e sonoros.
E trazem
as quinquilharias dos versos funerários
quase os mesmos
desde o último enterro.
Deveríamos dispersar
no féretro
com um cajado
estes versos inexpressivos.
É assim
que se homenageia
um poeta?
Ainda não vos
construíram um monumento;
onde estão os quilos de bronze
ou os gramas de granito?
que diante da grade de lembrança
já tragam
as bugigangas
das homenagens e dedicatórias.
O vosso nome
é colocado em lenços,
Sobinov5
baba as vossas palavras
e sob uma árvore magrinha
ele agoniza:
“Nem mais uma palavra, meu amigo,
nem um suspi-i-iro”
Ah!
é de outra forma que deveríamos falar
a esta espécie
de Leonid Lohengrin!
Levantar-se
em fulminante escândalo,
 Eu não permito
que se mastigue
e se massacre
assim os versos!
Assobiar com os dedos
até deixá-los surdos
e mandá-los ao diabo!
Que fujam
esses detritos sem talento,
enchendo
as velas de seus paletós.
Que Kogan6
levado em sua debandada
espete os transeuntes
com seu bigode.
A sacanagem
hoje em dia
ainda não ficou rara.
A tarefa é grande
mal bastamos.
É preciso primeiro
refazer a vida,
uma vez refeita
poderemos cantá-la.
O nosso tempo, para a pena,
não é muito fácil.
Mas digam-me
os aleijados, os impotentes,
Onde
e quando
aqueles que são grandes
escolheram
os caminhos traçados
e fáceis?
A palavra
é capitã
da força humana.
Para a frente, andemos
e que o tempo
estoure em bombas.
Que o vento que sopra
para os dias passados
só leve
mechas de cabelos misturados.
Para a alegria
o nosso planeta ainda está mal preparado.
É preciso
extorquir
a alegria
aos dias futuros.
Nesta vida
morrer não é difícil
Construir a vida
é bem mais difícil.

Maiakóvski
 СЕРГЕЮ ЕСЕНИНУ

Вы ушли,
как говорится,
в мир иной.
Пустота...
Летите, в звёзды врезываясь.
Ни тебе аванса,
ни пивной.
Трезвость.
Нет, Есенин,
это
не насмешка.
В горле
горе комом —
не смешок.
Вижу —
взрезанной рукой помешкав,
собственных
костей
качаете мешок.
— Прекратите!
Бросьте!
Вы в своем уме ли?
Дать, чтоб щёки
заливал
смертельный мел?!
Вы ж
такое
загибать умели,
что другой
на свете
не умел.
Почему?
Зачем?
Недоуменье смяло.
Критики бормочут:
— Этому вина
то...
да сё...
а главное,
что смычки мало,
в результате
много пива и вина. —
Дескать, заменить бы вам
богему
классом,
класс влиял на вас,
и было б не до драк.
Ну, а класс-то
жажду
заливает квасом?
Класс — он тоже
выпить не дурак.
Дескать,
к вам приставить бы
кого из напостов —
стали б
содержанием
премного одарённей.
Вы бы
в день
писали
строк по сто,
утомительно
и длинно,
как Доронин.
А по-моему,
осуществись
такая бредь,
на себя бы
          раньше наложили руки.
Лучше уж
от водки умереть,
чем от скуки!
Не откроют
нам
причин потери
ни петля,
ни ножик перочинный.
Может,
окажись
чернила в "Англетере",
вены
резать
не было б причины.
Подражатели обрадовались:
бис!
Над собою
чуть не взвод
расправу учинил.
Почему же
увеличивать
число самоубийств?
Лучше
увеличь
изготовление чернил!
Навсегда
теперь
язык
в зубах затворится.
Тяжело
и неуместно
разводить мистерии.
У народа,
у языкотворца,
умер
звонкий
забулдыга подмастерье.
И несут
стихов заупокойный лом,
с прошлых
с похорон
не переделавши почти.
В холм
тупые рифмы
загонять колом —
разве так
поэта
надо бы почтить?
Вам
и памятник еще не слит, —
где он,
бронзы звон
или гранита грань? —
а к решеткам памяти
уже понанесли
посвящений
и воспоминаний дрянь.
Ваше имя
в платочки рассоплено,
ваше слово
слюнявит Собинов,
и выводит
под берёзкой дохлой —
"Ни слова,
о дру-уг мой,
ни вздо-о-о-о-ха".
Эх,
поговорить бы иначе
с этим самым
с Леонидом Лоэнгринычем!
Встать бы здесь
гремящим скандалистом:
— Не позволю
мямлить стих
и мять!
Оглушить бы
их
трехпалым свистом
в бабушку
и в бога душу мать!
Чтобы разнеслась
бездарнейшая погань,
раздувая
темь
пиджачных парусов,
чтобы
врассыпную
разбежался Коган,
встреченных
увеча
пиками усов.
Дрянь
пока что
мало поредела.
Дела много —
только поспевать.
Надо
жизнь
сначала переделать,
переделав —
можно воспевать.
Это время —
трудновато для пера,
но скажите
вы,
калеки и калекши,
где,
когда,
какой великий выбирал
путь,
чтобы протоптанней
и легше?
Слово —
полководец
человечьей силы.
Марш!
Чтоб время
сзади
ядрами рвалось.
К старым дням
чтоб ветром
относило
только
путаницу волос.
Для веселия
планета наша
мало оборудована.
Надо
вырвать
радость
у грядущих дней.
В этой жизни
помереть
не трудно.
Сделать жизнь
значительно трудней.

[1926]

Notas do tradutor Daniel Fresnot:
* O poeta Sierguéi Iessiênin (1895—1925) suicidou-se num quarto do hotel Inglaterra em Leningrado (atual São Petersburgo). Escreveu com seu próprio sangue um poema cujos últimos versos foram traduzidos por:
Morrer não é novidade nesta vida
Mas viver, com certeza, não é mais novo.
1. Alusão a um slogan da época sobre a “ligação com as massas da cidade e do campo”.
2. Bebida russa não alcoólica.
3. Sentinela: revista dos escritores proletários.
4. Ivan Doronine (19001978): poeta soviético.
5. Leonid Sobinov (18721934): tenor que interpretou Lohengrin na ópera de Wagner.
6. Piotr Kogan (18721932): crítico literário.
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Maiakóvski — Vida e Poesia: Tradução dos poemas por Emilio Carrera Guerra e Daniel Fresnot, Introdução de Francis Combes (traduzida do francês por Sebastião Paz) e Autobiografia ‘Eu mesmo’ traduzida do francês por Nicole A. Vilhena, Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”, volume 248, 2ª reimpressão, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique e teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; em Moscou, ingressou na Escola de Belas Artes e fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo; ao serem expulsos da Escola, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou, com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), A propósito disto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plena Voz (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publica Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.