segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Teófilo Dias: Spleen

Minha alma é um velho arsenal,
Cheio de armas assassinas;
Tem a mudez sepulcral
Que paira sobre as ruínas.

Das paredes denegridas,
Da mão do tempo gretadas,
Pendem fúnebres espadas
Pela ferrugem comidas.

Há punhais de gumes tredos,
Cuja lâmina sinistra
Rápida morte ministra
A quem lhe perpassa os dedos.

Sobre os ladrilhos sombrios
Rolam farrapos poentos,
Que pelas malhas dos fios
Mostram vestígios sangrentos.

Neste recinto funéreo
Não entra o rumor diurno:
O seu aspecto soturno
Lembra a paz de um cemitério.

Mas, como um monge piedoso,
Lento, grave, a passo incerto,
Cheio de horror religioso
Percorre um claustro deserto,

Também eu, mudo, contemplo,
Concentrado e recolhido,
As solidões do meu templo
Todo em ruínas caído.

E de as ver, 
 de um vago imenso 
Desola-me o peso atroz,
Como um mar profundo, extenso,
Que, num silêncio feroz,

Cerca-me surdo e sombrio,
E após, refluindo ao largo,
Só me deixa ao lábio frio
Vestígios do lodo amargo.

(Fanfarras, editor Dolivais Nunes,
 São Paulo, 1882, p. 64  66.)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da fase parnasiana, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Teófilo Odorico Dias de Mesquita (1854 1889), maranhense de Caxias, formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi advogado, jornalista, professor, político e poeta; colaborou com os jornais Província de São Paulo e A República, e também com a Revista Brasileira, de José Veríssimo; lecionou Gramática Filosófica e Francês; em 1878, participa da chamada “Batalha de Parnaso” junto a escritores que, no Rio e em São Paulo, reagiam contra o romantismo; escreveu e publicou Flores e Amores (1874), Contos Tropicais (1878), Fanfarras (1882), Lira dos Verdes Anos (1878), A comédia dos deuses (1888).

domingo, 29 de novembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade: Censo Industrial

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Que fabricas tu?
Fabrico chapéu
feito de indaiá.

Que fabricas tu?
Queijo, requeijão.

Que fabricas tu?
Faço pão-de-queijo.

Que fabricas tu?
Bolo de feijão.

Que fabricas tu?
Geléia da branca
e também da preta.

Que fabricas tu?
Curtidor de couro.

Que fabricas tu?
Fabrico selim,
fabrico silhão
só de sola d'anta.

Que fabricas tu?
Eu faço cabresto,
barbicacho e loro.

Que fabricas tu?
Toco uma olaria.

Que fabricas tu?
Santinho de barro.

Que fabricas tu?
Fabrico melado.

Que fabricas tu?
Eu faço garapa.

Que fabricas tu?
Fabrico restilo.

Que fabricas tu?
Sou da rapadura.

Que fabricas tu?
Fabrico purgante.

Que fabricas tu?
Eu torro café.

Que fabricas tu?
Ferradura e cravo.

Que fabricas tu?
Panela de barro.

Que fabricas tu?
Eu fabrico lenha
furtada no pasto.

Que fabricas tu?
Gaiola de arame.

Que fabricas tu?
Fabrico mundéu.

Que fabricas tu?
Bola envenenada
de matar cachorro.

Que fabricas tu?
Faço pau-de-fogo

Que fabricas tu?
Facão e punhal
de sangrar capado.

Que fabricas tu?
Caixão de defunto.

Que fabricas tu?
Fabrico defunto
na dobra do morro.

Que fabricas tu?
Não fabrico.
Assisto às fabricações.


Boitempo  1968

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Stéphane Mallarmé: Brinde

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[traduzido por José Lino Grünewald]

Nada, esta espuma, virgem verso
Apenas denotando a taça;
Como longe afogam-se em massa
Sereias em tropa ao inverso.

Navegamos, ó meus diversos
Amigos, eu já sobre a popa,
Vós a proa que rompe em pompa
Às vagas de trovões adversos.

Empenho-me em pura voragem
Sem mesmo temer a arfagem
A, de pé, este brinde erguer:

Solitude, recife, estrela
A não importa o que valer
O alvo desvelo em nossa vela.


SALUT

Rien, cette écume, vierge vers 
A ne désigner que la coupe;
Telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.

Nous naviguons, ô mes divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous l'avant fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d'hivers;

Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
A n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile. 
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Poemas — Stéphane Mallarmé, Tradução e Notas de José Lino Grünewald, 2015, Editora Nova Fronteira e Saraiva de Bolso, Rio deJaneiro — RJ; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés-midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Manuel Bandeira: A aranha

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Não te afastes de mim, temendo a minha sanha
E o meu veneno... Escuta a minha triste história:
Aracne foi meu nome e na trama ilusória
Das rendas florescia a minha graça estranha.

Um dia desafiei Minerva. De tamanha
Ousadia hoje expio a incomparável glória...
Venci a deusa. Então, ciumenta da vitória,
Ela não ma perdoou: vingou-se e fez-me aranha!

Eu que era branca e linda, eis-me medonha e escura
Inspiro horror... Ó tu que espias a urdidura
Da minha teia, atenta ao que o meu palpo fia:

Pensa que fui mulher e tive dedos ágeis,
Sob os quais incessante e vária a fantasia
Criava a pala sutil para os teus ombros frágeis...

1908

(A Cinza das Horas  1917)

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Estrela da Vida Inteira — Manuel Bandeira, nova edição, 2008, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Manuel Bandeira (1886 1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversas autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Vida Inteira (1966, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (José Olympio, 1966, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (Editora do Autor, 1966, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (Editora Record, 1968, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna  Volume 1, da Fase Moderna  Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros  Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (Editora do Autor, 1963, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Ricardo Gonçalves: A Cisma do Caboclo

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                         A Valdomiro Silveira

Cisma o caboclo à porta da cabana.
Declina o sol, mas, rúbido, espadana
        Ondas fulvas de luz.
No terreiro, entre espigas debulhadas,
Arrulham, perseguindo-se a bicadas,
        Dois casais de pombinhos parirus.

A criação de penas se empoleira;
Come a ração no cocho da mangueira
        Um velho pangaré.
E uma vaca leiteira e bois de carro
Pastam junto à casinha, que é de barro,
        Coberta de sapé.

Longe, uma tropa trota pela estrada.
E a viração das matas, impregnada
        De perfumes sutis,
Traz dos grotões, que a sombra, lenta, invade
O soturno queixume de saudade
        Das pombas juritis.

Cisma o caboclo. Pensa na morena
Que vira numa noite de novena
        Orando ao pé do altar.
Que vira... e que, por mal de seus pecados,
Tinha os olhos profundos e rasgados
        E um riso de matar.

Branco, de fofos, era o seu vestido.
E ele, ao vê-la, sentindo-se ferido
        Em pleno coração,
Baixinho suspirou: "Nossa Senhora!
Ai, meu São Bom Jesus de Pirapora
        Da minha devoção!"

Depois não se conteve e, num fandango,
Furtou-lhe um beijo aos lábios de morango
        O diabo do rapaz.
E ela volveu zangada: "Malcriado!
Seu vigário já disse que é pecado.
        Aquilo não se faz!..."

E o caboclo medita. O sol em chama
Como agora há pouquinho não derrama
        Ondas fulvas de luz.
O córrego soluça, a noite desce,
E vem dos capoeirões onde anoitece
        O trilo vesperal dos inambus.

(Ipês  sem data, págs.43 a 45)

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Antologia da Poesia Paulista II Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo  SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1883 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo  teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Teixeira de Pascoaes: Uma Ave e o Poeta

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I

Sobre aquele pinheiro aureolado
De inerte e vegetal melancolia,
Um passarinho alegre e alvoroçado,
Cantou, cantou, durante todo o dia...

Estive a ouvi-lo, mudo e extasiado...
Mas, por fim, perguntei-lhe: Que alegria,
Se fez, em ti, ó corpo acostumado
À cruz das tuas asas de agonia?

Que descobriste, além, no céu profundo?
Ou que milagre aconteceu no mundo?
Grande cousa de certo adivinhaste...

A aurora revelou-te o seu mistério?
E divina canção de amor etéreo,
À luz, sombra de Deus, alevantaste?


II

E a avezinha serena e confiada,
Num olhar de ternura me envolveu;
E, em sua doce voz iluminada
E tão cheia de graça, respondeu:

Meu canto é luz do sol em mim filtrada;
Vou a cantar... e canta a luz do céu.
E das aves da noite a voz cerrada,
É penumbra que nelas se embebeu.

Sonho a perfeita e mística alegria!
Desejo ser a alma da harmonia,
Que toda a terra e todo o espaço inflama!

Quero ser o Infinito e a Eternidade;
Não ser a estrela e ser a claridade;
Ser apenas o Amor, não ser quem ama.

(As Sombras)

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A Poesia de Teixeira de Pascoaes — Ensaio e Antologia, de Jacinto do Prado Coelho, 1945, Atlantida Livraria Editora Ltda., Lisboa Portugal; Teixeira de Pascoaes, pseudônimo de Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos (1877 1952), nascido em Amarante Portugal, formado em Direito pela Faculdade de Coimbra exerceu os ofícios de advogado e juiz por breve período , foi poeta e escritor; em 1911, no Porto, ajudou a fundar o grupo Renascença Portuguesa, o qual tinha como objetivo lutar pela elevação cultural da república portuguesa; fundou a revista Águia, órgão do grupo Renascença, e a dirigiu até 1917; escreveu e publicou: em poesia, Embriões (1895), Belo, 1ª parte (1896), Belo, 2ª parte (1897), À Minha Alma e Sempre (1898), Jesus e Pã (1903), Vida Eterna (1906), As Sombras (1907), Senhora da Noite (1909), Marãnos (1911), Regresso ao Paraíso (1912), Verbo Escuro (1914), Elegia da Solidão (1920), Cantos Indecisos (1921), O Pobre Tolo (1924), Últimos Versos (publicação póstuma, 1953) e outros; em prosa: A Arte de Ser Português (1915), À Beira Num Relâmpago (1916), Os Poetas Lusíadas (conferências, 1919), O Bailado (1921), A Nossa Fome (1923), Livro de Memórias (autobiografia, 1928), O Homem Universal (1937), Napoleão (biografia romanceada, 1940), Camilo Castelo Branco (biografia romanceada, 1942), além de outros escritos e conferências.

domingo, 22 de novembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade: Na Poesia [crônica]

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[V / Na Poesia]

O rapazinho disse à garota:
           Você precisa ter mais cultura, ouviu? Cultura. Fica aí com essas milongas de Caetano, Gil e não sei que mais, e ignora os verdadeiros mestres da poesia. Já ouviu falar em Camões?
           Já. Um chato.
           Rilke?
           Como é o nome dele?
           Emily Dickinson?
           Sei lá.
           Fernando Pessoa?
           Esse é irmão da Tânia, ora.
           Viu como você é burrinha? Irmão da Tânia coisa nenhuma. Quem é a Tânia para merecer um irmão desse gabarito? Fernando Pessoa, meu anjo, é simplesmente o maior…
           Então são dois. Porque Nandinho eu conheço bem, não é de poesia.
           Podem ser mil com esse nome, nenhum chega aos pés do Fernando Pessoa de que eu estou falando. Qual, você tem jeito não.
           Então, por que você diz que gosta de mim? Procure outra que saiba de cor os nomes de todos esses caras.
           Não tem nada uma coisa com outra. Gosto de você por certos motivos. Gosto de você… até nem sei por quê. Mas fico por conta vendo você tão ignorantezinha em poesia, que para mim é o máximo.
           Pois me dá umas aulas de poesia.
           Depois do Carnaval eu dou. Agora você está com a cabeça mal atarraxada. Vamos fazer o seguinte. Te empresto o meu Fernando Pessoa para você dar uma lida salteado e depois conversamos. Muito cuidado com o volume, viu, sua maluca? É de estimação. Se você perder, nem sei o que acontece.
          A garota me procurou:
           Posso lhe pedir um favor?
           Dois.
           Estou com um problema sério.
           Esqueceu a pílula?
           Isso é pergunta que se faça? E se eu usasse e esquecesse, era ao senhor que eu recorria?
           Desculpe. Conte o seu problema.
           Meu namorado me emprestou um livro, e o Gibi comeu.
           Quem é o Gibi?
           Meu fox-terrier de dois meses. Um cãozinho divino!
           O Gibi comeu o livro. E daí?
           Daí, o livro era de estimação, um tal de Fernando Pessoa. Meu namorado me mata.
           Mas o Gibi papou o livro inteiro?
           Só um pedaço da capa e as primeiras folhas. Quando eu vi e zanguei com ele (zanguei de leve, não bati), já tinha papado.
           E então?
           Meu namorado tem muita história com o senhor. Diz que o senhor também é bacana, embora não tanto quanto Fernando Pessoa.
           Obrigado.
           Comprei outro livro para dar a ele. Caro, hem? esse Fernando Pessoa. Gastei quase toda a mesada.
           Por que não devolve o livro meio comido pelo Gibi? Namorado acha graça em tudo.
           Vou devolver, mas ele não ia achar graça. O Gibi comeu a dedicatória.
           De Fernando Pessoa para seu namorado? Sem essa.
           Era do professor do meu namorado. Foi um prêmio que ele ganhou na Faculdade.
           Ahn.
           O professor mudou para Brasília, como é que vou me arranjar? Então eu queria que o senhor autografasse o livro novo, para eu entregar junto com o velho, e ele ver que fiz o possível para remediar a começão do Gibi.
           Minha filha, por que vou entrar nessa dança? Não sou o professor, não sou o Pessoa, não sou o Gibi.
           Mas o senhor não está compreendendo que o livro tem de ter um autógrafo? A quem é que eu vou pedir? Ao Jorge Ben, ao Chacrinha? Aí é que ele me enforcava mesmo. Me faz esse favorzinho, faz. Bote aí uma coisa lindinha, diz que o Gibi não teve culpa, que ele gostou demais de Fernando Pessoa, pensou que era doce e regalou-se!
          Botei. E no exemplar comido, meu autógrafo seguiu com o de Gibi.

O Poder Ultrajovem, crônicas  1972

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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, 5ª edição, Introdução Geral “As várias faces de uma poesia”, de Emanuel de Moraes, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...