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[traduzido
por Augusto de Campos]
Quando eu
atravessava os Rios impassíveis,
Senti-me
libertar dos meus rebocadores.
Cruéis
peles-vermelhas com uivos terríveis
Os espetaram
nus em postes multicores.
Eu era
indiferente à carga que trazia,
Gente,
trigo flamengo ou algodão inglês.
Morta a
tripulação e finda a algaravia,
Os Rios para
mim se abriram de uma vez.
Imerso no
furor do marulho oceânico,
No
inverno, eu, surdo como um cérebro infantil,
Deslizava,
enquanto as Penínsulas em pânico
Viam turbilhonar
marés de verde e anil.
O vento
abençoou minhas manhãs marítimas.
Mais leve
que uma rolha eu dancei nos lençóis
Das ondas
a rolar atrás de suas vítimas,
Dez
noites, sem pensar nos olhos dos faróis!
Mais doce
que as maçãs parecem aos pequenos,
A água
verde infiltrou-se no meu casco ao léu
E das
manchas azulejantes dos venenos
E vinhos
me lavou, livre de leme e arpéu.
Então eu
mergulhei nas águas do Poema
Do Mar,
sarcófago de estrelas, latescente,
Devorando
os azuis, onde às vezes — dilema
Lívido —
um afogado afunda lentamente;
Onde,
tingindo azulidades com quebrantos
E ritmos
lentos sob o rutilante albor,
Mais
fortes que o álcool, mais vastas que os nossos prantos,
Fermentam
de amargura as rubéolas do amor!
Conheço
os céus crivados de clarões, as trombas,
Ressacas
e marés: conheço o entardecer,
A Aurora
em explosão como um bando de pombas,
E algumas
vezes vi o que o homem quis ver!
Eu vi o
sol baixar, sujo de horrores místicos,
Iluminando
os longos glaciais;
Como
atrizes senis em palcos cabalísticos,
Ondas
rolando ao longe os frêmitos de umbrais!
Sonhei
que a noite verde em neves alvacentas
Beijava,
lenta, o olhar dos mares com mil coros,
Soube a
circulação das seivas suculentas
E o
acordar louro e azul dos fósforos canoros!
Por meses
eu segui, tropel de vacarias
Histéricas,
o mar estuprando as areias,
Sem
esperar que aos pés de ouro das Marias
Esmorecesse
o ardor dos Oceanos sem peias!
Cheguei a
visitar as Flóridas perdidas
Com olhos
de jaguar florindo em epidermes
De
homens! Arco-íris tensos como bridas
No
horizonte do mar de glaucos paquidermes.
Vi
fermentarem pântanos imensos, ansas
Onde
apodrecem Leviatãs distantes!
O
desmoronamento da água nas bonanças
E abismos
a se abrir no caos, cataratantes!
Geleiras,
sóis de prata, ondas e céus cadentes!
Naufrágios
abissais na tumba dos negrumes,
Onde,
pasto de insetos, tombam as serpentes
Dos
curvos cipoais, com pérfidos perfumes!
Ah! se as
crianças vissem o dourar das ondas,
Áureos
peixes do mar azul, peixes cantantes...
— As
espumas em flor ninaram minhas rondas
E as
brisas da ilusão me alaram por instantes.
Mártir de
pólos e de zonas misteriosas,
O mar a
soluçar cobria os meus artelhos
Com
flores fantasmais de pálidas ventosas
E eu,
como uma mulher, me punha de joelhos...
Quase
ilha a balouçar entre borras e brados
De
gralhas tagarelas com olhar de gelo,
Eu
vogava, e por minha rede os afogados
Passavam,
a dormir, descendo a contrapelo.
Mas eu, barco
perdido em baías e danças,
Lançado
no ar sem pássaros pela torrente,
De quem
os Monitores e os arpões das Hansas
Não
teriam pescado o casco de água ardente;
Livre,
fumando em meio às virações inquietas,
Eu que
furava o céu violáceo como um muro
Que mancham,
acepipe raro aos bons poetas,
Líquens
de sol e vômitos de azul escuro;
Prancha
louca a correr com lúnulas e faíscas
E
hipocampos de breu, numa escolta de espuma,
Quando os
sóis estivais estilhaçam em riscas
O céu
ultramarino e seus funis de bruma;
Eu que
tremia ouvindo, ao longe, a estertorar,
O cio dos
Behemóts e dos Maelstroms febris,
Fiandeiro
sem fim dos marasmos do mar,
Anseio pela Europa e os velhos peitoris!
Eu vi os
arquipélagos astrais! e as ilhas
Que o
delírio dos céus desvela ao viajor:
— É nas
noites sem cor que te esqueces e te ilhas,
Milhão de
aves de ouro, ó futuro Vigor?
Sim,
chorar eu chorei! São mornas as Auroras!
Toda lua
é cruel e todo sol, engano:
O amargo
amor opiou de ócios minhas horas.
Ah! que
esta quilha rompa! Ah! que me engula o oceano!
Da Europa
a água que eu quero é só o charco
Negro e
gelado onde, ao crepúsculo violeta,
Um menino
tristonho arremesse o seu barco
Trêmulo
como a asa de uma borboleta.
No meu
torpor, não posso, ó vagas, as esteiras
Ultrapassar
das naves cheias de algodões,
Nem
vencer a altivez das velas e bandeiras,
Nem
navegar sob o olho torvo dos pontões.
 |
| Arthur Rimbaud |
Le Bateau Ivre
Comme je
descendais des Fleuves impassibles,
Je ne me
sentis plus guidé par les haleurs:
Des
Peaux-Rouges criards les avaient pris pour cibles,
Les ayant
cloués nus aux poteaux de couleurs.
J'étais
insoucieux de tous les équipages,
Porteur
de blés flamands ou de cotons anglais.
Quand
avec mes haleurs ont fini ces tapages,
Les
Fleuves m'ont laissé descendre où je voulais.
Dans les
clapotements furieux des marées,
Moi,
l'autre hiver, plus sourd que les cerveaux d'enfants,
Je courus!
Et les Péninsules démarrées
N'ont pas
subi tohu-bohus plus triomphants.
La
tempête a béni mes éveils maritimes.
Plus
léger qu'un bouchon j'ai dansé sur les flots
Qu'on
appelle rouleurs éternels de victimes,
Dix
nuits, sans regretter l'oeil niais des falots!
Plus
douce qu'aux enfants la chair des pommes sures,
L'eau
verte pénétra ma coque de sapin
Et des
taches de vins bleus et des vomissures
Me lava,
dispersant gouvernail et grappin.
Et dès
lors, je me suis baigné dans le Poème
De la
Mer, infusé d'astres, et lactescent,
Dévorant
les azurs verts; où, flottaison blême
Et ravie,
un noyé pensif parfois descend;
Où,
teignant tout à coup les bleuités, delires
Et
rythmes lents sous les rutilements du jour,
Plus
fortes que l'alcool, plus vastes que nos lyres,
Fermentent
les rousseurs amères de l'amour!
Je sais
les cieux crevant en éclairs, et les trombes
Et les
ressacs et les courants: Je sais le soir,
L'Aube
exaltée ainsi qu'un peuple de colombes,
Et j'ai
vu quelquefois ce que l'homme a cru voir!
J'ai vu
le soleil bas, taché d'horreurs mystiques,
Illuminant
de longs figements violets,
Pareils à
des acteurs de drames très-antiques
Les flots
roulant au loin leurs frissons de volets!
J'ai rêvé
la nuit verte aux neiges éblouies,
Baiser
montant aux yeux des mers avec lenteurs,
La
circulation des sèves inouïes,
Et
l'éveil jaune et bleu des phosphores chanteurs!
J'ai
suivi, des mois pleins, pareille aux vacheries
Hystériques,
la houle à l'assaut des récifs,
Sans
songer que les pieds lumineux des Maries
Pussent
forcer le mufle aux Océans poussifs!
J'ai
heurté, savez-vous, d'incroyables Florides
Mêlant
aux fleurs des yeux de panthères à peaux
D'hommes!
Des arcs-en-ciel tendus comme des brides
Sous
l'horizon des mers, à de glauques troupeaux!
J'ai vu
fermenter les marais énormes, nasses
Où
pourrit dans les joncs tout un Léviathan!
Des
écroulements d'eau au milieu des bonaces,
Et les
lointains vers les gouffres cataractant!
Glaciers,
soleils d'argent, flots nacreux, cieux de braises!
Échouages
hideux au fond des golfes bruns
Où les
serpents géants dévorés de punaises
Choient,
des arbres tordus, avec de noirs parfums!
J'aurais
voulu montrer aux enfants ces dorades
Du flot
bleu, ces poissons d'or, ces poissons chantants.
— Des
écumes de fleurs ont bercé mes dérades
Et
d'ineffables vents m'ont ailé par instants.
Parfois,
martyr lassé des pôles et des zones,
La mer
dont le sanglot faisait mon roulis doux
Montait
vers moi ses fleurs d'ombres aux ventouses jaunes
Et je
restais, ainsi qu'une femme à genoux...
Presque
île, balottant sur mes bords les quereles
Et les
fientes d'oiseaux clabaudeurs aux yeux blonds.
Et je
voguais, lorsqu'à travers mes liens frêles
Des noyés
descendaient dormir, à reculons!
Or moi,
bateau perdu sous les cheveux des anses,
Jeté par
l'ouragan dans l'éther sans oiseau,
Moi dont
les Monitors et les voiliers des Hanses
N'auraient
pas repêché la carcasse ivre d'eau;
Libre,
fumant, monté de brumes violettes,
Moi qui
trouais le ciel rougeoyant comme un mur
Qui
porte, confiture exquise aux bons poètes,
Des
lichens de soleil et des morves d'azur;
Qui
courais, taché de lunules électriques,
Planche
folle, escorté des hippocampes noirs,
Quand les
juillets faisaient crouler à coups de triques
Les cieux
ultramarins aux ardents entonnoirs;
Moi qui
tremblais, sentant geindre à cinquante lieues
Le rut
des Béhémots et les Maelstroms épais,
Fileur
éternel des immobilités bleues,
Je
regrette l'Europe aux anciens parapets!
J'ai vu
des archipels sidéraux! et des îles
Dont les
cieux délirants sont ouverts au vogueur:
— Est-ce
en ces nuits sans fond que tu dors et t'exiles,
Million
d'oiseaux d'or, ô future Vigueur? —
Mais,
vrai, j'ai trop pleuré! Les Aubes sont navrantes.
Toute
lune est atroce et tout soleil amer:
L'âcre
amour m'a gonflé de torpeurs enivrantes.
Ô que ma
quille éclate! Ô que j'aille à la mer!
Si je
désire une eau d'Europe, c'est la flache
Noire et
froide où vers le crépuscule embaumé
Un enfant
accroupi plein de tristesses, lâche
Un bateau
frêle comme un papillon de mai.
Je ne
puis plus, baigné de vos langueurs, ô lames,
Enlever
leur sillage aux porteurs de cotons,
Ni
traverser l'orgueil des drapeaux et des flammes,
Ni nager
sous les yeux horribles des pontons.
[1871]
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Rimbaud
livre, Introdução e Traduções de Augusto de Campos, edição bilíngue, com
“iluminações” computadorizadas de Augusto de Campos & Arnaldo Antunes, 2ª
edição da 2ª reimpressão de 1993, 2009, Coleção Signos, Editora Perspectiva,
São Paulo — SP; Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854 — 1891), francês de Charleville,
estudou no Collège Charleville e foi poeta do simbolismo francês; recebeu influências
de Victor Hugo, Georges Izambard — seu professor de retórica —, Paul Verlaine, Charles
Baudelaire e Walt Whitman entre outros e é considerado um dos nomes mais influentes
da história da poesia ocidental; o poeta, que aos 20 anos de idade abandonou a literatura
e retomou a vida sem rumo que levava desde a adolescência, escreveu praticamente
as suas obras primas entre os 15 e 18 anos; publicou em vida apenas Uma Temporada
no Inferno (Une saison en enfer, 1873), porém escreveu também Poésies (1871) e Iluminações
(Illuminations, 1873—1875); Rimbaud, além de, talvez, ter sido um dos primeiros
poetas a viver sua própria poesia, influenciou autores da geração perdida, beatniks
e existencialistas, tais como Ernest Hemingway, F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound,
Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs etc.; em 1878, deixou a Europa e
partiu para o Oriente Médio e a África, passou a viver em Aden, Harar e outras localidades,
realizando expedições, comercializando peles e marfim e traficando armas em regiões
inóspitas e de deserto; em 1886, a revista La Vogue publicou grande parte de Illuminations,
com a informação errada de que o poeta já havia falecido; de fato, Arthur Rimbaud
morreu cinco anos depois, em 10 de dezembro de 1891, após hospitalização em Marselha
e ter a perna amputada devido a um tumor cancerígeno em seu joelho direito.