Mostrando postagens com marcador Zahidé Lupinacci Muzart. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Zahidé Lupinacci Muzart. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 16 de março de 2015

Ridelina Ferreira: Escuta!

Resultado de imagem para A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira Volume I IMESP
____________________
(No álbum de Emma W. N. Paranaguá)

Vou de novo partir. Cortar os mares
E campinas extensas, verdejantes;
Vai meu ser em soluços lacrimantes,
Habitar novamente estranhos lares.

De minha sina atroz cruéis pesares
Obrigam-me a buscar terras distantes;
Não terei nem sequer por uns instantes
Verdadeira afeição nesses lugares.

Mas se a sorte de mim tiver piedade,
Um dia voltarei do meu degredo
A gozar teus carinhos de amizade...

Então, contigo à sombra do arvoredo,
Eu triste, que definho de saudade
Talvez que te confie o meu segredo!

Capital, 30 — 12  1898

(publicado em A Mensageira,
 Ano II,  número 29, de 15 de
 junho de 1899, São Paulo)
____________________
A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Ridelina Ferreira, pseudônimo de Camila Riedel (1867  ?  ), natural do Rio Grande do Sul, foi escritora e professora; escreveu os contos 'Um episódio da roça' e 'O Tio Job' (ambos em 1899), e os poemas 'Escuta!' (1898), 'Nênia' e 'Barcarola'(ambos em 1899); consta que suas obras aparentam ter, durante a vida, sido publicadas apenas na revista A Mensageira; foi esposa do também poeta, jornalista e editor Júlio Riedel (1867 1895), que cometeu suicídio; eis o que se tem de sua biografia registrada em 2009 na obra Escritoras Brasileiras do Século XIX, organização de Zahidé Lupinacci Muzart, volume 3, páginas 1057, 1058 e 1082, Editora Mulheres, Florianópolis  SC.

sábado, 9 de agosto de 2014

Cruz e Sousa: Acrobata da dor

____________________
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço...

E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

____________________
Broquéis, poemas — Apresentação-prefácio de Zahidé Lupinacci Muzart, 2002, primeira edição, 2011, reimpressão, L&PM Editores, Porto Alegre RS; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); anteriormente, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa, 1885), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).