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domingo, 16 de abril de 2023

Fernando Santoro *: O Louro (e a Filosofia da Decomposição)

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Paródia paranóica do Corno, digo d'Corvo, de Edgar Allan Poe (ler com sotaque americano).

Numa madrugada brava, em que ao leito eu deleitava,
e eu fintava e eu driblava, respingado de suor,
pelo corpo ali desnudo, mui cheiroso e manteúdo,
quando entrei com bola e tudo corpo adentro de Lenor';
como o gol quando a torcida enlouquecida comemor'
              (era mais que brasa, mor'?)

Quando alcei minha bandeira do timão quando goleia
pelo amor comprometido desta cálida senhor'
ai, que gemia, gemia, como o leito que rangia,
demos de ouvir que batia, na porta do lado de for'
"Toc-toc" (uma fria) "Quem será, do lado de for'?"
              "Edgar a esta hor'?"

"Não: ele possui a chave." disse ela num tom grave.
"E viaja ao estrangeiro, não há de voltar agor'.
É somente algum vizinho. Volto já, bem rapidinho."
Desgarrou dos meus carinhos, se vestindo sem demor'.
esperei, pastor sereno, vendo seus pés ir embor'...
              minha ovelha vai: Lenor'!

Nos lençóis fiquei suado, em cios d'ócio cerrado
escutando longe "Senhor...", ela dizer, ou "senhor'
que chegai assim tão tarde, perdoai à minha parte
que não abra minhas grades, pois a noite me apavor'
eu a sós tenho arrepios, não consigo abrir a por'
              Voltai amanhã, outr' hor'."

Espiou na gelosia e expirou pelo que via
"É Ninguém!", olhou de novo, "Não tem viv'alma lá for'!"
Lá em frente levantada, ficou contemplando o nada
pela lua iluminada. Da sombra gritei: "Lenor',
vem, não foi ninguém, meu Bem, só uma brisa um pouco sonor'.
              vem meu docinho de amor' "

Ela vinha armando o bole, lânguida com passo mole
quando um ruído a sobressalta, por pouco não evapor':
ao voar um louro ao quarto, penetrado no entreato
pela janela do lado, feita a espiar lá for'.
que Lenora, sem cuidado, encostou-se e foi-se embor'.
              "Vê: um louro e só, Lenor'!"

Ela riu com guizo e gozo, se despiu e quis de novo,
"Viste? Não foi Edgar, Bem. Toda tua estou por hor'..."
Ao ouvir 'por ora' eu morro e vejo as garras de agouro
deste louro sobre o torso de Priapo de Lenor',
"Papagaio empoleirado, qual tua graça? És Lady ou Lor'?"
              e ele disse: "Qualquer hor'."

"Mas que louro boa praça, o fofo fala e com graça!
vem, bichinho, com a titia, dá a patinha prá Lenor'."
(Ai, mulher quando ama bicho, trata o homem como um lixo,
e o meu rouxinol no nicho foi largado sem demor'
pela arara devorada ao deus Priapo de Lenor'
              que falava "qualquer hor' ".)

"Teu amor, se é fingido, um passatempo sem marido,
fica aí com o papagaio, tchau, adeus eu vou embor'.
Nosso amor, se é confete, um caso curto, um curto flerte,
quando poderei rever-te? Diz um dia e diz a hor'."
Antes que ela respondesse, antes que ela desse um for',
              entra o louro: "Qualquer hor'."

Ao meu lado então Lenora voltou lépida: "Ora, ora,
mas que pássaro assanhado, chegou justo no melhor,
vai-te agora ave amestrada, vai seguir a tua estrada
mas, ao ir, ave estudada, repete a lição de cor 
Quando encontro meu amado, qual momento ardente mor?"
              e ave disse: "Qualquer hor'."

"Pára, espera! Ave da peste." Resolvi fazer um teste,
(pois bandeira ao ser guardada fica tímida, menor...
requisita lábios quentes, língua doce, dedos, dentes...
e a resposta renitente me excitava com Lenor')
Chamo o louro de meu louro, antes que ele vá-se embor'.
              "Venha cá, ô Qualqueror'!

"Se a mulher já tem traído tantas vezes seu marido
com amante destemido que com muito amor namor',
Considera a preferência, usa a tua sapiência,
doutor louro na indecência, quantas vezes a senhor'
deve vir sem resistência quando seu amante implor'?"
              disse o louro: "Qualquer hor'."

"Mas, meu louro", Ela retruca, já me armando uma arapuca,
"Se o amante é quem dá mole, se ele embroma na demor'
Se a batuta não se anima e o concerto desafina...
Quando eu, mulher grã-fina, que não sou de jogar for',
Posso procurar um outro de uma prontidão melhor?"
              Pronto o louro: "Qualquer hor'."

" Onde aprendeste, em que casta, este estribilho iconoclasta
Foi num consultório aberto, um lupanar de vulta flor",
sala de um doutor dentista, num poleiro de analista
foi ouvindo um jornalista de um programa de auditór'?
Não responda seu lorota! Puxe as asas vai-te embor'!"
               Nem deu bola e: "Qualquer hor'."

"Louro", disse-lhe, "peralta! e na calada ave pirata,
que nem foge ou sai de cima, louro parco, empada, for'!
Já não basta o teu marido que atrapalha o meu cozido,
Vem agora este sabido desandar a minha tor' 
Ah! Lenora, quando a dita rebelou-se como agor'?"
              Louro espalha: "Qualquer hor'."

"Louro", disse ela, "peralta! e na calada ave pirata!
Venha louro catalépto, vê se agora colabor'
Diga ao meu amor, meu rico, senão jogo-te o pinico
Diz ou eu te quebro o bico, te depeno e te devor'
quando encontro o meu marido, qual momento é bem pior?"
              respondeu-lhe: "Qualquer hor'..."

... É agora! Entrou com flores, Edgar saudou de amores:
"Lêê... Surpresa!" e, sem graça: "Surpresa..." responde Lenor'
e "Surpreso" então repito, como um gentleman aflito
muito avesso a tais conflitos. Mais um caso que evapor':
pensam juntos, de uma vez, e falam três a mesma hor':
              "nunca mais a qualquer hor'!"

E o louro estabanado bate as asas no Priapo
cujos cacos no assoalho se espalham além da por'.
Grito seu de ave acuada é mui sonsa (ai) gargalhada,
que se espalha em revoada mais que os cacos sob a por'
e se ouve redobrado como um eco que apavor'
              se os pisar a qualquer hor'...

Fernando  Santoro

* Fernando Santor’ (este aprendiz de blogueiro não resiste, escreve com 'sotaque americano' o nome do autor), tem extensa produção filosófica publicada em jornais, revistas especializadas e em livros.
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Poesia (e) Filosofia — por poetas filósofos em atuação no Brasil, Organização de Alberto Pucheu, 1998, Sette Letras, Rio de Janeiro — RJ; Fernando José de Santoro Moreira, do Rio de Janeiro, nascido em 1968, graduado em filosofia pela UFRJ  Universidade Federal do Rio de Janeiro e em Literatura e Civilização Francesa em Nancy III, mestre e doutor em Filosofia (UFRJ) e pós-doutor pela Université Paris Sorbonne Paris IV, é professor, pesquisador, ensaísta, pensador, escritor e poeta; possui vínculo institucional com a UFRJ Filosofia, dirige o Laboratório OUSIA de Estudos em Filosofia Clássica e integra o GdRI Groupement de recherche internationaux 'Philosopher em Langue. Comparatiems e traduction', do CNRS  Centre national de la recherche scientifique; suas obras: Agravo (1991), Poesia e Verdade (1994), Imaculada (poesia, 1996), O Poema de Parmênides: Da Natureza, vol. I (2006), Arqueologia dos Prazeres (2007), Filósofos Épicos, vol I 'Xenófanes e Parmênides' (2011) e outros títulos.

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Alberto Pucheu: É preciso aprender a ficar submerso

Cult | Antologia Poética #2
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É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo. É preciso aprender.
Há dias de sol por cima da prancha,
há outros, em que tudo é caixote, vaca,
caldo. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a persistir, a não desistir, é preciso,
é preciso aprender a ficar submerso,
é preciso aprender a ficar lá embaixo,
no círculo sem luz, no furacão de água
que o arremessa ainda mais para baixo,
onde estão os desafiadores dos limites
humanos. É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, a persistir, a não desistir,
a não achar que o pulmão vai estourar,
a não achar que o estômago vai estourar,
que as veias salgadas como charque
vão estourar, que um coral vai estourar
os miolos – os seus miolos –, que você
nunca mais verá o sol por cima da água.
É preciso aprender a ficar submerso, a não
falar, a não gritar, a não querer gritar
quando a areia cuspir navalhas em seu rosto,
quando a rocha soltar britadeiras
em sua cabeça, quando seu corpo
se retorcer feito meia em máquina de lavar,
é preciso ser duro, é preciso aguentar,
é preciso persistir, é preciso não desistir.
É preciso aprender a ficar submerso
por algum tempo, é preciso aprender
a aguentar, é preciso aguentar
esperar, é preciso aguentar esperar
até se esquecer do tempo, até se esquecer
do que se espera, até se esquecer da espera,
é preciso aguentar ficar submerso
até se esquecer de que está aguentando,
é preciso aguentar ficar submerso
até que o voluntarioso vulcão de água,
arremesse você de volta para fora dele.

Alberto Pucheu
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Cult Antologia Poética, Ano 1, Nº 2, Novembro de 2019, Curadoria e Edição de Tarso de Melo, Editora Bregantini / Revista Cult, São Paulo SP; Alberto Pucheu, carioca, nascido em 1966, com graduação e mestrado em Filosofia, doutorado em Ciência da Literatura e pós-doutorado em Artes, todas pela UFRJ, é poeta, ensaísta, crítico de arte e professor de Teoria Literária; bibliografia: em poesia, Na cidade aberta (1993), Escritos da freqüentação (1995), A fronteira desguarnecida (1997), Ecometria do silêncio (1999), A vida é assim (2001), Escritos da indiscernibilidade (2003), Mais cotidiano que o cotidiano (2013), ensaios, Pelo colorido, para além do cinzento (vencedor do Prêmio Mario de Andrade na categoria ensaio, 2007), Giorgio Agambem: poesia, filosofia, crítica (2010), O Amante da literatura (2010), Antonio Cicero por Alberto Pucheu (2010), A Poesia Contemporânea (2014,  e outros, além de ter atuado na organização de outras obras, tais como Poesia(e)Filosofia: por poetas-filósofos em atuação no Brasil (1985); traduziu Rabindranah Tagore (O Coração de Deus poemas místicos).