Mostrando postagens com marcador Daniel Fresnot. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Daniel Fresnot. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 14 de julho de 2023

Maiakóvski: À esquerda!


____________________
[traduzido por Emilio Carrera Guerra]

Aos marinheiros russos

Em frente, marche! Basta de falar!
O tempo dos oradores já passou.
Hoje tem a palavra
o Camarada Mauser!
Não há outra lei senão a da natureza.
Somente Adão e Eva estão com a verdade.
Abaixo as leis, abaixo as cadeias!

Fustiguemos a carroça da história
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Em frente, à conquista
dos Oceanos!
Tendes canhões em vossos navios de aço.
Já esquecestes como os fazer falar?
Que a coroa abra uma goela
quadrangular,
que o leão britânico ruja
que importa?
A comuna está em marcha
e manterá a vitória!
À esquerda, à esquerda, à esquerda!

Aqui é a sombra e a morte, mas lá longe
do outro lado das montanhas
o sol se levantou sobre um mundo novo.
Lá, além das planícies,
o solo estremece sob os passos inumeráveis
de homens impávidos e livres.
Camaradas, nós somos um rochedo de granito.
Os bandidos da Entente se arremessam contra ele.
Mas nada abaterá a Rússia Soviética.
À esquerda, à esquerda, à esquerda!
Eles não puderam furar os olhos atilados da águia
que olha e compreende as lições do passado.

Avante, pois, meu povo, e já que o pegaste
estrangula teu carrasco!
A trombeta dos bravos já soou o alarme.
Nossos estandartes aos milhares avermelham o céu.
Só a rota dos traidores é que conduz à direita.
À esquerda, à esquerda, à esquerda!

(1918)

Maiakóvski

Левый марш

Разворачивайтесь в марше!
Словесной не место кляузе.
Тише, ораторы!
Ваше
слово,
товарищ маузер.
Довольно жить законом,
данным Адамом и Евой.
Клячу истории загоним.
Левой!
Левой!
Левой!

Эй, синеблузые!
Рейте!
За океаны!
Или
у броненосцев на рейде
ступлены острые кили?!
Пусть,
оскалясь короной,
вздымает британский лев вой.
Коммуне не быть покоренной.
Левой!
Левой!
Левой!

Там
за горами горя
солнечный край непочатый.
За голод
за мора море
шаг миллионный печатай!
Пусть бандой окружат нанятой,
стальной изливаются леевой,-
России не быть под Антантой.
Левой!
Левой!
Левой!

Глаз ли померкнет орлий?
В старое станем ли пялиться?
Крепи
у мира на горле
пролетариата пальцы!
Грудью вперед бравой!
Флагами небо оклеивай!
Кто там шагает правой?
Левой!
Левой!
Левой!

1918
____________________
Maiakóvski — Vida e Poesia: Tradução dos poemas por Emilio Carrera Guerra e Daniel Fresnot, Introdução de Francis Combes (traduzida do francês por Sebastião Paz) e Autobiografia ‘Eu mesmo’ traduzida do francês por Nicole A. Vilhena, Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”, volume 248, 2ª reimpressão, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique e teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; em Moscou, ingressou na Escola de Belas Artes e fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo; ao serem expulsos da Escola, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social;  por razões estéticas e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), A propósito disto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), À Plena Voz (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publica Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

sexta-feira, 31 de março de 2023

Maiakóvski: A Sierguéi Iessiênin*

____________________
[traduzido do russo para o francês por Simone Pirez e Francis Combes, e do francês para o português por Daniel Fresnot]

Partistes
como dizem
para o outro mundo.
O vazio...
Estais planando,
até o bordado de estrelas.
Chega de adiantamentos
e de pinga.
Sobriedade.
Não, Iessiênin
isto não é
zombaria.
Na minha garganta
nada de escárnio
mas uma bola de tristeza.
Eu vos vejo
com uma mão de cera hesitando
agitar
o saco
de vossos próprios ossos.
Parai,
deixai para trás!
Que idéia é essa
de derramar
no vosso rosto
este giz mortal?
Vós
que sabíeis escrever coisas
como ninguém
no mundo.
Por quê?
E como?
Derramam-se em hipóteses
Os críticos gaguejam:
“De quem é a culpa?
Muito a dizer...
mas sobretudo
lhe faltava ‘ligação’1
O resultado?
Muita cerveja e vodca.”
Dizem
que vos deveríeis
ter trocado a boemia
pela classe;
A classe vos teria influenciado,
fim das brigas.
Mas essa classe
a sua sede
ela a sacia com kvas?2
A classe
ela também, para beber
entende um bocado.
Dizem
que se vos houvessem juntado
alguém de Sentinela3
teríeis
feito
muitos progressos:
poderíeis
a cada dia
escrever
vossos cem versos,
chatos
e compridos
como Doronine4.
Para mim
se este delírio
se tivesse realizado
vós teríeis
muito mais cedo
sobre vos mesmo se atacado.
Melhor
morrer de vodca
do que de tédio!
Nem a forca
nem a faca
nos darão a chave
desta perda.
Talvez
se tivesse havido tinta
no Hotel Inglaterra
o Senhor poderia ter evitado
de se cortarem as veias.
Os imitadores se alegram:
“Bis!”
Todo um pelotão
que faz
sobre si mesmo, justiça.
Por que
aumentar
o número dos suicídios?
Melhor seria
aumentar
a produção de tinta!
Para sempre
agora
esta língua
fica presa atrás destes dentes.
É duro
e deslocado
fazer mistérios
O povo
aquele que cria a língua
perdeu
um de seus artesãos
farristas
e sonoros.
E trazem
as quinquilharias dos versos funerários
quase os mesmos
desde o último enterro.
Deveríamos dispersar
no féretro
com um cajado
estes versos inexpressivos.
É assim
que se homenageia
um poeta?
Ainda não vos
construíram um monumento;
onde estão os quilos de bronze
ou os gramas de granito?
que diante da grade de lembrança
já tragam
as bugigangas
das homenagens e dedicatórias.
O vosso nome
é colocado em lenços,
Sobinov5
baba as vossas palavras
e sob uma árvore magrinha
ele agoniza:
“Nem mais uma palavra, meu amigo,
nem um suspi-i-iro”
Ah!
é de outra forma que deveríamos falar
a esta espécie
de Leonid Lohengrin!
Levantar-se
em fulminante escândalo,
 Eu não permito
que se mastigue
e se massacre
assim os versos!
Assobiar com os dedos
até deixá-los surdos
e mandá-los ao diabo!
Que fujam
esses detritos sem talento,
enchendo
as velas de seus paletós.
Que Kogan6
levado em sua debandada
espete os transeuntes
com seu bigode.
A sacanagem
hoje em dia
ainda não ficou rara.
A tarefa é grande
mal bastamos.
É preciso primeiro
refazer a vida,
uma vez refeita
poderemos cantá-la.
O nosso tempo, para a pena,
não é muito fácil.
Mas digam-me
os aleijados, os impotentes,
Onde
e quando
aqueles que são grandes
escolheram
os caminhos traçados
e fáceis?
A palavra
é capitã
da força humana.
Para a frente, andemos
e que o tempo
estoure em bombas.
Que o vento que sopra
para os dias passados
só leve
mechas de cabelos misturados.
Para a alegria
o nosso planeta ainda está mal preparado.
É preciso
extorquir
a alegria
aos dias futuros.
Nesta vida
morrer não é difícil
Construir a vida
é bem mais difícil.

Maiakóvski
 СЕРГЕЮ ЕСЕНИНУ

Вы ушли,
как говорится,
в мир иной.
Пустота...
Летите, в звёзды врезываясь.
Ни тебе аванса,
ни пивной.
Трезвость.
Нет, Есенин,
это
не насмешка.
В горле
горе комом —
не смешок.
Вижу —
взрезанной рукой помешкав,
собственных
костей
качаете мешок.
— Прекратите!
Бросьте!
Вы в своем уме ли?
Дать, чтоб щёки
заливал
смертельный мел?!
Вы ж
такое
загибать умели,
что другой
на свете
не умел.
Почему?
Зачем?
Недоуменье смяло.
Критики бормочут:
— Этому вина
то...
да сё...
а главное,
что смычки мало,
в результате
много пива и вина. —
Дескать, заменить бы вам
богему
классом,
класс влиял на вас,
и было б не до драк.
Ну, а класс-то
жажду
заливает квасом?
Класс — он тоже
выпить не дурак.
Дескать,
к вам приставить бы
кого из напостов —
стали б
содержанием
премного одарённей.
Вы бы
в день
писали
строк по сто,
утомительно
и длинно,
как Доронин.
А по-моему,
осуществись
такая бредь,
на себя бы
          раньше наложили руки.
Лучше уж
от водки умереть,
чем от скуки!
Не откроют
нам
причин потери
ни петля,
ни ножик перочинный.
Может,
окажись
чернила в "Англетере",
вены
резать
не было б причины.
Подражатели обрадовались:
бис!
Над собою
чуть не взвод
расправу учинил.
Почему же
увеличивать
число самоубийств?
Лучше
увеличь
изготовление чернил!
Навсегда
теперь
язык
в зубах затворится.
Тяжело
и неуместно
разводить мистерии.
У народа,
у языкотворца,
умер
звонкий
забулдыга подмастерье.
И несут
стихов заупокойный лом,
с прошлых
с похорон
не переделавши почти.
В холм
тупые рифмы
загонять колом —
разве так
поэта
надо бы почтить?
Вам
и памятник еще не слит, —
где он,
бронзы звон
или гранита грань? —
а к решеткам памяти
уже понанесли
посвящений
и воспоминаний дрянь.
Ваше имя
в платочки рассоплено,
ваше слово
слюнявит Собинов,
и выводит
под берёзкой дохлой —
"Ни слова,
о дру-уг мой,
ни вздо-о-о-о-ха".
Эх,
поговорить бы иначе
с этим самым
с Леонидом Лоэнгринычем!
Встать бы здесь
гремящим скандалистом:
— Не позволю
мямлить стих
и мять!
Оглушить бы
их
трехпалым свистом
в бабушку
и в бога душу мать!
Чтобы разнеслась
бездарнейшая погань,
раздувая
темь
пиджачных парусов,
чтобы
врассыпную
разбежался Коган,
встреченных
увеча
пиками усов.
Дрянь
пока что
мало поредела.
Дела много —
только поспевать.
Надо
жизнь
сначала переделать,
переделав —
можно воспевать.
Это время —
трудновато для пера,
но скажите
вы,
калеки и калекши,
где,
когда,
какой великий выбирал
путь,
чтобы протоптанней
и легше?
Слово —
полководец
человечьей силы.
Марш!
Чтоб время
сзади
ядрами рвалось.
К старым дням
чтоб ветром
относило
только
путаницу волос.
Для веселия
планета наша
мало оборудована.
Надо
вырвать
радость
у грядущих дней.
В этой жизни
помереть
не трудно.
Сделать жизнь
значительно трудней.

[1926]

Notas do tradutor Daniel Fresnot:
* O poeta Sierguéi Iessiênin (1895—1925) suicidou-se num quarto do hotel Inglaterra em Leningrado (atual São Petersburgo). Escreveu com seu próprio sangue um poema cujos últimos versos foram traduzidos por:
Morrer não é novidade nesta vida
Mas viver, com certeza, não é mais novo.
1. Alusão a um slogan da época sobre a “ligação com as massas da cidade e do campo”.
2. Bebida russa não alcoólica.
3. Sentinela: revista dos escritores proletários.
4. Ivan Doronine (19001978): poeta soviético.
5. Leonid Sobinov (18721934): tenor que interpretou Lohengrin na ópera de Wagner.
6. Piotr Kogan (18721932): crítico literário.
____________________
Maiakóvski — Vida e Poesia: Tradução dos poemas por Emilio Carrera Guerra e Daniel Fresnot, Introdução de Francis Combes (traduzida do francês por Sebastião Paz) e Autobiografia ‘Eu mesmo’ traduzida do francês por Nicole A. Vilhena, Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”, volume 248, 2ª reimpressão, 2013, Editora Martin Claret, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique e teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; em Moscou, ingressou na Escola de Belas Artes e fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo; ao serem expulsos da Escola, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou, com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), A propósito disto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plena Voz (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publica Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.