
____________________
Bapo era a água, o rio, a chuva, o fiozinho cristalino que fluía no
tanque do fundo da chácara, quase um pequeno lago de margens recobertas de
musgo. Se, de manhã cedo, passeando no jardim, via o orvalho brilhando nos
tinhorões, largava a mão da empregada, corria para eles, desajeitado, os braços
tentando o equilíbrio dos passos inseguros. Possivelmente, idealizava coisas
durante o percurso, porque ia de testa enrugada, compenetrado, martelando
monossílabos incompreensíveis. Puxava as folhas carnudas, sacudia-as
violentamente e as gotas lhe borrifavam o rosto, entrecortando-lhe em arrepios
a respiração, já de si ofegante do esforço e da alegria da descoberta sempre
renovada. Um repelão mais forte largava-lhe nos dedos inábeis pedaços de
folhas. Esmagava-as, meticuloso. Examinava-as, atento, procurando as gotas
irisadas que haviam fugido. Então, num sorriso meio de desdém, meio de
desaponto, indagava da criada:
— Bapo?
— É água, sim, mas larga isso aí. Você está se molhando
todo.
Não percebia a censura inútil. Olhava outra vez para os tinhorões,
olhava para a ama e confirmava, gravemente:
— Bapo!
Era como se dissesse: “Está vendo como eu já conheço as coisas?”
Um dia, ganhou um peixinho de cauda com véu ondulante. Jogaram-no no
tanque. E Bapo ficou sendo também aquele pequeno e vivo ludião vermelho.
Era um desses peixinhos lindos de aquário, habituados à transparência de
sua bola de cristal. Esta, agora vazia e empeirada, estava num canto da sala,
pois tiveram medo de que algum gesto estouvado das crianças a derrubasse,
molhando tudo, estragando os móveis e os tapetes. Só isso preocupava. Não
pensavam que Bapo também poderia morrer. Passando-o, assim, para o tanque, acabaram-se
para ele as coisas coloridas e familiares que via através da lente deformadora
de seu aquário. Acabou-se a areia fina e clara do fundo, onde se deitava, morta
e decorativa, uma minúscula estrela-do-mar. Que mundo escuro e feio, aquele
onde o atiraram! Esbarrava nas paredes de lodo e, deste, partículas em
suspensão entravam-lhe na boca, que as expelia em seu constante movimento de
fole. O menino ria:
— Papá?
— Bapo está com fome, sim.
Joga um pedacinho de pão para ele.
As migalhas caíam em chuva na
superfície da água e Bapo, assustado, escondia-se sob as folhas das ninfeias,
enquanto um cardume de barrigudinhos vorazes disputavam os fragmentos de pão
que flutuavam um momento e logo desciam, levíssimos, pontilhando de branco o
fundo do lago.
De tarde, vinha não se sabe
donde, aparecia, encarapitada numa pedra da margem, uma sapa gorda com um
sapinho colado às costas. Não fosse o latejar constante do papo, que
gargarejava de tempo em tempo um soído rouquenho, e a gente diria que eram bichos
de louça. O sapo velho rondava, escondido nas folhagens e, às vezes, como que
desatado por uma mola, caía, de um pulo, na água e, em pernadas de nadador,
atravessava para o outro lado do tanque. Bapo, medroso, se esgueirava para o
emaranhado de hastes e raízes.
Passava dias sumido. Ninguém
mais se lembrava de vê-lo ou de jogar-lhe comida. Só o menino insistia no seu
amor pelo peixinho e ousava avançar mais perto da água para descobri-lo. A
empregada repreendia-o e afastava-o para longe. Ele teimava:
— Bapo!
— Bapo foi-se embora. Não
chega lá, não. Você está ficando muito levado!
E o menino repetia, fazendo
com as mãozinhas um gesto desolado:
— Foi bó!
Arisco, mal sentia um vento
mais leve encrespando o lago, Bapo refugiava-se. E só a cauda, seda esgarçada,
permanecia de fora, debaixo de alguma folha.
Um dia, numa manhã de julho,
sentiu que não podia locomover-se. Era como se a água houvesse virado um bloco
de gelo, prendendo-o. Tudo tão frio, tão escuro! Mais escuro pela cerração que
cobria a superfície do tanque. O corpo perdera a flexibilidade e só a custo se
contraía sem direção. Era uma pequena alga que as águas levassem. Recurvara-se
em “s”, sinuoso e hirto.
Certa tarde — quanto tempo
depois? —, deram com ele engastalhado no talo de uma ninfeia, como uma flor
vermelha. As guelras batiam, ritmando o incessante abrir e fechar da boca. De
vez em quando, buscava libertar-se em contrações bruscas e inúteis.
Desvencilharam-no com um
pedaço de pau e puxaram-no para a margem, como uma coisa, como um papel
amarrotado que estivesse boiando no tanque. Algumas escamas haviam perdido os
reflexos dourados e esfiapavam, formando manchas maceradas. Talvez o tivesse
bicado algum bicho ou, então, se houvesse ferido nas bordas ásperas de cimento.
Talvez também que, indefeso e doente, o houvessem beliscado outros peixes.
Quando o agarraram, ainda
tentou fugir às mãos, que o seguravam e que, rápidas, o tiraram fora d’água,
ligando-o entre duas talas de madeira. Bapo chiava convulsamente:
— Fiu! Fiu! Fiu!
O menino, aflito, apontava
para o pobre corpo ferido e aleijado:
— Dodói! Dodói!
Soltaram-no de novo. E Bapo
foi descendo lentamente, lentamente, como um esquifezinho, até mergulhar no
lodo a pequenina cabeça vermelha.
Quando o tiraram dali, estava
morto.
Marginais do Pomba [diversas autorias], contos, crônicas & etc., Apresentação
de Ronaldo Werneck, 1ª edição, Fundação Cultural Francisco Inácio Peixoto, 1985,
Reproarte, Cataguases — MG; Francisco Inácio Peixoto (1909 — 1986),
mineiro e cataguasense, fez os estudos iniciais no antigo Ginásio de
Cataguases, tendo ingressado na Faculdade de Direito de Belo Horizonte,
transferiu-se para o Rio de Janeiro e se formou na Faculdade Nacional de
Direito (atual Faculdade de Direito — UFRJ), foi industrial, fazendeiro,
contista, cronista, romancista e poeta; financiador e incentivador de
importantes manifestações culturais de Cataguases, foi um dos integrantes do
Grupo Verde, com participação na criação da modernista revista Verde; por
alguns anos, exerceu a profissão de advogado no Rio; depois, de retorno a
Cataguases, Francisco Inácio Peixoto tornou-se o responsável direto pelo
surgimento de obras arquitetônicas modernistas na cidade, entre as quais a do
Colégio Cataguases, em projeto de Oscar Niemeyer, construção iniciada após a
aquisição do antigo ginásio onde Francisco Inácio estudara; a partir daí,
outras experiências modernistas inundaram a cidade: a construção da própria residência
do poeta, também projetada por Niemeyer, a construção de jardins projetados pelo
paisagista Burle Marx, esculturas de Jan Zach, azulejos de Anísio Medeiros e de
Djanira surgiram no centro da cidade, painéis e quadros de Portinari, móveis desenhados
por Joaquim Tenreiro; Francisco Inácio também foi o criador responsável pela formação
de dois museus no prédio do novo Colégio: o Museu de Belas Artes e o Museu de Arte
Popular, o primeiro do gênero no Brasil; o escritor e poeta teve contos traduzidos
para o espanhol e participou de antologias literárias em Portugal e na Argentina;
suas obras: Meia-Pataca (poemas, em conjunto com Guilhermino César, 1928), Dona
Flor (contos, 1940), Passaporte proibido (crônica de viagem à URSS e Tchecoslováquia,
1960), A janela (contos, 1967), Erótica (poemas, com desenhos de Aldary Toledo,
1981), Chamada geral (reunião de contos e inéditos, 1982), deixando-nos, inéditos,
“um livro de poemas, Sucata, e uma coleção de documentos (cartas, principalmente)
que contam uma parte importante da história do Modernismo brasileiro”, além da revista
Verde; traduziu Oblomov (romance do escritor russo Ivan [Alexándrovitch] Gontcharov,
1966) ...