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terça-feira, 24 de outubro de 2023

Thomas Macaulay: A morte moço (1)


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[traduzido por Renato Janine Ribeiro]

A meu Rei legítimo, imaculadas ofertei
Coragem e fé; vã fé, e coragem vã
Por ele terras, honras, riqueza larguei,
E uma cara esperança, mais preciosa que tudo.
Por ele enlanguesci em clima estrangeiro
E de pesar encaneci os cabelos na força da idade;
Ouvi em Lavernia o murmúrio das árvores de Scargill,
Junto ao Arno suspirei pelo meu Tees, mais belo;
Noite após noite avistei meu lar, em sono febril,
Passando, toda manhã, do sonho ao choro;
‘Té que Deus, de ver tão severa provação,
Me deu o repouso ansiado, a morte moço.
Ó tu, que a esta pedra sem nome o acaso traz
Da altiva terra que em tempos foi minha,
Pelas brancas falésias que nunca hei de rever
Pela querida língua que falei como tu,
Esquece todo ódio, e verte uma lágrima inglesa
Sob pó inglês. Um coração partido aqui jaz.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 13.03.83

Thomas Macaulay

Epitaph on a Jacobite

To my true king I offered free from stain
Courage and faith; vain faith, and courage vain.
For him, I threw lands, honours, wealth, away.
And one dear hope, that was more prized than they.
For him I languished in a foreign clime,
Grey-haired with sorrow in my manhood’s prime;
Heard on Lavernia Scargill’s whispering trees,
And pined by Arno for my lovelier Tees;
Beheld each night my home in fevered sleep,
Each morning started from the dream to weep;
Till God who saw me tried too sorely, gave
The resting place I asked, an early grave.
Oh thou, whom chance leads to this nameless stone,
From that proud country which was once mine own,
By those white cliffs I never more must see,
By that dear language which I spake like thee,
Forget all feuds, and shed one English tear
O’er English dust. A broken heart lies here.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Thomas Babington Macaulay, Lord Macaulay (1800  1859), inglês de Rothley Temple, distrito de Charnwood, Leicesterchire, educado em escola de Hertfordshire e, depois, no Trinity College, em Cambridge, foi político, historiador, ensaísta e poeta; como membro do Parlamento, exerceu funções políticas na Índia; em 1838, de retorno à Inglaterra, tornou-se deputado, recebeu a nomeação para Secretário de Guerra, e também foi eleito reitor da Universidade de Gasglow; suas obras: Works by Thomas Babington Macaulay, Lays of Ancient Rome (quatro poemas históricos, 1842), Critical and Historical Essays (coletânea editada em 1843, textos originalmente publicados na Edinburgh Review), The History of England from the Acession of James II (História da Inglaterra, 4 volumes publicados integralmente, e um quinto volume, incompleto), Social and Industrial Capacities of the Negroes; enquanto estudou em Cambridge, não tomou contato com a literatura clássica, só vindo a conhecê-la através de leituras quando já estava a trabalho na Índia; foi também sozinho que aprendeu os idiomas alemão, holandês e espanhol; era fluente em francês.

sábado, 8 de julho de 2023

William Shakespeare: A morte muda


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[traduzido por Renato Janine Ribeiro]

Thomas Mowbray, Duque de Norfolk, acaba de ser sentenciado pelo rei ao desterro perpétuo.

Pesada é a pena, Senhor meu suserano,
E tão inesperada na boca de Vossa Alteza!
Melhor recompensa, que a profunda mutilação
De ver-me exposto ao ar vago do mundo.
Merecera eu das mãos de Vossa Alteza.
A fala que aprendi estes quarenta anos
O meu inglês nativo, devo agora abjurar,
E minha língua só me valerá
De viola ou harpa sem cordas,
Ou será como sutil instrumento em sua caixa guardado,
E, se aberto, tomado em mãos
De quem com sua harmonia não sabe atinar.
Em minha boca foi trancafiada a língua,
Sob dupla trava, de lábios e dentes;
E Ignorância  aborrecida, insensível, estéril 
Cuidará de mim feito carcereira.
Sou velho demais, para uma babá afagar,
Avançado em anos, para tornar a aluno.
Que é tua sentença, sendo muda morte
Que rouba à minha língua o seu ar nativo?

(do Ato 1, cena 3, de “Ricardo 2º”)

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 13.03.83

William Shakespeare

A heavy sentence, my most sovereign liege,
And all unlook'd for from your highness' mouth:
A dearer merit, not so deep a maim
As to be cast forth in the common air,
Have I deserved at your highness' hands.
The language I have learn'd these forty years,
My native English, now I must forego:
And now my tongue's use is to me no more
Than an unstringed viol or a harp,
Or like a cunning instrument cased up,
Or, being open, put into his hands
That knows no touch to tune the harmony:
Within my mouth you have engaol'd my tongue,
Doubly portcullis'd with my teeth and lips;
And dull unfeeling barren ignorance
Is made my gaoler to attend on me.
I am too old to fawn upon a nurse,
Too far in years to be a pupil now:
What is thy sentence then but speechless death,
Which robs my tongue from breathing native breath?

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Shakespeare (1564 1616), nascido em Stratford-upon-Avon, poeta e dramaturgo inglês, é tido como o mais influente dramaturgo do mundo; de Shakespeare, consta que restaram até nossos dias 38 peças, 3154 sonetos, dois longos poemas narrativos e diversos outros poemas; suas peças foram traduzidas para os principais idiomas do globo e são revisitadas e interpretadas frequentemente pelo teatro, televisão, cinema e literatura que o digam Romeu e Julieta e Hamlet, por exemplo; principais obras: escreveu comédias (Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, A Comédia de Erros, A Megera Domada, A Tempestade, Cimbelino, e tantas outras), tragédias (Tito Andrônico, Romeu e Julieta, Júlio César, Macbeth, Coriolano, Rei Lear, Otelo — O Mouro de Veneza, Hamlet etc.), dramas históricos (Rei João, Ricardo II, Ricardo III, Henrique IV — partes 1 e 2, Henrique V, Henrique VI — partes 1, 2 e 3, Henrique VIII e Eduardo III).

domingo, 12 de dezembro de 2010

De homens e de deuses... (2)

Reproduzo texto da Folha de São Paulo (23.12.2006) no qual o pensador e articulista Renato Janine Ribeiro tece seus comentários a respeito da frase "Se Deus não existe, tudo é permitido" contida no romance "Irmãos Karamazov" de Fiódor Dostoiévski. Com um clique no título acima, entra-se em contato com um outro texto de um outro articulista sobre o mesmo assunto aqui abordado.
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Folha de São Paulo - São Paulo, sábado, 23 de dezembro de 2006

TENDÊNCIAS/DEBATES

"Se Deus não existe, tudo é permitido"? ("Irmãos Karamazov", Fiódor Dostoiévski)
NÃO

Uma ética humana
RENATO JANINE RIBEIRO

A FRASE , acima convertida em pergunta, é do século 19, mas a resposta "não" a ela somente se torna possível no século 18. Parece um paradoxo, mas me explico. Até o tempo das "Luzes", a esmagadora maioria dos pensadores ocidentais concordaria com o enunciado devido a Dostoiévski, isto é, com a idéia de que o ateu é imoral. Quem não acredita no Criador não seria capaz de respeitar nenhuma regra ética.
Assim, por volta de 1650, o bispo anglicano John Bramhall, um dos críticos mais ásperos do inglês Thomas Hobbes (que, por sinal, não era ateu), acusa o filósofo de não crer em Deus: "Hobbes acaba com o céu", diz ele, "e, pior: com o inferno".
Gosto muito desse "pior", que dá a chave do enigma. A acusação de ateísmo na verdade oculta o que realmente importa. O problema, para o fiel Bramhall, não é tanto se o céu existe. É que precisa haver um inferno, para que a multidão parva obedeça. Anos depois, quando o libertino conde Rochester agoniza, o pastor o convence, no leito de morte, a dizer-se arrependido. O conde não crê em Deus, mas é persuadido pelo argumento de que, se um grande do reino morrer sem os sacramentos, o populacho não será mais contido pelo medo do inferno.
Com as "Luzes", isso muda. A idéia de que, para ser moral, seria preciso acreditar em Deus (isto é, no Deus que amedronta, que pune: o Deus do inferno) é contestada em nome de uma ética humana, que possa valer mesmo sem o medo do castigo eterno.
Talvez seja Kant quem deu o passo decisivo para tanto, quando formulou um princípio cujo legado pode ser assim simplificado: a cada ação que cometo, estou reconhecendo o direito (ou o dever) de todo ser humano a também cometê-la.
Isso -que em "kantês" significa cada ser humano se tornar legislador ético- implica que, se desobedeço aos sinais de trânsito, se procuro levar vantagem em tudo, confiro a todos os meus semelhantes os mesmos direitos. Ora, é óbvio que, assim, o convívio social seria impossível. Provavelmente, teremos vidas sórdidas, sofridas, cruéis e curtas se agirmos dessa maneira. Por conseguinte, a cada ação que eu pratique, devo refletir muito bem se quero autorizar todos os outros a praticá-la. Se sim, ótimo. Se não, devo rever minha posição.
A partir dessa teoria, que resumi em linguagem que já não é kantiana, fica possível uma ética somente dos humanos entre si. Não é mais imprescindível a Revelação, menos ainda a punição por toda a eternidade. O conteúdo dos mandamentos não depende mais de Deus. Pode ser constituído em nosso próprio mundo. A moral e a ética deixam de apelar a uma transcendência, ao poder do Altíssimo, e se constroem neste mundo imanente, o nosso, o único que conhecemos.
Não quer dizer que essa idéia de uma ética sem o medo a Deus se tenha tornado unanimidade. Muitos ainda acham que Deus é necessário para explicar o que é certo e errado (nós não seríamos capazes disso) ou para punir quem se desvie do bom caminho (idem, ibidem). Mas, se hoje a conduta ética dos ateus ou indiferentes não tem nada a dever à dos religiosos e sobretudo à dos intolerantes, é porque essa tese moderna de uma ética humana tem valor e validade.
É importante concluir com duas notas. A primeira é que uma ética assim inspirada em Kant (mas que altera algumas de suas teses) é capaz de evoluir. No século 18, possivelmente ela admitiria a pena de morte; hoje, provavelmente, não. Muitas questões ficam em aberto, como aborto e eutanásia. O crucial é a forma da escolha ética (que cada um seja desafiado a enunciar seus valores, sob a condição de reconhecê-los como universais ou, pelo menos, recíprocos), mais que um conteúdo fixado de vez por todas.
A segunda e curiosa conclusão é que uma ética assim humana não é necessariamente atéia. Posso ou não acreditar em Deus, mas eu ser ou não ético deixa de estar subordinado ao medo de um Deus assustador. Uns serão éticos, mesmo não acreditando n'Ele. Por sua vez, outros cultuarão um Deus da justiça e do amor, mais que da repressão e do castigo. A crença em Deus ganha, em vez de perder, quando Ele corta o vínculo preferencial com o inferno e o medo.


RENATO JANINE RIBEIRO, 57, é professor titular de ética e filosofia política da USP. É autor, entre outros livros, de "Ética na Política" (Sesc) e de "A Sociedade contra o Social" (Cia. das Letras).