sábado, 31 de janeiro de 2026

Pablo Neruda: Enigma para intranquilos

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[traduzido por Olga Savary]

Pelos dias do ano que virá
encontrarei uma hora diferente,
uma hora de cabelos em catarata,
uma hora nunca mais transcorrida,
como se o tempo se rompesse ali
e abrisse uma janela: um buraco
por onde deslizar-nos até o fundo.

Bom, aquele dia com aquela hora
chegará e deixará tudo mudado:
não se saberá jamais se ontem foi-se
ou o que volta é o que não se passou.

Quando do relógio cair uma hora
ao solo, sem que ninguém a recolha,
e ao fim tenhamos amarrado o tempo,
ai! saberemos por fim onde começam
ou onde terminam os destinos,
porque no trecho morto ou apagado
veremos a matéria das horas
como se vê a pata de um inseto.

E disporemos de um poder satânico:
voltar atrás ou acelerar as horas,
chegar ao nascimento ou à morte
com um motor roubado ao infinito.

Pablo Neruda

Enigma para intranquilos

Por los días del año que vendrá
encontraré una hora diferente:
una hora de pelo catarata,
una hora ya nunca transcurrida:
como si el tiempo se rompiera allí
y abriera una ventana: un agujero
por donde deslizarnos hacia el fondo.

Bueno, aquel día con la hora aquella
llegará y dejará todo cambiado:
no se sabrá ya más si ayer se fue
o lo que vuelve es lo que no pasó.

Cuando de aquel reloj caiga una hora
al suelo, sin que nadie la recoja,
y al fin tengamos amarrado el tiempo,
ay! sabremos por fin dónde comienzan
o dónde se terminan los destinos,
porque en el trozo muerto o apagado
veremos la materia de las horas
como se ve la pata de un insecto.

Y dispondremos de un poder satánico:
volver atrás o acelerar las horas:
llegar al nacimiento o a la muerte
con un motor robado al infinito.
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Pablo Neruda: O coração amarelo, Tradução de Olga Savary, Edição Bilíngue, Volume 359, Coleção L&PM Pocket, reimpressão em agosto de 2022, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; conhecido e reconhecido pelo pseudônimo, Pablo Neruda (1904 1973), nascido Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto, chileno de Parral, estudou Pedagogia e Francês na Universidade do Chile, foi diplomata e poeta; aos treze anos começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña; em 1920, já como Pablo Neruda, publicou poemas no  periódico literário Selva Austral; considerado um dos mais importantes poetas de língua castelhana do século XX, escreveu e publicou Crepusculario (1923), Veinte poemas de amor y una canción desesperada (1924), Tentativa del hombre infinito (1926), El habitante y su esperanza (novela, 1926), Canto general (1950), Los versos del Capitán (1952), Todo el amor (1953), Estravagario (1958), Cien sonetos de amor (1959), Cantos ceremoniales (1961), La Barcarola (1967), Las manos del día (1968), Fin del mundo (1969), Maremoto (1970), La espada escendida (1970) Confieso que he vivido — Memorias (1977) e outros títulos; Neruda, ao morrer, deixou-nos oito livros inéditos de poesia, “escritos quase simultaneamente”: este O coração amarelo (El corazón amarillo), além de Livro das perguntas (Libro de las preguntas), Elegia (Elegía), A Rosa separada (La rosa separada), Jardim de Inverno (Jardin de invierno), 2000, O mar e os sinos (El mar y las campañas) e Defeitos escolhidos (Defectos escogidos), todos publicados pela L&PM e com traduções feitas por poetas brasileiros; foi laureado com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile (1945), Prêmio Lênin da Paz (1953) e Prêmio Nobel de Literatura (1971); como diplomata do governo chileno, viveu em Burma, Ceilão, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Hermes Fontes: Perfeição

 
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Tanto esforço perdido em ser perfeito!
Em ser superno, tanto esforço vão!
Sonho efêmero; acordo e, junto ao leito,
a mesma inércia, a mesma escuridão.

Vejo, através das sombras, um defeito
em cada cousa, e as cousas todas são,
para os meus olhos rútilos de eleito,
prodígios de impureza e imperfeição!

Fico-me, noite a dentro, insone e mudo,
pensando em ti, que dormes, esquecida
do teu amargurado sonhador…

Ah, Mas, se ao menos, imperfeito é tudo,
salve-se, às mil imperfeições da vida,
a humilde perfeição do meu amor!

(Ciclo de Perfeição — 1914)

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Antologia Nacional — coleção de enxertos dos principais escritores [prosadores e poetas] da língua portuguesa do 20º ao 13º século: Seleção, Apresentação e Prefácio da 1ª edição por Fausto Barreto e Carlos de Laet, Prefácio da 25ª edição por Prof. M. Daltro Santos, Introdução gramatical por Fausto Barreto, 36ª edição, 1959, Livraria Francisco Alves, Rio de Janeiro — RJ; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, órfão de mãe ainda criança, aos nove anos seguiu rumo ao Rio de Janeiro, levado pelas mãos de Martinho Garcez [à época senador federal], seu protetor, cursou a Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro [hoje Faculdade de Direito da UERJ-RJ], bacharelou-se, não exerceu a profissão, foi poeta, compositor, jornalista, crítico literário, caricaturista e funcionário público — trabalhou nos Correios e Telégrafos e foi oficial de gabinete do ministro da Viação —; tendo sido um dos fundadores do jornal Estréia (1904), também foi colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, Kosmos, Revista Souza Cruz, entre outros periódicos de sua época; como caricaturista, Hermes Fontes atuou no jornal O Bibliógrafo e também no Tagarela e Brasil Moderno; obras poéticas: Apoteoses (1908), Gênese (1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922), A Fonte da Mata (1930) ...; sua poesia é de estética simbolista; Hermes Fontes “compôs a letra das músicas Luar de Paquetá e À Beira-Mar com música de Freire Junior gravadas por Vicente Celestino e Orlando Silva”, entre outras composições e gravações; na divulgação de seus textos, Hermes Fontes ainda fez uso dos pseudônimos Léo-zito, Leléo, Léo-Fábio, P. Q. Nino, H. F., F. H., Rems, Rins e Roms; o poeta, num processo de depressão, suicidou-se na véspera do Natal de 1930.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

José Martí: Para Aragon em Espanha . . .

 
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[traduzido por Thiago de Mello]

VII.
Para Aragon em Espanha
Tenho no meu coração
Um lugar todo Aragon,
Franco, bravo, fiel, sem sanha.

Se um tolo quiser saber
Porque o tenho, só lhe digo
Que ali tive um bom amigo,
Que ali amei uma mulher.

Ali, na várzea florida,
Da mais heroica defesa,
Para manter o que pensa
A gente se arrisca a vida.

Se um prefeito vem e o aperta
Ou se um rei chucro o ofende,
Põe logo a manta o valente
E morre com a escopeta.

Eu amo a terra amarela
Que banha o Ebro lodoso:
Amo o Pilar azuloso
De Lanuza e de Padilla.

Estimo a quem de um revés
Deita por terra a um tirano.
O estimo se é um cubano,
O estimo se aragonês.

Amo os seus pátios sombrios,
Suas escadas bordadas:
As suas naves caladas
E seus conventos vazios.

Amo essa terra florida,
Muçulmana ou espanhola,
Onde rompeu sua corola
A rosa da minha vida.

(Versos sencillos 1891)

José Martí

Para Aragón, en España, . . .

VII
Para Aragón, en España,
Tengo yo en mi corazón
Un lugar todo Aragón,
Franco, fiero, fiel, sin saña.

Si quiere un tonto saber
Por qué lo tengo, le digo
Que allí tuve un buen amigo,
Que allí quise a una mujer.

Allá, en la vega florida,
La de la heroica defensa,
Por mantener lo que piensa
Juega la gente la vida.

Y si un alcalde lo aprieta
O lo enoja un rey cazurro,
Calza la manta el baturro
Y muere con su escopeta.

Quiero a la tierra amarilla
Que baña el Ebro lodoso:
Quiero el Pilar azuloso
De Lanuza y de Padilla.

Estimo a quien de un revés
Echa por tierra a un tirano:
Lo estimo, si es un cubano;
Lo estimo, si aragonés.

Amo los patios sombrios
Con escaleras bordadas;
Amo las naves caladas
Y los conventos vacíos.

Amo la tierra florida,
Musulmana o española,
Donde rompió su corola
La poca flor de mi vida.

(Versos sencillos 1891)
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Poetas da América de Canto Castelhano [várias autorias]: Introdução, Seleção, Tradução e Notas de Thiago de Mello, e Apresentação de Roberto Fernández Retamar, 1ª edição, 2011, Global Editora, São Paulo — SP; José Julián Martin Pérez ou José Martí (1853 1895), nascido em Havana Cuba, estudou no Instituto de Ensino Secundário de Havana, fez Desenho Elementar na Escola Profissional de Pintura e Escultura, também em Havana, e, tendo sido preso, posteriormente, após comutação da pena em troca de exílio na Espanha, formou-se em Direito, Filosofia e Letras nas universidades de Madri e Zaragoza, foi jornalista, escritor, poeta, filósofo, pensador e político revolucionário cubano; depois de ter passado um período em Paris, Nova Iorque, México e Guatemala, retornou à Cuba e participou da criação do Partido Revolucionário Cubano e da organização da Guerra de [18]95 ou Gerra Necessária; por sua participação político-revolucionária sofreu nova detenção, tendo sido outra vez deportado para a Espanha; escreveu seus primeiros poemas por volta dos quinze anos, o soneto “10 de outubro” entre os quais; teve seus artigos e crônicas publicados no La Opinión Nacional, de Caracas Venezuela, La Nación, de Buenos Aires Argentina, e The Liberal Party, do México; em Caracas, fundou a Revista Venezolana, com duração de apenas dois números; em Nova Iorque, criou e publicou a revista infantil The Golden Age; suas obras: em poesia: Edad de oro (1878-1882), Ismaelillo (1881-1882), Versos sencillos (Versos simples, 1891), Flores del destierro (1878-1895), Versos Libres: 1878 — 1882 (publicados postumamemente, 1913), em prosa e outros: Abdala (drama em 1 ato, em versos octossílabos, 1869), El presidio político en Cuba (ensaio, 1871), La Adúltera (drama em versos octossílabos, 1873), Amor con amor se paga (drama em versos, 1875), Amistad funesta (romance, publicado em fascículos no jornal El Latino Americano, de maio a setembro de 1885), Nuestra América (1891) e outros títulos; o poeta “é considerado o precursor do Modernismo na América Latina, movimento literário que explodiria no continente latino-americano com Rubén Darío [poeta nicaraguense]”; José Martí, com algumas prisões e deportações, viveu boa parte de sua vida no exílio.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Stéphane Mallarmé: A tumba de Edgar Poe


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[traduzido por Augusto de Campos]

Tal que a Si-mesmo enfim a Eternidade o guia,
O Poeta suscita com o gládio erguido
Seu século espantado por não ter sabido
Que nessa estranha voz a morte se insurgia!

Vil sobressalto de hidra ante o anjo que urgia
Um sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio atribu-
Ído à onda sem honra de uma negra orgia.

Do solo e céu hostis, ó mágoa! Se o que escrevo
Idéia e dor não esculpir baixo-relevo
Que ao túmulo de Poe luminescente indique,

Calmo bloco caído de um desastre obscuro.
Que este granito ao menos seja eterno dique
Aos vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.

Stéphane Mallarmé

Le tombeau d'Edgar Poe

Tel qu’en lui-même enfin l’éternité le change,
Le Poète suscite avec un glaive nu
Son siècle épouvanté de n’avoir pas connu
Que la mort triomphait dans cette voix étrange!

Eux, comme un vil sursaut d’hydre oyant jadis l’ange
Donner un sens plus pur aux mots de la tribu
Proclamèrent très haut le sortilège bu
Dans le flot sans honneur de quelque noir mélange.

Du sol et de la nue hostiles, ô grief!
Si notre idée avec ne sculpte un bas-relief
Dont la tombe de Poe éblouissante s’orne,

Calme bloc ici-bas chu d’un désastre obscur,
Que ce granit du moins montre à jamais sa borne
Aux noirs vols du Blasphème épars dans le futur.
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o anticrítico — augusto de campos [poemas do autor e poemas bilíngue, de vários poetas], Texto-apresentação “Antes do Anti”, Traduções e Nota informativade Augusto de Campos, 1986, 1ª reimpressão, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Stéphane Mallarmé (1842 1898) ou Étienne Mallarmé, francês nascido em Paris, foi poeta, tradutor, crítico literário e professor de inglês; considerado como um dos primeiros simbolistas franceses e um dos precursores da poesia concreta, consta que seus primeiros poemas surgiram na década de 1860 e que, como boa parte dos poetas de sua geração, também sofrera influência de Charles Baudelaire; Mallarmé é tido, durante os anos de 1880, como sendo a figura central de um grupo de escritores com quem discutia poesia e arte, entre os quais Paul Valéry, André Gide e Marcel Proust; fundou a revista Última Moda, onde escreveu sobre estética literária, colaborou no jornal Le Parnasse Contemporain e publicou na revista Cosmopolis; escreveu Herodíade (Herodíades, 1869), L'Aprés midi d'un faune (A tarde de um fauno, 1876), Un coup de dés jamais n'abolira le hasard (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso, 1897) e muitos outros textos; traduziu Edgard Allan Poe, W. C. Elphinstone Hope e James Whistler.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Vasko Popa: Não houvesse teus olhos

 
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[traduzido por Aleksandar Jovanović]

Não houvesse teus olhos
Não haveria céu
Em nossa casa cega

Não houvesse teu sorriso
As paredes jamais
Sumiriam dos olhos

Não houvesse teus rouxinóis
Os salgueiros jamais
Transporiam o umbral dócil

Não houvesse tuas mãos
O sol jamais
Pernoitaria em nosso sonho

Vasko Popa

Očiju tvojih da nije

Očiju tvojih da nije
Ne bilo neba
U slepom našem stanu

Smeha tvoga da nema
Zidovi ne bi nikad
Iz očiju nestajali

Slavuja tvojih da nije
Vrbe ne bi nikad
Nežne preko praga prešle

Ruku tvojih da nije
Sunce ne bi nikad
U snu našem prenoćilo
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Poesia Iugoslava Contemporânea (Sérvia) — [36 poetas], edição bilíngue, texto A Poesia Contemporânea da Sérvia  suas raízes e seus significados, por Jovan Pejčić, Prefácio, Tradução e Notas de Aleksandar Jovanović, 1987, Editora Meca São Paulo — SP; Vasko Popa (1922 1991), nascido na vila de Grebenac, região de Vojvodina, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois, Reino da Iugoslávia, hoje Sérvia), após concluir o ensino médio, matriculou-se em Filosofia na Universidade de Belgrado, continuou seus estudos na Universidade de Bucareste Romênia e na de Viena Áustria, foi poeta, escritor, tradutor e editor; na 2ª Guerra mundial, unido a um grupo de partisans (guerrilheiros), lutou contra a invasão nazista, foi capturado e enviado a um campo de concentração em Zrenjanin; finda a guerra, Vasko Popa formou-se no grupo românico da mesma Faculdade de Filosofia da Universidade de Belgrado e tornou-se editor da revista literária Nolit, também em Belgrado; teve seus primeiros poemas publicados na Književne novine (Revista Literária) e no diário Borba (Luta); traduziu Ficciones, de Jorge Luis Borges, uma das primeiras traduções do ficcionista e poeta argentino na Europa; suas obras: Casca (Kora, 1953), O Campo do Desassossego (Nepočin polje, 1956), Paracéu (Sporedno Nebo, 1968), A Terra Ereta (Uspravna Zemlja, 1972), Sal Lupino (Vučja so, 1975), Carne Viva (Živo meso, 1975), A Casa no Meio do Caminho (Kuća nasred druma, 1975), Corte (Rez, 1981) ...; em 1985, publicou-se em castelhano a primeira edição de poemas de Vasko Popa; foi eleito membro da Academia Sérvia de Ciências e Artes e também foi um dos fundadores da Academia de Ciências e Artes de Vojvodina; recebeu premiações por sua obra.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

joaquim da silva: nanocontos 6, 7, 8, 9 & 10

 
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6.
oriundo das trevas olimbo quis viver na sombra aluz lhe ofuscava
notempo quem sabe um dia se acostumasse à claridade
apesquisa porém foi peremptória: viver para olimbo nunca foi utopia

7.
agulha já havia encontrado
faltava o camelo escondido no monte de feno

8.
médico de plantão verte antídoto em mercado doentio
avia placebo pra males sem remédio

9.
assou castanhas na brasa
usou camaleão pra pinçá-las do fogo
ronron andava fugido

10.
em tom amarelo tomatinho quis virar vermelho consumiu muito adubo e foi devorado por ativista ecovegano

[são paulo, janeiro de 2026]
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joaquim da silva, p. da silva e outros silva, além de genésio dos santos, são uma só pessoa e um só nanocontista.

Gilberto Mendonça Teles: Os pós modernos

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A Tereza Callado

Entrar nalgum jardim, ser o que se sabe
granular a romã ou qualquer fruta:
não desistir jamais se o amor não cabe
na forma absoluta.

Percorrer os espaços, na ruptura
da linha só visível quando eterna,
para gozar a estranha arquitetura
da coisa pós-moderna.

Também o cotidiano é velho e novo
e a ponta do prazer tem seus venenos:
é preciso tatear no estilo ab ovo,
as curvas dos terrenos:

O importante é fingir os quiproquós
e transformar o corpo em ready-made:
ser um pinguim descongelando os pós
do tempo na parede.

Mergulhado no tédio ou no intervalo,
sem a continuidade dos infernos,
o vício da poesia dói no calo
de tantos pós modernos.

o pó-de-mico e seu fuxico
o pó-de-traque e seu sotaque
o pó-de-goma e seu idioma
o pó-de-arroz e seu depois
e além do estratagema
a droga do poema.

E sair do jardim, homem que trinca
a pele da palavra numa gruta
sabendo que a beleza mais longínqua
é sempre devoluta.

(Álibis — 2001), em Hora Aberta.
Poemas Reunidos (4ª edição, 2003)

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Gilberto Mendonça Teles — Coleção Melhores Poemas, Seleção e Introdução de Luiz Busatto, 2007, Global Editora, São Paulo — SP; Gilberto Mendonça Teles (1931 2024), goiano de Bela Vista de Goiás, formou-se em Direito e Letras Neolatinas pelas UFG e UCG (universidades Federal e Católica de Goiás) e doutorou-se em Língua Portuguesa pela Universidade de Coimbra Portugal, foi professor universitário, poeta, ensaísta e crítico literário; lecionou Literatura Brasileira em universidades no exterior (Uruguai, Portugal, França [Rennes e Nantes], Estados Unidos [Chicago], e Espanha [Salamanca]), escreveu e publicou mais de 50 títulos em poesia, ensaios e crítica; suas obras: poesias: Alvorada (1955), Estrela d'Alva (1956), Fábula de Fogo (1961), Pássaro de Pedra (1962), Sonetos do Azul sem Tempo (1964), Sintaxe Invisível (1967), A Raiz da Fala (1972), Arte de Armar (1977), Plural de Nuvens (1984), Hora Aberta (3ª edição aumentada de Poemas Reunidos [1ª edição em 1978] + outros textos, partituras de poemas musicados, gravuras de capas dos livros anteriores, 1986), Álibis (2001), ensaios e críticas: Goiás e Literatura — A Poesia de Leo Lynce e o sentido simbolista da obra poética de Erico Curado (1964), A Poesia em Goiás (1964), O Conto Brasileiro em Goiás (1969), Drummond — A Estilística da Repetição (1970), Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro (1972 e 1976 edição revista e aumentada), Camões e a Poesia Brasileira (1973), Retórica do Silêncio (1979), Estudos de Poesia Brasileira (1985), A Escrituração da Escrita (1996), Contramargem (2002) e outros títulos em verso, prosa e poesia visual, edições e reedições; Gilberto Mendonça Teles foi múltiplas vezes premiado por sua atividade literária, entre os quais o Prêmio Silvio Romero (da ABL Academia Brasileira de Letras, por Drummond — A Estilística da Repetição, 1970), Prêmio Olavo Bilac (da ABL, por A Raiz da Fala, obra então inédita, 1971), Prêmio Machado de Assis (da ABL, por Hora Aberta — 3ª edição aumentada... e pelo conjunto da obra, 1989), Troféu Juca Pato (da UBE União Brasileira dos Escritores [patrocinado pela Folha de São Paulo], Intelectual do Ano, por Contramargem, 2002), etc., e foi reconhecido também fora do país, com obras vertidas para outras línguas e publicadas no exterior.

domingo, 25 de janeiro de 2026

José Régio: Cancão cruel

 
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(O Amor e a Morte)

Corpo de ânsia.
Eu sonhei que te prostrava,
E te enleava
Aos meus músculos!

Olhos de êxtase,
Eu sonhei que em vós bebia
Melancolia
De há séculos!

Boca sôfrega,
Rosa brava,
Eu sonhei que te esfolhava
Pétala a pétala!

Seios rígidos,
Eu sonhei que vos mordia
Até que sentia
Vómitos!

Ventre de mármore,
Eu sonhei que te sugava,
E esgotava
Como a um cálice!

Pernas de estátua,
Eu sonhei que vos abria,
Na fantasia,
Como pórticos!

Pés de sílfide,
Eu sonhei que vos queimava
Na lava
Destas mãos ávidas!

Corpo de ânsia,
Flor de volúpia sem lei!
Não te apagues, sonho! mata-me
Como eu sonhei.

[Poemas de Deus e do Diabo — 1925]
(Filho do Homem — 1961)

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Poesia portuguesa contemporânea [várias autorias] — Seleção de autorias, Organização, Nota inicial e Traços biobibliográficos por Carlos Nejar, 1982, Massao Ohno & Roswitha Kempf Editores, São Paulo — SP; José Régio, pseudônimo de José Maria dos Reis Pereira (1901 1969), português de Vila do Conde, fez seus primeiros estudos no liceu da cidade natal, formado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, foi escritor, poeta, professor, dramaturgo, romancista, contista, ensaísta, memorialista, epistológrafo, historiador de literatura, editor e diretor de revista; ainda jovem, publicou seus primeiros poemas nos jornais vilacondenses A República e O Democrático; em sua trajetória literária colaborou com seus textos nas revistas portuenses Crisálida e A Nossa Revista e nas coimbrãs Bisâncio e Tríptico, além de em outros periódicos “nacionais, ultramarinos, regionais e locais”, revista luso-brasileira Atlântico entre os quais; foi co-fundador da revista Presença, na companhia de João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca; lecionou no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, e no Liceu de Portalegre, no qual veio a se aposentar; suas obras: em poesia: Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As Encruzilhadas de Deus (1936), Fado (1941), A Chaga do Lado (1954), Filho do Homem (1961), Cântico Suspenso (1968), ... em prosa: Jogo da Cabra Cega (romance, 1934), O Príncipe com Orelhas de Burro (romance, 1942), A Velha Casa I — Uma gota de sangue (romance, 1945), depois vieram A Velha Casa II, III, IV e V, de 1947 a 1966, Histórias de Mulheres (novelas, 1946), Há Mais Mundos (contos, 1962), Ensaios de Interpretação Crítica (1964), Três Ensaios sobre Arte (1967), ... para teatro: Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem Maria (1947), El-Rei Sebastião (1949), ... e outros textos, parte deles em edição póstuma, tais como epistolografias e memória; José Régio, além deste seu pseudônimo incorporado em sua biografia, também fez uso dos alterônimos literários João Bensaúde, Pedro Serra e Lelito.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Fernando Pessoa*: Epitáfios** [I, II e III]

 
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[versão em português, por Jorge de Sena]

I
Passamos e sonhamos. Sorri a terra. A virtude é rara.
Idade, o dever, os deuses pesam na cônscia ventura.
Pelo melhor espera e ao pior prepara-te.
A soma da proposta sageza nisto fala.

II
A mim, Cloé, donzela, os poderosos fados deram,
Que era nada para eles, às populosas sombras.
Assim querem os deuses. Duas vezes sete eram só meus anos.
Jazo esquecida em meus prados distantes.

III
Da minha “vila” no alto longamente olhei
A murmurante urbe;
Depois, um dia a toga (farto de vista vida, solta a torpe esperança)
Passei sobre a cabeça
(O mais simples gesto sendo a maior coisa)
Qual fora uma asa erguida.

Fernando Pessoa

Inscriptions [I, II and III]

I
We pass and dream. Earth smiles. Virtue is rare.
Age, duty, gods weigh on our conscious bliss.
Hope for the best and for the worst prepare.
The sum of purposed wisdom speaks in this.

II
Me, Chloe, a maid, the mighty fates have given,
Who was nought to them, to the peopled shades.
Thus the gods will. My years were but twice seven.
I am forgotten in my distant glades.

III
From my villa on the hill I long looked down
Upon the muttering town;
Then one day drew (life sight-sick, dull hope shed)
My toga o'er my head
(The simplest gesture being the greatest thing)
Like a raised wing.

Notas:
* do blogue Verso e Conversa: acerca do Fernando Pessoa “britânico”, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Jorge de Sena, tradutor deste Poemas Ingleses, escreve na Introdução GeralO heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou”:
          “[ . . . ] Pessoa é, na verdade, e foi sempre, um “naturalizado” numa língua e numa cultura que não recebera na infância e na adolescência, e em que se integrou por actos de inteligência, e também, possivelmente, por não terem tido os seus poemas ingleses a recepção britânica que ele ingenuamente esperava. [ . . . ] e, por outro lado, consolava-o dos limites de ser apenas português, pela ilusão de que ele mesmo decidira “ficar” lá onde as raízes familiares e tradicionais afinal o prendiam (e por isso Álvaro de Campos ou Ricardo Reis viveram no estrangeiro, como não o “ele-mesmo”, Alberto Caieiro, ou o Bernardo Soares, que são projecções e hipóteses diversas do Pessoa que “ficou”).
          Fernando Pessoa partiu para a África do Sul com sete anos e meio, e voltou a Lisboa onde nascera, e para não mais sair dela, nove anos e meio depois, aos dezassete anos, tendo, aos treze, passado um ano em Lisboa e nos Açores. Quer dizer que a sua vida “britânica” durou realmente dois períodos apenas: um de cinco anos e meio de infância e primeira adolescência, e outro de três anos adolescentes, separados por um ano português. E, na britanidade da Colónia do Cabo (que não era ainda a União Sul-Africana de hoje), tinha consigo a sua família, e esta não estava emigrada, mas dependente da eventualidade de um cargo diplomático do chefe dela. [ . . . ]”
** de Jorge de Sena, tradutor e organizador deste Poemas Ingleses, acerca dos Epitáfios:
Usámos, para esta secção, em grande parte, o nosso artigo “Inscriptions, de Fernando Pessoa”, publicado no suplemento literário de O Comércio do Porto, de 9 de Setembro de 1958, e que apresentava as traduções dos catorze poemas, que agora se publicam nesta edição.
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Poemas Ingleses publicados por Fernando Pessoa: Antinous, Inscriptions, Epithalamium, 35 Sonnets e Dispersos, edição bilíngue, Introdução Geral [O heterónimo Fernando Pessoa e os poemas ingleses que publicou], Traduções [para o idioma português], Variantes e Notas de Jorge de Sena, e também Traduções de Adolfo Casais Monteiro e José Blanc de Portugal, 1974, Edições Ática, Lisboa — Portugal; Fernando Antônio Nogueira de Seabra Pessoa (1888 1935), português e lisboeta, considerado um dos maiores poetas da língua portuguesa, foi também escritor, crítico literário, tradutor e editor; fez seus estudos escolares no Convent Scholl, na High School e na Comercial School, todas em Durban África do Sul, onde aprendeu fluentemente o idioma inglês; em 1902, teve publicado no jornal O Imparcial seu primeiro poema: “Quando a dor me amargurar”; no mundo das letras, contribuiu com revistas e jornais da época: A Águia (1912 e 1913), A Renascença (1914), Orpheu (1915), Exílio (1916), Centauro (1916), a revista literária Athena (1924 e 1925), Presença — revista de arte e crítica (Coimbra, 1927, início de colaboração intensa) entre tantos outros veículos de comunicação, alguns criados por ele e outros parceiros do ofício; em sua extensiva produção literária construiu também diversos heterônimos, dos quais os mais famosos e conhecidos são: Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Bernardo Soares; em 1921, criou a editora Olisipo, na qual editou seus English Poems e verteu para o inglês obras de António Botto e de Almada Negreiros; em 1922, seu conto “O Banqueiro Anarquista” foi publicado no primeiro número de Contemporânea — revista de literatura e arte, lisboeta; suas obras: em vida, vieram à luz, em inglês, Antinous (escrita em 1915, publicada em folheto próprio, 1918), 35 Sonnets (1918), English Poems I e II e Ephitalammium ou English Poems III [escrita em 1913], (ambas publicadas em 1921), além de Mensagem (poemas, única obra editada e publicada em português, 1934); traduziu obras de Shakespeare e Edgar Allan Poe para o português; o poeta legou-nos, ainda, uma vida inteira de trabalho inédito e inacabado, com edições póstumas de poemas e outros textos ainda não publicados em livro.