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terça-feira, 18 de agosto de 2026

Eudoro Augusto: Barbarola

 
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Hoje suja
a vida ainda apetece
e um fio de luz imunda me tece
enlaça ao sol meus olhos fechados
vermelhos inchados
ainda boiando no pântano da noite.
O mundo visível. Um clarão terrível
Já em fogo o dia me recebe
com um sopro indiferente.
Com sua horda bárbara de ruídos,
risos, rezas, rosnada realidade.
Penso em vencer a repugnância
e beijar fundo a sua boca aberta.
Penso em navegar pelas margens de sua luz
e outra vez vestir a malha do sono.
Penso em ti. Penso em mim.
Um fragmento de carne pulsante
em forma de coração
coberto de erva e treva.
Luz, alegria: agora tudo apenas
fosca memória tilintante.
Sem mais, comunico com pesar
que o projeto Eudoro Augusto
não é viável neste momento.

[revista Inimigo Rumor
nº 8 (maio/2000)]

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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza (1943 — 2024), português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953, diplomou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB — Universidade de Brasília (Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor, radialista, pesquisador e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações, no Rio, se aproximou do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário; suas obras: Grande Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária, 1968), O Misterioso Ladrão de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia — GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro — RJ), Dia sim Dia não (na parceria de Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília — DF), Poemas (1979), Carnaval e Cabeças (ambos poemas, Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo — SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras, 2001, Rio de Janeiro — RJ), três volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília — DF), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011); recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971); produziu programas de música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta morou e trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Eudoro Augusto: Inscrição & Ana C

 
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Inscrição

Esta primavera
não é flor que se cheire.

(Dia Sim Dia Não [na parceria
de Francisco Alvim] — 1978)

— o —

Ana C *

Outra vez nos braços do amor perdido.
Sempre o declive. Sempre a vertigem.
Às vezes o abismo.
Posso inflar
as velas de outra imagem
e assim navegar teus canais azulados,
minha lúcida amiga.
No céu-da-boca desta manhã
fica apenas um risco:
relâmpago longo como o olhar.
Luz. Outra luz. Louca luz.
O mesmo anjo que beija tua orelha fina
invade o cinema como um vento fictício
e rabisca cicatrizes bem legíveis
no coração deserto do meio-dia.

(O Desejo e o Deserto — 1989)


* Nota-comentário de Manuel da Costa Pinto: “Ana C” [é um poema feito em] homenagem a Ana Cristina César, poeta [carioca] que se suicidou em 1983.
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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas), Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto, 2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza (1943 — 2024), português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953, diplomou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB — Universidade de Brasília (Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor, radialista, pesquisador e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações, no Rio, se aproximou do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário; suas obras: Grande Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária, 1968), O Misterioso Ladrão de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia — GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro — RJ), Dia Sim Dia Não (na parceria de Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília — DF), Poemas (1979), Carnaval e Cabeças (ambos poemas, Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo — SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras, 2001, Rio de Janeiro — RJ), três volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília — DF), A natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011); recebeu o Prêmio Nacional de Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971); produziu programas de música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta morou e trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Eudoro Augusto: Exames — & — O visitante

 
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O visitante

Entra de mansinho encosta a porta
sem pressa mas firme fala
farfala deblatera
aperta e solta mas agarra
força a barra
apronta um ouriço
que é isso? que é isso? e sai de fino.

&

O fio do sonho é apenas um cabelo.
Mas se ele pinta na cabeça
é bom deixá-lo crescer.

Exames

Na terça chegou assobiando
deu bom-dia
e recebeu de cara a novidade:
esquizofrenia.

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB —  Universidade de Brasília, é poeta, jornalista e professor; obras: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia — GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro — RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília — DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo — SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro — RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília — DF); Na década de 70, início de suas publicações, aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.

domingo, 24 de junho de 2018

Eudoro Augusto: Racconto

Resultado de imagem para Antologia 26 Poetas Hoje
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Chegada na festa de olhos vendados
e ninguém se apresenta. Mofamos
no canto calados mas o nariz desperta
(está no ar o perfume do perigo)
muita batida conversa de atropelo
joelho cotovelo
— esse ângulo, amor, é impossível —
poucos reparam na moça porque passa
uma salada, bandeja de palavras raras
com citação clássica em forma de cereja.
Circula a taça, o narguilé, risada fraca
afrouxa o cinto, o colóquio
vira circuito de peitinhos rijos
mas quando se repara já é tarde:
o penetra mordisca o damasco, cospe o caroço
identifica-se. Sou um artista, vou comê-la
e Afrodite quase distraída: por que não?
Eu também sou filha de Zeus.
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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro — RJ; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, é poeta, jornalista e professor, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB — Universidade de Brasília; obra poética: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia — GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro  — RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ),  O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo — SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro —  RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasilia — DF); Na década de 70, início de suas publicações, aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Eudoro Augusto: Mamãe

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Pra mim chega.
Seus cães policiais não vão mais farejar meu jardim
nem sacudir as pulgas no meu tapete voador.
Seu arame farpado não vai mais cercar vaca nenhuma.
Nunca mais vou medir os dias nem as pesadas noites
pela batida de um coração que apodrece.
E vê se não esquece
de retirar os corpos as manchas de sangue
os mapas irregulares que me destinam
a um país ocupado.
Chega de tímpanos estourados
chega de perder os dentes.
Vê se dá um basta nesse fodido medo.
As paredes revestidas
o algodão nos ouvidos
nada disso pode isolar o berro
o ruído animal que arrepia pelos e espinha
gravado em cavernas abismos
gargantas.
Chega de carne moída chega de vida engasgada.
Hoje todo o seu povo
vivos e mortos famintos e doidos raivosos
faz as malas abre as veias
e volta pra casa da mamãe.
Dia sim Dia não (1978)
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Roteiro da Poesia Brasileira — Anos 70, Seleção e Prefácio de Afonso Henriques Neto, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2009, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza, nascido em 1943, português lisboeta e naturalizado brasileiro, é poeta, jornalista e professor, com mestrado em Literatura Brasileira pela UNB — Universidade de Brasília; obra poética: O Misterioso Ladrão de Tenerife (em coautoria com Afonso Henriques Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia — GO), A Vida Alheia (Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro — RJ), Dia sim Dia não (em coautoria com Francisco Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília  DF), Carnaval (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro  — RJ), Cabeças (Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), O Desejo e o Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo —  SP), Olhos de Bandido (7Letras, 2001, Rio de Janeiro — RJ), Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasilia — DF); Na década de 70, início de suas publicações , aproxima-se do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário.