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Hoje suja
a vida ainda apetece
e um fio de luz imunda me tece
enlaça ao sol meus olhos fechados
vermelhos inchados
ainda boiando no pântano da noite.
O mundo visível. Um clarão terrível
Já em fogo o dia me recebe
com um sopro indiferente.
Com sua horda bárbara de ruídos,
risos, rezas, rosnada realidade.
Penso em vencer a repugnância
e beijar fundo a sua boca aberta.
Penso em navegar pelas margens de sua luz
e outra vez vestir a malha do sono.
Penso em ti. Penso em mim.
Um fragmento de carne pulsante
em forma de coração
coberto de erva e treva.
Luz, alegria: agora tudo apenas
fosca memória tilintante.
Sem mais, comunico com pesar
que o projeto Eudoro Augusto
não é viável neste momento.
[revista Inimigo Rumor
nº 8 (maio/2000)]
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Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (70 poetas e 205 poemas),
Organização, Apresentação e Comentários de Manuel da Costa Pinto,
2006, Edições Publifolha, São Paulo — SP; Eudoro Augusto Macieira de Souza
(1943 — 2024), português lisboeta e naturalizado brasileiro desde 1953,
diplomou-se em Letras, fez mestrado em Literatura Brasileira, ambos pela UNB — Universidade
de Brasília (Distrito Federal), foi poeta, cronista, jornalista, professor,
radialista, pesquisador e crítico literário; na década de 70, início de suas publicações,
no Rio, se aproximou do grupo da poesia marginal, assim denominado no meio literário;
suas obras: Grande Sertão-Veredas (crítica, teoria ou história literária,
1968), O Misterioso Ladrão de Tenerife (poemas, em parceria com Afonso Henriques
Neto, Edições Oriente, 1972, Goiânia — GO), Lincoln (biografia, 1973), A Vida Alheia
(Edição do Autor, 1975, Rio de Janeiro — RJ), Dia sim Dia não (na parceria de Francisco
Alvim, Edição dos Autores, 1978, Brasília — DF), Poemas (1979), Carnaval e
Cabeças (ambos poemas, Edição do Autor, 1981, Rio de Janeiro — RJ), O Desejo e o
Deserto (Massao Ohno, 1989, São Paulo — SP), Olhos de Bandido (poemas, 7Letras,
2001, Rio de Janeiro — RJ), três volumes da ‘Trilogia do Sudoeste’, crônicas e
poemas: Um Estrago no Paraíso (Edições do Sudoeste, 2008, Brasília — DF), A
natureza humana (2009) e Noite em Claro (2011); recebeu o Prêmio Nacional de
Poesia, da Fundação Cultural Distrito Federal (1971); produziu programas de
música para a Rádio Câmara, DF; em terras brasileiras, o poeta morou e
trabalhou em São Paulo, no Rio de Janeiro e na Capital Federal.


