Mostrando postagens com marcador Pessanha Póvoa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pessanha Póvoa. Mostrar todas as postagens

domingo, 20 de outubro de 2024

Narcisa Amália: Nebulosas

 
____________________
On donne le nom de Nébuleuses à des taches
blanchâtres que l’on voit ça et lá dans toutes les
partes du ciel.
Delaunay1

No seio majestoso do infinito,
Alvos cisnes do mar da intensidade,
Flutuam tênues sombras fugitivas
Que a multidão supõe densas caligens,
E a ciência reduz a grupos válidos;
Vejo-as surgir à noite, entre os planetas,
Como visões gentis à flux dos sonhos;
E as esferas que curvam-se trementes
Sobre elas desfolhando flores d’ouro,
Roubam-me instantes ao sofrer recôndito!

Costumei-me a sondar-lhe os mistérios
Desde que um dia a flâmula da ideia
Livre, ao sopro do gênio abriu-me o templo
Em que fulgura a inspiração em ondas;
A seguir-lhes no espaço as longas clâmides
Orladas de incendidos meteoros;
E quando da procela o tredo arcanjo
Desdobra n’amplidão as negras asas,
Meu ser pelo teísmo desvairado
Da loucura debruça-se no pélago!

Sim! São elas a mais gentil feitura
Que das mãos do Senhor há resvalado!
Sim! De seus seios na dourada urna,
A piedosa lágrima dos anjos,
Ligeira se converte em astro esplêndido!
No momento em que o mártir do calvário
A cabeça pendeu no infame lenho,
A voz do Criador, em santo arrojo,
No macio frouxel de seus fulgores
Ao céu arrebatou-lhe o calmo espírito!

Mesmo o sol que nas orlas do oriente
Livre campeia e sobre nós desata
A chuva de mil raios luminosos,
Nos lírios siderais de seu regaço
Repousa a fronte e despe a rubra túnica!
No constante volver dos vagos eixos,
Os orbes em parábolas se encurvam
Bebendo alento no seu manso brilho!
E o tapiz movediço do universo
Mais belo ondeia com seus prantos fúlgidos!

E quantos infelizes não olvidam
O horóscopo fatal de horrenda sorte,
Se no correr das auras vespertinas
Seus seres vão pousar-lhes sobre a coma,
Que as madeixas enastram do crepúsculo!
Quanta rosa de amor não abre o cálix
Ao bafejo inefável das quimeras
No coração temente da donzela,
Que, da lua ao clarão dourando as cismas,
Lhes segue os rastros na cerúlea abóbada!...

Um dia no meu peito o desalento
Cravou sangrenta garra; trevas densas
Nublaram-me o horizonte, onde brilhava
A matutina estrela do futuro.
De descrença senti os frios ósculos;
Mas no horror do abandono alçando os olhos
Com tímida oração ao céu piedoso,
Eu vi que elas, do chão do firmamento,
Brotavam em lucíferos corimbos
Enlaçando-me o busto em raios mórbidos!

Oh! Amei-as então!... Sobre a corrente
De seus brandos, notívagos lampejos,
Audaz librei-me nas azuis esferas;
Inclinei-me, de flamas circundada
Sobre o abismo do mundo torvo e lúgubre!
Ergui-me ainda mais: da poesia
Desvendei as lagunas encantadas,
E prelibei delícias indizíveis
Do sentimento nas caudais sagradas
Ao clarão divinal do sol da glória!

Quando desci mais tarde, deslumbrada
De tanta luz e inspiração, ao vale
Que pelo espaço abandonei sorrindo,
E senti calcinar-me as débeis plantas
Do deserto as areias ardentíssimas;
Ao fugir das sendaes2 que estende a noite
Sobre o leito da terra adormecida,
Fitei chorando a aurora que surgia!
E ave de amor a solidão dos ermos
Povoei de gorjeios melancólicos!...

Assim nasceram os meus tristes versos,
Que do mundo falaz fogem às pompas!
Não dorme eles sob os áureos tetos
Das térreas potestades, que falecem
De morbidez nos flácidos triclínios!
Cortando as brumas glaciais do inverno
Adejam nas estâncias consteladas
Onde elas pairam; e à luz da liberdade
Devassando os mistérios do infinito,
Vão no solo de Deus rolar exâmines!...


Notas da Edição:
1 “Chamamos de Nebulosas as manchas de fogo,/ Animadas de um espírito nobre, gracioso, Que todas as partes do céu.”, em Cours élementaire d’astronomie (1864), de Charles Delaunay [matemático e astrônomo] (1816 — 1876);
2 Palavra originalmente grafada com s — sendaes —, hoje cendal, significa um tecido transparente e fino, uma espécie de véu. Mas, nos versos de Narcisa Amália, sendal parece vir de senda e significar caminho, trilha, ou ainda rumo, direção.
____________________
Nebulosas — Apresentação e Posfácio de Anna Faedrich, e Prefácio da Primeira Edição de Pessanha Póvoa, 2ª edição, 2017, Gradiva Editorial e Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Narcisa Amália: Confidência

____________________
A Joanna de Azevedo

De mais a mais se apertam nossos laços,
A ausência... oh! que me importa, estás presente
Em toda a parte onde dirijo as passos.
Fagundes Varela

Pensas tu, feiticeira, que te esqueço;
Que olvido nossa infância tão florida;
Que a tuas meigas frase nego apreço...

Esquecer-me de ti, minha querida!?...
Posso acaso esquecer a luz divina
Que rebrilha nas trevas desta vida?

Era esquecer a lúcida neblina,
Que nas gélidas orlas do seu manto,
Extingue a febre que meu ser calcina.

Esquecer o orvalho puro e santo,
Que à campânula curva à calma ardente,
Dá mais viço e fulgor, dá mais encanto.

Esquecer o cristal liso ou tremente
Que me retrata a fronte pensativa!
Esquecer-me de ti, anjo temente!...

Ouço-te a voz na langue patativa
Que em trinos desfalece ao vir do inverno:
Contemplo-te na mimosa sensitiva.

Sem ti não tem o sol um raio terno;
Contigo o mundo tredo é paraíso,
E a taça do viver tem mel eterno!

Oh! envia-me ao menos um sorriso!
Dá-me um sonho dos teus dourado e belo,
Que bem negro porvir além diviso!
Que a existência sem ti, é um pesadelo!...

____________________
Nebulosas — Apresentação e Posfácio de Anna Faedrich, e Prefácio da Primeira Edição de Pessanha Póvoa, 2ª edição, 2017, Gradiva Editorial e Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

quinta-feira, 23 de maio de 2024

Narcisa Amália: À Noite

 
____________________
Eu amo a noite solitária e muda
Quando no vasto céu fitando os olhos,
Além do escuro que lhe tinge a face
Alcanço deslumbrado
Milhões de sóis a divagar no espaço.
Gonçalves Dias

Ó Noite, meiga irmã da poesia,
Ninfa em lânguidas cismas balouçada,
Abre-me o seio teu, pleno de encantos!
Oh! quero em ti fugir à dor famélica
Que me devora o coração sem vida
E os seios de minh’alma dilacera!
Quero a fronte pendida alçar, envolta
Na fímbria imensa de teu manto tétrico!...

Debruça-se a nopália enfraquecida
Se o cálix lhe bafeja o Norte adusto;
Desmaia a vaga azul na praia curva
Como um arco indiano, quando céleres
Do favônio indolente os leves beijos
Esfrolam da laguna a nívea opala;
Também meu coração se estorce e sangra
Do sofrimento entre as cruentas fráguas!

E tu, que as alvas pétalas requeimadas
Alentas com uma lágrima celeste;
Tu, que da espuma da amorosa ondina
Formas na concha a preciosa pérola;
Concede ao peito meu que a mágoa enluta
Inda um momento de serenos gozos...
Um riso que meus lábios ilumine,
Um só lampejo da fugaz delícia!

Ó fonte de ilusões, sobre teu colo
Repousa exangue o desgraçado escravo;
Ao silêncio que espalhas sobre a terra
Implora o triste bardo a estrofe rútila,
Que se expande em torrentes de harmonia!
E o pobre, em áureos sonhos, transportado,
Contempla a messe que promete o estio
Aos filhos desditosos da miséria!

Quando te amo, Ó Noite! À mole queixa
Da brisa que adormeces na floresta
Confundo meus tristíssimos gemidos;
À melodia das esferas pálidas
Que as orlas de teu véu sombrio bordam,
Concerto os trenos que o sofrer me inspira;
E a gota amarga que me sulca as faces
A um teu sorriso se converte em bálsamo!...

Quando na extrema do horizonte infindo
Do sol se apaga o derradeiro raio;
Quando lenta e tardia desenrolas
De teu manto real a tela plúmbea;
Quando vais rociar a laje tosca
Da fria sepultura com teus prantos,
O murmúrio dos mundos emudece
Ante tua grandeza melancólica!...

E se a filha gentil de teus amores
Cingida de palor no éter brilha;
Se a poeira dos astros cintilantes
Do Senhor do universo esmalta o sólio;
Minh’alma desatando os térreos laços,
De vaga fantasia arrebatada,
Vai pelos raios de formosa estrela
Aninhar-se do elísio na flor cérula!...

Ó Noite, meiga irmã da poesia,
Ninfa em lânguidas cismas balouçada,
Abre-me o seio teu, pleno de encantos!
Desse regaço o divinal mistério
Faz-me esquecer a angústia cruciante
De passadas visões! E de meu seio,
Teu morno sopro nas geladas cinzas,
Anima a espr’ança de um futuro esplêndido!...

____________________
Nebulosas — Apresentação e Posfácio de Anna Faedrich, e Prefácio da Primeira Edição de Pessanha Póvoa, 2ª edição, 2017, Gradiva Editorial e Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

sábado, 13 de abril de 2024

Narcisa Amália: Castro Alves

 
____________________
O livro do destino se entreabre
Deixando ver nas páginas douradas
O seu nome fulgente glorioso,
Que as turbas admiram assombradas!
Joana Tiburtina

Deus quis ouvi-lo,
Deu-lhe um poema no céu: — a Eternidade!
Costa Carvalho

Por que convulsa e geme o pátrio solo
Dos montes despertando os ecos lúgubres?
Por que emudece o férvido oceano
E à terra, erma da luz, chorando atira
Mil turbilhões de lágrimas amargos?
Por que de sombras tétricas se vela
O firmamento azul? Que mágoa imensa
Enluta os corações e arranca o pranto?!...

É que o sono final cerrara os olhos
De um filho das soidões americanas!

O sol que aviventava a chama augusta
No peito dos titãs do Dois de Julho
Iluminara o berço vaporoso
Do pálido cantor da liberdade!
As dulcinosas brisas lá do norte,
Ao ensaiar dos passos vacilantes,
Traziam-lhe os queixumes, despertando
Um mundo de harmonias em su’alma!

E a dileta criança estremecia
Sentindo em si a seiva do futuro.

Mais tarde a fronte nobre, cismadora,
Volvia ao céu para escutar-lhe os votos
E muda, à terra, revolvia pávida
Como o profeta que a missão sublime
Das mãos de Deus recebe; desmaiava
Como desmaia a flor da magnólia
Aos ardores do estio. E radiosa
A pátria contemplou-o embevecida!

Já não era a criança temerosa
Do confuso murmúrio das florestas;

Era o poeta cuja lira d’ouro
Erguia do sepulcro o vulto ingente
Do apóstolo Pedro Ivo; cujos trenos
Derramavam lampejos fulgurantes
De um róseo amanhecer: ora risonhos
Como as límpidas pérolas que entorna
A rórida alvorada, ora profundos
Como os cavos rugidos do Oceano!...

Estranha confusão de riso e pranto,
De luz e sombra, mocidade e morte!

Depois, cisne de amor, deixou os lares
Demandando as campinas rociadas,
Onde ecoara o brado altipotente
De Independência ou Morte. Ali desdenha
As três irmãs que lhe apontavam gélidas
O porvir do poeta; vê o gênio
A marchar, a marchar no itinerário
Sem termo do existir, morto de inveja!

E o mísero de glória em glória corre
Buscando a sombra de uns frondosos álamos *

Eu queria viver, beber perfumes
Na flor silvestre que embalsama o éter;
Ver su’alma adejar pelo infinito
Qual branca vela na amplidão dos mares;
Sentia a voraz febre do talento,
Entrevia um esplêndido futuro
Entre as bênçãos do povo; tinha n’alma
De amor ardente um universo inteiro!

Mas uma voz lhe respondeu sombria:
Terás o sono sobre a lajem tosca!

E nessas regiões sempre formosas
Onde acenava-lhe o fanal da ciência,
O louco sonhador dos Três Amores
Colheu o fatal germe destrutível
Que minou-lhe a existência; quebrantado
Volveu às plagas que deixara outrora
Por pressentir, como única esperança,
Um túmulo entre os seus, no pátrio ninho.

As almejadas palmas do triunfo
Converteram-se em lousa mortuária!

Mas... não morreste, não, condor brasíleo
Que nunca morrerão teus puros versos!
Não, não morreste, que não morrem Goethes,
Não morrem Dantes, Lamartines, Tassos,
Garrets, Camões, Gonçalves Dias, Miltons,
Azevedos e Abreus. Teus belos cantos
Cortarão as caligens das idades
Como de Homero os divinais poemas!

E lá da eternidade onde repousas
Acolhe o canto meu que o pranto orvalha!...


* Nota da Edição: Os dois versos dessa estrofe e as duas estrofes subsequentes foram inspiradas em trechos dos poemas “Mocidade e morte” (1864) e “Ahasverus e o gênio” (1868), de Castro Alves, a quem Narcisa Amália fez homenagem póstuma (Castro Alves faleceu em julho de 1871).
____________________
Nebulosas — Apresentação e Posfácio de Anna Faedrich, e Prefácio da Primeira Edição de Pessanha Póvoa, 2ª edição, 2017, Gradiva Editorial e Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.