domingo, 30 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: O Soneto que Explicava a Pedra

Enfim, tinha uma pedra

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do  caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Drummond, 
Alguma Poesia, 1930)

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Carlos Drummond de Andrade:  Vamos ver o soneto de João Alfhonsus. Mas você mesma é que o lerá.

Lya Cavalcanti:  "No meio do caminho sem sentido
em que a minha retina se cansava,
em face ao meu espírito perdido
naquela lassidão estranha e escrava,

no meio do caminho sem sentido,

só uma pedra... Nada mais restava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
morto marasmo de vulcão sem lava...

Que tudo se perdeu na estrada infinda...

Só a pedra ficou sob o meu passo
e na retina se conserva ainda!

Nem coração, furor, ódio, carinho,

nada restou senão este cansaço,
a pedra, a pedra, a pedra no caminho!"

Drummond:  Pois é. Quando este soneto saiu na Folha da Manhã, de São Paulo, em 25 de outubro de 1942, pensei, candidamente, que estava resolvido o problema de incompreensão pública relativa aos meus versinhos da pedra. Que nada. Os leitores procuraram João Alphonsus para felicitá-lo: "Seu soneto está ótimo. Entende-se perfeitamente. Mas o tinha uma pedra no meio do caminho, isso, faça-me o favor, só dando com a pedra no bestunto do poeta." De sorte que João Alphonsus, em vez de me ajudar, me atrapalhou ainda mais. Pouca gente estava a par da poesia avançada que se fazia na Europa, daí um motivo a mais para condenar um suposto produto poético muito menos escandaloso do que, por exemplo, o poema de Aragon, divulgado exatamente na mesma época, 1925. Esse poema consistia em repetir 19 vezes em sete linhas a palavra persienne, sem pontuação. Só no final aparecia um ponto de interrogação. E Aragon, que me conste, não era doido. Mas eu era.

Lya:  Todos nós somos um pouco. Ou somos mais do que parecemos.

Drummond:  Talvez. Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga, e amiga que se tornou tal precisamente por causa dele. Posso dar o nome dessa pessoa, que já não vive: Lúcia Branco. Pianista notável, depois formadora de pianistas como Artur Moreira Lima, Lúcia era culta e sensível. Detestava cordialmente minha pedra no caminho. Para distrair um garoto, seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do "tinha uma pedra", e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: "A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa..." Não explicou que coisa era, mas Lúcia deixou de se divertir com a pedra e passou a me distinguir com sua simpatia, porque eu havia despertado aquela reação no garoto.

Lya:  Valeu a pena.

Drummond:  Valeu. Ganhei uma amiga de qualidade excepcional. Mas valeu também por outro motivo. Meu calhau continuou despertando ecos contraditórios, na maioria hostis. De todas as zombarias, de todo o barulho produzido por ele, tirei a lição evidente. O renome literário pode fundar-se nas circunstâncias mais caprichosas e menos relevantes. Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras a mais ou a menos. Uma coisinha escrita aos 21 anos era o corpo de delito que decidiu o julgamento. Se na juventude eu houvesse cometido um assassinato e fugido para a Guiana Holandesa, meu crime estaria prescrito no fim de tanto tempo, mas para delito poético não havia prescrição. O lado negativo seria triste se não houvesse o lado compensatório das pessoas que, para surpresa minha, mesmo não achando nenhuma obra de arte na pedra, começaram a gostar de mim porque viam no poeminha alguma coisa que bulia com elas, como a representação paisagística  pobre paisagem  de um sentimento de frustração, obstrução, inviabilidade, experimentado por elas. Ganhei um prêmio que não fizera por alcançar e, mesmo, que não merecia. O caso de Lúcia Branco.

Lya:  Modéstia, charminho...

Drummond:  Não. O que há de mais importante na literatura, sabe? é a aproximação, a comunhão que ela estabelece  entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles. Se alguém perto de mim falar mal de Verlaine, eu o defendo imediatamente; todas as misérias de sua vida são resgatadas pela música de seus versos. Como defenderia um amigo pessoal. Um dia, a pintora Maria Teresa Vieira me disse uma coisa linda: que tem inúmeros amantes noturnos, de Van Gogh a Fernando Pessoa. O maior prêmio de Estocolmo ou dos Estados Unidos não vale o telegrama de amor que alguém desconhecido, e que não conheceremos nunca, nos manda lá do Pará porque leu uma coisa nossa e ficou comovido e rendido. O telegrama não é para nós, é para a nossa vaidade. É uma voz do coração e do espírito, solta no ar, que nos atinge e repercute em nós. Dito assim, fica meio grandiloquente, mas não sei dizer melhor, você entenderá. Quem já sentiu isso compreende sem explicação. Funciona. É. E constitui uma das grandes alegrias da vida. Palavra, música, arte de todas as formas: essas coisas têm sua magia. Ai de quem não a sente.

Tempo Vida Poesia - Confissões No Rádio
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Tempo Vida Poesia  confissões no rádio  Carlos Carlos Drummond de Andrade, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974), Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984), Tempo Vida Poesia confissões no rádio (1986); e tantos outros...

sábado, 29 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Sondagem


O CARTEIRO, conversador amável, não gosta de livros. Tornam pesada a carga matinal, que na sua opinião, e dado o seu nome burocrático, devia constituir-se apenas de cartas. No máximo algum jornalzinho leve, mas esses pacotes e mais pacotes que o senhor recebe, ler tudo isso deve ser de morte!
          Explico-lhe que não é preciso ler tudo isso, e ele muito se admira:
          — Então o senhor guarda sem ler? E como é que sabe o que tem no miolo?
          — Em primeiro lugar, Teodorico, nem sempre eu guardo. Às vezes dou aos amigos, quando há alguma coisa que possa interessar a eles.
          — Mas como sabe que pode interessar, se não leu?
          Esclareço a Teodorico que não leio de ponta a ponta, mas sempre abro ao acaso, leio uma página ou umas linhas, passo os olhos no índice, e concluo.
          Meu crédito diminui sensivelmente a seus olhos. Não lhe passaria pela cabeça receber qualquer coisa do correio sem ler inteirinha.
          — Mas, Teodorico, quando você compra um jornal se sente obrigado a ler tudo que está nele?
          — Aí é diferente. Eu compro o jornal para ver os crimes, o resultado do seu-talão-vale-um-milhão etc. Leio aquilo que me interessa.
          — Eu também leio aquilo que me interessa.
          — Com o devido respeito, mas quem lhe mandou o livro desejava que o senhor lesse tudinho.
          — Bem, faz-se o possível, mas...
          
— Eu sei, eu sei. O senhor não tem tempo.
          
— É.
          
— Mas quem escreveu, coitado! Esse perdeu o seu latim, como se diz.
          
— Será que perdeu? Teve satisfação em escrever, esvaziou a alma, está acabado.
          
A idéia de que escrever é esvaziar a alma perturbou meu carteiro, tanto quanto percebo em seu rosto magro e sulcado.
          
— Não leva a mal?
          
— Não levo a mal o quê?
          
— Eu lhe dizer que nesse caso carece prestar mais atenção ainda nos livros, muito mais! Se um cidadão vem à sua casa e pede licença para contar um desgosto de família, uma dor forte, dor-de-cotovelo, vamos dizer assim, será que o senhor não escutava o lacrimal dele com todo o acatamento?
          
— Teodorico, você está esticando demais o meu pensamento. Nem todo livro representa uma confissão do autor, ainda ontem você me trouxe uma publicação do Itamarati sobre o desenvolvimento da OPA, que drama de sentimento há nisso?
          
— Bem, nessas condições...
          
— E depois, no caso de ter uma dor moral, escrevendo o livro o camarada desabafa, entende? Pouco importa que seja lido ou não, isso é outra coisa.
          
Ficou pensativo; à procura de argumento? Enquanto isso, eu meditava a curiosidade de um carteiro que se queixa de carregar muitos livros e ao mesmo tempo reprova que outros não os leiam integralmente.
          
— Tem razão. Não adianta mesmo escrever.
          
— Como não adianta? Lava o espírito.
          
— No meu fraco raciocínio, tudo é encadeado neste mundo. Ou devia ser. Uma coisa nunca acontece sozinha nem acaba sozinha. Se a pessoa, vamos dizer, eu, só para armar um exemplo, se eu escrevo um livro, deve existir um outro o senhor, numa hipótese — para receber e ler esse livro. Mas se o senhor não liga a mínima, foi besteira eu fazer esse esforço, e isso é o que acontece com a maioria, estou vendo.
          — Teodorico! Você... escreveu um livro?
          Virou o rosto.
          
— De poesia, mas agora não adianta eu lhe oferecer um exemplar. Até segunda, bom domingo para o senhor.
          
— Escute aqui, Teodorico...
          
— Bem, já que o senhor insiste, aqui está o seu volume, não repare os defeitos, ouviu? Esvaziei bastante a alma, tudo não era possível!
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Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, Editora Nova Aguilar, 1979, Rio de Janeiro — RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984); e tantos outros...

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Florbela Espanca: Velhinha


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Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
"Já ela é velha! Como o tempo passa!..."

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos...

Livro de Mágoas — 1919
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Poesia de Florbela Espanca, Volume 1 (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro de Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre  RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Define a sua cidade

Resultado de imagem para gregório de Matos - Poemas escolhidos
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          Mote

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver,
um furtar, outro foder.


          Glosa

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o
furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B A H I A,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.


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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923),  Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última —  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

Casimiro de Abreu: Deus

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa
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Eu me lembro! eu me lembro! — Era pequeno
E brincava na praia; o mar bramia
E, erguendo o dorso altivo, sacudia
A branca escuma para o céu sereno.

E eu disse à minha mãe nesse momento:
“Que dura orquestra! Que furor insano!
Que pode haver maior do que o oceano,
Ou que seja mais forte do que o vento?!”

Minha mãe a sorrir olhou pr'os céus
E respondeu: — “ Um Ser que nós não vemos
É maior do que o mar que nós tememos,
Mais forte que o tufão! meu filho, é — Deus!” —

Dezembro — 1858
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Poetas Românticos Brasileiros — Volume III, Editora e Encadernadora Lumen Ltda, sem data, São Paulo — SP; Casimiro José Marques de Abreu (1839 — 1860), fluminense nascido em Barra de São João (rebatizada Casimiro de Abreu, em sua homenagem), recebeu tão somente instrução primária (de 1849 a 1852); foi poeta do romantismo e iniciou sua atividade literária publicando um conto, durante estada em Portugal, aonde tinha ido acompanhado do pai; em Lisboa, também escreveu a maior parte de seus poemas e outros textos, compôs o drama Camões e o Jau — representado no Teatro Dom Fernando, em 1856 — e também colaborou na imprensa portuguesa, ao lado de Alexandre Herculano, Rebelo da Silva e outros; no jornal O Progresso foi impresso o folhetim Carolina e na revista Ilustração Luso-Brasileira foram publicados os primeiros capítulos  de Camila, recriação ficcional de uma visita que fez ao Minho, terra de seu pai; em 1857, de retorno ao Rio de Janeiro, frequentou rodas literárias e, colaborador da imprensa, escreveu em A Marmota, O Espelho, revista Popular e jornal Correio Mercantil; neste último, conviveu com Manoel Antonio de Almeida (jornalista) e com Machado de Assis (revisor); obras literárias: Camões e o Jau (teatro, 1856), Carolina (romance, 1856), Camila (romance inacabado, 1856), A Virgem Loura, Páginas do Coração (prosa poética, 1857), Primaveras (poesia, 1859); morreu de tuberculose, aos 21 anos de idade.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Florbela Espanca: Para Quê?!

Tudo é  vaidade neste mundo vão...
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos de amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só neles acredita quem é louca!
Beijos d’ amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...

Livro de Mágoas — 1919

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Poesia de Florbela Espanca, Volume 1 (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro de Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre  RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931.

domingo, 23 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: Lira do Amor Romântico


Ou a eterna repetição

Atirei um limão n’água
e fiquei vendo na margem.
Os peixinhos responderam:
Quem tem amor tem coragem.

Atirei um limão n’água
e caiu enviesado.
Ouvi um peixe dizer:
Melhor é o beijo roubado.

Atirei um limão n’água,
como faço todo ano.
Senti que os peixes diziam:
Todo amor vive de engano.

Atirei um limão n’água,
como um vidro de perfume.
Em coro os peixes disseram:
Joga fora teu ciúme.

Atirei um limão n’água
mas perdi a direção.
Os peixes, rindo, notaram:
Quanto dói uma paixão!

Atirei um limão n’água,
ele afundou um barquinho.
Não se espantaram os peixes:
faltava-me o teu carinho.

Atirei um limão n’água,
o rio logo amargou.
Os peixinhos repetiram:
É dor de quem muito amou.

Atirei um limão n’água,
o rio ficou vermelho
e cada peixinho viu
meu coração num espelho.

Atirei um limão n’água
mas depois me arrependi.
Cada peixinho assustado
me lembra o que já sofri.

Atirei um limão n’água,
antes não tivesse feito.
Os peixinhos me acusaram
de amar com falta de jeito.

Atirei um limão n’água,
fez-se logo um burburinho.
Nenhum peixe me avisou
da pedra no meu caminho.

Atirei um limão n’água,
de tão baixo ele boiou.
Comenta o peixe mais velho:
Infeliz quem não amou.

Atirei um limão n’água,
antes atirasse a vida.
Iria viver com os peixes
a minh’alma dolorida.

Atirei um limão n’água,
pedindo à água que o arraste.
Até os peixes choraram
porque tu me abandonaste.

Atirei um limão n’água.
Foi tamanho o rebuliço
que os peixinhos protestaram:
Se é amor, deixa disso.

Atirei um limão n’água,
não fez o menor ruído.
Se os peixes nada disseram,
tu me terás esquecido?

Atirei um limão n’água,
caiu certeiro: zás-trás.
Bem me avisou um peixinho:
Fui passado pra trás.

Atirei um limão n’água,
de clara ficou escura.
Até os peixes já sabem:
você não ama: tortura.

Atirei um limão n’água
e caí n’água também,
pois os peixes me avisaram,
que lá estava meu bem.

Atirei um limão n’água,
foi levado na corrente.
Senti que os peixes diziam:
Hás de amar eternamente.
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Amar Se Aprende Amando — Carlos Drummond de Andrade, 6a. edição, 1985, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem , crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984); e tantos outros...

sábado, 22 de setembro de 2012

Florbela Espanca: Pior Velhice

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Sou velha e triste. Nunca o alvorecer
Dum riso são andou na minha boca!
Gritando que me acudam, em voz rouca,
Eu, náufraga da Vida, ando a morrer!

A Vida, que ao nascer enfeita e touca
D’alvas rosas, a fronte da mulher,
Na minha fronte mística de louca
Martírios só poisou a emurchecer!

E dizem que sou nova... A mocidade
Estará só, então, na nossa idade,
Ou está em nós e em nosso peito mora?!

Tenho a pior velhice, a que é mais triste,
Aquela onde nem sequer existe
Lembrança de ter sido nova... outrora...

Livro de Mágoas — 1919
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Poesia de Florbela Espanca, Volume 1 (Trocando Olhares, O Livro D'Ele, Livro de Mágoas) — Apresentação de Laury Maciel — Coleção L&PM Pocket, Volume 297, L&PM, 2002, Porto Alegre  RS; Florbela D'Alma da Conceição Lobo Espanca (1894  1930), nascida no Alentejo, Portugal, poeta e contista, em vida escreveu e publicou Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923); após sua morte, publicou-se Reliquiae (1931), Charneca em Flor (1931), e os contos As Máscaras do Destino e Dominó Negro, também em 1931.

Cruz e Souza: Canção do Bêbado *

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Na lama e na noite triste
Aquele bêbado ri!
Tua alma velha onde existe?
Quem se recorda de ti?

Por onde andam teus gemidos,
Os teus notâmbulos ais?
Entre os bêbados perdidos
Quem sabe do teu  jamais?

Por que é que ficas à lua
Contemplativo, a vagar?
Onde a tua noiva nua
Foi tão depressa a enterrar?

Que flores de graça doente
Tua fronte vem florir
Que ficas amargamente
Bêbado, bêbado a rir?

Que vês tu nessas jornadas?
Onde está o teu jardim
E o teu palácio de fadas,
Meu sonâmbulo arlequim?

De onde trazes essa bruma,
Toda essa névoa glacial
De flor de lânguida espuma,
Regada de óleo mortal?

Que soluço extravagante,
Que negro, soturno fel
Põe no teu ser doudejante
A confusão da Babel?

Ah! das lágrimas insanas
Que ao vinho misturas bem,
Que de visões sobre-humanas
Tu'alma e teus olhos tem!

Boca abismada de vinho,
Olhos de pranto a correr,
Bendito seja o carinho
Que já te faça morrer!

Sim! Bendita a cova estreita
Mais larga que o mundo vão,
Que possa conter direita
A noite do teu caixão!

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Nota de Tasso da Silveira:
* Do quase puro narcisismo de Broquéis (em cujos poemas o poeta perpetuamente se contempla nas coisas e nos seres), se vai o poeta desviando aos poucos para largo, embora doloroso, sentimento humano.
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Cruz e Souza — Poesia, Apresentação e Seleção de Tasso da Silveira, Volume 4, Coleção Nossos Clássicos, 1975, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, estudou e foi educado nas melhores escolas da região; porém, com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e foi obrigado a trabalhar; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público, por ser negro; já no Rio de Janeiro, em 1890, manteve contato com a poesia simbolista francesa, colaborou em alguns jornais e publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); anteriormente, publicara Tropos e Fantasias (poemas em prosa, 1885), em conjunto com Virgílio Várzea; no Rio, mesmo quando bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (1900) e Últimos Sonetos (1905).