____________________
Este poeta mineiro, nascido à sombra do pico do Cauê, na
antiga cidade de Itabira, hoje de Presidente Vargas, é uma das figuras mais
discutidas — pró
e contra — da
poesia nacional. Em torno de alguns dos seus poemas chegaram a formar
deliciosos equívocos dos choques das gerações, como por exemplo a respeito de
“No meio do caminho”:
No
meio do caminho tinha uma pedra
tinha
uma pedra no meio do caminho
tinha
uma pedra
no
meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca
me esquecerei desse acontecimento
na
vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca
me esquecerei que no meio do caminho
tinha
uma pedra
tinha
uma pedra no meio do caminho
no
meio do caminho tinha uma pedra.
Me lembro bem de que esses versos, publicados em Belo
Horizonte por volta de 1925, causaram funda irritação entre os intelectuais que
detinham a liderança da tabela, como se diz em linguagem esportiva. Desde os
gramáticos, revoltados com o emprego do verbo “ter” pelo impessoal “haver”: não
se devia dizer: “tinha uma pedra”, brasileirismo grosseiro, erro crasso de português;
e sim “havia” uma pedra no meio do caminho. Mas ao o literato repelia o verso e
se irritava com a falta de significação do que estava pronunciando: uma pedra
no caminho, um desaforo! Nem sentido, nem poesia... Não se lhe poderia
responder —
mesmo porque o literato recusaria lições — que devia procurar a chave do poema no cansaço mental,
no desânimo, no desalento que ressumbra dos versos quase desesperados na sua
incapacidade expressional, monotônica do poeta “incapaz e frágil diante da
vida” (como disse Mário de Andrade a respeito desse poema, na Revista Nova, em
março de 1931).
Há tempos alguém se lembrou de transformar em sonetos, ou
em versos rimados e metrificados, algumas poesias modernistas. Eu aconselharia
a esses vates incompreensíveis e até molestos — sobretudo inartísticos — que fornecessem aos
leitores (aos do Jornal
do Comércio, por exemplo) sempre uma réplica assim, de
cada uma das suas malsinadas obrinhas. Os seus livros seriam assim organizados:
numa página, o futurismo,
para satisfazer aos que impam de apreciadores sutis de hermetismos poéticos; na
outra página, o passadismo, ao
alcance de qualquer apreciador da arte cada vez mais viva quanto mais velha...
Para mostrar como isso seria praticável, vou fornecer aqui um soneto
interpretativo daquele poema da pedra. A sério, já se vê. Preencho os claros — ou os escuros — do poema com as
necessidades da métrica e da rima, que às vezes forçam a imagens ou expressões
nem sempre muito justas (além de que, sou um poeta conscientemente aposentado):
No
meio do caminho sem sentido
Em que a minha retina se cansava,
Em face ao meu espírito perdido
Naquela lassidão estranha e escrava,
No
meio do caminho sem sentido,
Só uma pedra... Nada mais se achava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
Morto marasmo de vulcão sem lava...
Que
tudo se perdeu na estrada infinda...
Só a pedra ficou sob o meu passo
E na retina se conserva ainda!
Nem
coração, furor, ódio, carinho,
Nada restou senão este cansaço,
A pedra, a pedra, a pedra no caminho!
(João Alphonsus, “A
pedra no caminho”.
Folha
da Manhã, São Paulo, 25.10.1942.)
Uma Pedra No
Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond
de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de
Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; João Alphonsus
de Guimaraens (1901 — 1944), mineiro de Conceição de Mato Dentro, iniciou seus
estudos em Mariana — MG e, mudando-se para Belo Horizonte, concluiu a graduação
em Direito, foi advogado, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta
modernista; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; fundou
a revista Verde, em parceria com Antonio Mendes e outros companheiros;
bibliografia: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934),
Rola-Moça (romance, 1938), A Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite!
(contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.












