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sábado, 27 de fevereiro de 2021

João Alphonsus: A pedra no caminho

 
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          Este poeta mineiro, nascido à sombra do pico do Cauê, na antiga cidade de Itabira, hoje de Presidente Vargas, é uma das figuras mais discutidas pró e contra da poesia nacional. Em torno de alguns dos seus poemas chegaram a formar deliciosos equívocos dos choques das gerações, como por exemplo a respeito de “No meio do caminho”:

          No meio do caminho tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          tinha uma pedra
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Nunca me esquecerei desse acontecimento
          na vida de minhas retinas tão fatigadas.
          Nunca me esquecerei que no meio do caminho
          tinha uma pedra
          tinha uma pedra no meio do caminho
          no meio do caminho tinha uma pedra.

          Me lembro bem de que esses versos, publicados em Belo Horizonte por volta de 1925, causaram funda irritação entre os intelectuais que detinham a liderança da tabela, como se diz em linguagem esportiva. Desde os gramáticos, revoltados com o emprego do verbo “ter” pelo impessoal “haver”: não se devia dizer: “tinha uma pedra”, brasileirismo grosseiro, erro crasso de português; e sim “havia” uma pedra no meio do caminho. Mas ao o literato repelia o verso e se irritava com a falta de significação do que estava pronunciando: uma pedra no caminho, um desaforo! Nem sentido, nem poesia... Não se lhe poderia responder mesmo porque o literato recusaria lições que devia procurar a chave do poema no cansaço mental, no desânimo, no desalento que ressumbra dos versos quase desesperados na sua incapacidade expressional, monotônica do poeta “incapaz e frágil diante da vida” (como disse Mário de Andrade a respeito desse poema, na Revista Nova, em março de 1931).

          Há tempos alguém se lembrou de transformar em sonetos, ou em versos rimados e metrificados, algumas poesias modernistas. Eu aconselharia a esses vates incompreensíveis e até molestos sobretudo inartísticos que fornecessem aos leitores (aos do Jornal do Comércio, por exemplo) sempre uma réplica assim, de cada uma das suas malsinadas obrinhas. Os seus livros seriam assim organizados: numa página, o futurismo, para satisfazer aos que impam de apreciadores sutis de hermetismos poéticos; na outra página, o passadismo, ao alcance de qualquer apreciador da arte cada vez mais viva quanto mais velha... Para mostrar como isso seria praticável, vou fornecer aqui um soneto interpretativo daquele poema da pedra. A sério, já se vê. Preencho os claros ou os escuros do poema com as necessidades da métrica e da rima, que às vezes forçam a imagens ou expressões nem sempre muito justas (além de que, sou um poeta conscientemente aposentado):

         No meio do caminho sem sentido
          Em que a minha retina se cansava,
          Em face ao meu espírito perdido
          Naquela lassidão estranha e escrava,

          No meio do caminho sem sentido,
          Só uma pedra... Nada mais se achava!
          Que tudo se perdeu no amortecido,
          Morto marasmo de vulcão sem lava...

          Que tudo se perdeu na estrada infinda...
          Só a pedra ficou sob o meu passo
          E na retina se conserva ainda!

          Nem coração, furor, ódio, carinho,
          Nada restou senão este cansaço,
          A pedra, a pedra, a pedra no caminho!

(João Alphonsus, “A pedra no caminho”.
Folha da Manhã, São Paulo, 25.10.1942.)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; João Alphonsus de Guimaraens (1901 1944), mineiro de Conceição de Mato Dentro, iniciou seus estudos em Mariana MG e, mudando-se para Belo Horizonte, concluiu a graduação em Direito, foi advogado, promotor de justiça, jornalista, contista e poeta modernista; publicou seus primeiros poemas na revista Fon-Fon, em 1918; fundou a revista Verde, em parceria com Antonio Mendes e outros companheiros; bibliografia: Galinha Cega (contos, 1931), Totônio Pacheco (romance, 1934), Rola-Moça (romance, 1938), A Pesca da Baleia (contos, 1942), Eis a noite! (contos, 1943), Contos e Novelas (1965); teve obras premiadas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

Lygia Fagundes Telles: Poesia até o infinito

 
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          Li o livro do Carlos Drummond ele disse. E prosseguiu com uma careta: Horrível! Então aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é demais!
           Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! confessei.
           É impossível que você tenha gostado! retorquiu o poeta. Ouça só esta maravilha que eu tive a paciência de decorar… (…) Começou:

          No meio do caminho tinha uma pedra
           tinha uma pedra no meio do caminho
           tinha uma pedra
           no meio do caminho tinha uma pedra.

           Nunca me esquecerei desse acontecimento
           na vida de minhas retinas tão fatigadas.
           Nunca me esquecerei que no meio do caminho
           tinha uma pedra
           tinha uma pedra no meio do caminho
           no meio do caminho tinha uma pedra.

          (…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma risada:
           Não acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado exclamei.
          O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso uns versos que compusera.
          Leu-os. E depois disse:
           Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há idéia e ritmo, compreendeu? Ao passo que…
           Sim, eu sei! interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: Mas o fato é que já esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a que você acaba de se referir.
          (…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não, que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim, fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma vaga que foi preenchida por um outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros encontros, chegarão outras cartas, abrir-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca mais serão esquecidos.
          Agora eu já não achava essa poesia gozada. Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.

(“Poesia até o infinito”, A Manhã, Letras
e Artes, Rio de Janeiro, 01.05.1948)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; Lygia Fagundes Telles, nascida em 1923, paulista e paulistana, fez o curso fundamental na Escola Caetano de Campos e se formou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP-SP), tendo também cursado a Escola Superior de Educação Física da USP, foi procuradora, romancista, contista e cronista; ainda estudante publicou nos jornais Arcádia e A Balança, ambos da Academia de Letras da Faculdade de Direito; colaborou como colunista de crônicas no jornal carioca A Manhã; bibliografia: Porão e Sobrado (contos, 1938), Praia Viva (contos, 1944), Ciranda da Pedra (romance, 1954), O Jardim Selvagem (contos, 1965), Antes do Baile Verde (contos, 1970), As Meninas (romance, 1973), Seminário de Ratos (contos, 1977), As Horas Nuas (romances, 1989), A Noite Escura e Mais Eu (contos, 1995), Invenção e Memória (contos, 2000) Conspiração de nuvens (2007) e tantos outros títulos; teve seus livros publicados em vários países: Portugal, Espanha, França, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Holanda, Suécia, entre outros, além de obras adaptadas para televisão, teatro e cinema; recebeu inúmeros prêmios e condecorações por sua obra, entre os quais alguns Jabuti, alguns APCA, Prêmio Juca Pato e Prêmio Camões, sua consagração definitiva.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Carlos Drummond de Andrade: No Meio do Caminho [a pedra rolando pelo mundo afora] — I

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No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

Alguma Poesia (1930)

C. Drummond de A.
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[traduções para os idiomas húngaro, alemão e inglês]

AZ ÚT KÖZEPÉN

Az út közepén volt egy kö
egy kö volt az út közepén
volt egy kö
az út közepén egy kö volt.

Soha nem felejtem el ezt az eseményt
amig csak fáradt retinám él.
Soha nem felejtem, hogy az út közepén
volt egy kö
egy kö volt az út közepén
az út közepén egy kö volt.

(Paulo Rónai, “A másik Brazilia” [O outro Brasil], Ujzág,
Budapeste, 04.06.1939. Reproduzido in: Brazília Üzen.
BudapesteA Vajda János Társaság Kiadása, 1939, p. 70.)
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MITTEN IM WEG

Mitten im Weg lag ein Stein
Lag ein Stein mitten im Weg
Lag ein Stein
Mitten im Weg lag ein Stein.

Nie werde ich dieses Ereignis
Im Leben meiner so ermudeten Netzhaut vergessen.
Nie werde ich vergessen dass mitten im Weg
Lag ein Stein
Lag ein Stein mitten im Weg
Mitten im Weg lag ein Stein.

(Curt Meyer-Clason, Poesie. Frankfurt:
Suhrkamp Verlag, 1965, p. 119.)
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IN THE MIDDLE OF THE ROAD

In the middle of the road was a stone
was a stone in the middle of the road
was stone
in the middle of the road was a stone.

I shall never forget that event
in the life of my so tired eyes.
I shall never forget that in the middle of the road
was a stone
was a stone in the middle of the road
in the middle of the road was a stone.

(John Nist, In The Middle Of The Road, Tucson:
University of Arizona Press, 1965, p. 15.)
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Uma Pedra No Meio Do Caminho — Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo — SP; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; bibliografia: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Carlos Drummond de Andrade: No meio do caminho

Resultado de imagem para An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry
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No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio de caminho tinha uma pedra.

Resultado de imagem para carlos drummond de andrade a pedra

In the middle of the road

[Translated by Elizabeth Bishop]

In the middle of the road there was a stone
there was a stone in the middle of the road
there was a stone
in the middle of the road there was a stone.

Never should I forget this event
in the life of my fatigued retinas.
Never should I forget that in the middle of the road
there was a stone
there was a stone in the middle of the road
in the middle of the road there was a stone.
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An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry — Edited, with Introduction, by Elizabeth Bishop and Emanuel Brasil, 1972, Wesleyan University Press, Middletown, Connecticut — USA; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas, pelo país afora e no resto do mundo; sua obra: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos PoemasClaro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a LimpoLição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966);  Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos  (1988); Farewell (1996) e tantos outros títulos...

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Ficar em Casa

A crônica drummondiana "Ficar em Casa", abaixo reproduzida, foi publicada originalmente no Jornal do Brasil nos idos anos 60 do século e milênio passados e também fez parte de A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); este aprendiz de blogueiro, num atrevimento, transcreveu parte do texto em negrito: a parte que consta de "Nota Para Um Livro Divertidíssimo", nota esta elaborada pelo organizador e pesquisador Eucanaã Ferraz, na apresentação de Uma Pedra No Meio Do Caminho Biografia De Um Poema, edição ampliada.
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Passar quatro dias e quatro noites em casa, vendo o carnaval passar; ou não vendo nem isso, mas entregue a uma outra e cifrada folia, que nesta quarta-feira de cinzas abre suas pétalas de cansaço, como se também tivéssemos pulado e berrado no clube. Não ligar televisão, esquecer-se de rádio; deixar os locutores falando sozinhos, na ânsia de encher de discurso uma festa à base de movimento e de canto. Perceber apenas o grito trêmulo, trazido e levado pelo vento, de um samba que marca a realidade lúdica sem nos convidar à integração. Beneficiar-se com a ausência de jornais, que prova a inexistência provisória do mundo como arquitetura de notícias. Ter como companheiro o irmão gato Crispim, exemplo de abstenção sem sacrifício, manual de silêncio e sabedoria, aventureiro que experimentou a vertigem da luta-livre nos telhados e homologa a invenção da poltrona. Penetrar no vazio do tempo sem obrigações, como num parque fechado, aproveitando a ausência de guardas, e descobrindo nele tudo que as tabuletas omitem. Aceitar a solidão; escolhê-la; desfrutá-la. Sorrir dos psiquiatras que falam em alienação do mundo e recomendam a terapêutica de grupo. Estimar a pausa como valor musical, o intervalo, o hiato. O instante em que a agulha fere o disco sem despertar ainda qualquer som. Andar de um quarto para outro sem ser à procura de objetos: achando-os. Descobrir, sem mescalina, as cores que a cor esconde; os timbres entrelaçados no ruído. Olhar para as paredes, ou melhor: olhar as paredes, em torno dos quadros. Sentir a casa como um todo e como partículas densas, tensas, expectantes, acostumadas a viver sem nós, à nossa revelia, contra o nosso desdém. Habitar realmente a casa, quatro dias: como ilha, fortaleza, continente: infinito no finito; Reconsiderar os livros, arrumá-los primeiro com método, depois com voluptuosidade, fazendo com que cada prateleira exija o maior tempo possível; verificar que é preciso antes tirar a poeira de um, remover a boba capa de celofane que envolve a encadernação de outro. Reler dedicatórias; abrir ao acaso livros de poetas que preferimos e que infelizmente não são os mais modernos nem os mais célebres; copiar meia estrofe por onde corre um arrepio verbal; separar volumes que não nos falam mais nada e que devem tentar seu destino em outras casas. Sentir chegada a hora dos álbuns de pintura com pouco ou nenhum texto, e dos volumes iconográficos que nos contam Paris ou a vida de Mallarmé. Viajar em fotografias; sentir-se imagem flutuando entre imagens; a terra domesticada em figura, tornada familiar sem perda de sua essência enigmática. Reconhecer que muitos livros comprados a duras penas, pedidos ao estrangeiro ou longamente minerados nos sebos, não têm mais do que essa oportunidade de comunicação durante o ano; deixar que fiquem a sós conosco e nos confiem seu segredo. Admitir a fome, sem exigência de horário, e matá-la com o que houver à mão; renunciar à idéia de almoço e jantar, com reverência ao sagrado direito que assiste a todos, inclusive e principalmente às cozinheiras, de brincarem o seu carnaval; achar mais gosto nessa comida, porque não é a regulamentar nem é seguida de nada: todas as obrigações estão suspensas, e só valem as que soubermos traçar a nós mesmos. Descortinar na preguiça um espaço incomensurável, onde cabe tudo; não enchê-lo demais; devassá-lo à maneira de um explorador que não quer ser muito rico e tanto sente prazer em descobrir como em procurar. Assim vosso cronista passou o carnaval: sem fugir, sem brincar, divertido em seu canto umbroso.

(Jornal do Brasil, 03.03.1960;
A Bolsa & A Vida, crônicas,  1962)

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Uma Pedra No Meio Do Caminho  Biografia De Um Poema, Seleção e Montagem de Carlos Drummond de Andrade, edição ampliada, Organização, Pesquisa, Apresentação e Notas de Eucanaã Ferraz, 2010, Instituto Moreira Salles, São Paulo  SP; Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Volume Único, Quinta Edição, 1979, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Uma Pedra No Meio Do Caminho  Biografia De Um Poema (seleção de textos críticos diversos, 1967); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Carlos Drummond de Andrade: Legado

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Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.

E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.

Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.

De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho. 


                                           (Claro Enigma  1951)
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¿Que memoria daré al país que me dio
lo que  recuerdo y sé, todo cuanto sentí?
En la noche sin fin, breve el tiempo olvidó
Mi dudosa medalla, y se ríe de mí.

¿Y merezco esperar más que los otros, yo?
Tú no me engañas, mundo, y no te engaño a ti.
Monstruos contemporáneos que Orfeo no rindió
vagando, taciturnos, entre el tal vez y el sí.

No dejaré de mí ningún canto radioso,
ni uma voz matinal palpitando en la bruma
que de alguien arranque su más secreto espino.

De todo cuanto fue mi paso caprichoso
quedará solamente, pues el resto se esfuma,
una piedra que había em medio del camino.

(Traducción: Manuel
 Graña Etcheverry)

Carlos Drummond de Andrade
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100 poemas — Carlos Drummond de Andrade, Organización y traducción de Manuel Graña Etcheverry, edição bilíngüe, segunda reimpressão, 2009, Editora UFMG, Belo Horizonte — MG; Carlos Drummond de Andrade (1902  1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Corpo, novos poemas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e tantos outros...

domingo, 30 de setembro de 2012

Carlos Drummond de Andrade: O Soneto que Explicava a Pedra

Enfim, tinha uma pedra

No meio do caminho

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do  caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(Drummond, 
Alguma Poesia, 1930)

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Carlos Drummond de Andrade:  Vamos ver o soneto de João Alfhonsus. Mas você mesma é que o lerá.

Lya Cavalcanti:  "No meio do caminho sem sentido
em que a minha retina se cansava,
em face ao meu espírito perdido
naquela lassidão estranha e escrava,

no meio do caminho sem sentido,

só uma pedra... Nada mais restava!
Que tudo se perdeu no amortecido,
morto marasmo de vulcão sem lava...

Que tudo se perdeu na estrada infinda...

Só a pedra ficou sob o meu passo
e na retina se conserva ainda!

Nem coração, furor, ódio, carinho,

nada restou senão este cansaço,
a pedra, a pedra, a pedra no caminho!"

Drummond:  Pois é. Quando este soneto saiu na Folha da Manhã, de São Paulo, em 25 de outubro de 1942, pensei, candidamente, que estava resolvido o problema de incompreensão pública relativa aos meus versinhos da pedra. Que nada. Os leitores procuraram João Alphonsus para felicitá-lo: "Seu soneto está ótimo. Entende-se perfeitamente. Mas o tinha uma pedra no meio do caminho, isso, faça-me o favor, só dando com a pedra no bestunto do poeta." De sorte que João Alphonsus, em vez de me ajudar, me atrapalhou ainda mais. Pouca gente estava a par da poesia avançada que se fazia na Europa, daí um motivo a mais para condenar um suposto produto poético muito menos escandaloso do que, por exemplo, o poema de Aragon, divulgado exatamente na mesma época, 1925. Esse poema consistia em repetir 19 vezes em sete linhas a palavra persienne, sem pontuação. Só no final aparecia um ponto de interrogação. E Aragon, que me conste, não era doido. Mas eu era.

Lya:  Todos nós somos um pouco. Ou somos mais do que parecemos.

Drummond:  Talvez. Mas o que mais me tocou nessa longa história de um poema que não chega a ser poema foi o que ouvi de uma amiga, e amiga que se tornou tal precisamente por causa dele. Posso dar o nome dessa pessoa, que já não vive: Lúcia Branco. Pianista notável, depois formadora de pianistas como Artur Moreira Lima, Lúcia era culta e sensível. Detestava cordialmente minha pedra no caminho. Para distrair um garoto, seu sobrinho, que estava doente, ela repetia a cantilena do "tinha uma pedra", e esperava tirar disto um efeito cômico, que fizesse o menino rir. Ele não riu e observou: "A senhora acha isso engraçado? Eu acho sério, me faz sentir uma coisa..." Não explicou que coisa era, mas Lúcia deixou de se divertir com a pedra e passou a me distinguir com sua simpatia, porque eu havia despertado aquela reação no garoto.

Lya:  Valeu a pena.

Drummond:  Valeu. Ganhei uma amiga de qualidade excepcional. Mas valeu também por outro motivo. Meu calhau continuou despertando ecos contraditórios, na maioria hostis. De todas as zombarias, de todo o barulho produzido por ele, tirei a lição evidente. O renome literário pode fundar-se nas circunstâncias mais caprichosas e menos relevantes. Passei boa parte da vida apontado como autor de um único poema de dez linhas (ou versos?) tido por pura maluquice, principalmente por pessoas de juízo que nunca o leram, pois ele corria de boca em boca deturpado, com palavras a mais ou a menos. Uma coisinha escrita aos 21 anos era o corpo de delito que decidiu o julgamento. Se na juventude eu houvesse cometido um assassinato e fugido para a Guiana Holandesa, meu crime estaria prescrito no fim de tanto tempo, mas para delito poético não havia prescrição. O lado negativo seria triste se não houvesse o lado compensatório das pessoas que, para surpresa minha, mesmo não achando nenhuma obra de arte na pedra, começaram a gostar de mim porque viam no poeminha alguma coisa que bulia com elas, como a representação paisagística  pobre paisagem  de um sentimento de frustração, obstrução, inviabilidade, experimentado por elas. Ganhei um prêmio que não fizera por alcançar e, mesmo, que não merecia. O caso de Lúcia Branco.

Lya:  Modéstia, charminho...

Drummond:  Não. O que há de mais importante na literatura, sabe? é a aproximação, a comunhão que ela estabelece  entre seres humanos, mesmo à distância, mesmo entre mortos e vivos. O tempo não conta para isso. Somos contemporâneos de Shakespeare e de Virgílio. Somos amigos pessoais deles. Se alguém perto de mim falar mal de Verlaine, eu o defendo imediatamente; todas as misérias de sua vida são resgatadas pela música de seus versos. Como defenderia um amigo pessoal. Um dia, a pintora Maria Teresa Vieira me disse uma coisa linda: que tem inúmeros amantes noturnos, de Van Gogh a Fernando Pessoa. O maior prêmio de Estocolmo ou dos Estados Unidos não vale o telegrama de amor que alguém desconhecido, e que não conheceremos nunca, nos manda lá do Pará porque leu uma coisa nossa e ficou comovido e rendido. O telegrama não é para nós, é para a nossa vaidade. É uma voz do coração e do espírito, solta no ar, que nos atinge e repercute em nós. Dito assim, fica meio grandiloquente, mas não sei dizer melhor, você entenderá. Quem já sentiu isso compreende sem explicação. Funciona. É. E constitui uma das grandes alegrias da vida. Palavra, música, arte de todas as formas: essas coisas têm sua magia. Ai de quem não a sente.

Tempo Vida Poesia - Confissões No Rádio
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Tempo Vida Poesia  confissões no rádio  Carlos Carlos Drummond de Andrade, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro  RJ; Drummond (1902 — 1987), poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974), Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981), Boca de Luar, crônicas (1984), Tempo Vida Poesia confissões no rádio (1986); e tantos outros...