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segunda-feira, 27 de março de 2017

Eduardo Alves da Costa: Salamargo

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Salamargo é o pão de cada dia;
pão de suor, amargonia.
Amargura por viver nesta agonia,
salamargando a tirania.

Salamargo é o tirano, segundo a segundo,
amargo sal que salga o mundo.
Assassino das manhãs, carrasco das tardes,
ladrão de todas as noites
e de seu mistério profundo;
carcereiro de seu irmão, a transmudar
a fantasia em noite de alcatrão.

Amaro é o fado de nascer escravo,
amargonauta em mar de sal,
nesta salsa-ardente irreal em que cravo
unhas e dentes, buscando viver
como um bravo entre decadentes.

Salamargo, tão amargo quanto
o mais amargo sal, é comer
o pão de cada dia sob o tacão
da tirania. Um pão amargo,
sem sal, pobre de amor e fantasia.
Salamargo existir sem poesia.

Salamargo, 1982

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Antologia Poética da Geração 60 — Organizadores: Álvaro Alves de Faria e Carlos Felipe Moisés, 2000, Nankin Editorial, São Paulo — SP; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, fluminense de Niterói RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema ‘No caminho, com Maiakovski’ foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, sendo estampado em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas Já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Eduardo Alves da Costa: Sete anos de cordeiro

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Sete anos de cordeiro já servia
Jacó a Lobão, pastor cruento,
que, em troca apenas do sustento
e das promessas doces que fazia,
numeroso rebanho apascentava.

E após tanto servir, dia após dia,
viu Jacó a esperança de uma vida,
nédia Raquel, a ele prometida
pelo astuto Lobão, tornar-se Lia,
num ardil mesquinho e odioso.

Fez-lhe então o pastor singela oferta;
servir mais sete anos sem protesto,
após os quais
tempo modesto
a porteira lhe seria enfim aberta
para gozar Raquel em liberdade.

Por mui simples e também por mui cordeiro,
acedeu Jacó sem um balido.
Mas antes do prazo transcorrido,
percebeu o rebanho tão ordeiro
que Raquel era um Lobão melhor vestido.

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No Caminho, com Maiakovski, Eduardo Alves da Costa, 1987, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, fluminense de Niterói  RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema ‘No caminho, com Maiakovski’ foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, sendo estampado em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas Já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

sábado, 19 de março de 2016

Eduardo Alves da Costa: A cama de pregos

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Tenho o corpo varado de angústias
e não encontro posição de repouso.
Porque aos de minha geração
foi dado existir numa cama de pregos,
entre o espasmo e o grito,
antes da primeira frase se fazer orvalho
contra as paredes da cela.
Não há possibilidade de fuga
para nosso instinto.
Querem que o sexo floresça e murche
em nossas próprias mãos;
ou que o orgasmo seja catalogado
e obedeça aos trâmites legais.
Não há caminho que nos leve à amada.
Todos os corredores conduzem ao vestíbulo,
onde uma enfermeira nos agarra
e nos faz preencher um questionário.
Esconderam as fêmeas em arcas de veludo
e nos iludem o apetite
com mulheres da vida,
com cineminhas mambembes
e filme de sacanagem.
Mas isto não nos basta,
é preciso um espaço infinito
para nos fazermos ao largo,
como jovens leões que se lançam à planície.
Ah, visões de antigos dias,
farândolas de faunos,
virgens consumidas,
olhos de ciclopes aguardando as madrugadas!
Não haverá nesta cidade uma única mulher
verdadeiramente no cio?
Quero agitá-la como uma bandeira
entre as estrelas
e vê-la tombar,
com a face tranqüila.


Sim, deliro,
estamos todos loucos,
à beira do caos e do copo.
E contudo é preciso utilizar de alguma forma
esta convulsão incontida.
Mesmo que tudo termine
na cama de pregos,
seguros pela enfermeira
e cheirando clorofórmio.

Não, por Deus,
não me façam uma incisão no crânio.
Eu sei que estou preso num palácio de espelhos

e é preciso quebrar tudo!


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No Caminho, com Maiakovski, Eduardo Alves da Costa, 1987, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, fluminense de Niterói  RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema ‘No caminho, com Maiakovski’ foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, sendo estampado em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas Já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

domingo, 13 de março de 2016

Eduardo Alves da Costa: Nova presença no mundo

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Para meu povo advogo
nova presença no mundo.

Os canhões têm sua voz,
os capitais capitães
e a morte generais.
O que temos nós?

Vamos à ONU de casimira inglesa
e nos sentamos à mesa
com os maiorais.

Mas acabado o discurso,
comemos na cozinha.

Nossos ministros se confundem
em vários idiomas,
discutem Robbe-Grillet
e reencontram companheiros da Sorbonne
ao som de cubos de gelo.
Às vezes têm saudades
dos serões da província.
Mas, por mais que alisem o cabelo
e policiem o sotaque,
não podem esconder a condição de mulatos,
representantes de uma república
movida a carvão.

Ah, como eu os compreendo,
eu, poeta, bacharel e branco,
educado nesta Europa meridional,
nesta São Paulo casa-grande
tão à margem da senzala.
Compreendo mas não perdôo
como também não me perdôo
pelos meus refinamentos
e por esta nostalgia,
este banzo ao contrário
por uma terra estrangeira
de onde nos vem a cultura
mas tão distante do sangue.

É hora de acordar o bugre
e mandá-lo, assim, de tanga,
na sua crua verdade,
embaixador da miséria
e desta falta de fibra
que nos avilta e consome.

Para meu povo advogo
um pouco menos de fome,
um pouco menos de ajuda,
um pouco menos de leite
que de tão fotografado
me faz azedar o estômago;
um pouco menos de armas,
obsoletas, manetas,
que se tornam pó de traque
na cara de quem atira
e custam os olhos da cara.

Para meu povo advogo
uma peste de cartilhas,
uma praga de ferramentas
e um pouco menos de pastilhas,
xaropes e outros macetes
da farmacopéia Rockefeller.

Para meu povo advogo
a voz e o voto;
uma voz sem impostura,
empostada e não imposta.

E mais: uma lei exata
que se lance como um prumo
e que ao exame do olho
não me ponha zarolho
de tão dúbia e sinuosa.

E um salário não tão mínimo,
que nele caiba completa
uma família operária
sem vales e sem susto.

Para meu povo advogo
uma nova mentalidade,
que faça da tribo nação
e da nação potestade.
Mas de gente companheira,
sem esnobismo, vaidade,
sem estátuas de liberdade
e slogans e advertisings.

Para meu povo advogo
não a iluminação divina
mas jovens iluminados
que saibam tomar o pulso
deste gigante enfermiço
e ministrar-lhe o laxante
para curá-lo de vez
das discórdias intestinas.

O Tocador de Atabaque — 1969

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No Caminho, com Maiakovski, Eduardo Alves da Costa, 1987, Círculo do Livro, São Paulo — SP; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, fluminense de Niterói  RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema ‘No caminho, com Maiakovski’ foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, sendo estampado em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas Já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

sábado, 21 de março de 2015

Eduardo Alves da Costa: O Tocador de Atabaque

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QUEREM o meu verso
de nariz para o ar,
equilibrando a esfera,
enquanto alguém bate com a varinha
para me por no compasso.
Pedem-me que não seja violento
e me mantenha equilibrado
entre a forma e o fundo,
porque a platéia não deve sofrer
emoções fortes.

Mas eu, nascido num tempo de sussurros,
tenho a voz contundente
e por mais que me esforce
não sirvo para cantar no coro.

Sei apenas tocar meu atabaque.

Assim, que me perdoem
os amantes dos saraus
e os arquitetos de labirintos,
Que as senhoras se protejam com o xale
e os corações delicados
se encostem à parede
para fugir às correntes de ar.

Bato no atabaque
até estourar os tímpanos fracos
e chamo num grito de gozo
as almas bravias,
para dançarmos juntos,
mordidos pela mentira do mundo,
com os nervos envenenados
e a jugular aos pinotes.

                             Escutem, eu vou lhes contar a história
                             do leão que tinha um espinho na pata...

Bato no atabaque e me consumo
como se o sangue fugisse
por um rio subterrâneo.

                             Vamos, o senhor não pode enganar todos
                             durante todo o tempo.

Bato no atabaque
quem quiser cantar
que me dê um tom.

                             Por que ao sair do trabalho
                             a gente não volta para casa
                             de montanha-russa?

Bato no atabaque.

                             Matou o patrão com cinco tiros
                             porque foi despedido
                             sem aviso prévio.

Bato no atabaque.

                             Izabel, acho que meu pai,
                             quando souber,
                             vai me bater!

Bato no atabaque.

                             Moço, compra uma flor
                             Pra namorada?

Bato no atabaque.

                             Você acha que eles bombardeiam a China?

Bato no atabaque.
e o furacão me arranca pela raiz
e eu sou um baobá
atravessando os céus da Flórida
para cair em Nova Yorque,
sacudindo a Bolsa de Valores
como um enfarte.

                             Não sei... pra mim,
                             quem matou Kennedy
                             foi a reação.

Bato, bato, bato no atabaque
até consumir o terceiro estágio
da minha alma de astronauta
e ficar girando,
fora de órbita,
para sempre.

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Poesia Viva 1 (vários poetas) — Introdução de Antônio Houaiss, 1968, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, brasileiríssimo de Niterói RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as 'Noites de Poesia' no Teatro Arena, em São Paulo, e participou do movimento 'Os Novíssimos' da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema 'No caminho, com Maiakóvski' foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, e virou estampa em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil, 1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

terça-feira, 10 de março de 2015

Eduardo Alves da Costa: Uma Canção para o Seu Tempo

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NÃO PEÇAS ao poeta
uma canção discreta
num tempo de conquistas
e loucura.
Para a liberdade
ou para a morte
é que o mundo caminha;
e isto requer estrutura.

Quando te aproximas
segurando o copo, em pose estudada,
tenho vontade de te dar um murro
para que acordes no século vindouro
com a tua problemática suspirante.

Ah, meu pequeno, a tua vida!
Tua amada te traiu com teu melhor amigo,
não suportas o professor de estética
e o teu pai não te deu o carro prometido.
Já não vais á Europa?
A tua vida é lixo
e os teus dias se acrescentam à História
como o pipi que as crianças fazem na praia.

Queres um minuto de atenção para o teu soluço
e me agarras o braço
e insistes
e te aborreces quando não escuto.
Espera... na tua agitação
deixaste cair uma gota de licor
na tua calça de flanela.

Aceitas um conselho?
Abandona de vez as festinha de sábado
e lança teus nervos distendidos
até a outra margem
para que os outros,
os que vêm depois de ti,
encontrem passagem.

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Poesia Viva 1 (vários poetas) — Introdução de Antônio Houaiss, 1968, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, brasileiríssimo de Niterói RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e, participou do movimento "Os Novíssimos" da Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema "No caminho, com Maiakóvski" foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, e virou estampa em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil,1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Eduardo Alves da Costa: Tentativa para Salvar a Poesia

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A POESIA agoniza e eu choro
com medo de perder a vaga
de poeta.
Os mais velhos recomendam
cautela com a emoção,
repouso,
caldo de galinha
e linguagem à antiga.
Os fatalistas lamentam o cinema
e chamam ao nosso século
o das artes visuais.
A televisão é a culpada
 sentencia um jornalista
versado em filatelia,
enquanto uma equipe
de cirurgiões estetas
luta para livrar o coração da enferma
de adiposidades românticas.
E eu, que havia programado
uma carreira nas letras
seguro a caneta
como um boi a olhar para um palácio.
Cruzo na sala de espera
com médicos anestesistas
concretistas
praxistas
e derrubo uma bandeja
de letrinhas coloridas,
espaços em branco,
ideogramas chineses,
balas
       belas
              bílis
                   bolas
                          bulas
e seringas.
Quando dou por mim
estou chutando um caranguejo
e comendo bala de goma
e limpando um cisco na dragona
enquanto o dragão não vem.
Quero ver quem tem
coragem para contestar
leva rasteira quem se levantar
e toma golpe de karatê
e cotovelo na cotovia
e samba de breque
teleco-teco
peteleco na orelha
 segura, meu chapa!
e é só esteta voando
contra a parede
com nariz de sangue
e olho inchado de levar porrada.
Abro a porta
e mando a doente
sair pela tangente
com um tapa no traseiro
e outros babados.

A menina não tem nada, minha gente.
Vai, morena, pega teu rumo
e toma tento
que essa frescura
te mata.
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Poesia Viva 1 (vários poetas) — Introdução de Antônio Houaiss, 1968, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Eduardo Alves da Costa, nascido em 1936, brasileiríssimo de Niterói RJ, formado em Direito pela Universidade Mackenzie, em São Paulo, é escritor, poeta e cronista; nos anos 60 organizou as "Noites de Poesia" no Teatro Arena, em São Paulo, e, participou do movimento "Os Novíssimos" da  Massao Ohno, em 1962; nos anos 70 e 80, o poeta fez história quando um fragmento do seu poema "No caminho, com Maiakóvski" foi publicado na quarta capa do livro-ensaio Viva Eu, Viva Tu, Viva o Rabo do Tatu, do psicanalista Roberto Freire, com crédito ao autor russo Vladimir Maiakóvski e, a partir daí, o trecho do poema repercutiu em jornais, revistas e em atos políticos à época, e virou estampa em posters, cartazes e camisetas no movimento Diretas já, contra a ditadura, ora como sendo de autoria do poeta russo e ora como sendo de Bertold Brecht; só bem mais tarde, reconheceu-se na mídia o verdadeiro autor do texto que já constara de seu primeiro livro de poesia, O Tocador de Atabaque (1a. edição em 1969); Eduardo Alves da Costa escreveu, além de O Tocador de Atabaque, Fátima e o Velho (contos), Chongas (romance, 1974), A Sala do Jogo (contos), Memórias de um Assoviador (infanto-juvenil,1994), e outros títulos; o poeta, que trabalhou como cronista no Diário Popular, também foi publicado em antologias, escreveu peças teatrais e foi premiado.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Eduardo Alves da Costa: No caminho, com Maiakóvski

(... ou, a viagem de um poema)

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O poema que ora transcrevo abaixo fez história. É de autoria do poeta e cronista Eduardo Alves da Costa, brasileiríssimo, nascido em Niterói RJ em 1936 e radicado em São Paulo desde os dois meses de idade. Um trecho de tal poema (destacado em negrito) correu mundo trinta anos atrás, nas décadas de 70 e 80, publicado como se fora do poeta russo Vladimir Maiakóvski e, uma ou outra vez, como se fora do dramaturgo e poeta alemão Bertold Brecht.

Tudo começou  quando, naqueles tempos (1970 1980), tal trecho foi reproduzido como sendo de Maiakóvski, na quarta capa de uma das edições do livro "Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu" do ensaista, escritor, psicanalista e dramaturgo Roberto Freire (1927 2008). Era época de ditadura e o trecho, que virou bandeira pela democracia no “Movimento Diretas Já", acabou sendo repercutido intensamente em jornais, revistas, publicações alternativas, jornais sindicais, calendários, pôsteres... Em 1979, foi declamado em Ato Público pela Anistia realizado na PUC-SP. Pelo menos um jornal sindical bancário, de funcionários da Caixa Estadual-SP, o publicou como se fora de Brecht. E o poema continuou a viajar.

Bem mais posteriormente, em julho de 1995 e em plena era FHC, num processo "pedevista" no qual mais de 20 mil bancários do Banco do Brasil foram "convidados" à demissão e à aposentadoria, um jornal do Garef Gabinete de Representação dos Funcionários do BB o publicou, divulgando-o também como sendo de Brecht. O poema circulou Brasil afora, em todas as agências e departamentos do BB.

Ainda hoje, em plena era dos blogues, uns poucos desavisados e desinformados internautas amantes da poesia o postam, em grupos de discussão, sem que dêem crédito ao seu verdadeiro autor, mas sim ao russo Maiakóvski. É a força do poema que continua teimando em seguir seu curso mesmo que à revelia de Eduardo Alves da Costa, o autor de "No caminho, com Maiakóvski".
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No caminho, com Maiakóvski
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite, eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita  MENTIRA! 
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Eduardo Alves da Costa, brasileiríssimo, escritor, poeta e cronista No Caminho, com Maiakóvski Círculo do Livro, 1987, São Paulo SP; o poema que deu o título a esta edição foi originariamente publicado em O tocador de atabaque, Edição do Autor, 1969, São Paulo SP.

Genésio dos Santos é poeta, cronista e aprendiz de blogueiro; em 1995, enviou a seguinte correspondência ao Garef  Gabinete de Representação dos Funcionários do Banco do Brasil, ocasião em que pedia a retificação da autoria do poema em questão:
    "Ao Garef,
       (a/c Henrique Pizzolatto e equipe), 
       A propósito de um dos poemas publicados no Boletim Garef, de 01.09.95, como sendo de autoria de Brecht, quero afirmar que tal obra é, na verdade, trecho do poema intitulado NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI, cujo autor é o poeta, jornalista, cronista e escritor, quase sexagenário, brasileiríssimo, nascido em Niterói e paulistano desde os dois meses de idade. Seu nome é Eduardo Alves da Costa.
      NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI fez parte do primeiro livro de poemas do autor, denominado O TOCADOR DE ATABAQUE, publicado originalmente em 1969. No entanto, em meados da década de 70, este trecho do poema fez história. E que história!
      Em 1977, aquele trecho foi publicado, como se fora de autoria de Maiakóvski, na quarta capa de uma edição do livro Viva eu, viva tu, viva o rabo do tatu, de Roberto Freire (o escritor e ensaísta, não o político que atualmente é do PPS). Nessa mesma época, com a efervescência do movimento estudantil, na luta contra a ditadura, os jornais alternativos estudantis repercutiram o poema, citando-o como sendo do poeta russo. Tal poema também foi recitado em um grande ato pela Anistia na Puc-SP, nesse mesmo período, sempre como sendo de autoria de Maiakóvski. Já em 79/80, jornais de banco, da imprensa sindical, também chegaram a repercutir o trecho do poema e, é lógico, afirmavam ser do autor russo. Pelo menos um jornal, de um grupo de bancários da Caixa Estadual-SP, o publicou como sendo de Brecht.
      Companheiras e companheiros, vocês não cometeram deslize nenhum! É apenas a força de um poema que teima em seguir o seu curso na História, mesmo que à revelia do próprio autor.
      Pois é, esta história pode parecer absurda mas é verdadeira!
      Saudações poéticas,
      Viva Eduardo Alves da Costa! Viva Maiakóvski! Viva Brecht! Viva eu! Viva tu! Viva o rabo do tatu!
      Genésio dos Santos Ferreira /Ag.Tesouro-SP"