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Ao completar setent’anos
Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo
com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores)
para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida
Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto
senhor de óculos nosso carro
lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao
País do Rio Grande e o
transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não
eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria
o destino de literatos sem
pecúnia,
autores de discursos que jamais
pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os
pronunciarem no majestático
palanque do Poder,
enquanto refocilávemos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e
seios-orquídea chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.
Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques
serranos, que não existem
mais,
debates flamívomos, cambalhotas de
vanguarda que não existem
mais,
tudo que não existe mais e contínua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro
Vespasiano.
Reflorescemos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários
que somos,
dispersos, divididos no mapa das
circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto,
aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em
Guilhermino, o que, menino,
pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos
importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.
Amar se aprende amando — 1985
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Amar Se Aprende Amando,
poesia de convívio e de humor — Carlos Drummond de Andrade, 6ª edição, 1986,
Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos
Drummond de Andrade (1902 — 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista,
viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso
e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo;
suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940);
José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945);
Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952);
Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira,
crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo;
Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967);
Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970);
O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo
— Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso
de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar,
crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988);
Farewell (1996) e outros textos...