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sábado, 17 de fevereiro de 2024

matusalém da silva: "tropeçando em risca de ladrilho"


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Constatei-me velho desde o instante em que
me vi tropeçando em taco, em risca de ladrilho.
[Ziraldo, carthumorista].

sinto em mim sua presença
embora ausente põe limites no que faço
até controla o que penso
imagino-a à espreita
na curva do caminho

quando eu estiver bem velhinho
alquebrado com vista fraca ouvindo pouco
“tropeçando em risca de ladrilho”
é inevitável que venha

o ontem: acabou-se o que era doce
o instantâneo hoje: de modo algum traz amargor
o amanhã? deixemos pra depois...

sem pressa sem pressa...
não sou vidente mas ela vem
que assim seja

sp — 05.02.24
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matusalém da silva e alguns outros silva, além de genésio dos santos, são um só ativista da palavra.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Carlos Drummond de Andrade: Sequestro de Guilhermino César


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Ao completar setent’anos

Um dia convoco Cyro dos Anjos e planejo com ele um sequestro.
Voamos (perucas e bigodes despistadores) para Porto Alegre.
Lá ficaremos à espreita na Avenida Independência.
Quando sair de certo edifício um incauto senhor de óculos nosso carro
lhe embargará os passos
e ele será convidado a seguir conosco
rumo a lugar que bem sabe.
Assim roubaremos Guilhermino César ao País do Rio Grande e o
transportaremos ao País da Memória,
país de cafés-sentados e redações não eletrônicas de jornais,
de repartições públicas onde se cumpria o destino de literatos sem
pecúnia,
autores de discursos que jamais pronunciaríamos,
pois os concebíamos para outros os pronunciarem no majestático
palanque do Poder,
enquanto refocilávemos em orgias
com a ninfa de coxas de espuma e seios-orquídea chamada Literatura,
nosso maior amor e perdição.

Levaremos Guilhermino para livrarias
que não existem mais,
cinemas, bailes estudantis, piqueniques serranos, que não existem
mais,
debates flamívomos, cambalhotas de vanguarda que não existem
mais,
tudo que não existe mais e contínua,
anulado, existindo.
Nesse país que foi o nosso
na neblinosa companhia de Emílio Moura,
João Alphonsus, outros, outros
de que já não há notícia terrestre,
reflorescemos
ao som indelével da valsa e do fox-trot
brindados pela orquestra do Maestro Vespasiano.

Reflorescemos todos. O tempo, acidente.
Outro, mudanças. Guilhermino
acaba de chegar de Cataguases,
estudante de medicina e ritmo,
nosso mais moço companheiro para sempre.
Nunca sairá daqui, não sairemos.
Ninguém fará de nós os septuagenários que somos,
dispersos, divididos no mapa das circunstâncias.
Este, o nosso eterno, etéreo território.
Aqui assistimos, somos. O resto, aparência.
Este mesmo escrito: aparência,
não a realidade que se refere.
No único país real encontramo-nos em Guilhermino, o que, menino,
pediu ao pai uma bicicleta
e o velho deu-lhe as poesias de Bilac.
Que não nos procurem, não nos importunem. Deixem-nos
fruir o néctar absoluto.

Amar se aprende amando — 1985

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Amar Se Aprende Amando, poesia de convívio e de humor — Carlos Drummond de Andrade, 6ª edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

domingo, 3 de dezembro de 2023

Carlos Drummond de Andrade: Fazer 70 anos

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A José Carlos Lisboa

Fazer 70 anos não é simples.
A vida exige, para conseguirmos,
perdas e perdas do íntimo do ser,
como, em volta do ser, mil outras perdas.

Fazer 70 anos é fazer
catálogo de esquecimentos e ruínas.
Viajar entre o já-foi e o não-será
É, sobretudo, fazer 70 anos,
alegria pojada de tristeza.

Ó José Carlos, irmão-em-Escorpião!
Nós o conseguimos...
E sorrimos
de uma vitória comprada por que preço?
Quem jamais o saberá?

À sombra dos 70 anos, dois mineiros
em silêncio se abraçam, conferindo
a estranha felicidade da velhice.

Amar se aprende amando — 1985

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Amar Se Aprende Amando, poesia de convívio e de humor — Carlos Drummond de Andrade, 6ª edição, 1986, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

quarta-feira, 23 de setembro de 2020

genésio dos santos: meus dois demônios

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ando à beira de um abismo,
para ali me empurram dois demônios que em mim coabitam.
um deles grita forte e bem alto:  salte!
o outro, o que finge ser menos cruel,
me dá um par de asas e cochicha:
 aprenda a voar, e rápido.

SP, 30.07.2019

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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; veio pra São Paulo no início da década de setenta do século e milênio passados e hoje é um bicho urbano adaptado; até um dia destes foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para os jornais O Espelho — SP, Folha Bancária, participou no jornal Brinque (do coletivo cultural do SeebSP, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Figueiredo Pimentel: Desânimo

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Já nada tenho do que outrora tive,
e noutros tempos muita coisa eu tinha:
minh'Alma, agora, em desespero, vive,
vivendo sem viver, triste e sozinha.

Muito sorri e muita dor contive,
para que o Mundo vil não visse a minha
grande e profunda Mágoa. E assim estive,
a viver uma vida bem mesquinha.

Tudo perdi. Na noite do Passado,
apagou-se o fanal que me guiava,
no Céu do meu viver a fulgurar.

Agora, velho, trôpego, cansado,
espero, mas em vão, que d'Alma escrava,
venha a Morte os grilhões despedaçar.

(Livro Mau  1895, págs. 85-86, Carlos
 Morais & Cia. Editores, Rio de Janeiro .)
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume IV — Simbolismo, por Fernando Góes, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Alberto Figueiredo Pimentel (1869 1914), fluminense de Macaé, foi jornalista, diplomata, tradutor, romancista, cronista, contista e poeta; redigiu, por algum tempo, uma seção sobre letras brasileiras para a Mercure de France, revista dos simbolistas franceses; no Rio, redigia crônicas para o Gazeta de Notícias, na coluna ’Binóculo’; escreveu e publicou Fototipias (poesia, 1893), O aborto, estudo naturalista (romance, 1893), Histórias da Carochinha, Livro mau (poesia, 1895), O terror dos maridos (romance, 1897), Suicida (romance, 1895), Um canalha (romance, 1895), etc.; recolheu, compilou, traduziu e editou contos clássicos da literatura universal (Perrault, Green, Andersen).

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Antero de Quental: Em viagem

Resultado de imagem para Antero de Quental — Sonetos, Coleção de Clássicos Sá da Costa
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Pelo caminho estreito, aonde a custo
Se encontra uma só flor, ou ave, ou fonte,
Mas só bruta aridez de áspero monte
E os sóis e a febre do areal adusto,

Pelo caminho estreito entrei sem susto
E sem susto encarei, vendo-os defronte,
Fantasmas que surgiam do horizonte
A acometer meu coração robusto...

Quem sois vós, peregrinos singulares?
Dor, Tédio, Desenganos e Pesares...
Atrás deles a Morte espreita ainda...

Conheço-vos. Meus guias derradeiros
Sereis vós. Silenciosos companheiros,
Bem-vindos, pois, e tu, Morte, bem-vinda!

Resultado de imagem para antero de quental pelo caminho estreito onde a custo
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Antero de Quental — Sonetos, Coleção de Clássicos Sá da Costa, edição organizada e anotada por Antônio Sérgio e prefaciada por Oliveira Martins, 3ª. edição, 1968, Livraria Sá da Costa Editora, Lisboa — Portugal; Antero Tarquínio de Quental (1842 1891), natural de Ponta Delgada Portugal, formado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi poeta e escritor; publica seus primeiros sonetos em 1861 e, quatro anos após, influenciado pelo socialismo experimental de Pierre J. Proudhon, publica Odes Modernas, na qual enaltece a revolução e cuja obra esteve na origem da Questão Coimbrã, polêmica vivida pelo poeta e outros autores da época por instigarem a revolução intelectual; em 1866, indo viver em Lisboa, experimentou a vida de operário ao trabalhar como tipógrafo; foi um dos fundadores do Partido Socialista Português;  em 1869, ajudou a fundar o jornal A República; em 1872, participou da edição da revista O Pensamento Social, colaborando igualmente em diversas outras publicações periódicas; escreveu e publicou: Sonetos de Antero (1861), Odes Modernas (na origem da polêmica Questão Coimbrã, 1865), Bom Senso e Bom Gosto (opúsculos, 1865), A Dignidade das Letras e as Literaturas Oficiais (também na origem da Questão Coimbrã, 1865), Portugal perante a Revolução da Espanha (1868), Primaveras Românticas (1872), Considerações sobre a Filosofia da História Literária Portuguesa (1872), A Poesia na Actualidade (1881), Sonetos Completos (1886), A Filosofia da Natureza dos Naturistas (1886) entre outros títulos; suicidou-se com dois tiros de revólver, em 11 de setembro de 1891.

terça-feira, 23 de junho de 2015

Emiliano Perneta: Ao cair da tarde

Livro Ilusão e Outros Poemas por Emiliano Perneta.Broch
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Agora nada mais. Tudo silêncio. Tudo,
Esses claros jardins com flores de giesta,
Esse parque real, esse palácio em festa,
Dormindo à sombra de um silêncio surdo e mudo…

Nem rosas, nem luar, nem damas… Não me iludo.
A mocidade aí vem, que ruge e que protesta,
Invasora brutal. E a nós que mais nos resta,
Senão ceder-lhe a espada e o manto de veludo?

Sim, que nos resta mais? Já não fulge e não arde
O sol! E no covil negro desse abandono,
Eu sinto o coração tremer como um covarde.

Para que mais viver, folhas tristes de outono?
Cerra-me os olhos, pois, Senhor. É muito tarde.
São horas de dormir o derradeiro sono.

1920
Setembro (póstumo, 1934)

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Ilusão e Outros Poemas — Emiliano Perneta, edição comemorativa do centenário, Organização de Tasso da Silveira — Introdução, Cronologia, Bibliografia e Fontes para Estudo por Andrade Muricy, 1966, Edições GRD, Rio de Janeiro — RJ; Emiliano David Perneta (1866  1921), paranaense nascido na região de Pinhais, perto de Curitiba, foi poeta, professor de português, jornalista e advogado formado pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP, Largo São Francisco); teve seus poemas divulgados em revistas e jornais da época e publicou Músicas (1888), O inimigo (prosa poemática, 1899), Alegoria (prosa poemática, 1903), Ilusão (1911), Pena de Talião (poema dramático, 1914), Setembro (póstumo, 1934); como jornalista, dirigiu Vida Semanária e Folha Literária e colaborou no Diário Popular e Gazeta de São Paulo entre outros periódicos.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Paul Lafargue: Testamento Político *

Livro O Direito A Preguiça Paul Lafargue
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          Com a mente e o corpo sadios, mato-me antes que a impiedosa velhice, que me tira um a um os prazeres e as alegrias da vida e me despoja de minhas forças físicas e intelectuais acabe por paralisar minhas energias e quebre minha vontade fazendo de mim um peso para os outros e para mim mesmo.
          Há anos prometi a mim mesmo que não passaria dos setenta; marquei a época do ano para minha partida da vida e preparei o modo de execução de minha resolução: uma injeção hipodérmica de ácido cianídrico.
          Morro com a alegria suprema de ter a certeza de que, num futuro próximo, a causa a que me dediquei durante quarenta e cinco anos triunfará.
          Viva o Comunismo.
          Viva o Socialismo Internacional!

The Spark! — KARL MARX REMEMBERED
Paul Lafargue


* Nota: O 'testamento político' acima, deixado escrito num papel como explicação para seu ato de suicídio (26.11.1911), foi publicado em Le Socialiste, de 03 de dezembro de 1911.
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O Direito à Preguiça, Prefácio de Francisco Foot Hardman, 2a. edição, 1980, Kairós Livraria e Editora, São Paulo  SP; Paul Lafargue (1842 1911), cubano de Santiago de Cuba, formado médico, foi jornalista, escritor e ativista político; Lafargue fez seus estudos na França e aderiu à AIT Associação Internacional dos Trabalhadores, criada em 1864, e também conhecida como 'Primeira Internacional' ou 'Internacional'; O escritor e ativista político foi casado com Laura Marx (filha de Karl Marx), e, ele e mulher, em um pacto, suicidaram-se em 26 de novembro de 1911; escritos de Lafargue: Le Droit à la paresse Réfutation du «Droit au travail» de 1848 (O Direito à Preguiça, 1880), Le Parti socialiste allemand (1881), La Politique de la bourgeoisie (1881), Essai critique sur la Révolution française du XVIIIe siècle (1883), Une visite à Louise Michel (1885), Sapho (1886), Le Matriarcat, étude sur les origines de la famille (1886), Origine de la propriété en Grèce (1893), Les Origines du Romantisme (1896), Origine de l'idée du Bien (1899), La Question de la femme (1904), Le Mythe de Prométhée (1904), Le Socialisme et les Intellectuels (1900), La Croyance en Dieu (1909), Le Problème de la connaissance (1910) e outros textos.

domingo, 23 de novembro de 2014

Escrever ou não escrever?

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Em minhas tecituras e considerações orais sobre política, partido, eleições, comportamento, literatura, enfim reflexões acerca do viver, ouço do interlocutor que eu devesse escrever, deixar registrado o que boto pra fora em rodas de prosa ao pé do fogo ou não; outro interlocutor/leitor, mais acolá, após vasculhar no blogue, ir em busca de ler alguma coisa que eu escrevera lá atrás, algum texto de minha autoria, deixou registrado um “Escreva mais!” nos comentários. Teve aquele que observou e reclamou, em mesa de boteco: "Você só posta poesia!". E eu sussurrei, inaudível mesmo, ou nem mesmo sussurrei... só pensei: "E poemas dos outros!".

Não me emendo. Continuo postando textos outrora escritos, por vezes textos meus, na maioria das vezes poemas, que vou relendo  ou lendo pela primeira vez!  para este fim: postar... para que outros também leiam... E percebo que parte dos que acessam o blogue curtem e compartilham, que é assim que dizemos e agimos neste mundo de internautas por ora feicebuquianos e feicebuquianas.

Eu, cá, continuo refletindo agora com meus botões  mas também com vocês internautas! — que já há tanto texto em verso e prosa escrito, e não sei se “paga a pena” “inventar” novos textos. O que precisa, talvez, é possibilitar que textos já escritos, talvez não lidos ou lidos malemá, venham novamente à tona, para que possam ser lidos por mais e mais pessoas. Que bom que a Dona Internet nos possibilite isso!

Nos meus tempos de criança  meus tempos! nossos tempos! tempos de toda uma geração! , em que as bibliotecas me eram vistas como altares de difícil acesso, com seus objetos santificados  os livros! , sem os recursos da internet, importava numa trabalheira danada conseguir o que ler. Em contrapartida, a nossa capacidade de registro do que líamos era bem maior. Penso que uma das razões para esta capacidade diferenciada de memorização, se comparada a daqueles tempos com a de agora, talvez esteja ligada à quantidade de informações recebidas e a serem processadas por nós. Haja espaço em nossa cepeú craniana! Haja terabaites disponíveis em nossa memória! E haja capacidade de selecionar e de concorrer!

Se naquela época os parâmetros a nós delineados para que escolhêssemos um caminho a seguir nas encruzilhadas da vida eram poucos, também eram poucas as nossas dúvidas. Ficar parados é que não íamos, tínhamos uma juventude a ser gasta.

Hoje, com um mundo estratosférico de informações a nossa disposição, muitas vezes acessadas por nós sem que precisemos sair da nossa alcova, palavra antiga, não!, eu fico pensando que as novas gerações que ainda não gastaram sua juventude, que não se defrontaram ou mal se encaminham rumo às encruzilhadas da vida, têm um problemão seríssimo a resolver: o problemão da escolha do caminho a seguir! Mas ficar estáticas é que as novas gerações não ficarão. Então, me passa a impressão que muitas vezes escolherão ou já estão escolhendo às tontas o caminho a seguir.

Em princípio, que bom que assim procedam: caminhar às tontas... Se bem que, mesmo às tontas, inconscientemente que seja, as escolhas acabam sendo as oferecidas pela realidade do hoje. Não há caminhos a seguir fora disso, a não ser o suicídio, mas isto está descartado por multidões e multidões e multidões em todos os rincões planetários. Assim, que ótimo que elas escolham, seja qual caminho for, ao se depararem com as encruzilhadas.

Antes que envelheçam.

Envelhecemos...
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Genésio dos Santos, filho de ferroviário e com uma vida caipira à beira da linha do trem, poeta e cronista não tão ativo e aprendiz de blogueiro, vive a tecer a idade; cursou telégrafo, foi bóia-fria, ajudante de açougueiro e de serviços de contabilidade, faturista de comércio de atacados, cadastrista da ex-SAEC (hoje, SABESP) e bancário.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Luís Carlos: Envelhecendo

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Vai-me a vida fugindo lentamente...
Como pedra que encontra na descida
Empeço após empeço, vai-me a vida
Rolando em sua última vertente...

Sinto-me aos poucos de mim próprio ausente,
Pisando num solo que a meus pés trepida;
E a voragem da paz incompreendida
Avulta a cada passo em minha frente!

Desço cumprindo a derradeira pena:
Ninguém! Somente, ao longe me acompanha
O adeus... o adeus que a mocidade acena!

Surpresa amarga de ironia estranha:
Depois de uma subida tão serena,
Como custa descer esta montanha!

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Poesias Escolhidas — Luís Carlos, 1970, Livraria São José, Rio de Janeiro — RJ; Luís Carlos da Fonseca Monteiro de Barros (1880 1932), nascido no Rio de Janeiro RJ, formado pela Escola Politécnica no Rio, foi engenheiro civil e poeta; publicou seus versos em jornais e revistas; congregado a um grupo de intelectuais, fundou a Hora Literária; obras: Colunas (poesias, 1920), Encruzilhada (prosa, 1922), Astros e Abismos (poesias, 1924), Rosal de Ritmos (resumo histórico sobre a poesia brasileira, 1924), Amplidão (poesias, edição póstuma, 1933); pertenceu à Academia Brasileira de Letras.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Alphonsus de Guimaraens: Soneto XLIV (Segues para a velhice tão contente)

  
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Segues para a velhice tão contente,
Como se caminhasses para um trono.
A tua alma, como um solar sem dono,
Vive de sonhos no teu corpo doente.

Ah! Bem sabes que o sol está no poente,
Que o roseiral murchece no abandono...
Que importa a primavera? Veio o outono
Bendizer-te as tristezas de vidente.

Cerra os olhos suavíssimos e mira
Os dias que se foram, no letargo
Que de ti se aproxima em vôos lentos...

Feliz de quem na paz eterna expira...
Solta as velas à nave. Eis o mar largo.
Eis a bonança. Levem-te bons ventos!


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Alphonsus de Guimaraens — Poesia, Coleção Nossos Clássicos Volume 19 — Livraria Editora Agir, 1963, Rio de Janeiro  RJ; Alphonsus de Guimaraens (1870  1921), pseudônimo de Afonso Henrique da Costa Guimarães, mineiro de Ouro Preto, foi poeta e escritor, cursou Direito e foi Juiz e Promotor de Justiça; principais obras publicadas, algumas postumamente: Setenário das Dores de Nossa Senhora (1899), Câmara Ardente (1899), Dona Mística (1899), Kyriale (1902), Pauvre Lyre (1921), Pastoral aos Crentes do Amor e da Morte (1923), Mendigos (prosa, 1920), Pulvis (1938).

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

genésio dos santos: tecer a idade (20.12.2013)

tecer a idade sim! e porque não?
existe idade própria pra escrever
sobre idéias, fatos, pensar, fazer
de um já velho andarilho insano ou são?

se for loucura este meu tecer,
quem sabe o escrito se faça razão
dum perambular por qualquer desvão
do sol raiar e até o escurecer.

mas se for razão, o que hei de dizer
dos loucos sonhos que me vêm à mão
e sempre teimam em não acontecer?

enquanto teço construo a ilusão
de um equilíbrio neste meu viver
e aí concluo:  nada foi em vão!

Minha foto
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, prestou serviços em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho — SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 a 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.