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A meu pai, o Sr. Jácome de Campos
II
Ton souffle du chaos falsait surtir les lois;
Ton image insultait aux dépouilles des rois.
Et, debout sur l’airain de leurs foudres guerrières,
Entretenait le ciel du bruit de tes exploits.
Casimir Delavigne
Salve! Oh! salve Oitenta-e-Nove
Que os obstáculos remove!
Em que o heroísmo envolve
O horror da maldição!
Rolam frontes laureadas,
Tombam testas coroadas
Pelo povo condenadas
Ao grito —
revolução!
Caem velhos privilégios
D’envolta co’os sacrilégios;
São troféus —
os cetros régios,
Mitra, burel e brasão!
E os três esquivos estados
Fundem-se em laços sagrados,
Que prendem os libertados
Aos pés da revolução!
No pedestal da igualdade
Firma o povo a liberdade,
Um canto à fraternidade
Entoa a voz da nação,
Que em delírio violento
Fita altiva o firmamento
E adora por um momento
A deusa — Revolução!...
Os ódios secam o pranto,
A ira tem mago encanto,
E a morte sacode o manto
Lançando crânios no chão!
Aqui — são longos gemidos
Desses que tombam feridos;
Ouvem-se além — os rugidos
Da fera — revolução.
Treme a humana potestade
Ante tua mortandade!
Proclama que a sociedade
Agoniza em convulsão!
Erguem-se estranhas fileiras
Vão devassar as fronteiras,
Bradando às hostes guerreiras:
— Abaixo a Revolução!
O nobre povo oprimido
Supõe-se fraco e vencido,
Medem-lhe o sangue espargido
Nas vascas da confusão.
Não sabem que é mais veemente
Dos livres o grito ingente
Quando reboa fremente
À luz da revolução!
Levanta-se hirta a falange
E a louca marcha constrange;
Rindo-se aguça o alfanje
Tendo por guia a razão!
Ao sibilar da metralha
O obus gemendo estraçalha,
E o vasto campo amortalha
Quem fere a revolução!
Cobre a bandeira sagrada
A multidão lacerada,
E da França ensanguentada
Assoma Napoleão;
Surge da borda do abismo
O gênio do cristianismo,
E dos mártires o civismo
Confirma a Revolução.
(Nebulosas, 1872)
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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil
[diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora
Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Narcisa Amália de Campos (1852
— 1924), nascida em São João da Barra — RJ, a partir dos onze anos viveu em
Resende — RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e
ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista —
cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra —, e a mãe, também
professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras
em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos
das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do
francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas
nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros
veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária
dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de
Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino,
criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas,
veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada,
também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida
e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus
e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio
de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou
um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitá “que tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois,
aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no
ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente
no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas
(1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia
de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX;
Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos
meios literários... ou quase esquecida.