terça-feira, 30 de abril de 2024

Narcisa Amália: Pesadelo — II


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A meu pai, o Sr. Jácome de Campos

II

Ton souffle du chaos falsait surtir les lois;
Ton image insultait aux dépouilles des rois.
Et, debout sur l’airain de leurs foudres guerrières,
Entretenait le ciel du bruit de tes exploits.
Casimir Delavigne

Salve! Oh! salve Oitenta-e-Nove
Que os obstáculos remove!
Em que o heroísmo envolve
O horror da maldição!
Rolam frontes laureadas,
Tombam testas coroadas
Pelo povo condenadas
Ao grito revolução!

Caem velhos privilégios
D’envolta co’os sacrilégios;
São troféus os cetros régios,
Mitra, burel e brasão!
E os três esquivos estados
Fundem-se em laços sagrados,
Que prendem os libertados
Aos pés da revolução!

No pedestal da igualdade
Firma o povo a liberdade,
Um canto à fraternidade
Entoa a voz da nação,
Que em delírio violento
Fita altiva o firmamento
E adora por um momento
A deusa Revolução!...

Os ódios secam o pranto,
A ira tem mago encanto,
E a morte sacode o manto
Lançando crânios no chão!
Aqui são longos gemidos
Desses que tombam feridos;
Ouvem-se além os rugidos
Da fera revolução.

Treme a humana potestade
Ante tua mortandade!
Proclama que a sociedade
Agoniza em convulsão!
Erguem-se estranhas fileiras
Vão devassar as fronteiras,
Bradando às hostes guerreiras:
Abaixo a Revolução!

O nobre povo oprimido
Supõe-se fraco e vencido,
Medem-lhe o sangue espargido
Nas vascas da confusão.
Não sabem que é mais veemente
Dos livres o grito ingente
Quando reboa fremente
À luz da revolução!

Levanta-se hirta a falange
E a louca marcha constrange;
Rindo-se aguça o alfanje
Tendo por guia a razão!
Ao sibilar da metralha
O obus gemendo estraçalha,
E o vasto campo amortalha
Quem fere a revolução!

Cobre a bandeira sagrada
A multidão lacerada,
E da França ensanguentada
Assoma Napoleão;
Surge da borda do abismo
O gênio do cristianismo,
E dos mártires o civismo
Confirma a Revolução.

(Nebulosas, 1872)

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Revolta e protesto na poesia brasileira — 142 poemas sobre o Brasil [diversas autorias], Organização e Apresentação de André Seffrin, 2021, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJNarcisa Amália de Campos (1852 1924), nascida em São João da Barra RJ, a partir dos onze anos viveu em Resende — RJ, foi jornalista, escritora, tradutora, poeta, professora e ativista feminina e feminista; o pai, intelectual, professor e jornalista cofundador e redator de O Parahybano, de São João da Barra , e a mãe, também professora, tiveram muito a ver com a precoce relação de Narcisa com as letras em geral e também por ela ter se tornado abolicionista e defensora dos direitos das mulheres; a poeta ganhou espaço na imprensa traduzindo contos e ensaios do francês para o português e, em seguida, deu início à publicação de seus poemas nos jornais Astro Resendense, Monitor Campista, Correio Fluminense entre outros veículos; também teve versos publicados em A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira, dirigida pela poeta Presciliana Duarte de Almeida, e foi colaboradora do jornal feminino e feminista O Sexo Feminino, criado por Dona Francisca Senhorinha da Motta Diniz, no qual, além de poemas, veiculou outros textos ligados à condição da mulher; foi duas vezes casada, também por duas vezes se separou e, desgostosa com as infrutíferas uniões, incompreendida e caluniada pelo então segundo ex-marido, por ser muito requisitada para saraus e receber muitas visitas de poetas e amigos, deixou Resende e rumou para o Rio de Janeiro, sede da Corte Imperial; no Rio, Narcisa atuou no magistério, fundou um pequeno jornal quinzenal, o Gazetinha, suplemento do Tymburitáque tinha como subtítulo ‘folha dedicada ao belo sexo’”; depois, aos poucos, foi-se afastando dos movimentos literários e fortalecendo o foco no ensino e na educação; é considerada a primeira mulher a atuar profissionalmente no jornalismo; a poeta teve seu único livro, Nebulosas (1872), avaliado positivamente por Machado de Assis, sendo raro caso de poesia de autoria feminina a desfrutar sucesso no Brasil do século XIX; Narcisa Amália morreu pobre, cega, paralítica... e também foi esquecida nos meios literários... ou quase esquecida.

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Áurea Pires: Rosa de Neve


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A Alice Guadalupe

Um dia, minha flor, talvez por simpatia,
Tu me deste uma rosa, estranha, com certeza,
Uma rosa de neve em que toda a beleza
Do sublime ideal perfeitamente eu via!

Ora, o régio presente era a fotografia
Do teu rosto gentil, que a própria natureza
Reproduzira assim, na branca singeleza
Dessa esplêndida flor que tu me deste um dia.

Como a rosa de neve, a imagem transparente
Do teu cândido ser, o riso da criança
É a imagem também da fúlgida ventura!

Guarda sempre a alegria ingênua e resplendente,
Como eu guardo comigo a nítida lembrança
Dessa rosa de neve embalsamada e pura!

14 — 9 — 1899
[revista A Mensageira, de 15 de janeiro de 1900,
Ano II, nº 36, São Paulo — SP]

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A Mensageira — Revista Literária dedicada à mulher brasileira (1897 a 1900), Diretora: Presciliana Duarte de Almeida, Edição fac-similar, Volume II, Apresentação de Bete Mendes e comentários de Zuleika Alambert, 1987, Imprensa Oficial do Estado S/A — IMESP, São Paulo — SP; Áurea Pires da Gama (1876 1949), fluminense de Angra dos Reis, fez seus primeiros estudos em Minas Gerais e os concluiu no Rio de Janeiro, foi poetisa e professora; aos 14 anos escreveu o soneto Impossível, publicado no jornal O Astro, de Barbacena MG; a partir de 1906 fixou residência em Cruzeiro SP, ali foi cofundadora do Externato Cruzeiro e passou a dedicar-se ao magistério; suas obras: Flocos de Neve (1896), Indiana (1902), Pétalas (1908), Paquetá (1919) e Entre o mar e a floresta (1922); colaborou com a revista A Mensageira, registando ali alguns de seus versos; foi biografada por Elmo Elton no livro Áurea Pires da Gama: perfil de uma poetisa angreense, publicado em 1974; a poetisa foi casada com o escritor, juiz, desembargador e político Antônio Chichorro da Gama.

domingo, 28 de abril de 2024

Hölderlin: A corrente acorrentada


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[traduzido por Antonio Medina Rodrigues]

Por que tu dormes, Moço, e sonhas sob os véus,
   Na praia, ó Paciente, fria: e teus afãs?
      E nem te importa o quente Nascedouro, ao léu,
         Tu, filho do Oceano e amigo dos Titãs?

As que teu Pai te remeteu, núncias do amor,
   As brisas de hálito de vida não recebes,
      E nem te acende mais o verbo em seu fulgor
         Que lá de cima, despertado, o deus concede?

Mas logo soa, no seu seio soa e aflora
   Como quando à pele da pedreira se recreia,
      Lá bem acima, e em suas forças, já se empolga
         O Maioral  que longe azula das cadeias,

E, a se burlar o Vacilante do que o prende,
   Apanha e rompe e lança aquilo que desmonta,
      E ali, e aqui sorrindo, às praias mais plangentes
         Vai correndo, e em redor aos montes luz desponta,

E a voz do filho dos divinos já desperta,
   E as flores estremecem, e ouvem os abismos
      De longe a seu herói, e trêmula se aviva
         A euforia sobre os seios desta terra.

Ressurge primavera, esplende outro verdor;
   Mas já encaminha o sol aos deuses os seus passos,
      E nem pousada o prende alguma que não for
         Aquela em que o acarinhe um Pai nos seus abraços.

Hölderlin

Der gefesselte Strom

Was schläfst und träumst du, Jüngling, gehüllt in dich,
   Und säumst am kalten Ufer, Geduldiger,
      Und achtest nicht des Ursprungs, du, des
         Ozeans Sohn, des Titanenfreundes!

Die Liebesboten, welche der Vater schickt,
   Kennst du die lebenatmenden Lüfte nicht?
      Und trifft das Wort dich nicht, das hell von
         Oben der wachende Gott dir sendet?

Schon tönt, schon tönt es ihm in der Brust, es quillt,
   Wie, da er noch im Schoße der Felsen spielt',
      Ihm auf, und nun gedenkt er seiner
         Kraft, der Gewaltige, nun, nun eilt er,

Der Zauderer, er spottet der Fesseln nun,
   Und nimmt und bricht und wirft die Zerbrochenen
      Im Zorne, spielend, da und dort zum
         Schallenden Ufer und an der Stimme

Des Göttersohns erwachen die Berge rings,
   Es regen sich die Wälder, es hört die Kluft
      Den Herold fern, und schaudernd regt im
         Busen der Erde sich Freude wieder.

Der Frühling kommt; es dämmert das neue Grün;
   Er aber wandelt hin zu Unsterblichen;
      Denn nirgend darf er bleiben, als wo
         Ihn in die Arme der Vater aufnimmt.
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Hölderlin: Canto do Destino e outros cantos, Organização, Tradução e Ensaio de Antonio Medina Rodrigues e Apresentação de Nelson Ascher, edição bilíngue, 1994, Editora Iluminuras, São Paulo — SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; em 1784, Hölderlin foi encaminhado para Klosterschule, em Denkendorf, iniciando preparação para o pastorato e ali também fez suas primeiras tentativas literárias; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão, obteve cátedra de Filosofia em 1790; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; suas obras: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

sábado, 27 de abril de 2024

Carvalho Júnior*: Antropofagia**

 
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[a Fontoura Xavier, poeta socialista]

Mulher! ao ver-te nua, as formas opulentas
Indecisas luzindo à noite, sobre o leito,
Como um bando voraz de lúbricas jumentas,
Instintos canibais refervem-me no peito.

Como a besta feroz a dilatar as ventas
Mede a presa infeliz por dar-lhe o bote a jeito,
Do meu fúlgido olhar às chispas odientas
Envolvo-te, e, convulso, ao seio meu t'estreito:

E ao longo de teu corpo elástico, onduloso,
Corpo de cascavel, elétrico, escamoso,
Em toda essa extensão pululam meus desejos,

Os átomos sutis, os vermes sensuais,
Cevando a seu talante as fomes bestiais
Nessas carnes febris, esplêndidos sobejos!

(Parisina, pág. 89)


Notas:
* Do atrevidíssimo aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: em 60 Poetas Trágicos [L&PM, 2016], o organizador Sergio Faraco registra acerca do poeta Carvalho Junior:
Foi um dos nossos primeiros parnasianos, aposto aos românticos por um traço que um crítico chamou de realismo urbano. Ele chocou os contemporâneos pelo naturalismo com que abordava temas eróticos, mas não chocou quem era sábio: foi elogiado por Machado de Assis, que comentou seus sonetos no livro Crítica [e variedades], nos seguintes termos: ‘Nunca, em nenhum outro poeta nosso, apareceu essa nota violenta, tão exclusivamente carnal [...]. Crus em demasia são os seus quadros; mas não é comum aquele vigor, não é vulgar aquele colorido’. E conclui: ‘Um poeta de raça’. Carvalho Junior é o nosso Baudelaire. Esse poeta soberbo morreu quando era pouco mais do que um menino e nos legou apenas duas dúzias de poemas.
** De Péricles Eugênio da Silva Ramos, organizador deste Panorama da Poesia Brasileira, Volume III – Parnasianismo:
Antropofagia — dedicada “a Fontoura Xavier, poeta socialista”’.
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Panorama da Poesia Brasileira, Volume III — Parnasianismo, por Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1959, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Antônio de Carvalho Júnior (1855 1879), nascido no Rio de Janeiro, formou-se pela Faculdade de Direito de São Paulo (hoje USP Largo São Francisco), foi promotor público, juiz e poeta considerado como um dos precursores do simbolismo; Péricles registra que “junto com Teófilo Dias, Carvalho Júnior pode ser tomado como o principal poeta do realismo brasileiro”; escreveu e publicou Parisina (1879), uma parte desse volume póstumo, enfeixada sob o título “Hespérides”, contém 22 composições poéticas; foi colaborador do jornal paulistano A República; morreu jovem, sofria do coração.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Volker Braun: Perguntas de um operário durante a revolução


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Tantos relatórios
Tão poucas perguntas.
Os jornais anunciam que estamos no poder.
Quantos de nós
Só porque nunca mandaram em nada
Continuam mantendo a boca escondida
Como se fosse genitália?
As rádios transmitem nossos rumos ao mundo.
Como, com as máquinas em andamento, nos resta
Uma escolha entre duas alavancas?
Nas praças, nossos nomes em postes.
Está cada um a postos
As novas resoluções
A outorgar? Alguns resolvem apenas
Ir às fábricas. Nos tronos está
Nossa gente: vocês nos perguntam
O suficiente? Por que
Não falamos sempre?

Volker Braun

Fragen eines Arbeiters während der Revolution

So viele Berichte.
So wenig Fragen.
Die Zeitungen melden unsere Macht.
Wie viele von uns
Nur weil sie nichts zu melden hatten
Halten noch immer den Mund versteckt
Wie ein Schamteil?
Die Sender funken der Welt unsern Kurs.
Wie, an den laufenden Maschinen, bleibt
Uns eine Wahl zwischen zwei Hebeln?
Auf den Plätzen stehn unsere Namen.
Steht jeder auf dem Platz
Die neuen Beschlüsse
Zu verfügen? Manche verfügen sich nur
In die Fabriken. Auf den Thronen sitzen
Unsre Leute: Fragt ihr uns
Oft genug? Warum
Reden wir nicht immer?
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Volker Braun, nascido em 1939, alemão de Dresden, trabalhou em gráfica, fábrica de gás, construção, estudou filosofia na Universidade de Leipzig, é poeta, dramaturgo e prosador contista e romancista, tendo residido no lado oriental do país durante todo o período de existência das duas Alemanhas no pós Segunda Guerra; o autor, perseguido por suas posições políticas mas reconhecido por seus trabalhos, recebeu distinções e premiações por sua arte poética; entre 1965 e 1967, trabalhou como dramaturgo no Berliner Ensemble, depois atuou no Deutsches Theater e, mais tarde, outra vez no Berliner Ensemble; obras publicadas: Provokation für mich (Provocação para mim, coletânea de poemas 19591964, 1965), Die Kipper (peça teatral escrita de 1962 a 1965, 1972), Das ungenzwungene Leben Kasts (A vida desenfreada de Kast, 1972), Gegen die symmetrische Welt (Contra o mundo simétrico, poema, 1974), Es genügt nicht die einfache Wahrheit (A simples verdade não é suficiente, 1975), Unvollendete Geschichte (História inacabada, romance, 1977) e outras publicações; vive em Berlim, onde deu início a sua carreira literária; premiações: Prêmio Lessing (1981), Prêmio Nacional da Alemanha Oriental (1986), Prêmio Bremer de Literatura (1986), Prêmio Memorial Schiller (1992) etc.

quinta-feira, 25 de abril de 2024

Paul Celan: Cristal

 
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[traduzido por Claudia Cavalcanti]

Não procura nos meus lábios tua boca,
não diante da porta o forasteiro,
não no olho a lágrima.

Sete noites acima caminha o vermelho ao vermelho,
sete corações abaixo bate a mão à porta,
sete rosas mais tarde rumoreja a fonte.

Paul Celan

Kristall

Nicht an meinen Lippen suche deinen Mund,
nicht vorm Tor den Fremdling,
nicht im Aug die Träne.

Sieben Nächte höher wandert Rot zu Rot,
sieben Herzen tiefer pocht die Hand ans Tor,
sieben Rosen später rauscht der Brunnen.

(Mohn und Gedächtnis — 1952)
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Cristal: Paul Celan, edição bilíngue, Seleção, Tradução e Nota Biobibliográfica de Claudia Cavalcanti, Apresentação de Márcio Seligmann Silva, 1999, (3ª reimpressão, 2014), Iluminuras, São Paulo  SP; Paul Pessakh Antschel ou Paul Celan (1920 1970), nascido em Czernowitz (Bukowina Romênia, hoje Ucrânia), fez seus estudos pré-universitários em sua cidade natal, foi poeta, tradutor e ensaísta; em 1938 iniciou a faculdade de Medicina em Tours França e, um ano depois deu início à faculdade de Romanística, em Czernowitz, em 1941, 2ª Guerra em andamento, a região é ocupada por tropas alemãs nazistas e romenas. Celan é encaminhado a um campo de trabalhos forçados, seus pais morreram num campo de concentração; com o fim da guerra, Celan trabalhou em Bucareste como assistente editorial e tradutor traduziu obras de Tchecov e Lemontov; em Paris, estudou Germanística e Linguística; obra poética: Der sand aus den Urnen (1948), Mohn und Gedächtnis (Ópio e Memória, 1952), Von Schwelle zu Schwelle (1955), Sprachgitter (1959), Die Niemandsrose (1963), Atemwende (1967), Fadensonnen (1968), Lichtzwang (1970), Schneepart (póstumo, 1971), Zeitgehöft (póstumo, 1976); recebeu o Prêmio Literário da Cidade de Bremen, 1958, e o Prêmio Georg Büchner de Darmstadt, 1960; Paul Celan, embora fosse de origem judaica, ter nascido na Romênia e vivido décadas em Paris, sempre ‘se fez entender como “escritor alemão”’; Celan, seu pseudônimo literário, se origina da transformação anagramática do seu nome romeno: Ancel; o poeta, que nos anos que antecederam sua morte viu-se com "tendências autodestrutivas, mania de perseguição e surtos de amnésia", cometeu suicido se atirando no rio Sena, em abril de 1970.

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Guimarães Passos: Teu lenço


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Esse teu lenço que possuo e aperto
De encontro ao peito, quando durmo, creio
Que hei-de um dia, mandar-to, pois roubei-o,
E foi meu crime, em breve, descoberto.

Luto, contudo, a procurar quem certo
Possa nisto servir-me de correio;
Tu nem calculas qual o meu receio,
Se, em caminho, te fosse o lenço aberto...

Porém, ó minha vívida quimera,
Fita as bandas que habito, fita e espera,
Que, enfim, verás em trêmulos adejos,

Em cada ponta um beija-flor pegando,
Ir o teu lenço pelo espaço voando
Pando, enfunado, côncavo de beijos!

(Versos de um simples — 1891)

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Inspirados Sonetos de Autores Brasileiros e Portugueses, Organização e Seleção de Milton Xavier de Carvalho e Prefácio de Morvan Acayaba de Rezende, 1996, FUMARC — Fundação Mariana Resende Costa, Contagem — MG; Sebastião Cícero dos Guimarães Passos (1867 1909), alagoano de Maceió, foi jornalista e poeta; no Rio de Janeiro, trabalhou em diversos periódicos da época (Gazeta da Tarde, Gazeta de Notícias, A Semana), e nas suas colunas publicava crônicas e versos; muitas vezes também assinava seus textos com pseudônimos (Filadelfo, Gill, Floreal, Puff, Tim e Fortúnio; produziu textos humorísticos para O Filhote, textos esses reunidos no livro Pimentões (publicado em parceria com Olavo Bilac); em sua estada em Buenos Aires, como exilado no governo Floriano, colaborou com os jornais La Nación e La Prensa; escreveu e publicou Versos de um Simples (1891), Hipnotismo (1900), Horas Mortas (1901), Dicionário de Rimas (com Olavo Bilac, 1905), Tratado de Versificação (com Olavo Bilac, 1905); o poeta foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Goethe: Crítico

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[traduzido por Nelson Ascher]

Eis que me veio uma visita
do tipo achei que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto, ali, que
não sobrou nada em casa; e quando
notei-o quase arrebentando,
o Demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
"A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo".
Que morra paralítico!
Com mil demônios! Era um crítico.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 18.05.86

Goethe

Rezensent

Da hatt ich einen Kerl zu Gast,
Er war mir eben nicht zur Last;
Ich hatt just mein gewöhnlich Essen,
Hat sich der Kerl pumpsatt gefressen,
Zum Nachtisch, was ich gespeichert hatt.
Und kaum ist mir der Kerl so satt,
Tut ihn der Teufel zum Nachbar führen,
Über mein Essen zu räsonieren:
»Die Supp hätt können gewürzter sein,
Der Braten brauner, firner der Wein.«
Der Tausendsakerment!
Schlagt ihn tot, den Hund! Es ist ein Rezensent.

[1774]

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

segunda-feira, 22 de abril de 2024

genésio dos santos: mudei eu ou mudou meu adestrador?


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não faz muito tempo
meu impulso era segredar a sete chaves ou mais
tudo o que a meu jugo só me dizia respeito

o que me era íntimo por vezes não era revelado nem pra mãe ou irmã
mais velha:
se as enxeridas invadissem o querido e confidente diário
era um berreiro só do guri não tagarela

hoje não: minha vida é um feicebuque escancarado
um tique-toque um instagram um xis
um ípsilon jamais incógnito

numa bolha no uatizap me devasso
protegendo-me de quem?
protegido por quem?

não me entendo
não reflito
nem me emendo

algoritmizado
mudei eu
ou mudou meu adestrador?

sp, 20.04.2024

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genésio dos santos ferreira, nascido em 1952, paulista de itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da estrada de ferro sorocabana, foi alfabetizado pela cartilha do tatu — de saturnina de almeida fagundes e escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, labutou em escritórios de contabilidade; até quase agorinha mesmo foi bancário, hoje está aposentado; poeta e cronista, escreveu e publicou número um (poesias, 1978) e cinco poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal o espelho — sp, folha bancária, participou do jornal brinque (do coletivo cultural do seeb-sp, 1983 1985) e pilotou o devezenquandário na moita (1991 1997), editados sob a responsabilidade do sindicato dos bancários de são paulo; é aprendiz de blogueiro e assim se mantém, a despeito dos algoritmos zuquerbergueanos e que tais...

Hans Magnus Enzensberger: Hotel Fraternité


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[traduzido por Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

Quem não tem dinheiro para comprar uma ilha
quem aguarda diante do cinema a rainha de Sabá
quem rasga a sua última camisa por raiva e tristeza
quem esconde um dobrão no sapato furado,
quem se enxerga no olho polido do extorsionista
quem range os dentes no carrossel
quem derrama vinho tinto sobre a cama dura
quem acende uma fogueira de cartas e fotografias
quem senta no cais debaixo dos guinchos
quem dá de comer ao esquilo
quem não tem dinheiro
quem se enxerga
quem bate nas paredes
quem grita
quem bebe
quem não faz nada

Meu inimigo
se agacha nas sacadas
na cama do armário
em todas as partes no chão
os olhos fixos em mim
meu irmão.

Hans Magnus Enzensberger

Hôtel Fraternité

Der kein Geld hat um sich eine Insel zu kaufen
der vor dem Kino wartet auf die Königin von Saba
der sein letztes Hemd zerreisst vor Zorn und Trauer
der eine Dublone verbirgt im zerfetzten Schuh
der sich im polierten Aug des Erpressers erblickt
der auf dem Karussell mit den Zähnen knirscht
der den Rotwein verschüttet über das harte Bett
der ein Feuer macht aus Briefen und Fotografien
der am Kai sitzt unter den Kränen
der das Eichhorn füttert
der kein Geld hat
der sich erblickt
der an die Wände pocht
der schreit
der trinkt
der nichts tut

mein Feind
hockt auf den Simsen
auf dem Bett auf dem Schrank
überall auf dem Fussboden
hockt
die augen auf mich gerichtet
mein Bruder.

(Verteidingung der Wölfe — 1957)
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Eu falo dos que não falam — Antologia, Poesia de Hans Magnus Enzensberger, edição bilíngue, Seleção dos Textos: Kurt Scharf, com tradução de Kurt Scharf e Armindo Teixeira, Prefácio: Bärbel Gutzat, com tradução de Betty Margarida Kunz, 1985, Editora Brasiliense e Instituto Goethe, São Paulo — SP; Hans Magnus Enzensberger (1929 2022), alemão de Kaufbeuren, Baviera, estudou literatura (com doutorado) e filosofia nas universidades de Erlangen, Freiburg, Hamburgo, além da Sorbonne, em Paris, foi poeta, ensaísta, tradutor, escritor e editor; foi ainda redator na rádio Süddeutscher Rundfunk, em Stuttgart, e docente para Arte Poética na Universidade de Frankfurt; criou a revista Kursbuch e editou a série literária Die andere Bibliothek; suas obras: Verteidingung der Wölfe (Defendendo os Lobos, poemas, 1957), Landessprache (Fala Nacional, poesia, 1960), Allerleirauh (poemas, 1961), Gedichte, wie entsteht ein Gedicht (1962), Blindenschrift (Braille — escrita para cegos, poesia, 1964), Deutschland, Deutschland unter anderm (Alemanha, Alemanha, entre outros, ensaio, 1967), Der kurze Sommer der Anarchie: Buenaventura Durrutis Leben und Tod (O curto verão da anarquia: Buenaventura Durrutis vida e morte, prosa, 1972), Palaver (Bajulação, ensaio, 1974), Mausoleum (Mausoléu, poemas, 1975), Der Untergang der Titanic (O naufrágio do Titanic, poema épico, 1978), Die Furie des Verschwindens (A fúria do sumiço, poesias, 1980), Zukunftsmusik (Futuro Música, poesia, 1991), Die Tochter der Luft (A filha do ar, ficção, 1992) e outros títulos; em seus escritos também fez uso dos pseudônimos Linda Quitt, Andreas Yhalmayr, Elisabeth Ambras e Serenus M. Brezengang; recebeu premiações por sua obra.