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quarta-feira, 3 de julho de 2024

Carlos Drummond de Andrade: Um nome: O que diz *

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Francisco Inácio Peixoto?
Este nome acende em redor um clarão verde,
do tempo em que o verde não era cor política,
cheia de caras fechadas e interjeições iracundas.
Era só verde-alegria, verde-vinte anos,
verde-festa, verde-algazarra, verde-pau no lombo dos passadistas,
verde-charanga altissonante em devoção de Oswald
e Tarsila e Mário e Guilherme e Ronald e Manuel
nossos ídolos bem nossos!

Francisco Inácio Peixoto...
Nome que lembra índio, os novos audazes cataguás!
invadindo o sono de Meia-Pataca para a conquista de outra espécie
de poder: o poder estético.
Deram duro, brigaram com alta e bela ingenuidade.
Marcaram um minuto mineiro, tão descontraído, tão macunaíma,
que a gente não esquece mais o cauim dessa bebedeira.

Francisco, eu disse, Francisco Inácio Peixoto!
Agora o nome abre-se no vasto pátio de um colégio
por sua vez aberto ao vento do mundo, e no centro o painel sangrento
de Portinari grita liberdade aos quatro cantos da Terra.
Podem tirá-lo dali: que importa?
A chama continua, sob as cinzas,
no destino de chama.
E o nome expande-se em museu moderno de arte,
museu que poderia ter sido e que não foi.
Francisco Inácio, usina pessoal de sonhos que se tornam realidade
para voltar depois ao reino escuro de antes do sonho.
Ainda uma vez, que importa?
Na água-espelho dos setent’anos
a face límpida do criador vence as mesquinhas contingências do
tempo.


* Nota de Joaquim Branco, autor deste Passagem para a Modernidade...:
Por ocasião das comemorações do 70º aniversário de Francisco Inácio Peixoto [um dos signatários do Manifesto do Grupo Verde de Cataguases e participante da modernista e cataguasense revista Verde, 19271929], organizamos, com a colaboração dos poetas Francisco Marcelo Cabral, P. J. Ribeiro, Aquiles Branco, Márcia Carrano, Ronaldo Werneck e Carlos Sérgio Bittencourt, um número especial no [suplemento] “Totem” [do jornal Cataguases] em sua homenagem. Um dos convidados para colaborar foi o poeta Carlos Drummond de Andrade, que prontamente acedeu ao nosso convite, enviando o poema [Um nome: O que diz] ....
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto, Introdução e Notas de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Carlos Drummond de Andrade (1902 1987), mineiro de Itabira, poeta, contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado incontáveis obras em verso e prosa publicadas em livros, jornais e revistas pelo país afora e no resto do mundo; suas obras: Alguma Poesia (1930); Brejo das Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa & A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão, crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De Notícias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e outros textos...

sábado, 9 de dezembro de 2023

Guilhermino César: Noite de todos os poemas


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No samba que explode lá fora
em voltas de gira
em giros de amor
em cantos e risos
puseram os poemas da raça cafusa.

Poemas vermelhos
poemas roxinhos de fazer pena
poemas brancos e inofensivos
todas as cores e todos os sentimentos
nas cabrochas repinicando,
sambando suadas.

Poemas de raça
Poemas da terra
poemas de tudo!

No samba que explode lá fora
em voltas de gira
em giros de amor
em cantos e risos
falta porém um poema maior...
Não se pode escrevê-lo somente:
é preciso sentir
é preciso viver
solidário com a gente morena
pra escrever o poema melhor
 o poema maior e mais fundo
que a raça exige de nós.

(1928: s/p)

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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Guilhermino César da Silva (1908 1993), mineiro nascido em Pinheiros, atual Pinhotiba, distrito de Eugenópolis, aprendeu as primeiras letras com Zizinha Negreiros, professora particular, estudou no Grupo Escolar Astolfo Dutra e no Ginásio Municipal de Cataguases, iniciou o curso de Medicina, desistiu, formou-se em Direito, foi escritor, crítico literário, administrador público, jornalista, professor, historiador e poeta; escreveu seus primeiros versos aos oito anos de idade, fez parte da geração modernista mineira e participou ativamente, inclusive na fundação, da modernistíssima revista Verde, editada em Cataguases MG; na década de 1940 transferiu-se para Porto Alegre RS e deu continuidade às atividades no magistério, à política e à cultura; suas obras: além da atuação na revista Verde, Guilhermino escreveu e publicou Meia-Pataca (em parceria com Francisco Inácio Peixoto, 1928), Sul (romance, 1939), História da Literatura do Rio Grande do Sul: 1737 — 1902 (1956), Ladrão de Cavalo (1964), Lira Coimbrã e Portulano de Lisboa (poesia, ambos em 1965), O embuçado de Erval — mito e poesia de Pedro Canga (1968), Arte de matar (1969), Qorpo-Santo: relações naturais e outras comédias (1969), Primeiros cronistas do Rio Grande do Sul: 1605 — 1801 (1969), Sistema do Imperfeito e Outros Poemas (1977), Banhados (1986), Cantos do canto chorado (poesia, 1990) e outros títulos; no jornalismo, dirigiu o jornalzinho Mercúrio, da Associação dos Empregados no Comércio de Cataguases, na década de 20, atuou, desde a fundação, na já mencionada revista Verde, foi um dos fundadores da revista Leite Criôlo (em Belo Horizonte, 1929), secretariou os jornais A Tribuna e O Diário, ambos também de BH, além de ter colaborado em outros periódicos; no magistério, foi professor-fundador e depois diretor da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Minas Gerais, e ali lecionou Literatura Brasileira e História Moderna, professor, também de Literatura Brasileira, na Faculdade de Filosofia da UFRGS e na Universidade de Coimbra Portugal; assumiu funções públicas em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul.

sábado, 15 de janeiro de 2022

Rosário Fusco: A vendedora de morangos*

 
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Na luz porosa da manhã de bruma
passas cantarolando pela minha porta!

Teu canto é branco como a luz
e móvel como as águas!
E fortes como a flecha
e ágil como o vento!
Teu canto é doce como o mel
e certo como a fala de Zic o rei dos sábios!

Mas eu não quero o teu canto
branco como a luz e móvel como as águas...
Mas eu não quero o teu canto
forte como a flecha e ágil como o vento...
Mas eu não quero o teu canto
doce como o mel
e certo como a fala de Zic o rei dos sábios...
Eu só quero saber ó vendedora de morangos
de quem é esse morango rubro dos teus lábios!...


* Nota do atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa: Joaquim Branco, o autor de Passagem para a Modernidade — transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), registra sobre o poema: “De Rosário Fusco, dos mais vanguardistas de Verde, esta ‘pérola’ — A vendedora de morangos — datada de 1926.”
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

Ascânio Lopes: Sanatório

 
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Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto,
trazida de manso pela mão da noite.

Então minha testa começará a arder,
todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.

Lá fora haverá um vento mau
e as árvores sacudidas darão medo.
Ah! os meus olhos brilharão, procurando

a Morte que quer entrar no meu quarto.
Os meus olhos brilharão como os da fera
que defende a entrada do seu fojo.


* Nota de Joaquim Branco: Transcrito de Verde nº 1 (2ª fase), maio de 1929. No livro Ascânio Lopes — vida e poesia, este poema apresenta variações anotadas por Delson G. Ferreira de manuscritos fornecidos por Francisco Inácio Peixoto. São as seguintes: 1) “e todo meu corpo magro sofrerá:”; 2) e lá fora haverá um vento mau:”; 3) “Os meus olhos brilharão como os de uma fera:”; e 4) “que defende a entrada da sua morada.” (FERREIRA, 1967: 74)
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano publicou o jornalzinho O Eco, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; bibliografia: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (em conjunto com Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a morrer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Rosário Fusco: Poema da Rua do Porão

 
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A noite desceu de repente
e encheu as casas de sombras.

Sacis cachimbavam na boca do mato
e acenderam faíscas no céu.
E a lua de louca serena subiu,
subiu e parou lá em cima
d’um galho de ingá.

(Do lado da ponte que é preta de sombra
chegam vozes longínquas de gente que fala...)

E lá longe,
beirando as guaximbas do açude,
coaxam sapos papudos no charco...

(1927)

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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosario Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; suas obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado, adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e editado na Itália.

domingo, 8 de agosto de 2021

Ascânio Lopes: Serão do menino pobre

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Na sala pobre da casa da roça
papai lia os jornais atrasados.
Mamãe cerzia minha meias rasgadas.
A luz frouxa do lampião iluminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de histórias impossíveis
desde criança fascinou-me o maravilhoso.
Às vezes mamãe parava de costurar
a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabelos,
numa carícia muda e silenciosa.

Quando mamãe morreu
o serão ficou triste, a sala vazia.
Papai já não lia os jornais
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampião ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes...
E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior.

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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Ascânio Lopes Quatorzevoltas (1906 1929), mineiro de Ubá e cataguasense desde os cinco meses de idade, fez seus estudos iniciais no Ginásio de Cataguases, depois estudou no Colégio Mineiro e ingressou na Faculdade de Direito, ambos em Belo Horizonte, foi jornalista, escritor e poeta verdejante; ainda ginasiano publicou o jornalzinho O Eco e, depois, foi um dos criadores do Manifesto do Grupo Verde que deu início à cataguasense revista Verde, porta-voz dos modernistas mineiros; bibliografia: além de poemas e outros textos registrados em jornais e revistas, publicou Poemas Cronológicos (em conjunto com Enrique de Resende e Rosário Fusco, 1928); ainda em 1928, o poeta deixou Belo Horizonte e a Faculdade de Direito e retornou a Cataguases, onde se internou para tratar de tuberculose ora contraída e da qual veio a falecer em 10 de janeiro de 1929; além de Ascânio, também assinaram o Manifesto do Grupo Verde e criaram a Verde, os jovens literatos [H]Enrique de Resende, Rosário Fusco, Guilhermino Cesar, Christophoro Fonte-Bôa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camillo Soares e Francisco I. Peixoto; a Verde, com 6 números de duração, teve sua última edição, in memoriam (Verde .1 — 2ª fase, maio de 1929), inteiramente dedicada ao poeta verdejante recém-falecido; este último número contou com textos referentes à vida literária do poeta que se fora, poemas e alguns inéditos do próprio; em seus números, a Verde contou com a colaboração de próceres do modernismo, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Drummond e Emílio Moura, entre outros.

sábado, 7 de agosto de 2021

Xico Smart: Ser "smart*"

 
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Ora (direis) ser-se "smart", meu caro! Certo
Isto é tolice! E eu vos direi, no entanto,
Que, cada dia, logo que desperto,
pensar em sê-lo é o meu maior encanto...

E disso cuido todo o dia, enquanto
O belo sexo, esse rosal aberto,
Transita. E, vindo a noite, eu, triste e em pranto,
Inda o procuro no jardim deserto.

Direis agora: Meu choroso amigo!
Que cousa é o "smartismo"? Que sentido
Tem isso que entender eu não consigo?

E eu vos direi:  Ora esta! Eu é que sei?
Se eu falo assim é porque tenho ouvido
Que "smart" eu sou e, que fazer?, serei...

([jornal] A Quimera [nº21, pág. 3], 27.08.1908)

* Nota de Joaquim Branco: Segundo nossas pesquisas, nesta e em muitas publicações, a palavra smart tem o significado de chic, “elegante”, e vamos encontrá-la em vários números da Revista da Mata [ . . . ], como propaganda  de uma fábrica de gravatas que havia em Cataguases.
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Passagem para a Modernidade — Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; sobre Xico Smart [pseudônimo?!], compositor do soneto-paródia, não há outros registros em pesquisas googleanas; o atrevido aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa já antecipa agradecimentos a quem tiver alguma notícia biobibliográfica do autor do poema e quiser/puder compartilhar com esta página.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Rosário Fusco: Edital de demissão e ponto

 
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Meu caro poeta:
meta a lira no cu
e vê se te aquieta.
O mundo mudou tanto que
amanhã
a lua será lixeira, à toa,
privada e refúgio da terra
emudecida,
seu Orfeu.
Erra quem pensa
que as palavras valem
hoje em dia
 pois a palavra é poesia
e a poesia morreu.
São cibernéticos os contatos
dos homens com os homens
e dos homens com as coisas.
Números.
[ . . . ]
Nada vale nada com algemas.
[ . . . ]
Não é possível mais cantar:
o canto entope, engasga e sufoca.
Radar.
A poesia do cosmo chega
em vibrações secretas
do telstar
omite
e demite poetas.

(longo poema escrito em 1972, fragmento publicado no
suplemento "Cataguarte" — especial, setembro de 1999)

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Passagem para a Modernidade: Transgressões e experimentos na poesia de Cataguases (Década de 1920), Texto e Introdução de Joaquim Branco e Apresentação de Francis Paulina Lopes da Silva, 2002, Instituto Francisca de Souza Peixoto, Cataguases — MG e Editar Editora Associada, Juiz de Fora — MG; Rosário Fusco ou Rosário Fusco de Souza Guerra (1910 1997), mineiro de São Geraldo, formado em Direito pela Universidade do Brasil (atual UFRJRJ), foi advogado, jornalista, publicitário, escritor, crítico literário, dramaturgo e poeta; teve uma infância sacrificada e, desde jovem, fez um pouco de tudo: foi pintor de tabuletas, servente de pedreiro, prático de farmácia, bancário, bedel e professor de desenho; ainda aos 15 anos, estudante do Ginásio Municipal de Cataguases, frequenta as sessões do Grêmio Literário Machado de Assis e, com outros jovens, é um dos fundadores do Grupo Verde, responsável pelo lançamento da revista Verde, publicação literária modernista editada entre 1927 e 1929, que adquiriu importância por ter contado com colaborações de poetas, escritores e ilustradores modernistas do Brasil e também do exterior; o poeta Rosario Fusco foi um dos nove signatários do ‘Manifesto do Grupo Verde de Cataguases’; obras: Poemas cronológicos (com Enrique de Resende e Ascânio Lopes, 1928), Fruta de Conde (poesias, 1929), Amiel (ensaio, 1940), Política e Letras (ensaio, 1940), Vida literária (crítica, 1940), O Agressor (romance, 1943), O Livro do João (romance, 1944), Anel de Saturno e O Viúvo (teatro, ambos em 1949), Introdução à Experiência Estética (ensaio, 1949), Carta à Noiva (romance, 1954), Auto da Noiva (teatro, não editado, peça encenada nos EUA, 1961), Dia do Juízo (romance, 1961), a.s.a. associação dos solitários anônimos (romance, publicação póstuma, 2003)...; Rosário Fusco é lembrado por críticos como o menino-prodígio do Modernismo brasileiro, um verdadeiro precursor do supra-realismo literário; antes da Verde, o poeta deixou impresso seus poemas no Jornal Mercúrio e também nos periódicos Boina e Jazz-Band, na mineira Cataguases; no Rio de Janeiro, à época capital da república, atuou como publicitário, cronista de rádio, crítico literário do Diário de Notícias, redator-chefe da revista A Cigarra, diretor-conjunto da publicação Cultura Política — Revista de Estudos Brasileiros, procurador do estado e adido da embaixada do Brasil no Chile; seu romance O Agressor teve versão para o italiano, L’Agressore, e foi editado na Itália.