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domingo, 1 de junho de 2014

Hermes Fontes: Pouco acima daquela alvíssima coluna *

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Pouco acima daquela alvíssima coluna
que é o seu pescoço, a boca é-lhe uma taça tal
que, vendo-a, ou vendo-a, sem, na realidade, a ver,
de espaço a espaço, o céu da boca se me enfuna
de beijos — uns, sutis, em diáfano cristal
lapidados na oficina do seu Ser;
outros — hóstias ideais dos meus anseios,
e todos cheios, todos cheios
do meu infinito amor...
Taça
que encerra
por
suma graça
tudo que a terra
de bom
produz!
Boca!
o dom
possuis
de pores
louca
a minha boca!
Taça
de astros e flores,
na qual
esvoaça
meu ideal!
Taça cuja embriaguez
na via-láctea do Sonho ao céu conduz!
Que me enlouqueças mais... e, a mais e mais, me dês
o teu delírio... a tua chama... a tua luz...


Hermes Fontes













* Nota de Antonio Lisboa Carvalho de Miranda: Um poema em forma de taça. Um precursor, sem dúvida, do caligrama (caligramme) entre nós, antes de Apollinaire. É certo que o autor não “desenhou” com letras a taça, como fariam os caligramistas, nem teve recursos gráficos para dar contornos mais definidos à figura, o que hoje seria possível fazer com qualquer programa de edição... Mas fica aqui o registro. Resta apenas determinar a data exata da publicação do poema acima para definir melhor a dimensão de seu pioneirismo.
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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Hermes Floro Bartolomeu de Araújo Fontes (1888 1930), sergipano de Buquim, bacharel pela Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro, foi poeta, um dos fundadores do jornal Estréia (1904) e colaborador dos jornais Fluminense, Rua do Ouvidor, Imparcial, Folha do Dia, Correio Paulistano, Diário de Notícias, e das revistas Careta, Fon-Fon, Tagarela, Atlântida, entre outros periódicos de sua época; obra poética: Apoteoses (1908), Gênese |(1913), Ciclo da Perfeição (1914), Mundo em Chamas (sob a impressão da primeira guerra mundial, 1914), Miragem do Deserto (1916), Epopéia da Vida (1917), Microcosmo (1919), A Lâmpada Velada (1922) etc.