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[traduzido
por Leonor Scliar-Cabral]
O fumo que formou corpo fingido
que por mais denso, mais repousa em
nada;
o vento que passou com força alada
sem poder pela rede ser colhido;
o pó nas regiões desvanecido
de uma primeira nuvem dilatada;
a sombra, a forma ao corpo
apartada;
que abdicou de ser tendo partido,
são palavras de mulher. Sobrevinda
novidade qualquer, o assombro é
tanto
que lealdade, amor ou fé se findam.
É só mudança, o nome, desencanto,
pois quanto mais segura, quem a prende
tem sombra, fumo, nada, pó e vento.
[suplemento
dominical de cultura] Folhetim*, 09.03.86
[Soneto]
El humo que formó cuerpo fingido,
que cuando está más denso para en
nada;
el viento que pasó con fuerza
airada
y que no pudo ser en red cogido;
el polvo en la región desvanecido
de la primera nube dilatada;
la sombra que, la forma al cuerpo
hurtada,
dejó de ser habiéndose partido,
son las palabras de mujer. Si viene
cualquiera novedad, tanto le
asombra,
que ni lealtad ni amor ni fe
mantiene.
Mudanza ya, que no mujer se nombra,
pues cuanto más segura, quien la
tiene,
tiene humo, polvo, nada, viento y
sombra.
* Nota
do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página
registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de
São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial
ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura
modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de
Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem
carioca.
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Folhetim:
Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr.
e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São
Paulo, São Paulo — SP; Lope Felix de Vega Carpio (1562 — 1635), espanhol
e madrilenho, poeta, escritor e dramaturgo, foi um menino prodígio: aos cinco anos
lia em castelhano e latim, aos dez fez traduções do latim para o espanhol, aos doze
escreveu sua primeira peça teatral; estudou na Universidade de Salamanca e teve
vasta produção teatral e literária; escreveu centenas de comédias e autos, além
de milhares de poesias líricas, cartas, romances, poemas épicos e outros; de sua
bibliografia, cite-se La Dragontea (poema extenso, 1598), Rimas (poemas, 1604),
Arte Nuevo de Hacer Comedias (teatro barroco espanhol, 1606), Jerusalém Libertada
(1609), Pastores de Belém (1612), Rimas Sacras (1614), Romance Espiritual (1619),
La Dorotea (romance dramático, 1632), Amarílis (écogla, 1633), La Gatomaquia (poema
extenso, 1634), além de tantos outros escritos em versos inspirados em histórias
e lendas espanholas; é considerado o fundador da comédia hispânica e, por sua inesgotável
capacidade criativa, um dos mais prolíficos autores da literatura universal, chamado
por seus contemporâneos de "O Monstro da Natureza".