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sexta-feira, 18 de agosto de 2023

Lope de Vega: O fumo que formou corpo fingido . . . [soneto]


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[traduzido por Leonor Scliar-Cabral]

O fumo que formou corpo fingido
que por mais denso, mais repousa em nada;
o vento que passou com força alada
sem poder pela rede ser colhido;

o pó nas regiões desvanecido
de uma primeira nuvem dilatada;
a sombra, a forma ao corpo apartada;
que abdicou de ser tendo partido,

são palavras de mulher. Sobrevinda
novidade qualquer, o assombro é tanto
que lealdade, amor ou fé se findam.

É só mudança, o nome, desencanto,
pois quanto mais segura, quem a prende
tem sombra, fumo, nada, pó e vento.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 09.03.86

Lope de Vega

[Soneto]

El humo que formó cuerpo fingido,
que cuando está más denso para en nada;
el viento que pasó con fuerza airada
y que no pudo ser en red cogido;

el polvo en la región desvanecido
de la primera nube dilatada;
la sombra que, la forma al cuerpo hurtada,
dejó de ser habiéndose partido,

son las palabras de mujer. Si viene
cualquiera novedad, tanto le asombra,
que ni lealtad ni amor ni fe mantiene.

Mudanza ya, que no mujer se nombra,
pues cuanto más segura, quien la tiene,
tiene humo, polvo, nada, viento y sombra.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Lope Felix de Vega Carpio (1562 — 1635), espanhol e madrilenho, poeta, escritor e dramaturgo, foi um menino prodígio: aos cinco anos lia em castelhano e latim, aos dez fez traduções do latim para o espanhol, aos doze escreveu sua primeira peça teatral; estudou na Universidade de Salamanca e teve vasta produção teatral e literária; escreveu centenas de comédias e autos, além de milhares de poesias líricas, cartas, romances, poemas épicos e outros; de sua bibliografia, cite-se La Dragontea (poema extenso, 1598), Rimas (poemas, 1604), Arte Nuevo de Hacer Comedias (teatro barroco espanhol, 1606), Jerusalém Libertada (1609), Pastores de Belém (1612), Rimas Sacras (1614), Romance Espiritual (1619), La Dorotea (romance dramático, 1632), Amarílis (écogla, 1633), La Gatomaquia (poema extenso, 1634), além de tantos outros escritos em versos inspirados em histórias e lendas espanholas; é considerado o fundador da comédia hispânica e, por sua inesgotável capacidade criativa, um dos mais prolíficos autores da literatura universal, chamado por seus contemporâneos de "O Monstro da Natureza".