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terça-feira, 3 de março de 2015

Vicente de Carvalho: Folha solta

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Não me culpeis a mim de amar-vos tanto,
mas a vós mesma e à vossa formosura,
pois se vos aborrece, me tortura
ver-me cativo assim do vosso encanto.

Enfadai-vos; parece-vos que, enquanto
meu amor se lastima, vos censura;
mas sendo vós comigo áspera e dura,
que eu por mim brade aos céus não causa espanto.

Se me quereis diverso do que agora
eu sou, mudai; mudai vós mesma, pois
ido o rigor que em vosso peito mora,

a mudança será para nós dois:
e então podereis ver, minha senhora,
que eu sou quem sou por serdes vós quem sois.

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Antologia da Poesia Brasileira, por José Valle de Figueiredo — Mestres da Literatura Contemporânea, sem data, Editorial Verbo, Lisboa — Portugal; Vicente Augusto de Carvalho (1866 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Vicente de Carvalho: Velho Tema — IV

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Eu não espero o bem que mais desejo:
Sou condenado, e disso convencido;
Vossas palavras, com que sou punido,
São penas e verdades de sobejo.

O que dizeis é mal muito sabido,
Pois nem se esconde nem procura ensejo,
E anda à vista naquilo que mais vejo:
Em vosso olhar, severo ou distraído.

Tudo quanto afirmais eu mesmo alego:
Ao meu amor desamparado e triste
Toda a esperança de alcançar-vos nego.

Digo-lhe quanto sei, mas ele insiste;
Conto-lhe o mal que vejo, e ele, que é cego,
Põe-se a sonhar o bem que não existe.

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Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana, Organização, Seleção, Prefácio e Notas de Manuel Bandeira, 1938, Edição do Ministério da Educação e Saúde, Rio de Janeiro — RJ; Vicente Augusto de Carvalho (1866 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Vicente de Carvalho: Desiludida

Nossos Clássicos: Vicente De Carvalho / Fausto Cunha
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Sou como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca da água distante.

Bem sei que já me não ama,
E sigo, amorosa e aflita,
Essa voz que não me chama,
Esse olhar que não me fita.

Bem reconheço a loucura
Deste amor abandonado
Que se abre em flor, e procura
Viver de um sonho acabado;

E é como a corça ferida
Que vai, sedenta e arquejante,
Gastando uns restos de vida
Em busca da água distante.

Só, perdido no deserto,
Segue empós do seu carinho:
Vai se arrastando... e vai certo
Que morre pelo caminho.
(Rosa, Rosa de Amor  1902)

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Vicente de Carvalho — Poesia, Apresentação e Seleção de Fausto Cunha, Volume 81 da Coleção Nossos Clássicos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1965, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Vicente Augusto de Carvalho (1866 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vicente de Carvalho: A Flor e a Fonte*

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.
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"Deixa-me, fonte!" Dizia
A flor, tonta de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Cantava, levando a flor.

"Deixa-me, deixa-me, fonte!"
Dizia a flor a chorar:
"Eu fui nascida no monte...
"Não me leves para o mar."

E a fonte, rápida e fria,
Com um sussurro zombador,
Por sobre a areia corria,
Corria levando a flor.

"Ai, balanços do meu galho.
"Balanços do berço meu;
"Ai, claras gotas de orvalho
"Caídas do azul do céu!..."

Chorava a flor, e gemia,
Branca, branca de terror.
E a fonte, sonora e fria,
Rolava, levando a flor.

"Adeus, sombra das ramadas,
"Cantigas do rouxinol;
"Ai, festa das madrugadas,
"Doçuras do pôr-do-sol;

"Carícias das brisas leves
"Que abrem rasgões de luar...
"Fonte, fonte, não me leves,
"Não me leves para o mar!..."

                  

As correntezas da vida
E os restos do meu amor
Resvalam numa descida
Como a da fonte e da flor.
Rosa, Rosa de Amor,
 V - Cair das Folhas

* O nome do poema, originalmente, era  "Cair das Folhas". Em
sua "Apresentação", Fausto Cunha expõe que 'o título pareceu
sempre tão estranho, que terminou sendo alterado para "A Flor
e a Fonte" ', sem explicar quando nem por quem.
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Vicente de Carvalho  Poesia, Apresentação e Seleção de Fausto Cunha, Volume 81 da Coleção Nossos Clássicos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1965, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Vicente Augusto de Carvalho (1866 — 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP  SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Vicente de Carvalho: Pequenino Morto

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa. 
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Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
       Pequenino, acorda!

Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te...
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
       De vestido novo.

Como aquela imagem de Jesus, tão lindo,
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronte loura um resplendor fulgindo,
— Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores...
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
       Florescido em rosas!

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
       Pequenino, acorda!

Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham...
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge da cobiça dessas fundas valas
      A pedir que as encham.

Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho... A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noite;
Por aqui só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre... É a hora
       Do cair da noite...

Pela Ave-Maria, como procuravas
Tua mãe!... Num eco de sua voz piedosa,
Que suaves coisas que tu murmuravas,
De mãozinhas postas, a rezar com ela...
Pequenino, em casa, tua mãe saudosa
Reza a sós... É a hora quando a procuravas...
       Vai rezar com ela!

E depois... teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rosas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóis de linho no colchão de penas.
Que acordar alegre nas manhãs cheirosas!
Que dormir suave, pela noite fria,
       No colchão de penas...

Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro...
       Pequenino, acorda!

Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregam a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça, e espalha-a, debruçado à beira
       Dessa cova funda?

Vais ficar sozinho no caixão fechado...
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! — Pequenino!... É tarde!...
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
       Vai desmoronando...

Eis fechada a cova. Lá ficaste... A enorme
Noite sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca...
Tão sozinho sempre por tamanha noite!...
Pequenino, dorme! Pequenino dorme...
       Nem acordes nunca!
Poemas e Canções
(Cia. Editora Nacional,
 São Paulo, 1944)
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Apresentação da Poesia Brasileira seguida de uma pequena antologia — Manuel Bandeira — Prefácio de Otto Maria Carpeaux, Editora Casa do Estudante do Brasil, 1946, Rio de Janeiro — RJ; Vicente Augusto de Carvalho (1866 — 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP — SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Vicente de Carvalho: Velho Tema — I

Nossos Clássicos: Vicente De Carvalho / Fausto Cunha
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Só a leve esperança, em tôda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em tôda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Tôda arreada* de dourados pomos,

Existe, sim; mas nós não a alcançamos**
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.


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* Tôda arreada. Arrear-se: enfeitar-se, adornar-se; por extensão: cobrir-se.
** Não a alcançamos. Na primeira edição está "não na alcançamos".

Nota deste aprendiz de blogueiro: A transcrição deste poema é cópia fiel do Volume 81 da Coleção Nossos Clássicos.
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Vicente de Carvalho — Poesia, Apresentação e Seleção de Fausto Cunha, Volume 81 da Coleção Nossos Clássicos, publicados sob a direção de Alceu Amoroso Lima, Roberto Alvim Corrêa e Jorge de Sena, 1965, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro — RJ; Vicente Augusto de Carvalho (1866 1924), paulista de Santos, bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo (USP SP), além de ter feito carreira na área da Justiça (advocacia, juizado e ministério estadual), foi jornalista, poeta e contista; escreveu e publicou Ardentias (1885), Relicário (1888), Rosa, Rosa de Amor (1902), Poemas e Canções (1908), Versos da Mocidade (1909), Verso e Prosa (1909), Páginas Soltas (1911), A Voz dos Sinos (1916), Luizinha (contos, 1924); é considerado por estudiosos da literatura brasileira um dos principais nomes do parnasianismo.