quinta-feira, 21 de abril de 2011

Nhô Bentico (Abílio Víctor): Boa midida

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O cumpadre Balarmino,
hóme sério i traquejado,
foi nomeado manda-chuva
do bairro do Páu Queimado.

Vái, agora, pô nos eixo
tudas coisa que tem lá: —
as casa que tivé véia
ele manda derrubá.

As galinha c'os cabrito,
que tivé pra cá, pra lá,
nem que os dono s'imbrabeça,
ele vai mandá matá...

Ótra coisa muito boa
vai ponhá feito midida: —
persiguí os cachacêro
pramórde acabá a bebida.

Nas venda que fô chegano
vái pegano os atorduado
i dano sóva de páu,
de dexá desguvernado...

O cumpadre Balarmino
vái levá mermo no sério,
vai fazê no Páu Queimado,
silêncio de sumitério.

O bairro tá tão suturno
c'os novo regulamento;
os cachacêro, tão triste
que nem cachorro sarnento...

Nhô Viridíco já disse
que as midida são demais: —
se fô purivida as pinga,
ele passa n'água ráis.

O Jango da Nhá Carlota
diz que bébe por tê sina: —
se não tivé mais cachaça
ele vái nas gazulina...

Nhô Trancoso é concordado,
acha tudo muito bão: —
diz que tem contentamento
só de oiá no garrafão!

O cumpadre Balarmino
tem passado u'a bassôra,
limpano c'os vagabundo
que prijudica as lavôra.

I os hõme, que vivia
c'os imbigo no barcão,
tão bateno c'as inxada,
luitano c'os argodão!
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Folhas do Mato  versos caipiras, 2ª edição aumentada, Prefácio de Manoel Cerqueira Leite, 1940, Gráfica Sorocabana, Sorocaba  SP; Nhô Bentico e Abílio Soares Víctor (1899 1952) foram uma só pessoa, um só poeta, caipira, gráfico e radialista itapetiningano; pioneiro dos reclames rimados para o comércio, Abílio Víctor, poeta dialetal, escreveu e publicou Folhas do Mato, Versos Humorísticos, Favas de Ingá e Poemas Sertanejos.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Virna Teixeira: O que é poesia? — Entrevista

Virna Teixeira

        Pergunta: O que é poesia para você?
        Virna Teixeira: Uma tensão entre linguagem, silêncio e música. 
        
        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        VT: Concentrar-se na sua verdade, na sua técnica, de forma autêntica. Deve informar-se, escolher boas leituras que lhe sirvam de exemplo, com as quais tenha afinidade. Exercitar-se constantemente, questionar o próprio trabalho.
        
        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        VT: Poetas: Lorine Niedecker, pela concisão e  musicalidade (Lorine foi a Emily Dickinson da sua época); o escocês Edwin Morgan, pela sua versatilidade e inventividade, e pelo seu trabalho extraordinário como tradutor; Ana Cristina César, pela audácia e criatividade — leio a Ana Cristina desde a década de 80 e sempre encontro referências novas no seu trabalho, surpreendentes.
        Textos: Destruição do pai / reconstrução do pai, de Louise Bourgeois — um eterno aprendizado emocional e formal; Devil's playground, da fotógrafa Nan Goldin — não me canso da força e da intensidade de suas imagens —; qualquer texto de Gertrude Stein — pela forma que lida com a linguagem, por sua inteligência e ironia.
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; No livro, Virna Teixeira e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; Virna Teixeira, nascida em Fortaleza, é poeta, tradutora e neurologista, e tem um blogue: papel de rascunho

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Blogueiros progressistas paulistas se reúnem...


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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

Augusto de Campos: O que é poesia? — Entrevista

VIVA VAIA - Augusto de Campos

    Pergunta: O que é poesia para você?
        Augusto de Campos: De preferência, a poesia dos outros. E o que é poesia? Respondendo à pergunta "o que é música?", Shoenberg saiu-se com esta historinha:
        Um cego perguntou ao seu guia:  Como é o leite?
        O outro:  O leite é branco.
        O cego:  E o que é esse branco? Me dê um exemplo de algo que seja "branco"!
        O guia:  Um cisne. Ele é totalmente branco e tem um pescoço longo e curvo.
        O cego:  Pescoço curvo? Como é isso?
        O guia, imitando a forma do pescoço do cisne com o braço, fez com que o cego o apalpasse.
        O cego:  "Ah, agora eu sei como é o leite"...

        Bom, para não desanimar o leitor, dou duas definições de poesia de dois outros cegos:
        Paul Valéry: "Hesitação entre o som e o sentido";
        Ezra Pound: "Uma espécie de matemática inspirada que nos dá equações não para imagens abstratas, triângulos, esferas, etc, mas equações para as emoções humanas".

        P: O que um iniciante no fazer poético deve perseguir e de que maneira?
        AC: Perseguir implacavelmente a si próprio. Jamais perseguir o sucesso.
     
        P: Cite-nos 3 poetas e 3 textos referenciais para seu trabalho poético. Por que estas escolhas?
        AC: "Um lance de dados jamais abolirá o acaso", de Stéphane Mallarmé. Inaugurou a poesia do século 20 e continua a presidir o espaço poético-cyberal;
        "Finnegans Wake", de Joyce, panAroma das flores da fala, telescopagem vocabular, racionalidade do caos;
        "Os Cantos", de Pound, montagem-colagem-ideograma, estratégias básicas para a poesia de nosso tempo.
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O que é poesia? (Organização: Edson Cruz), Confraria do Vento e Editora Calibán, 2009, Rio de Janeiro  RJ; no livro, Augusto de Campos e outros 44 poetas brasileiros, portugueses e hispano-americanos em atuação respondem a três proposições acerca do "fazer poético"; paulista e paulistano, nascido em 1931, o poeta, tradutor, ensaísta e crítico de literatura e música é reconhecido, com o lançamento da revista literária Noigandres, em parceria com seu irmão Haroldo de Campos e Décio Pignatari, como um dos criadores, representantes e divulgadores do movimento internacional da Poesia Concreta no Brasil.

Genésio dos Santos: Lei da selva

Livro: Número Um De Genésio Dos Santos
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O cão ladra
o gato mia
o rato chia
e dana-se.

Na vida,
ajo como o gato,
corro atrás do rato
e mais atrás
me persegue o cão.

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Número Um, Edição do Autor, 1978, São Paulo  SP; Genésio dos Santos, nascido em 1952, é poeta e cronista.

domingo, 10 de abril de 2011

Em face de um último acontecimento, agora no Brasil,


        ... renovo postagem de um texto elaborado por mim quando da campanha nacional relativa ao plebiscito pelo desarmamento.
        Naquela eleição plebiscitária, levada a efeito em 23.10.2005, o resultado final foi que 60 milhões de cidadãos votantes (64%) rejeitaram a proposta de não comercialização generalizada de armas de fogo, enquanto outros 33 milhões de cidadãos (36%) votamos pelo "Sim", pela aceitação da proposta contra a venda indiscriminada de armas. Perdemos!
        E é claro que, sozinha, uma futura campanha vitoriosa pró-desarmamento não garante a não-ocorrência de fatos como o da escola do Realengo no Rio de Janeiro, com crianças fatalmente vitimadas por obra de um alucinado.

        Mas vale a pena persistir no sonho.
        A realidade dos acontecimentos, não raras vezes, tem sido bem feia e brutal.
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Sim, voto racional. Não voto neurótico.

Sim, voto pelo avanço da democracia. Não voto pelo direito de alguns, pela força.

Sim, voto pela esperança. Não voto pelo medo.

Sim, voto pela paz. Não voto pela neurose.

Sim, voto pela garantia do ser... humano, pela solidariedade, pelo companheirismo, pelo essencial. Não voto pela garantia do ter... o tênis importado, do ter... o celular de última geração, do ter isso, do ter aquilo; nem pelo capitalismo... selvagem, pelo consumismo.

Sim, voto para passear a pé pelas calçadas ou por praças e jardins, passear de bicicleta. Não voto por cercas elétricas, alarmes, câmeras big brotherstrancas e grades nos condomínios; pela vigilância de pitbulls, dobermans e rotweillers; por carros blindados.

Sim, voto pelo feijão com arroz no prato, pelo leite e pela construção de escolas. Não voto pela construção de mais cadeias, para proteger os anéis.

Sim, voto pelo sonho, pela utopia. Não voto pelo pesadelo, pelo salve-se quem puder.

Sim, voto pela poesia. Não voto pelo noticiário indutivo do crime trágico e sanguinolento.

Sim, voto para cobrar segurança do Estado. Não voto para fazer justiça com as próprias mãos.

Sim, voto pelo fim da miséria humana. Não voto pela segregação, por mais paredes e muros sociais.

Sim, voto pelo exercício da cidadania. Não voto pelo reacionário, pela direita braba.

Sim, voto pela mudança da realidade. Não voto pelo conformismo, pelo "deixa estar pra ver como é que fica".

Sim, voto pela vida. Não voto pela morte... dos outros.
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Genésio dos Santos, poeta e cronista, é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

I Encontro de Blogueiros de São Paulo: Programe-se!

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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.