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segunda-feira, 7 de julho de 2025

Eugen Gömringer: da margem para dentro . . .


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

da margem
para dentro

e dentro
ao meio

pelo centro
do meio

para fora
à margem

Eugen Gömringer

vom rand nach innen . . .

vom rand
nach innen

im innern
zur mitte

duchs zentrum
der mitte

nach aussen
zum rand
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Eugen Gomringer, nascido em 1925, boliviano de Cachuela Esperanza, viveu em Berna Suiça, frequentou escola em Zurique, estudou Economia, Arte e História na Universidade de Berna, tendo obtido ali seus primeiros contatos com a arte concreta, o concretismo, é poeta, artista visual, poeta visual, crítico literário, foi professor de Arte e Teoria Estética; estagiou no jornal diário Der Bund, foi co-fundador da revista de arte Spirale, em 1954 fez surgir o Vom Vers zur Konstellation, primeiro manifesto teórico da poesia concreta na língua alemã; em 1973, organizou uma antologia de poesia concreta, Konkrete Poesia: Deutschprachige Autoren Poesia Concreta de Autores de Língua Alemã, também editado em português e lançado no Brasil pelo Instituto Goethe; suas obras: Gedichtsammlung der Konkreten Poesie: konstellationen constellations constelaciones (1953), Das Stundenbuch (O livro das horas, 1965), Zur Sache der Konkreten. Band 1, Konkrete Poesie, Band 2: Konkrete Kunst. (1988), Theorie der Konkreten Poesie. Texte und Manifeste 1954-1997 (1997), Grammatische Konfession. Confession grammaticale (2002), Kommandier(t) die Poesie. Biografische Berichte (2006), Der Sonette Gezeiten. The sonnet’s tides (2009) e outros títulos; como palestrante, o poeta percorreu os Estados Unidos, países da América do Sul incluso Brasil e Zaire, a convite de Goethe-Instituts e Schweizer Kulturstiftung Pro Helvetia; Gomringer foi laureado com o Prêmio Cultural da cidade de Rehau, onde também fundou o Institut für Konstruktive Kunst und Konkrete Poesie (IKKP) Instituto de Arte Construtiva e Poesia Concreta em 2000 e, em 2022, recebeu o Prêmio Pro meritis scientiae et litterarum pelo conjunto da obra, estado da Baviera.

segunda-feira, 10 de março de 2025

Almut Adler: Como eu entendo liberdade

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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

Você me dá a liberdade
que me liga a você
mas a nossa ligação
não tem amarras

Isso nos amarra

Almut Adler

Freiheit die ich meine

Du gibst mir die Freiheit
die  mich an dich bindet
doch unsere Verbindung
hat keine Fesseln

Das fesselt uns
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Almut Adler, nascida em 1951, alemã de Oldenburg, formou-se fotógrafa em sua cidade natal, estudou Design Gráfico na Academia US, em Munique, é fotógrafa, autora freelancer e poeta; foi consultora para produções de materiais didáticos visuais em Mogasdíscio Somália, designer gráfico e artista de layout e fotógrafa para agências e editoras em Munique, é líder e organizadora de cursos de fotografia em Munique e Colônia e oficinas de fotografia na Espanha; percorreu dezenas de países nos mais variados continentes, atuando sempre como fotógrafa freelancer na Ásia: Turquia, Irã, Índia, Tailândia..., na África: Marrocos, Egito, Somália, Quênia..., na Europa: Finlândia, Suécia, Bulgária, Turquia, Grécia..., na América Central: México, El Salvador,  Costa Rica, Cuba..., na América do Norte: EUA e Canadá ...; suas obras: Leidenschaftlich (Apaixonadamente..., 1996), Natur sehen — Der Landschafts-Fotokurs (Vendo a Natureza — O Curso de Fotografia de Paisagem, 2008), Menschen sehen — Der Porträt-Fotokurs (O Curso de Fotografia de Retratos, 2008), Das weibliche Auge (O Olho Feminino, 2009), Stilleben meisterlich fotografieren (Tirando fotos mais criativas, 2009), Die Lichtschreiberin, tredition (O escritor leve, tradição, 2020) ...

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Goethe: Canto copta *


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[traduzido por Pedro de Almeida Moura]

Deixai que eruditos disputem e clamem,
Que austeros mestres doutrinem e falem;
A mais sábia gente de todas as eras
Sorri e confirma o que vos declaro:
Nunca esperar que insensatos se emendem;
Eleitos do espírito, ó, tende os dementes,
Como dementes que são, e nada mais!

Merlino, o mago, na gruta radiosa,
Que enlevado eu ouvia, quando moço, falar,
Idêntico preceito timbrava a ensinar:
Nunca esperar que insensatos se emendem;
Eleitos do espírito, ó, tende os dementes,
Como dementes que são, e nada mais!

Lá nas alturas abruptas da Índia,
Bem como nas criptas profundas do Egito,
O verbo sagrado ouvi proclamar:
Nunca esperar que insensatos se emendem;
Eleitos do espírito, ó, tende os dementes,
Como dementes que são, e nada mais!

Goethe

Cophtisches Lied

Lasset Gelehrte sich zanken und streiten,
Streng und bedächtig die Lehrer auch sein!
Alle die Weisesten aller der Zeiten
Lächeln und winken und stimmen mit ein:
Töricht, auf Beßrung der Toren zu harren!
Kinder der Klugheit, o habet die Narren
Eben zum Narren auch, wie sich′s gehört!

Merlin der Alte, im leuchtenden Grabe,
Wo ich als Jüngling gesprochen ihn habe,
Hat mich mit ähnlicher Antwort belehrt:
Töricht, auf Beßrung der Toren zu harren!
Kinder der Klugheit, o habet die Narren
Eben zum Narren auch, wie sich′s gehört!

Und auf den Höhen der indischen Lüfte
Und in den Tiefen ägyptischer Grüfte
Hab′ ich das heilige Wort nur gehört:
Töricht, auf Beßrung der Toren zu harren!
Kinder der Klugheit, o habet die Narren
Eben zum Narren auch, wie sich′s gehört!

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: Canto copta (Cophtisches Lied). Musicado por Wolf. Copta refere-se tanto ao idioma egípcio como àqueles que mantiveram as características dos primitivos habitantes das terras egípcias.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

sábado, 28 de setembro de 2024

Goethe: À que está ausente *


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[traduzido por Pedro de Almeida Moura]

Será mesmo verdade que fugiste de mim?
Que tu, querida, me abandonaste?
Bem suave, ainda, em meus ouvidos soa
Cada palavra tua, a tua voz...

Bem como o olhar do viandante,
Em vão, pela manhã, o céu perscruta, e busca,
No alto, entre as nuvens, a cotovia perdida,
Assim meu angustiado olhar o teu procura.
E os meus cânticos todos te chamam:
Volta, para perto de mim, amada minha!

Goethe

An die Entfernte

So hab ich wirklich dich verloren,
Bist du, o Schöne, mir entflohn?
Noch klingt in den gewohnten Ohren
Ein jedes Wort, ein jeder Ton.

So wie des Wandrers Blick am Morgen
Vergebens in die Lüfte dringt,
Wenn, in dem blauen Raum verborgen,
Hoch über ihm die Lerche singt:

So dringet ängstlich hin und wieder
Durch Feld und Busch und Wald mein Blick;
Dich rufen alle meine Lieder;
O komm, Geliebte, mir zurück!

(c. 1778)

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: À que está ausente (An die Entfernte). Músicas de Schubert, Zelter, L. Berger, Reichardt, Tomasek. Esta poesia figura entre as “Lieder”, na obra de Goethe e foi escrita por volta de 1778, quando o poeta tinha 29 anos de idade.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Goethe: O aprendiz de feiticeiro *


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[traduzido por Roswitha Kempf]

Eis que o velho feiticeiro
Finalmente foi-se embora
E os gênios a seu mando
Me atenderão agora.
Gestos e conjuras
Eu memorizei,
Pela mão dos gênios
Milagres eu farei.
Ferva, ferva
Pelo espaço.
Neste intento
Corra água
E em torrente abundante
Para o banho se derrame.
Te aproxime, vã vassoura,
Pegue estes velhos trapos.
Servo foste há muito tempo,
Servirás a mim agora.
Firme em dois pés,
Encima a cabeça.
Apressa-te e traga
O balde cheio d’água.
Ferva, ferva
Pelo espaço.
Neste intento
Corra água
E em torrente abundante
Para o banho se derrame.
Vede, à margem ele desce,
À ribeira já chegou
E com a rapidez do vento
Com a água retornou.
Veio outra vez!
Como o vaso cresce,
Como cada concha
De água se abastece!
Pára, pára!
Pois já temos
O bastante
Destas águas.
Aí percebo, ai que mágoa,
Esqueci-me da palavra.
A palavra que a torna
Outra vez no que já era.
Ai, lá vai e traz correndo,
Fosse outra vez vassoura!
Sempre novas águas
Traz com rapidez,
Centenas de riachos
Derrama sobre o chão.
Não, não mais
Posso deixá-la
Vou pegá-la.
Que perfídia!
Meus receios ainda aumentam.
Ó que gestos, que olhares!
Excremento do inferno,
Inundarás a casa toda?
Rios de água já envolvem
E transpassam as soleiras.
Ó vassoura infame
Que não quer saber,
Vara que tu foste,
Pare de trazer!
Será que queres
Trapacear-me?
Vou pegar-te,
Segurar-te
E rachar o velho lenho
Com o gume do machado.
Eis que volta carregada.
Vou jogar-me sobre ela,
Logo estará deitada
Atingido pelo ferro.
Deveras, acertei.
Vede, se partiu.
Que alívio, eu respiro,
Livre outra vez.
Que desgraça!
Duas partes
Se levantam
Como servos
Totalmente acabados,
Ajudai-me, ó divinos!
Como correm! Mais molhada
E mais molhada está a casa,
Que terríveol aguaceiro!
Senhor e mestre, escutai-me!
Eis, que vem aí!
Mestre que desgraça,
Os gênios que chamei,
Não querem mais se ir.
“Vai embora,
Sê vassoura
Como sempre
Pois qual duende
Só te chama do teu canto
A contento o velho mestre.”

Goethe

Der Zauberlehrling

Hat der alte Hexenmeister
Sich doch einmal wegbegeben!
Und nun sollen seine Geister
Auch nach meinem Willen leben.
Seine Wort´ und Werke
Merkt ich und den Brauch,
Und mit Geistesstärke
Tu ich Wunder auch.
            Walle! Walle
            Manche Strecke,
            Daß, zum Zwecke,
            Wasser fließe
            Und mit reichem, vollem Schwalle
            Zu dem Bade sich ergieße.
Und nun komm, du alter Besen!
Nimm die schlechten Lumpenhüllen;
Bist schon lange Knecht gewesen:
Nun erfülle meinen Willen!
Auf zwei Beinen stehe,
Oben sei ein Kopf,
Eile nun und gehe
Mit dem Wassertopf!
            Walle! Walle
            Manche Strecke,
            Daß, zum Zwecke,
            Wasser fließe
            Und mit reichem, vollem Schwalle
            Zu dem Bade sich ergieße.
Seht, er läuft zum Ufer nieder,
Wahrlich! ist schon an dem Flusse,
Und mit Blitzesschnelle wieder
Ist er hier mit raschem Gusse.
Schon zum zweiten Male!
Wie das Becken schwillt!
Wie sich jede Schale
Voll mit Wasser füllt!
            Stehe! stehe!
            Denn wir haben
            Deiner Gaben
            Vollgemessen! 
            Ach, ich merk es! Wehe! wehe!
            Hab ich doch das Wort vergessen!
Ach, das Wort, worauf am Ende
Er das wird, was er gewesen.
Ach, er läuft und bringt behende!
Wärst du doch der alte Besen!
Immer neue Güsse
Bringt er schnell herein,
Ach! und hundert Flüsse
Stürzen auf mich ein.
            Nein, nicht länger
            Kann ichs lassen;
            Will ihn fassen.
            Das ist Tücke!
            Ach! nun wird mir immer bänger!
            Welche Miene! welche Blicke!
O, du Ausgeburt der Hölle!
Soll das ganze Haus ersaufen?
Seh ich über jede Schwelle
Doch schon Wasserströme laufen.
Ein verruchter Besen,
Der nicht hören will!
Stock, der du gewesen,
Steh doch wieder still!
            Willsts am Ende
            Gar nicht lassen?
            Will dich fassen,
            Will dich halten
            Und das alte Holz behende
            Mit dem scharfen Beile spalten.
Seht, da kommt er schleppend wieder!
Wie ich mich nur auf dich werfe,
Gleich, o Kobold, liegst du nieder;
Krachend trifft die glatte Schärfe.
Wahrlich! brav getroffen!
Seht, er ist entzwei!
Und nun kann ich hoffen,
Und ich atme frei!
            Wehe! wehe!
            Beide Teile
            Stehn in Eile
            Schon als Knechte
            Völlig fertig in die Höhe!
            Helft mir, ach! ihr hohen Mächte!
Und sie laufen! Naß und nässer.
Wirds im Saal und auf den Stufen.
Welch entsetzliches Gewässer!
Herr und Meister! hör mich rufen! 
Ach, da kommt der Meister!
Herr, die Not ist groß!
Die ich rief, die Geister
Werd ich nun nicht los.
            "In die Ecke,
            Besen! Besen!
            Seids gewesen.
            Denn als Geister
            Ruft euch nur, zu diesem Zwecke,
            Erst hervor, der alte Meister."

(1797)

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: O aprendiz do feiticeiro (Der Zauberlehr[l]ing). Esta balada de Goethe, escrita quando se aproximava dos 50 anos de idade, foi posta em músicas por Loewe, Zelter e Zaumsteeg, antes de se converter no famoso Scherzo sinfônico de Dukas em 1897, que Disney popularizou em seu filme de animação Fantasia. A balada é inspirada num texto do escritor grego Luciano, traduzido para o alemão por Wielund [Wieland?], tendo como personagens o sábio Pâncrates (o feiticeiro) e seu aprendiz Êucrates. Temos aqui, segundo P. A. Moura, “uma advertência para que ninguém invoque ou desencadeie forças, que não disponha do poder suficiente para dominá-las, no momento oportuno” — advertência mais atual que nunca.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Karin Kiwus: Aos poetas


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[traduzido por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger]

O mundo adormeceu
na hora em que vocês nasceram

somente com os sonhos diurnos
vocês o despertam de novo

cru e doce e louco
por uma aventura

pelo tempo duma partida de realidade
imbatível no jogo.

Karin Kiwus

An die Dichter

Die Welt ist eingeschlafen
in der Stunde eurer Geburt

allein mit den Tagträumen
erweckt ihr sie wieder

roh und süß und wild
auf ein Abenteuer

eine Partie Wirklichkeit lang
unbesiegbar im Spiel
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Seis décadas de poesia alemã: do pós-guerra ao início do século XXI [diversos poetas e poemas], antologia bilíngue, Organização e Tradução de Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger, Prefácio de Berthold Zilly, Posfácio de Marcus J. Weininger, Colaboração de Stephan Arnulf Baumgärtel, 2012, Editora da UFSC, Florianópolis — SC; Karin Kiwus, nascida em 1942, alemã de Berlim, estudou Jornalismo, Alemão e Ciências Políticas na Universidade Livre de Berlim, concluiu mestrado, foi escritora e poeta; trabalhou como editora da Suhrkamp Verlag, Editora Suhrkamp, chefiou o departamento de literatura da Academia de Artes de Berlim, foi palestrante, professora na Universidade Livre de Berlim e professora visitante na Universidade do Texas, Austin EUA; suas obras poéticas: Von beiden Seiten der Gegenwart (1976), Angenommen später (1979), 39 Gedichte (1981), Das chinesische Examen (1992), Nach dem Leben (2006), Das Gesicht der Welt (2014) etc.; como editora, produziu Vom Essen e Trinken (Sobre comer e beber, 1978), Berliner Autoren-Stadtbuch (Livro dos autores berlinenses, 1985) Berlin — ein Ort zum Schreiben (juntamente com Barbara Voigt, 1996) e outros títulos; recebeu premiações por sua obra; Karin Kiwus vive em Berlim.

domingo, 26 de maio de 2024

Goethe: À lua *

 
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[traduzido por Paulo Quintela]

De novo enches bosque e vale
De bruma luzente, calma,
Também libertas, afinal,
Toda a minh’alma;

Sobre os meus campos estendes,
Como um bálsamo, a vista,
Como amigo que com ternura olhasse
Meu tudo que o contrista.

Ecos de dias alegres e sombrios
Ferem-me o coração.
Vagueio assim entre alegria e dor
Por esta solidão.

Corre, corre, amado rio!
Minha alagria acabou;
Como tu, passaram beijos e gracejos,
E a lealdade passou.

Pois não tive outrora eu já
A preciosa graça?!
Oh! o martírio de não poder ‘squecer,
Saber que tudo passa!

Corre, rio, sussurrante pelo vale,
Sem parar, noites e dias!
Corre múrmuro, ensina ao meu cantar
Secretas melodias.

Quando em noites de inverno
Bravejante desbordas,
Ou quando o esplendor da primavera
Com teu murmúrio acordas!

Feliz aquele que do mundo vão
Sem ódio deixa a luta,
E aperta um amigo ao coração
E com ele desfruta.

O que, sem que o homem sequer saiba
Ou nisso atente,
Através do labirinto da alma
Erra à noite, silente.

Goethe

An den Mond

Füllest wieder Busch und Tal
Still mit Nebelglanz
Lösest endlich auch einmal
Meine Seele ganz;

Breitest über mein Gefild
Lindernd deinen Blick,
Wie des Freundes Auge mild
Über mein Geschick.

Jeden Nachklang fühlt mein Herz
Froh- und trüber Zeit,
Wandle zwischen Freud’ und Schmerz
In der Einsamkeit.

Fließe, fließe, lieber Fluß!
Nimmer werd’ ich froh;
So verrauschte Scherz und Kuß
Und die Treue so.

Ich besaß es doch einmal,
was so köstlich ist!
Daß man doch zu seiner Qual
Nimmer es vergißt!

Rausche, Fluß, das Tal entlang,
Ohne Rast und Ruh,
Rausche, flüstre meinem Sang
Melodien zu!

Wenn du in der Winternacht
Wütend überschwillst
Oder um die Frühlingspracht
Junger Knospen quillst.

Selig, wer sich vor der Welt
Ohne Haß verschließt,
Einen Freund am Busen hält
Und mit dem genießt,

Was, von Menschen nicht gewußt
Oder nicht bedacht,
Durch das Labyrinth der Brust
Wandelt in der Nacht.

([1789]1798 [?])

* Nota do Organizador Samuel Pfromm Netto: À lua (An den Mond). Diz Kühnemann que esta é ”a mais perfeita canção de língua alemã”. Trata-se da versão definitiva, incluída no conjunto denominado Lieder, de poesia que Goethe publicou pela primeira vez em 1789, a partir da tragédia de uma jovem que se suicidou no rio Ilm tendo à mão um exemplar do Werther. Goethe escreveu os versos para uma música de Kayser, enviando-os uns e outra a Charlotte von Stein, que modificou a poesia. Goethe retomou-a para fazer a versão final, cujos versos incluem trechos sugeridos pela amiga. Nasceu, assim, uma nova canção, “tão espontânea e tão autêntica, como a primeira, e artisticamente mais perfeita” (P. Quintela). Musicada por Schubert, Zelter, Fibich, Reichardt, Romberg e outros.
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Goethe: Poesias escolhidas [múltiplos tradutores], Organização, Apresentação, Musicografia goetheana e Notas sobre poesias incluídas de Samuel Pfromm Netto e Biografia — A Vida de Goethe e Cronologia de Emil Schostal, 2005, 2ª edição, Editora Átomo e Edições PNA, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...