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quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão: A matéria

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Aprendo a temperatura o seu frio
o ar que tem por dentro a sua arte

Aprendo o sangue o seu calor o fundo
a linha necessária e o sigilo

O que mostra é o tacto em si incide
na sua inércia inclui a própria forma

Resume em si o tamanho e o conflito
das partes no limite ilimitadas

Ensina a sua lei e a situação
o imaginário mostra no objeto

[Obra breve]

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (Obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (Obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês-Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; recebeu diversas premiações por sua obra.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão: Crónicas


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Os falecidos
são essa memória
que depois se evoca

São a narrativa
das suas crónicas
e os extremos actos
de seus cercos
sítios
que a prosa acaso
acolhe lisos

Depois na leitura
tanto quanto ao ler
os mortos se aviltam
se debilitam
há uma maneira segura
de utilizar os feitos
para efeito de futura
vida ou sítio

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (Obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (Obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês-Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; recebeu diversas premiações por sua obra.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

Laura Riding: Terra

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Não tenha medos extensos da Terra:
Seu nome universal é “Nenhum lugar”.
Se é Terra para você, é seu segredo.
Os registros externos terminam ali,
E você pode descrevê-la como parece,
E como parece, ela é,
Calma aparente
Em meio a pressa aparente.

Céus não vistos, ou só vistos,
Espaço escuro ou claro, espaço extraterrestre,
É um tempo antes da Terra existir
De onde você ruma
Ao perfeito agora.

Quase o lugar que ainda não é,
Aqui potencial de toda parte
Não tenho medos extensos dela:
Seu destino é simples,
Ser ainda mais o que será.

A Terra é o coração que erra
Até tornar sua mente
Mas ainda pulsa ignorância
De tudo o que sabe
Como milhas renegam o presente compacto
Que são o passado suspeito-de-si.
Não tenha grandes medos da Terra:
Só medos extensos serão destruídos.

Laura Riding

Earth

Have no wide fears for Earth.
Its universal name is “Nowhere”:
If it is Earth to you, that is your secret.
The outer records leave off there,
And you may write it as it seems,
And as it seems, it is,
A seeming stillness
Amidst seeming speed.

Heavens unseen, or only seen,
Dark or bright space, unearthly space,
Is a time before Earth was
From which you inward move
Toward perfect now.

Almost the place it is not yet,
Potential here of everywhere
Have no wide fears for it:
Its destiny is simple,
To be further what it will be.

Earth is your heart
Which has become your mind
But still beats ignorance
Of all it knows
As miles deny the compact present
Whose self-mistrusting past thay are.
Have no wide fears for Earth:
Destruction only on wide fears shall fall.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quinta-feira, 29 de setembro de 2022

Laura Riding: Nenhuma terra ainda

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Mar demorado, como é fugaz,
De aguidéia a aguidéia
Tão rápida em sentir surpresa e vergonha.
Onde momentos não são tempo
Mas tempo são momentos.
Tanto nem sim nem não,
Tanto único amor, ter o amanhã
Por um fracasso inevitável de agora e já.

Deitados na água barcos e homens fortes,
Mestres em fraqueza, partem para algum lugar:
O mais poderoso dorminhoco em sua cama
É incapaz de conhecer lugares nobres assim.
Então a fé embarcou na terra do marinheiro
Em busca de absurdos em nome do céu
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.

O corpo nadando em si mesmo
É o querido da dissolução.
Com gotejante boca diz uma verdade
Que não pode mentir, em palavras ainda não nascidas
Da primeira imortalidade,
Onissábia impermanência.

E o olho empoeirado cujas agudezas
Tornam-se aguadas na mente
Onde ondas de probabilidade
Escrevem a visão com letra de maré
Que só o tempo pode ler.

E a terra seca ainda não,
Salvação e solidão absolutas
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.


There is no land yet

The long sea, how short-lasting,
From water-thought to water-thought
So quick to feel surprise and shame.
Where moments are not time
But time is moments.
Such neither yes nor no,
Such only love, to have to-morrow
By certain failure of now and now.

On water lying strong ships and men
In weakness skilled reach elsewhere:
No prouder places from home in bed
The mightiest sleeper can know.
So faith took ship upon the sailor's earth
To seek absurdities in heaven's name
Discovery but a fountain without source,
Legend of mist and lost patience.

The body swimming in itself
Is dissolution's darling.
With dripping mouth it speaks a truth
That cannot lie, in words not born yet
Out of first immortality,
All-wise impermanence.

And the dusty eye whose accuracies
Turn watery in the mind
Where waves of probability
Write vision in a tidal hand
That time alone can read.

And the dry land not yet
Lonely and absolute salvation
Boasting of constancy
Like an island with no water round
In water where no land is.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

Laura Riding: Oceano, filosofia falsa

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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Primeiro de todas as falsas filosofias,
O oceano arenga para os doidos,
Os lógicos possessos do romance.
Seu olhar oscilante, essa massa oscilante,
Se abraçam em perda perpétua
Oceano é pó rejeitado
Peneirado numa metáfora
Por uma fina renúncia,
É uma lenta diluição.

À deriva, ritmos mesmerizam
O livro mudo de sonhos.
As linhas entoam mas tão inaudíveis
O trajeto é veraz demais e não conhece
Nem naufrágio nem seqüela.

Otimismos em desespero
Embarcam nesse apático frenesi.
Cérebros frustrados em seus olhos
Descansam nessa imagem de monotonia
E desmaiam, agradecidos.
Ah, corações tão peculiarmente íntegros,
O Céu vos proteja, diante de tal argumento,
Para que continueis persuadidos e íntegros,
O Céu vos proteja, se puder,
Enquanto visões se ampliam até um zero aquoso
E a profecia se expande até a extinção.

Laura Riding

Sea, false philosophy

Foremost of false philosophies,
The sea harangues the daft,
The possessed logicians of romance.
Their swaying gaze, that swaying mass
Embrace in everlasting loss —
Sea is the spurned dust
Sifted with fine renunciation
Into a metaphor,
A slow dilution.

The drifting rhythms mesmerize
The speechless book of dreams.
The lines intone but are not audible.
The course is overtrue and knows
Neither a wreckage nor a sequel.

Optimisms in despair
Embark upon this apathetic frenzy.
Brains baffled in their eyes
Rest on this picture of monotony
And swoon with thanks.
Ah, hearts whole so peculiarly,
Heaven keep you by such argument
Persuaded and unbroken,
Heaven keep you if it can
As visions widen to a watery zero
And prophecy expands into extinction.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939 a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

quinta-feira, 8 de setembro de 2022

Fiama Hasse Pais Brandão: História literária


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Dou graças a meus olhos
que apaziguaram o meu cérebro
estarrecido pela literatura.
Outrora era o poder das letras,
a beberagem, o filtro das sílabas
que brotavam em espiral
das páginas dos mestres insanos.
Era eu num alto poço, com o fundo
no topo inverso da minha cabeça,
a sorver o crânio dos antepassados.
Era eu, no mais dentro de uma britadeira
mental, a reunir a fragmentada
palavra una, ventre de todas as palavras.

Hoje ou agora, os meus olhos
são somente como o tacto: apalpam,
marcam, com sua secreção,
o rebordo de cada objeto, dos seres,
o limite de uma crónica dos dias.

[Cenas vivas]

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Fiama Hasse Pais Brandão (1938 2007), portuguesa e lisboeta, estudou Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora; suas obras: Em cada pedra um voo imóvel (poemas dramáticos e poemas em prosa, 1957), Morfismos (em Poesia 61, 1961), Os Chapéus de Chuva (teatro, 1961), A Campanha (teatro, 1965), Barcas Novas (1967), Novas Visões do Passado (1975), O Texto de João Zorro (Obra poética, 1974), Homenagem à literatura (1976), Área Branca, Melômana (ambas em 1978), Quem move as Árvores (teatro, 1979), Âmago I / Nova Arte (1985), O Labirinto Camoniano e Outros Labirintos (ensaio, 1985), F de Fiama (antologia, 1986), Três Rostos (1989), Epístolas e Memorandos (1989), Teatro-teatro (1990), Obra breve (Obra poética, 1991), Movimento Perpétuo (prosa, 1991), Cântico maior (1995), Sob o olhar de Medeia (prosa, 1998), Cenas Vivas (2000), As Fábulas (2002), Noites de Inês-Constança (2005) etc.; traduziu obras de Bertolt Brecht, Novalis, John Updike, Antonin Artaud, Anton Tchekov e outros; recebeu diversas premiações por sua obra.

sexta-feira, 26 de agosto de 2022

Laura Riding: Por causa das roupas


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.

A cabeça é um mundo
E o corpo um outro
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.

Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum. Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.

A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos.

Laura Riding

Because of clothes

Without dressmakers to connect
The good-will of the body
With the purpose of the head,
We should be two worlds
Instead of a world and its shadow,
The flesh.

The head is one world
And the body is another
The same, but somewhat slower
And more dazed and earlier,
The divergence being corrected
In dress.

There is an odour of Christ
In the cloth: bellow the chin
No harm is meant. Even, immune
From capital test, wisdom flowers
Out of the shaded breast, and the thighs
Are meek.

The union of matter with mind
By the method of raiment
Destroys no our nakedness
Nor muffles the bell of thought.
Merely the moment to its dumb hour
Is joined.

Inner is the glow of knowledge
And outer is the gloom of appearance.
But putting on the cloak and cap
With only the hands and the face showing,
We turn the gloom in and the glow forth
Softly.

Wherefore, by the neutral grace
Of the needle, we possess our triumphs
Together with our defeats
In a single balanced couplement:
We pause between sense and foolishness,
And live.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sábado, 23 de julho de 2022

Laura Riding: O Mundo e eu


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[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Isto não é bem o que quero dizer, não,
Nada mais do que o sol é o sol.
Mas como significar mais corretamente
Se o sol brilha aproximadamente?
Que mundo mais desajeitado!
Que hostis implementos de sentido!
Talvez isto seja o sentido mais preciso
Que talvez fiquem bem o saber disso.
Ou então, acho que o mundo e eu, sim,
Devemos viver como estranhos até o fim
Um amor azedo, ambos duvidando um pouco
Se um dia houve algo como amar o outro.
Não, melhor termos quase certeza
Cada um de nós onde é que
exatamente eu e exatamente o mundo falha
Em se cruzar por um segundo, e uma palavra.

Laura Riding

The World and I

This is not exactly what I mean
Any more than the sun is the sun.
But how to mean more closely
If the sun shines but approximately?
What a world of awkwardness!
What hostile implements of sense!
Perhaps this is as close a meaning
As perhaps becomes such knowing.
Else I think the world and I
Must live together as strangers and die
A sour love, each doubtful whether
Was ever a thing to love the other.
No, better for both to be nearly sure
Each of each exactly where
Exactly I and exactly the world
Fail to meet by a moment, and a word.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Laura Riding Jackson (1901 1991) ou Laura Reichenthal, estadunidense e nova-iorquina, estudou línguas e literatura na Universidade de Cornell, Ítaca, estado de Nova Iorque, foi poeta do modernismo norte-americano, pensadora, ensaísta e crítica; esteve na linha de frente da poesia contemporânea e, nos anos 20 e 30 do século XX, recebeu a saudação do poeta W. H. Auden como “a única poeta-filósofa viva”; em 1923 abandonou os estudos, passou a publicar poemas nas revistas literárias Contemporary Verse e Poetry; suas obras: The Close Chaplet (1926), A Survey of Modernist Poetry (em coautoria com Robert Graves, 1927), Anarchism Is Not Enough (1928), Love as Love: Death as Death (1928), Twenty Poems Less e Poems A Joking Word (ambos em 1930), Collected Poems (coletânea de 181 poemas selecionados, 1938), Lives of Wives (1939), Selected Poems: In Five Sets (1973) e outros títulos em verso e prosa; de 1939  a 1970, Laura Riding se afastou da vida literária e não publicou nenhuma obra, retornando à cena após três décadas, com o nome Laura (Riding) Jackson; nos anos 80 escreveu em profusão (não poesia) e publicou frequentemente em revistas; por sua obra, em 1991 foi laureada com o Prêmio Bollingen de Poesia.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

Else Lasker-Schüler: Jerusalem

 
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[tradução “quase textual” oferecida por Juliana P. Perez]

Deus construiu de Sua espinha: Palestina
De um único osso: Jerusalém.

Eu vago como entre mausoléus
Pétrea, nossa cidade santa.
As pedras descansam nos leitos dos mortos mares seus.
No lugar de seda, águas que lá brincavam: vêm e passam.

Duros os solos fixam o viajante
E ele afunda em suas noites fixas.
Sinto um medo que eu não posso superar

Mas se tu viesses.....
Envolto em lúcido manto alpino
E de meu dia o crepúsculo levasses
Meu braço te seria moldura, santa imagem auxiliadora.

Como antes, quando eu sofria no escuro do meu coração
Pois teus olhos ambos: nuvens azuis.
Eles me levaram da minha melancolia.

Mas se tu viesses
À terra dos antepassados
Tu me exortarias como uma criancinha:
Jerusalém ressuscite!

Saúdam-nos
As vivas bandeiras do ‘único Deus’
Mãos verdejantes, que semeiam o sopro da vida.

Else Lasker-Schüler

Jerusalem

Gott baute aus Seinem Rückgrat: Palästina
aus einem einzigen Knochen: Jerusalem.

Ich wandele wie durch Mausoleen
Versteint ist unsere Heilige Stadt.
Es ruhen Steine in den Betten ihrer toten Seen
Statt Wasserseiden, die da spielten: kommen und vergehen.

Es starren Gründe hart den Wanderer an
Und er versinkt in ihre starren Nächte.
Ich habe Angst, die ich nicht überwältigen kann.

Wenn du doch kämest.....
Im lichten Alpenmantel eingehüllt
Und meines Tages Dämmerstunde nähmest
Mein Arm umrahmte dich, ein hilfreich Heiligenbild.

Wie einst wenn ich im Dunkel meines Herzens litt
Da deine Augen beide: blaue Wolken.
Sie nahmen mich aus meinem Trübsinn mit.

Wenn du doch kämest
In das Land der Ahnen
Du würdest wie ein Kindlein mich ermahnen:
Jerusalem erfahre Auferstehen!

Es grüssen uns
Des »Einzigen Gotts« lebendige Fahnen,
Grünende Hände, die des Lebens Odem säen.
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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Elisabeth Lasker-Schüler ou Else Lasker-Schüler (1869 1945), alemã de Elberfeld, foi poeta, escritora e artista plástica; seus primeiros poemas foram publicados na revista Die Gesellschaft (A Sociedade), em 1899, dando início à sua participação no círculo literário de Berlim; foi uma das fundadoras da revista expressionista Der Sturm, em 1910; obras: Styx (poesias, 1902), Meine Wunder (poesias, 1911), Hebräische Balladen (Baladas Hebraicas, 1913), Mein Blaues Klavier (O meu piano azul, 1943) e outros títulos; Else Lasker-Schüler, que ilustrava seus próprios livros, considerada a grande musa da geração expressionista, teve como uma de suas paixões o poeta Gottfried Benn, a quem ela chamava de Giselheer, nos poemas; de 1894 a 1933 a poeta viveu em Berlim e, depois, com a ascensão do nazismo e de Hitler ao poder, exilou-se em Jerusalém; em 1932, Else Lasker-Schüler recebeu o Prêmio Kleist, prêmio literário alemão concedido pela última vez antes da tomada de poder pelos nacional-socialistas [nazistas].

terça-feira, 7 de junho de 2022

Cecília Meireles: Canção da tarde no campo

 
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Caminho do campo verde,
estrada depois de estrada.
Cercas de flores, palmeiras,
serra azul, água parada.

(Eu ando sozinha
no meio do vale.
Mas a tarde é minha.)
Meus pés vão pisando a terra
que é a imagem da minha vida:
tão vazia, mas tão bela,
tão certa, mas tão perdida!

(Eu ando sozinha
por cima de pedras.
Mas a flor é minha.)

Os meus passos no caminho
são como os passos da lua:
vou chegando, vais fugindo,
minha alma é a sombra da tua.

(Eu ando sozinha
por dentro de bosques.
Mas a fonte é minha.)

De tanto olhar para longe
não vejo o que passa perto.
Subo monte, desço monte,
meu peito é puro deserto.

(Eu ando sozinha
ao longo da noite.
Mas a estrela é minha.)

(Poemas dos Poemas — 1923)

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Poetas mulheres que pensaram o século XX [várias poetas, vários ensaios, vários ensaístas] — Apresentação e Organização de Regina Przybycien e Cleusa Gomes, 2008, Editora UFPR, Curitiba — PR; Cecília Benevides de Carvalho Meireles (1901 1964), carioca, diplomou-se pela Escola Normal, tendo sido professora da Universidade do Distrito Federal, à época no Rio de Janeiro, foi educadora, poeta, ensaísta, cronista, folclorista e tradutora; em 1919 publicou Espectro, seu primeiro livro de poesias; depois vieram Nunca mais... e Poemas dos Poemas (1923), Baladas para El-Rei (1925); a partir daí seguiram-se extensíssimas atividades literárias e também ligadas à educação, tanto no Brasil quanto em Portugal, com dezenas de títulos de poesia, e outros, publicados; além das já citadas, outras obras: Viagem (1939), Vaga Música (1942), Mar Absoluto e outros poemas (1945), Elegia (1933 1937), Retrato Natural (1949), Amor em Leonoreta (1952), Doze Noturnos da Holanda & O Aeronauta (1952), Romanceiro da Inconfidência (1953), Pequeno Oratório de Santa Clara (1955), Canções (1956), Romance de Santa Cecília (1957), A Rosa (1957), Metal Rosicler (1960), Poemas Escritos na Índia (1961), Solombra (1963), Antologia Poética (1ª edição, 1963), Ou Isto ou Aquilo (1964) etc.