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domingo, 3 de agosto de 2025

Ricardo Gonçalves: Cromo

 
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A casa onde mora aquela
Menina cor de açucena
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.

Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela! *

Pintar a casa, a colina...
Mas, sobretudo a menina,
O ar descuidado e feliz,

Dando relevo à pintura
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.


* Nota da edição  Vocabulário: Aquarela — Pintura com tintas aguadas, e sem sobreposição de umas e outras.
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Poesia Brasileira para a Infância (diversas autorias), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1893 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido à bala no braço; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; o poeta e anarquista também assinou seus textos com os pseudônimos D. Ricardito e Bruno de Cadiz; deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

sábado, 8 de abril de 2023

Ricardo Gonçalves: Uma vela que passa

 
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Longe, um barco de pesca à viração desfralda
A vela, e singra ao sol que rompe a escassa bruma,
Rumo desses ilhéus que o marouço engrinalda
Com seus flocos de espuma...

Foge... graciosamente enfunada, palpita
No horizonte lilás, como um pássaro exul...
Depois se afasta e é uma asa branca na infinita
Curva do mar azul...

Primeiro amor! Sonho formoso de criança,
Cheio de luz, cheio de unção, cheio de graça!
És tu, na curva azul de um mar todo bonança,
Uma vela que passa...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Mendes Gonçalves (1893 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido à bala no braço; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; o poeta e anarquista também assinou seus textos com os pseudônimos D. Ricardito e Bruno de Cadiz; deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

domingo, 12 de fevereiro de 2023

Ricardo Gonçalves: A casa onde mora aquela . . . [soneto]

 
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[Aquarela]

A casa onde mora aquela
Menina cor de açucena
É uma casinha pequena,
Casa de porta e janela.

Tão pequenina e singela!
Ao vê-la, a idéia me acena
De quebrar o bico à pena
E fazer uma aquarela.

Pintar a casa, a colina...
Mas, sobretudo a menina,
O ar descuidado e feliz,

Dando relevo à pintura
Numa ridente moldura
De cravos e bogaris.

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232 Poetas Paulistas — Antologia, por Pedro de Alcântara Worms, 1968, Editora Conquista, Rio de Janeiro — RJ; Ricardo Mendes Gonçalves (1893 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido à bala no braço; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; o poeta e anarquista também assinou seus textos com os pseudônimos D. Ricardito e Bruno de Cadiz; deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Leconte de Lisle: Sonhos Mortos

 
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[traduzido por Ricardo Gonçalves]

Olha, amigo: este mar, que ora assim vês tão manso,
Bateu, como um aríete, um dia, sem descanso,
Os promontórios; foi aos saltos em cachões,
Escalando, subindo as rochas e sobre elas
Estendeu a bramir, no fragor das procelas,
O espumoso lençol dos negros vagalhões.

Agora o encrespa a fresca brisa matutina.
A beleza do sol as águas ilumina
E longe, em direção desse horizonte infindo,
Onde passam, nadando, embarcações remotas,
Vai-se da costa azul, o páramo cindindo,
Em trêmula revoada, um bando de gaivotas...

Ali bóiam, porém, contornando os ilhéus,
Destroços de naufrágio; e esses que os escarcéus
Assassinaram, vão, sob as ondas pesadas,
Lívidos, a sangrar de costas ou de bruços,
A boca aberta transbordante de soluços,
Olhos vítreos, olhando as águas sossegadas.

Meu coração é como esse mar que, tranquilo,
Beija as praias agora em doce murmurilo.

Também chorou, rugiu como ele... Sem descanso
Contra as rochas lançou-se em tremendos embates,
Todo um dia cruel de insânia e de combates,
Vês? Agora reflui apaziguado e manso;
Sem desejo ou temor de nova tempestade,
À caricia do sol a voz mal se lhe escuta.

Mas o gênio, a esperança, a força, a mocidade,
Ei-los mortos na espuma e no sangue da luta.

Leconte de Lisle

Les rêves morts

Vois! cette mer si calme a comme un lourd bélier
Effondré tout un jour le flanc des promontoires,
Escaladé par bonds leur fumant escalier,
Et versé sur les rocs, qui hurlent sans plier,
Le frisson écumeux des longues houles noires.
Un vent frais, aujourd'hui, palpite sur les eaux,
La beauté du soleil monte et les illumine,
Et vers l'horizon pur où nagent les vaisseaux,
De la côte azurée, un tourbillon d'oiseaux
S'échappe, en arpentant l'immensité divine.
Mais, parmi les varechs, aux pointes des îlots,
Ceux qu'a brisés l'assaut sans frein de la tourmente,
Livides et sanglants sous la lourdeur des flots,
La bouche ouverte et pleine encore de sanglots,
Dardent leurs yeux hagards à travers l'eau dormante.
Ami, ton coeur profond est tel que cette mer
Qui sur le sable fin déroule ses volutes:
Il a pleuré, rugi comme l'abîme amer,
Il s'est rué cent fois contre des rocs de fer,
Tout un long jour d'ivresse et d'effroyables luttes.
Maintenant il reflue, il s'apaise, il s'abat.
Sans peur et sans désir que l'ouragan renaisse,
Sous l'immortel soleil c'est à peine s'il bat;
Mais génie, espérance, amour, force et jeunesse
Sont là, morts, dans l'écume et le sang du combat.
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, [111 autores e muitos tradutores], Organização e Prefácio de R. Magalhães Jr. E Introdução de Michel Simon, Clássicos de bolso Ediouro — nº 12126, sem data [1985 ?], Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Charles Marie René Leconte de Lisle (1818 1894), francês nascido em Saint-Paul, ilha francesa de La Réunion, no Oceano Índico, estudou Direito, sem apresentar interesse por questões jurídicas abandonou tal caminho, estudou grego, italiano e história, foi poeta expoente do parnasianismo, escritor, dramaturgo e tradutor; viveu o período da infância na ilha e na Bretanha, frança continental; trabalhou no jornal La Démocratie Pacifique; suas obras: A Vênus de Milo, Poèmes antiques (1852), Hélène (teatro, 1852), Poèmes et Poésies (1854), Le Chemin de la Croix ou La Passion (1856), Poèmes barbares (1862), Les Érinnyes e L’Apollonide (ambas, peças dramáticas líricas, 1873 e 1888), Poèmes tragiques (1884) e outros textos; traduziu Teócrito, Homero, Hesíodo, Ésquilo, Horácio, Sófocles e Eurípedes; em 1886 foi eleito para a Academia Francesa sucedendo Victor Hugo.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

Edmond Rostand: Mas que fazer então? Buscar um protetor poderoso, um patrão? . . . [fragmento]

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[trecho da cena VIII do segundo ato da comédia dramática Cyrano de Bergerac, com parte da fala do personagem Cyrano, em diálogo com o personagem Le Bret]

[traduzido por Ricardo Gonçalves]

. . .

                                        Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
De astúcia em vez de força? Oh! Não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! Não, muito obrigado.
Almoçar cada dia um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de bojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso,
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-se a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Obrigado, obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores,
Obrigado. Viver de esmolas e favores,
Ser papa nas reuniões que, em baiúcas sem nome,
Fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah! se o meu nome vier no Mercúrio francês”...
Calcular, ter na face impressa a palidez
Dos poltrões, preferir fazer uma visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Mas... cantar, mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez, e, por capricho, petulante,
Por de través o feltro, e, por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E, apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido,
[E se enfim algum triunfo vier, mediante a sorte,
Não devê-lo a algum César por ser parte da corte.]
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,
Subir pouco, mas só, completamente só.
. . .

Edmond Rostand

Non, merci!
. . .

Et que faudrait-il faire?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s'en fait un tuteur en lui léchant l'écorce,
Grimper par ruse au lieu de s'élever par force?
Non, merci. Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers? se changer en bouffon
Dans l'espoir vil de voir, aux lèvres d'un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre?
Non, merci. Déjeuner, chaque jour, d'un crapaud?
Avoir un ventre usé par la marche? une peau
Qui plus vite, à l'endroit des genoux, devient sale?
Exécuter des tours de souplesse dorsale?...
Non, merci. D'une main flatter la chèvre au cou
Cependant que, de l'autre, on arrose le chou,
Et donneur de séné par désir de rhubarbe,
Avoir un encensoir, toujours, dans quelque barbe?
Non, merci! Se pousser de giron en giron,
Devenir un petit grand homme dans un rond,
Et naviguer, avec des madrigaux pour rames,
Et dans ses voiles des soupirs de vieilles dames?
Non, merci! Chez le bon éditeur de Sercy
Faire éditer ses vers en payant? Non, merci!
S'aller faire nommer pape par les conciles
Que dans les cabarets tiennent des imbéciles?
Non, merci! Travailler à se construire un nom
Sur un sonnet, au lieu d'en faire d'autres? Non,
Merci! Ne découvrir du talent qu'aux mazettes?
Etre terrorisé par de vagues gazettes,
Et se dire sans cesse: "Oh, pourvu que je sois
Dans les petits papiers du Mercure François?"...
Non, merci! Calculer, avoir peur, être blême,
Préférer faire une visite qu'un poème,
Rédiger des placets, se faire présenter?
Non, merci! non, merci! non, merci! Mais... chanter,
Rêver, rire, passer, être seul, être libre,
Avoir l'oeil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous plaît, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre,  ou faire un vers!
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
Á tel voyage, auquel on pense, dans la lune!
N'écrire jamais rien qui de soi ne sortît,
Et modeste d'ailleurs, se dire: mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, même des feuilles,
Si c'est dans ton jardin à toi que tu les cueilles!
Puis, s'il advient d'un peu triompher, par hasard,
Ne pas être obligé d'en rien rendre à César,
Vis-à-vis de soi-même en garder le mérite,
Bref, dédaignant d'être le lierre parasite,
Lors même qu'on n'est pas le chêne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut, peut-être, mais tout seul!
. . .
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Antologia de Poetas Franceses do séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr., sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro — RJ; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs, 1893), Les Romanesques (comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa Longínqua, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, 1897), Pour la Grèce (poesia, 1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática, 1897), L’Aiglon (O Filhote de Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos; toda obra teatral de Edmond Rostand foi escrita em versos; em 1902, o poeta foi eleito membro da Academia Francesa.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Edmond Rostand: Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce*

 
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[traduzido por Ricardo Gonçalves]

Com três ovos cada clara
Bem batida, uma por uma,
Se prepara
Uma xícara de espuma
Branca e leve qual se fosse
Neve pura; põe-se então,
Com leite de amêndoa doce,
Quinze gotas de limão.

Depois se bate e adelgaça,
Visando-se obra perfeita,
Fina massa
Que se deita
Numas formas especiais.
E em cada pastel brocado
Lado a lado,
Põe-se a espuma e nada mais.

Os pastéis assim obtidos
São no forno muito quente,
Docemente,
Com cautela introduzidos.
Espera-se um pouco e, após,
Na bandejinha que os trouxe,
Enfileiram-se ante nós
Os pastéis de amêndoa doce.

Edmond Rostand

Comment on fait les tartelettes amandines

Battez, pour qu'ils soient mousseux,
Quelques oeufs;
Incorporez à leur mousse
Un jus de cédrat choisi;
Versez-y
Un bon lait d'amande douce;
Mettez de la pâte à flan
Dans le flanc
De moules à tartelette;
D'un doigt preste, abricotez
Les côtés;
Versez goutte à gouttelette
Votre mousse en ces puits, puis
Que ces puits
Passent au four, et, blondines,
Sortant en gais troupelets,
Ce sont les
Tartelettes amandines!

* Nota do Verso e Conversa: o atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que o poema-receita Maneira de Fazer Pastéis de Amêndoa Doce (Comment on fait les tartelletes amandines) é apresentado na comédia teatral Cyrano de Bergerac (Acte II, Scene 4) como parte de uma fala de Ragueneau, poeta e pasteleiro, um dos personagens da peça.
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Edmond Eugène Alexis Rostand (1868 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs, 1893), Les Romanesques, comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa Longínqua, peça escrita em versos, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, peça escrita em versos, 1897), Pour la Grèce (poesia, 1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática escrita em versos, 1897), L’Aiglon (O Filhote de Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Ricardo Gonçalves: Nhá Carola

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A D. Olga

Arrepanhando o vestido
De chita azul, nhá Carola,
Põe feijão na caçarola
Para o almoço do marido.

Dorme um cachorro estendido
À porta da casinhola;
Gritam galinhas de Angola
No terreiro bem varrido.

Enquanto chia a panela,
A moça vai à janela,
A ver se o marido vem.

Mas entra logo zangada
Porque na volta da estrada
Não aparece ninguém.

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Poesia Brasileira para a Infância (diversos autores), Seleção, Organização e Texto/Apresentação de Cassiano Nunes e Mário da Silva Brito, Coleção Henriqueta 1, 3ª edição revista, 1968, Edição Saraiva, São Paulo — SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1883 1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São Paulo, Estadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Ricardo Gonçalves: Rebelião

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Com gemidos agoureiros,
Num pavoroso lamento,
Lá fora perpassa o vento
Chicoteando os pinheiros,
E a noite caliginosa,
De uma tristeza superna,
É como a boca monstruosa
De uma monstruosa caverna.

Chove. O arvoredo farfalha.
Soturno o trovão rimbomba
Como longínqua metralha.
Depois o silêncio tomba.
Pávido e trêmulo, escuto,
Mergulho a vista lá fora
E vejo a terra de luto.
E ouço uma voz que apavora.

Como um vago murmúrio,
Mansa a princípio, ela ecoa.
Depois é um grito bravio
Que pela noite reboa,
Que para a noite se eleva
Num pavoroso transporte,
Como um soluço da treva,
Como um frêmito de morte.

Essa voz cheia de ameaças,
De imprecações e rugidos,
É o clamor das populaças,
É a voz dos desprotegidos.
Medonha, relutante e rouca,
Vem desse mundo sombrio.
Dos que tiritam de frio
E não têm pão para a boca.

Vem das lôbregas choupanas
Onde em tarimbas sem nome
Há criaturas humanas
Agonizando com fome.
Vem da cloaca deletéria
Em que a justiça comprime
Esse que a mão da miséria
Pôs no caminho do crime.

Do quartel  açougue enorme
Onde à espera da baralha,
Morta de fadiga dorme
A carne para a metralha;
Dos hospitais, dos hospícios,
Das tascas onde ressona
A grei de todos os vícios
Que a miséria proporciona.

Ah! esse grito funesto,
Nesse rugido, palpita
Um rancoroso protesto;
É o povo, a plebe maldita
Que sombria, ameaçadora,
Nas vascas do sofrimento,
Mistura aos uivos do vento
A grande voz vingadora.

Tremei vampiros nojentos
Tremei, nos vossos dourados
Palacetes opulentos!
O sangue dos desgraçados
Sugai, bebei gota-a-gota,
Não tarda que chegue o instante
Em que a turba se levante
Sedenta, faminta e rota.

E quando comece a luta,
Quando explodir a tormenta,
A sociedade corrupta
Execrável e violenta,
Iníqua, vil, criminosa,
Há de cair aos pedaços,
Há de voar em estilhaços
Numa ruína espantosa.

O Cosmopolita, 15/09/1917, p. 2;
também publicada sob o título de “Vox Populi”
na Gazeta Operária de 23./11/1902, p. 3.

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Ouve meu grito — Antologia de poesia operária (1894 — 1923), Pesquisa e Organização de Bernardo Kocher e Eulalia Lahmeyer Lobo, 1987, UFRJ—Proed SR.2 e Editora Marco Zero, São Paulo — SP; Ricardo Mendes  Gonçalves (1883  1916), paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São PauloEstadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo  teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária, na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth, que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês  (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Ricardo Gonçalves: O batuque

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Vagas constelações de pirilampos
penteiam de oiro a densa noite escura.
Há um trágico silêncio na espessura
dos matagais e na amplidão dos campos.

O batuque dos negros apavora.
Anda o saci nas moitas, vagabundo,
e almas penadas, almas do outro mundo,
passam gemendo pela noite em fora.

Só, no ranchinho de sapé coberto,
encosto o ouvido à taipa esburacada,
e ouço um curiango que soluça, perto...

Lambe a fogueira os últimos gravetos,
e pela noite rola, magoada,
a cantiga nostálgica dos pretos.

                                            (Ipês — pág. 25)

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Antologia da Poesia Paulista II — Prefácio, Organização, Seleção e Notas Bibliográficas por Domingos Carvalho da Silva, Oliveira Ribeiro Neto e Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1960, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo — SP; Ricardo Mendes Gonçalves (1883 — 1916),  paulista e paulistano, formado em Direito pela Faculdade de Direito de São Paulo (atual USP  Largo São Francisco), foi poeta, tradutor, jornalista, orador e político (vereador em São Paulo); fez parte do grupo do 'Minarete' juntamente com Monteiro Lobato e outros; trabalhou para os jornais Comércio de São PauloEstadinho, foi repórter do jornal O Correio Paulistano e colaborou no Amigo do Povo, etc.; com suas idéias socialistas e libertárias, participou ativamente dos movimentos operários de seu tempo  teve envolvimento em congresso de estudantes, pregando o socialismo e, depois, em uma greve ferroviária na qual foi ferido no braço à bala; é considerado o apresentante dos ideais da filosofia anarquista a Edgard Leuenroth que é hoje célebre nome desta filosofia; Ricardo Gonçalves deixou-nos uma única obra, Ipês (poesias, 1921), publicada postumamente; suicidou-se em 11 de outubro de 1916.