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[trecho da cena VIII do segundo ato da comédia
dramática Cyrano de Bergerac, com parte da fala do personagem Cyrano, em diálogo
com o personagem Le Bret]
[traduzido por Ricardo Gonçalves]
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Mas que fazer então?
Buscar um protetor poderoso, um patrão?
Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,
E lambe-lhe a cortiça e trepa então sem custo?
Usar, para atingir o cimo desejado,
De astúcia em vez de força? Oh! Não, muito obrigado.
Entrar para o canil dos poetas rafeiros,
Como eles dedicar versos aos financeiros
E fazer de bufão para que um potentado
Haja por bem servir? Oh! Não, muito obrigado.
Almoçar cada dia um sapo sem ter nojo,
Rustir o ventre por andar sempre de bojo,
Ter a rótula suja e fazer menos mal
Prontas deslocações da coluna dorsal?
Obrigado. Trazer o incensório suspenso
A um ídolo que viva entre nuvens de incenso,
Ganhar celebridade, aplausos e coroas
Num círculo de trinta ou quarenta pessoas?
Navegar, tendo em vez de remos madrigais
E, a tufarem-se a vela, os suspiros fatais
Das velhas, num derriço? Obrigado, obrigado.
Ganhar fama de autor por haver publicado
Meus versos, mas pagando o livro aos editores,
Obrigado. Viver de esmolas e favores,
Ser papa nas reuniões que, em baiúcas sem nome,
Fazem alguns sandeus? Ver se alcanço renome
Com um soneto, se tanto, em vez de fazer mil,
Achar muito talento em qualquer imbecil?
Obrigado. Ter medo aos jornais, ser amigo
De elogios, dizer de mim para comigo:
“Ah! se o meu nome vier no Mercúrio francês”...
Calcular, ter na face impressa a palidez
Dos poltrões, preferir fazer uma visita
A bordar, carinhoso, uma estrofe bonita,
Ser da matilha, hedionda e vil, dos pretendentes,
Redigir petições e mendigar presentes?
Obrigado. Obrigado. Obrigado. Obrigado.
Mas... cantar, mas viver num sonho alcandorado,
Calmo e feliz, o olhar seguro, a voz vibrante,
De quando em vez, e, por capricho, petulante,
Por de través o feltro, e, por um quase nada,
Dar um beijo na Musa ou dar uma estocada.
Nem um verso escrever que a mim me não pertença,
E, apesar disso tudo, uma modéstia imensa:
Pagar-me com uma flor, ou um fruto apetecido,
Contanto que no meu pomar seja colhido,
[E se enfim algum triunfo vier, mediante a sorte,
Não devê-lo a algum César por ser parte da corte.]
E, em suma, desdenhando a hera vil que se esconde,
Não conseguindo ser o roble, cuja fronde
Mora perto do Azul e distante do pó,
Subir pouco, mas só, completamente só.
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| Edmond Rostand |
Non, merci!
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Et que faudrait-il faire?
Chercher un protecteur puissant, prendre un patron,
Et comme un lierre obscur qui circonvient un tronc
Et s'en fait un tuteur en lui léchant l'écorce,
Grimper par ruse au lieu de s'élever par force?
Non, merci. Dédier, comme tous ils le font,
Des vers aux financiers? se changer en bouffon
Dans l'espoir vil de voir, aux lèvres d'un ministre,
Naître un sourire, enfin, qui ne soit pas sinistre?
Non, merci. Déjeuner, chaque jour, d'un crapaud?
Avoir un ventre usé par la marche? une peau
Qui plus vite, à l'endroit des genoux, devient sale?
Exécuter des tours de souplesse dorsale?...
Non, merci. D'une main flatter la chèvre au cou
Cependant que, de l'autre, on arrose le chou,
Et donneur de séné par désir de rhubarbe,
Avoir un encensoir, toujours, dans quelque barbe?
Non, merci! Se pousser de giron en giron,
Devenir un petit grand homme dans un rond,
Et naviguer, avec des madrigaux pour rames,
Et dans ses voiles des soupirs de vieilles dames?
Non, merci! Chez le bon éditeur de Sercy
Faire éditer ses vers en payant? Non, merci!
S'aller faire nommer pape par les conciles
Que dans les cabarets tiennent des imbéciles?
Non, merci! Travailler à se construire un nom
Sur un sonnet, au lieu d'en faire d'autres? Non,
Merci! Ne découvrir du talent qu'aux mazettes?
Etre terrorisé par de vagues gazettes,
Et se dire sans cesse: "Oh, pourvu que je sois
Dans les petits papiers du Mercure François?"...
Non, merci! Calculer, avoir peur, être blême,
Préférer faire une visite qu'un poème,
Rédiger des placets, se faire présenter?
Non, merci! non, merci! non, merci! Mais... chanter,
Rêver, rire, passer, être seul, être libre,
Avoir l'oeil qui regarde bien, la voix qui vibre,
Mettre, quand il vous plaît, son feutre de travers,
Pour un oui, pour un non, se battre, — ou faire un vers!
Travailler sans souci de gloire ou de fortune,
Á tel voyage, auquel on pense, dans la lune!
N'écrire jamais rien qui de soi ne sortît,
Et modeste d'ailleurs, se dire: mon petit,
Sois satisfait des fleurs, des fruits, même des feuilles,
Si c'est dans ton jardin à toi que tu les cueilles!
Puis, s'il advient d'un peu triompher, par hasard,
Ne pas être obligé d'en rien rendre à César,
Vis-à-vis de soi-même en garder le mérite,
Bref, dédaignant d'être le lierre parasite,
Lors même qu'on n'est pas le chêne ou le tilleul,
Ne pas monter bien haut, peut-être, mais tout seul!
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Antologia de Poetas Franceses do
séc. XV ao séc. XX — O Livro de Ouro da Poesia da França, por R. Magalhães Jr.,
sem data, Ediouro — Clássicos de bolso, Editora Tecnoprint S. A., Rio de Janeiro
— RJ; Edmond Eugène Alexis
Rostand (1868 — 1918), francês de Marselha, formado em Direito, sem nunca ter
exercido a profissão, foi poeta, escritor e dramaturgo; tornou-se conhecido
como dramaturgo, pela autoria da peça Cyrano de Bergerac; obras: Le Gant
Rouge (peça, A Luva Vermelha, 1888), Ode à la Musique (poesia, 1890), Les
Musardises (Divagações, poesia, 1891), Les Deux Pierrots (Os Dois Pierrôs,
1893), Les Romanesques (comédia, 1893), La Princesse Lontaine (A Princesa
Longínqua, 1895), La Samaritaine (A Samaritana, 1897), Pour la Grèce (poesia,
1897), Cyrano de Bergerac (comédia dramática, 1897), L’Aiglon (O Filhote de
Águia, drama, 1900), Un Soir à Hernani (poesia, 1902), La Dernière Nuit de Don
Juan (A Última Noite de Don Juan, peça, 1911) e outros textos; toda obra
teatral de Edmond Rostand foi escrita em versos; em 1902, o poeta foi eleito
membro da Academia Francesa.