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quinta-feira, 14 de junho de 2012

Bruno Seabra: Moreninha


 Moreninha, dás-me um beijo?
      E o que me dá, meu senhor?
 Este cravo...
     — Ora, esse cravo!
     De que me serve uma flor?
     Há tantas flores nos campos!
     Hei-de agora, meu senhor,
     Dar-lhe um beijo por um cravo?
     É barato; guarde a flor.

 Dá-me o beijo, moreninha,
Dou-te um corte de cambraia.
      Por um beijo tanto pano!
     Compro de graça uma saia!
     Olhe que perde na troca,
     Como eu perdera com a flor;
     Tanto pano por um beijo...
     Sai-lhe caro, meu senhor.

 Anda cá... ouve um segredo...
      Ai, pois quer fiar-se em mim?
     Deus o livre; eu falo muito,
     Toda a mulher é assim...
     E um segredo... ora um segredo!...
     Pelos modos que lhe vejo
     Quer o meu beijo de graça,
     Um segredo por um beijo!?

 Quero dizer-te aos ouvidos
Que tu és uma rainha...
     — Acha, pois? e o que tem isso?
     Quer ser rei, por vida minha?

 Quem dera que tu quisesses...
      Não duvide que o farei;
     Meu senhor, case com ela,
     A rainha o fará rei...

 Casar-me?... inda sou tão moço...
      Como é criança esta ovelha!
     Pois eu p'ra beijar crianças,
     Adeusinho, já sou velha.
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Páginas de Ouro da Poesia Brasileira (vários autores) Seleção e Prefácio de Alberto de Oliveira, 1911, H. Garnier,Livreiro Editor, Rio de Janeiro
RJ; Bruno Henrique de Almeida Seabra (1837 1876), paraense, foi poeta lírico, romancista, comediógrafo, folhetinista e exímio pintor de cenas, costumes e tipos nacionais; escreveu A Heloísa americana (1876), As cinzas de um livro (1859), Flores e Frutos (1862), Memórias de um pobre diabo (1868), O barão, o comendador e o frade (1876), O Doutor Pancrácio (1858), O romance de um cético (1876), Paulo (1862), Raimundo ou os néscios da academia (1866) etc.