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[traduzido
por Jamil Almansur Haddad]
Este a
inconsciente azagaia bárbara
prostrou
tirando dos olhos fúlgidos
vida em
que riam as visões
flutuantes
pelo azul imenso.
Outro
beijado pelas austríacas
plumas,
sonhando pela alba gélida
a diana e
o rufo pugnasse,
dobrou
como pálido jacinto.
Ambos das
mães distantes: e as mórbidas
tranças
florentes de puerícia
eram como
à espera do sulco
da
maternal carícia. E em vez,
a sombra
viu estas almas núbiles
sem um
conforto: e até nem o pátrio
louvor
seguia os rastros seus
com voz
de amor e com voz de glória.
Isto não
foi, ó filho de Hortênsia,
o
prometido na infância,
pois em
Paris tu lhe pediste
a sorte
longe de rei de Roma.
De
Sebastopol paz e vitória
iam ninando
com as asas límpidas
o
pequeno: Europa admirava:
a coluna
esplendia como um fogo.
Mas de
dezembro, mas de brumário
cruento é
o lodo, a neblina é pérfida:
não
crescen arbustos pela aura,
ou dão
frutos de dinza e veneno.
Ó
solitária casa de Ajaccio,
que
grandes qüercos sombreiam vírides
e os
cumes coroam serenos
diante de
quem o amor é cantiga!
Aí
Letícia, belo nome itálico,
feito de
dor por todos os séculos,
esposa
foi: foi mãe ditosa
por breve
tempo e apenas e ali,
lançado
aos tronos o raio último,
dadas ao
povo leis de concórdia,
devias,
cônsul, entre o mar
e o deus
a que oras retirar-te.
Familiar
sombra, mora Letícia
na casa
vaga: nenhuma auréola
cesária a
cinge: ora a mãe corsa
existe
posta entre tumbas e aras.
Sou fatal
filho, o de olhos de águia,
as
filhas, bem como a aurora esplêndidas,
netos que
são bela esperança,
todos
fenecem bem longe dela.
Vai pelas
noites a corsa Níobe,
está na
porta aonde iam férvidos
para o
batismo os filhos e ora
estende
os braços pelo mar árduo.
Implora,
implora, se das Américas,
se da
Inglaterra, se da ardente África
alguém de
sua trágica prole
a morte
faça vir ao seu seio.
(Odes
bárbaras)
Per la morte di Napoleone Eugenio
Questo la
inconscia zagaglia barbara
prostrò,
spegnendo li occhi di fulgida
vita
sorrisi da i fantasmi
fluttuanti
ne l’azzurro immenso.
L’altro,
di baci sazio in austriache
piume e
sognante su l’albe gelide
le dïane
e il rullo pugnace,
piegò
come pallido giacinto.
Ambo a le
madri lungi; e le morbide
chiome
fiorenti di puerizia
pareano
aspettare anche il solco
de la
materna carezza. In vece
balzâr ne
’l buio, giovinette anime,
senza
conforti; né de la patria
l’eloquio
seguivali al passo
co i
suon’ de l’amore e de la gloria.
Non
questo, o fósco figlio d’Ortensia,
non questo
avevi promesso al parvolo:
gli
pregasti in faccia a Parigi
lontani i
fati del re di Roma.
Vittoria
e pace da Sebastopoli
sopían co
’l rombo de l’ali candide
il
piccolo: Europa ammirava:
la
Colonna splendea come un faro.
Ma di
decembre, ma di brumaio
cruento è
il fango, la nebbia è perfida:
non
crescono arbusti a quell’aure,
o dan
frutti di cenere e tòsco.
O
solitaria casa d’Aiaccio,
cui verdi
e grandi le querce ombreggiano
e i poggi
coronan sereni
e davanti
le risuona il mare!
Ivi
Letizia, bel nome italico
che omai
sventura suona ne i secoli,
fu sposa,
fu madre felice,
ahi
troppo breve stagione! ed ivi,
lanciata
a i troni l’ultima folgore,
date
concordi leggi tra i popoli,
dovevi, o
consol, ritrarti
fra il
mare e Dio cui tu credevi.
Domestica
ombra Letizia or abita
la vuota
casa; non lei di Cesare
il raggio
precinse: la còrsa
madre
visse fra le tombe e l’are.
Il suo
fatale da gli occhi d’aquila,
le figlie
come l’aurora splendide,
frementi
speranza i nepoti,
tutti
giacquer, tutti a lei lontano.
Sta ne la
notte la còrsa Niobe,
sta sulla
porta donde al battesimo
le
uscíano i figli, e le braccia
fiera
tende su ’l selvaggio mare:
e chiama,
chiama, se da l’Americhe,
se di
Britannia, se da l’arsa Africa
alcun di
sua tragica prole
spinto da
morte le approdi in seno.
(Odi Barbare
[prima edizione] — 1877)
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Poesias Escolhidas:
Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e
Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e
Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström
— Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de
Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 — 1907),
italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou
na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido
professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci
não teve outro mestre além de seus pais — o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado
por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma
“clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades
por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em
Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole
Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou
um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura
cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, e Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto;
deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e,
desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras
da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século — o primeiro
que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o
último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de
1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?]
(1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870]
e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873,
e 2ª edição melhorada e aumentada,
1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva,
1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883),
Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi
Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi
Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio
[1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi
Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas
entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè
Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.