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terça-feira, 7 de outubro de 2025

Petrarca: Ardo tanto e, ai de mim! — quem acredita? . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Ardo tanto e, ai de mim! quem acredita?
Se alguém me crê, só o duvida aquela
Que entre outras damas é a mais pura e bela,
Pois parece não ver o que me agita.

Tão pouca fé, beleza não finita,
Vê, nos olhos meu peito se revela,
Se não fosse tão dura minha Estrela,
Acharia mercê tanta desdita.

Este meu grão ardor que pouco estimas,
O teu alto louvor difuso em rimas
Mil pessoas no mundo inflamaria.

E vê meu pensamento ó doce chama,
Que o ouvido indiferente e a língua fria
Terão por alto plectro eterna fama.

Petrarca

Lasso!, ch'i' ardo, et altri non mel crede;
sí crede ogni uom, se non sola colei
che sovr'ogni altra, et ch'i' sola vorrei:
ella non par che 'l creda, e sì sel vede.

Infinita bellezza, e poca fede,
non vedete voi 'l cor, nelli occhi mei?
Se non fusse mia stella, i' pur devrei
al fonte di pietà trovar mercede.

Quest'arder mio, di che vi cal sì poco,
e i vostri onori, in mie rime diffusi,
ne porìan infiammar fors'ancor mille;

ch'i' veggio nel penser, dolce mio foco,
fredda una língua, e duo belli occhi chiusi
rimaner, dopo noi, pien di faville.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 3 de agosto de 2025

Giosuè Carducci: Matinas e Noturno

 
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[traduzido por A. Herculano de Carvalho]

Da chuva da manhã, por fim, emerso,
Na pureza do azul o céu resplende,
E deste sol de maio ao universo,
O sorriso de Deus, lento, descende;

Quando álacre, ao espírito submerso,
Asas de luz, meu pensamento estende
E ao sol dos olhos teus voa meu verso
Como a trinar dum pássaro que ascende.

Mas sinto ardor no peito essa luz turva
Das pupilas, nas quais vagueia e fala
Um desejo de ignoto e estranho fito,

Quando a lua contemplo, erma de chuva,
A cidade marmórea que se cala,
Contar melancolias do infinito.


XXII.

Mattutino e notturno

Al mattin da la pioggia ecco deterso
In purità d’azzurro il ciel risplende,
E dal sole di maggio a l’universo
Il sorriso di Dio benigno scende;

Quando alacre da l’animo sommerso
L’ali innovate il mio pensiero stende,
E al sol de gli occhi tuoi rivola il verso
Come trillo di lodola che ascende.

Ma sento ardermi in cor la luce bruna
De le pupille in cui erra dolente
Il desio d’un ignoto estraneo lito,

Quando ammiro da i poggi ermi la luna
A la città marmorea tacente
Dir le malinconie de l’infinito.

[Verona, 17 luglio 1883]

(Rime nuove/Libro II — 1887),
[Rime nuove, libro II — 1906].
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, e Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

sábado, 5 de julho de 2025

Petrarca: Era o dia em que o sol escurecia . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Era o dia em que o sol escurecia
Os raios por piedade ao seu Fator,
Quando eu me vi submisso ao vivo ardor
De teu formoso olhar que me prendia.

Defender-me do golpe eu não queria;
Desabrigado achou-me então Amor;
Por isso acrescentou-se a minha dor
À dor universal que assaz crescia.

Achou-me Amor de todo desarmado,
Pelos olhos, ao peito aberta a estrada,
Olhos que se fizeram mar de pranto.

Porém a sua ação não o honra tanto:
Ferir-me, sendo inerme o meu estado,
Não te visar quando eras tão armada.

Petrarca

Era il giorno ch’al sol si scoloraro
per la pietà del suo factore i rai,
quando i’ fui preso, e non me ne guardai,
ché i be’ vostr’occhi, donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da far riparo
Contr’ a’ colpi d’Amor: però m’andai
secur, senza sospetto; onde i miei guai
nel commune dolor s’incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato,
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco.

Però al mio parer, non li fu onore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l’arco.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.

domingo, 22 de junho de 2025

Giosuè Carducci: Sol e amor

 
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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Leves e alvas à plaga ocidental,
As nuvens vão: seja por onde for,
Sorri o céu, como o humano labor
Saúda o sol, benigno, triunfal.

Em mil flechas desponta a catedral
E santos de ouro e rosado fulgor,
Radia então a hosana e há o rumor
Dos falcões, este alívolo coral.

Assim, depois que Amor riso de calma
Nuvens rasgou que me agravaram tanto,
Pode exsurgir à luz do sol minha alma.

E lhe sorri multiplicado o santo
Ideal da existência: é uma harmonia
O pensamento: e o sentimento é um canto.

(Rimas Novas)

Giosuè Carducci

XXI.
Sole e Amore

Lievi e bianche a la plaga occidentale
Van le nubi: a le vie ride e su ’l fòro
Umido il cielo, ed a l’uman lavoro
Saluta il sol, benigno, trionfale.

Leva in roseo fulgor la cattedrale
Le mille guglie bianche e i santi d’oro,
Osannando irraggiata: intorno, il coro
Bruno de’ falchi agita i gridi e l’ale.

Tal, poi ch’amor co ’l dolce riso via
Rase le nubi che gravârmi tanto,
Si rileva nel sol l’anima mia,

E molteplice a lei sorride il santo
Ideal de la vita: è un’armonia
Ogni pensiero, ed ogni senso un canto.

[14-15 dicembre 1872]

(Rime nuove — Libro secondo, 1887)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada”, por suas opiniões políticas junto às comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença, já aos quatorze anos, que o poeta passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Levia Gravia [1857-1870], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860-1870], Levia Gravia [1857-1870] e Juvenilia [1850-1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850-1857] (edição definitiva, 1880), Ça Ira (1883), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850-1907], Prose Giovanili [1851-1859], Primi Sagi [1857-1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858-1901], Petrarca e Boccacio [1861-1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862-1895], Dante [1864-1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868-1897], Leopardi e Manzoni [1873-1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

sexta-feira, 16 de maio de 2025

Petrarca: Não tenho paz nem posso fazer guerra . . . [soneto]

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Não tenho paz nem posso fazer guerra;
Temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
E voo para o céu, e desço à terra,
E nada aperto, e todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou se descerra,
Nem me retém nem solta o duro laço;
Entre livre e submissa esta alma erra,
Nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
E sonho perecer e ajuda imploro;
A mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
A morte como a vida enfim deploro:
E neste estado sou, Dama, por Vós.

Petrarca

Pace non trovo, et non ho da far guerra;
e temo, e spero; et ardo, e son un ghiaccio;
e volo sopra ’l cielo, e giaccio in terra;
e nulla stringo, et tutto ’l mondo abbraccio.

Tal m’ha in pregion, che non m’apre né serra,
né per suo mi riten né scioglie il laccio;
e non m’ancide Amore, e non mi sferra,
né mi vuol vivo, né mi trae d’impaccio.

Veggio senza occhi, e non ho língua, e grido;
e bramo di perir, e cheggio aita:
et ho in odio me stesso, et amo altrui.

Pascomi di dolor, piangendo rido;
egualmente mi spiace morte e vita:
in questo stato son, donna, per voi.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus, e muitos outros títulos.

terça-feira, 13 de maio de 2025

Giosuè Carducci: A Igreja de Polenta * [trecho]

 
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[traduzido por Dom F. de Aquino Correia]

[ . . . ]

Ave, Maria! Quando na aura aflante,
Corre esta humilde voz os horizontes,
Dos vis mortais, como de Haroldo e Dante,
Curvam-se as frontes.

Uma de flautas harmonia linda
Passa entre a terra e os céus, que além se coram:
Espíritos, talvez, dos que são inda,
Dos quem já foram?

Um doce esquecimento da oprimente
Vida, um suspirar fundo pela calma,
Um gosto de chorar suavemente
Invade a alma.

Cala-se a fera, o homem, tudo, e quando
Róseo, no azul se esfuma além o dia,
Cantam nas torres os sinos, ondulando:
Ave, Maria!

(Rimas e Ritmos)

Giosuè Carducci

La chiesa di Polenta [trecho]

[ . . . ]

Ave Maria! Quando su l’aure corre
l’umil saluto, i piccioli mortali
scovrono il capo, curvano la fronte
                    Dante ed Aroldo.

Una di flauti lenta melodi
passa invisibil fra la terra e il cielo:
spiriti forse che furon, che sono
                    e che saranno?

Un oblio lene de la faticosa
vita, un pensoso sospirar quïete,
una soave volontà di pianto
                    l’anime invade.

Taccion le fiere e gli uomini e le cose,
roseo ’l tramonto ne l’azzurro sfuma,
mormoran gli alti vertici ondeggianti
                    Ave Maria.

[luglio 1897]

(Rime e ritmi  1898)

* Nota do blogue Verso e Conversa: em pesquisas googleanas, o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página descobriu que o poema carducciano A Igreja de Polenta [La chiesa di Polenta] é composto por 128 versos distribuídos em 32 estrofes [de 4 versos cada]; neste Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci..., constam, traduzidos por Dom Francisco de Aquino Correia, apenas as quatro últimas estrofes [versos 113 a 128].
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, Eneida, Jerusalém Libertada, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?], (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

domingo, 27 de abril de 2025

Giosuè Carducci: A morte de Eugênio Napoleão

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Este a inconsciente azagaia bárbara
prostrou tirando dos olhos fúlgidos
vida em que riam as visões
flutuantes pelo azul imenso.

Outro beijado pelas austríacas
plumas, sonhando pela alba gélida
a diana e o rufo pugnasse,
dobrou como pálido jacinto.

Ambos das mães distantes: e as mórbidas
tranças florentes de puerícia
eram como à espera do sulco
da maternal carícia. E em vez,

a sombra viu estas almas núbiles
sem um conforto: e até nem o pátrio
louvor seguia os rastros seus
com voz de amor e com voz de glória.

Isto não foi, ó filho de Hortênsia,
o prometido na infância,
pois em Paris tu lhe pediste
a sorte longe de rei de Roma.

De Sebastopol paz e vitória
iam ninando com as asas límpidas
o pequeno: Europa admirava:
a coluna esplendia como um fogo.

Mas de dezembro, mas de brumário
cruento é o lodo, a neblina é pérfida:
não crescen arbustos pela aura,
ou dão frutos de dinza e veneno.

Ó solitária casa de Ajaccio,
que grandes qüercos sombreiam vírides
e os cumes coroam serenos
diante de quem o amor é cantiga!

Aí Letícia, belo nome itálico,
feito de dor por todos os séculos,
esposa foi: foi mãe ditosa
por breve tempo e apenas e ali,

lançado aos tronos o raio último,
dadas ao povo leis de concórdia,
devias, cônsul, entre o mar
e o deus a que oras retirar-te.

Familiar sombra, mora Letícia
na casa vaga: nenhuma auréola
cesária a cinge: ora a mãe corsa
existe posta entre tumbas e aras.

Sou fatal filho, o de olhos de águia,
as filhas, bem como a aurora esplêndidas,
netos que são bela esperança,
todos fenecem bem longe dela.

Vai pelas noites a corsa Níobe,
está na porta aonde iam férvidos
para o batismo os filhos e ora
estende os braços pelo mar árduo.

Implora, implora, se das Américas,
se da Inglaterra, se da ardente África
alguém de sua trágica prole
a morte faça vir ao seu seio.

(Odes bárbaras)


Per la morte di Napoleone Eugenio

Questo la inconscia zagaglia barbara
prostrò, spegnendo li occhi di fulgida
vita sorrisi da i fantasmi
fluttuanti ne l’azzurro immenso.

L’altro, di baci sazio in austriache
piume e sognante su l’albe gelide
le dïane e il rullo pugnace,
piegò come pallido giacinto.

Ambo a le madri lungi; e le morbide
chiome fiorenti di puerizia
pareano aspettare anche il solco
de la materna carezza. In vece

balzâr ne ’l buio, giovinette anime,
senza conforti; né de la patria
l’eloquio seguivali al passo
co i suon’ de l’amore e de la gloria.

Non questo, o fósco figlio d’Ortensia,
non questo avevi promesso al parvolo:
gli pregasti in faccia a Parigi
lontani i fati del re di Roma.

Vittoria e pace da Sebastopoli
sopían co ’l rombo de l’ali candide
il piccolo: Europa ammirava:
la Colonna splendea come un faro.

Ma di decembre, ma di brumaio
cruento è il fango, la nebbia è perfida:
non crescono arbusti a quell’aure,
o dan frutti di cenere e tòsco.

O solitaria casa d’Aiaccio,
cui verdi e grandi le querce ombreggiano
e i poggi coronan sereni
e davanti le risuona il mare!

Ivi Letizia, bel nome italico
che omai sventura suona ne i secoli,
fu sposa, fu madre felice,
ahi troppo breve stagione! ed ivi,

lanciata a i troni l’ultima folgore,
date concordi leggi tra i popoli,
dovevi, o consol, ritrarti
fra il mare e Dio cui tu credevi.

Domestica ombra Letizia or abita
la vuota casa; non lei di Cesare
il raggio precinse: la còrsa
madre visse fra le tombe e l’are.

Il suo fatale da gli occhi d’aquila,
le figlie come l’aurora splendide,
frementi speranza i nepoti,
tutti giacquer, tutti a lei lontano.

Sta ne la notte la còrsa Niobe,
sta sulla porta donde al battesimo
le uscíano i figli, e le braccia
fiera tende su ’l selvaggio mare:

e chiama, chiama, se da l’Americhe,
se di Britannia, se da l’arsa Africa
alcun di sua tragica prole
spinto da morte le approdi in seno.

(Odi Barbare [prima edizione] — 1877)
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Poesias Escolhidas: Giosuè Carducci, Tradução e Notas de Jamil Almansur Haddad, Estudo Introdutivo e Vida e Obra de Giosuè Carducci, por Paul Renucci, Ilustrações de Michel Cauvet e Pequena História da atribuição do Prêmio Nobel a Giosuè Carducci, por Gunnar Ahlström — Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura, 1971, Editora Opera Mundi, Rio de Janeiro — RJ; Giosuè Alessandro Giuseppe Carducci ou Joshua Carducci (1835 1907), italiano de Val di Castello, comuna de Pietrasanta, hoje Pietrasanta-Carducci, estudou na Scuola Normale de Pisa, formou-se em Filosofia e Filologia, além de ter sido professor por quase meio século, foi poeta e crítico; até os quatorze anos, Carducci não teve outro mestre além de seus pais o pai, médico “sem fortuna”, era “sustentado por uma clientela camponesa miserável” e também não era favorecido na busca de uma “clínica mais afortunada” por manter suas opiniões políticas não ao gosto das comunidades por onde passava, assim vivia mudando de localidade e de sede de clínica; foi em Florença que o poeta, já aos quatorze anos, passou a frequentar o colégio Scuole Pio, fez dois anos de retórica, escreveu seus primeiros sonetos, depois frequentou um curso de ciências e continuou com seus estudos“, o gosto já adquirido pela leitura cresceu, leu Os Noivos, de Manzoni, os épicos Ilíada, de Homero, Eneida, de Virgílio, Jerusalém Libertada, de Torquato Tasso, os “poemas cavaleirescos” Orlando Amoroso, de Boiardo, e Orlando Furioso, de Ariosto; deu aulas em estabelecimentos secundários de San Miniato al Tedesco e Pistóia e, desde os vinte e cinco anos, lecionou Literatura Italiana na Faculdade de Letras da Universidade de Bolonha; também escreveu poemas por quase meio século o primeiro que se tem conservado, A Dio, um soneto a Deus, foi escrito em maio de 1848, e o último, uma quadra, O Castelo de São Martinho, traz a data de 10 de novembro de 1902; suas obras: em poesia: Rime (1857), Inno a Satana (1863), Levia Gravia [1857—1870?] (1868), Poesie (edição, num só volume, de Deccenalli [1860—1870], Levia Gravia [1857—1870] e Juvenilia [1850—1857], 1871), Primavere elleniche (1872), Nuove poesie (1873, e 2ª edição melhorada e aumentada, 1875), Odi Barbare (primeira série, 1877), Juvenilia [1850—1857] (edição definitiva, 1880), Nuove Odi Barbare (1882, 2ª edição melhorada e aumentada, 1886), Ça Ira (1883), Rime Nuove (1887), Terze Odi Barbare (1889), Rime e Ritme (1899), em prosa: Ricordi Autobiografici, Saggi e Frammenti [1850—1907], Prose Giovanili [1851—1859], Primi Sagi [1857—1865], Poeti e Figure del Risorgimento [1858—1901], Petrarca e Boccacio [1861—1882], Scritti di Storia e di Erudizione [1862—1895], Dante [1864—1904], Discorsi Letterari e Storicci [1868—1897], Leopardi e Manzoni [1873—1898], todas publicadas entre 1940 e 1942, além de outras publicações e reedições em verso e prosa; Giosuè Carducci foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1906.

quarta-feira, 9 de abril de 2025

Petrarca: Tanto peixe não tem o mar entre ondas . . .

 
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[traduzido por Jamil Almansur Haddad]

Tanto peixe não tem o mar entre ondas,
Nem acima do círculo da lua
Jamais viu tanta estrela alguma noite,
Nem tantas aves moram pelos bosques
Nem tanta erva existiu em campo ou vale
Quanto afãs o meu peito em cada tarde.

Dia a dia eu espero a ultima tarde
Que me liberte das terrenas ondas
E me deixe dormir em qualquer vale.
Homem nenhum tanto afã sob a lua
Jamais sofreu assim; sabem-no os bosques
Que, só, vou procurando dia e noite.

Eu não tive jamais tranquila noite,
Mas suspirando vou manhã e tarde,
Desde que Amor me enclausurou nos bosques.
Antes que acabe a angústia, o mar sem ondas
Será e o sol terá a luz da lua
E as flores morrrerão em todo vale.

Consumindo-me vou de vale em vale
O dia todo; e após eu choro à noite;
No meu estado sou tal qual a lua.
Mal veio agora escurecer a tarde,
Suspira o peito e dos olhos as ondas
Banham as ervas e movem os bosques.

A cidade é inimiga mas os bosques
Velam por meus cuidados; pelo vale
Afogando-os eu vou ao som das ondas
Pelo silêncio tão doce da noite;
Tanto que espero todo o dia a tarde,
Que o sol transmonte e dê lugar à lua.

Ah, pudesse eu ao resplandor da lua
Adormecer por estes verdes bosques,
E esta que cedo ainda me dá a tarde
Viesse comigo Amor àquele vale.
Só estivesse ali por uma noite;
E o dia se estendera e o sol nas ondas.

Sobre ondas duras ao lume da lua
Canção nascida à noite em meio aos bosques
Rico vale amanhã verás à tarde.

Petrarca

Non ha tanti animali il mar fra l’onde;
nè lassù sopra ’l cerchio della Luna
vide mai tante stelle alcuna notte;
nè tanti augelli albergan per li boschi;
nè tant’erbe ebbe mai campo, nè piaggia,
quant’ha ’l mio cor pensier ciascuna sera.

Di dì in dì spero omai, l’ultima sera,
che scevri in me dal vivo terren l’onde,
e mi lasci dormire in qualche piaggia:
che tanti affanni uom mai sotto la Luna
non sofferse, quant’io; sannolsi i boschi
che sol vo ricercando giorno e notte.

Io non ebbi già mai tranquilla notte,
ma sospirando andai mattino e sera,
poi ch’Amor fêmmi un cittadin de’ boschi.
Ben fia, prima ch’i’ posi, il mar senz’onde;
e la sua luce avrà ’l Sol da la Luna,
e i fior d’april morranno in ogni piaggia.

Consumando mi vo di piaggia in piaggia,
il dì pensoso; poi piango la notte;
nè stato ho mai, se non quanto la Luna.
Ratto, come imbrunir veggio la sera,
sospir del petto, e de li occhi escono onde,
da bagnar l’erbe, e da crollare i boschi.

Le città son nemiche, amici i boschi,
a’ miei pensier, che per quest’alta piaggia
sfogando vo col mormorar de l’onde
per lo dolce silenzio de la notte:
tal ch’io aspetto tutto ’l dì la sera,
che ’l Sol si parta, e dia luogo a la Luna.

Deh, or foss’io col vago de la Luna
adormentato in qua’ che verdi boschi;
e questa ch’anzi vespro a me fa sera,
con essa e con Amor in quella piaggia
sola venisse a starsi ivi una notte;
e ’l dì si stesse, e ’l Sol sempre ne l’onde.

Sovra dure onde, al lume della Luna,
canzon, nata di notte in mezzo i boschi,
ricca piaggia vedrai deman da sera.
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Poemas de Amor de Petrarca — O Cancioneiro, edição bilíngue: Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Tradução de Jamil Almansur Haddad, 1998, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Francesco Petrarca (1304 1374), italiano nascido em Arezzo, na Toscana, considerado o pai do Humanismo, inventor do soneto, foi poeta, pesquisador e filólogo; por insistência de seu pai, iniciou-se em estudos de Direito, mas desistiu em benefício da escrita e da Literatura Latina, tendo sido um estudioso do Latim e registrado a maior parte de suas obras nesta língua; seus escritos em latim foram variados, incluindo trabalhos acadêmicos, ensaios introspectivos, cartas e poesias; escreveu e publicou Il Canzoniere 'O Cancioneiro' e Trionfi 'Triunfos' poesias, Secretum 'Meu Livro Secreto' diálogo imaginário com Agostinho de Hipona, De Viris Illustribus 'Sobre os Homens Ilustres' série de biografias morais, De Otio Religiosorum 'Sobre o Lazer Religioso' e De Vita Solitaria 'Sobre a Vida Solitária' elogios à vida contemplativa, Carmen Bucolicum coleção de doze poemas pastorais, Africa épico, sobre o general romano Scipio Africanus e muitos outros títulos.