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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Rubem Braga *: Poeta Cristão

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A poesia anda mofina,
Mofina, mas não morreu.
Foi o anjo que morreu:
Anjo não se usa mais.
Ainda se usa estrela
Se usa estrela demais.

Poeta religioso
Mocinha não pode ler:
Pecará em pensamento,
Que o poeta gosta do Novo,
Mas pilha seus amoricos
É no Velho Testamento.
Ai, o Velho Testamento!
Eu também faço poema,
Ora essa, quem não faz:
Boto uma estrela na frente
E um pouco de mar atrás.
Boto Jesus de permeio,
Que Deus, nos pratos de amor,
É um excelente recheio.

E isso bem posto e disposto
Me vou aos peitos da Amada:
Sulamita, Sulamita,
Por ti eu me rompo todo,
Sou cavalheiro cristão.
Minh’alma está garantida
Num rodapé do Tristão.
E o corpo? O corpo é miséria,
Peguei doença, mas Jorge
De Lima dá injeção!

O badalo está chamando,
Bão-ba-la-lão!.
Amada, não vai lá não!
Eu também tenho badalos 

Bão-ba-la-lão 
Eu sou poeta cristão!

Rio, maio de 1940.


* No Prefácio da 1ª. edição desta Antologia, o poeta Vinícius de Moraes escreveu a propósito dos bissextos: “... poetas que nós, seus íntimos, chamamos cordialmente de bissextos — poetas sem livros de versos — bissextos pela escassez de sua produção, cuja excelência sem embargo os coloca ao lado dos mais citados”
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Bissextos Contemporâneos, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Rubem Braga (1913  1990), capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, formado pela Faculdade de Direito de Belo Horizonte  MG, foi jornalista, escritor, cronista e poeta bissexto *; trabalhou em inúmeros periódicos, entre os quais Correio do Sul, de Cachoeiro, Diário da Tarde, Diário de Pernambuco, Diários Associados  Diário da Noite e O Jornal, Diário Carioca, Diário de São Paulo, Folha da Tarde, Correio da Manhã, O Estado de São Paulo, revista Manchete; durante a 2ª. Guerra Mundial foi enviado à Itália, pelo Diário Carioca, e atuou como correspondente de guerra junto à FEB; foi co-fundador da revista Problemas e um dos criadores da Editora do Autor e da Editora Sabiá, em conjunto com outros escritores; escreveu e publicou O Conde e o Passarinho (1936), O Morro do Isolamento (1944), Com a FEB na Itália (1945), Um Pé de Milho (1948), O Homem Rouco (1949), Três Primitivos (1954), A Borboleta Amarela (1955), A Cidade e a Roça (1957), Ai de Ti, Copacabana (1960), A Traição dos Elegantes (1967), As Boas Coisas da Vida (1988), todos de crônicas, entre outros títulos, além de ter feito adaptações de outros autores; traduziu Terra dos Homens, de Antoine Saint-Exupéry.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

Rubem Braga: Adeus

Antologia De Humorismo E Sátira - R. Magalhães Júnior
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Adeus, escritório, adeus,
Para sempre e nunca mais.
Eu vou sair pelo mundo
Eu vou pra Minas Gerais,
Já não quero mais cidade
Onde tem muita prisão
E nenhuma liberdade.
Nem quero ser lavrador.
Eu quero ser vagabundo,
Mas de espingarda na mão.
Se precisar trabalhar
Mudo sempre de patrão.

Beber, só bebo cachaça,
Não preciso beber mais.
Se morrer é de maleita
No fundo do mato: morte
Que rima com esta sorte
Do Brasil que Deus me deu.

Adeus, mulherada, adeus,
Eu vou no rumo de Minas,
Pego sertão de Goiás,
Mato onça e pesco muito.
Se forem me aborrecer
Vou matando sem aviso
O branco que aparecer.

Depois desço por um rio,
Vou pro Norte ou vou pro Sul,
Em Marajó ou no Prata
Eu varo as ondas do mar.
E saio por este mundo
Barbado, pobre, sozinho,
Doente, todo estragado,
 Mas de espingarda na mão!

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Antologia de Humorismo e Sátira (de Gregório de Matos a Vão Gôgo) — por R. Magalhães Júnior, 1957, Editora Civilização Brasileira S.A., Rio de Janeiro — RJ; Rubem Braga (1913 1990), capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, formado em Direito, foi jornalista, escritor e cronista; iniciou-se no jornalismo, ainda estudante, no Correio do Sul, em Cachoeiro; o Diário da Tarde, o Diário de Pernambuco, os Diários Associados  São Paulo e a Rede Globo de Televisão (Jornal Hoje) foram alguns dos veículos por onde passou e onde registrou suas crônicas; em Recife, fundou o periódico Folha do Povo e, em São Paulo, a revista Problemas, além de outras; escreveu e publicou O Conde e o Passarinho (1936), O Morro do Isolamento (1944), Com a FEB na Itália (1945), Um Pé de Milho (1948), Três Primitivos (1954), A Borboleta Amarela (1955), A Cidade e a Roça (1957), Ai de Ti, Copacabana! (1960) e outros títulos, além de participação em adaptações de outros autores e tradução de Terre des Hommes (Terra dos Homens), de Antoine de Saint-Exupéry; em 1945 atuou como correspondente de guerra junto à FEB (Forças Expedicionárias Brasileiras), na Itália.