quarta-feira, 30 de abril de 2014

Olegário Mariano: Teia de Aranha

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Dizem que traz felicidade a teia
De aranha. Surge um dia, malha a malha,
E a aranha infatigável que trabalha
Mata os insetos quanto mais se alteia.

Sobe ao beiral. É um berço e balanceia
Ao vento que os filetes de ouro espalha...
E, ao sol iluminado que a amortalha,
A trama iluminada se incendeia.

Surge a primeira borboleta ebriada.
Vem louca, primavera de ansiedade...
Mas de repente, a asa despedaçada,

Rola... É o fim... A tortura da grilheta...
Não quero nunca essa felicidade
Que vem da morte de uma borboleta!
Água Corrente  1918

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Toda Uma Vida de Poesia  Volume I (1911 a 1931) Olegário Mariano, Primeira edição, 1957, Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro RJ; Olegário Mariano Carneiro da Cunha (1889 1958), pernambucano de Recife, político e diplomata, foi poeta e jornalista; estreante na vida literária aos 22 anos com o volume Angelus, viveu o período parnasiano-simbolista e de transição para o modernismo; escreveu para as revistas Caretas e Para Todos com o pseudônimo de João da Avenida; ficou conhecido como o "poeta das cigarras" por causa de um de seus temas prediletos; obra literária: Angelus (1911); Sonetos (1912); Evangelho da Sombra e do Silêncio (1913); Água Corrente (prefácio de Olavo Bilac, 1918); Últimas Cigarras (1920); Bataclan (crônicas em versos, 1923); Canto da minha terra (1930); Destino (1931); Vida, caixa de brinquedos (crônicas em versos, 1933); A Vida que já vivi (memórias, 1945); e tantos outros títulos.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Raul de Leôni: Cala a boca, Memória! Basta, basta! . . . * [soneto]

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Cala a boca, Memória! Basta, basta!
O que o Tempo te disse não me digas,
Que pareces até minha madrasta
Quando me vens cantar tuas cantigas.

Tua voz me faz mal e me vergasta,
E a chorar, muitas vezes, tu me obrigas,
Piedade, Memória iconoclasta,
Não despertes, assim, dores antigas.

Vai, recolhe-te à tua soledade,
E que o teu braço nunca mais me leve
À sepultura da Felicidade!

Segue um conselho meu, de ora em diante:
Junto a quem está de luto, não se deve
Falar de quem morreu, a todo instante…



Nota de Luiz Santa CruzPoema recolhido por
 Agrippino Grieco, entre os salvados do incêndio
 ordenado pelo próprio poeta  e divulgado no
 número a ele dedicado por Múcio Leão, em
 "Autores e Livros" (23-11-1941), é um soneto
 de adolescência (aos 15 anos). 
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Raul de Leôni  Poesia  textos escolhidos,  Coleção Nossos Clássicos, Volume 58, seleção e organização de Luiz Santa Cruz, 1961, Livraria Agir Editora, Rio de Janeiro  RJ; Raul de Leôni (1895  1926), nascido em Petrópolis  RJ, formou-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade Livre de Direito do Rio de Janeiro; diplomata e poeta, em 1914 inicia sua colaboração literária com revistas (Fon-Fon e Para Todos) e jornais cariocas (Jornal do Brasil, Jornal do Comércio, O Jornal e O Dia); publicou Ode a Um Poeta Morto (1919) e Luz Mediterrânea (1922).

Saturnino de Meireles: Vida Obscura

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Como um lírio que nasce e que fenece
Por entre as rochas de uma gruta escura,
Tu foste assim do berço à sepultura
Com um sorriso de um anjo que adormece.

Não se ouviu de teus lábios uma prece
Que deixasse do mundo uma censura.
Foste mesmo uma rosa de ternura
Que por entre os espinhos estremece.

Levaste assim contigo o teu segredo,
Como se fosse uma harpa não tocada
Ou uma flor nascida num degredo.

Foste só uma pálida esperança,
Uma saudade nunca desvendada,
Um sonho muito vago de criança.

(Astros Mortos, 1903, Tipografia
 Leuzinger, Rio de Janeiro  RJ)

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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Saturnino Soares de Meireles Filho (1878  1906), foi poeta; apesar de ter apenas um emprego modesto numa companhia de seguros, foi de uma dedicação absoluta a Cruz e Sousa (1861 1898), de quem era amigo e discípulo e a quem reservava a quarta parte de seu parco salário; sobre Saturnino, escreveu Andrade Muricy: "Mais do que a sua produção, a sua ação garante-lhe durabilidade à memória.": em seu único livro publicado em vida, Astros Mortos (1903), fez dedicatória ao paupérrimo poeta negro, chamando-o de "grande mestre e divino amigo"; morto Cruz e Sousa, pagou a edição das Evocações e contribuiu para a publicação dos Faróis; adquiriu, no Cemitério São Francisco Xavier, o terreno onde se ergueu o mausoléu do amigo; e, finalmente, foi um dos fundadores e sustentadores da revista Rosa-Cruz (1901 1904), que tinha a finalidade de cultuar a memória de Cruz e Sousa, seu ídolo; sem dúvida, chefe desse grupo, Saturnino acabou por se tornar um dos mais importantes do movimento simbolista; obra poética: Astros Mortos (sonetos, 1903) e Intuições (prosa, editada postumamente) ...

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Mário Pederneiras: Suave Caminho

Poesia da Fase Simbolista. Antologia dos Poetas Brasileiros | Amazon.com.br
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Assim… Ambos, assim, no mesmo passo,
Iremos, percorrendo a mesma estrada;
Tu 
 no meu braço trêmulo amparada,
Eu  amparado no teu lindo braço.

Ligados neste arrimo, embora escasso,
Venceremos as urzes da jornada...
E tu 
 te sentirás menos cansada
E eu  menos sentirei o meu cansaço.

E assim, ligados pelos bens supremos,
Que para mim o teu carinho trouxe,
Placidamente pela Vida iremos.

Calcando mágoas, afastando espinhos,
Como se a escarpa desta Vida fosse
O mais suave de todos os caminhos.

(Ao léo do sonho e à mercê da vida,
 1912, Rio de Janeiro  RJ)

Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1867 - 1915) - Genealogy
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Mário Veloso Paranhos Pederneiras (1868 1915), carioca do Rio de Janeiro, foi poeta fortemente influenciado pela poesia da escola simbolista francesa e também pelos grandes nomes do Simbolismo da língua portuguesa naquele período Cruz e Sousa, Antonio Nobre e Cesário Verde; estreou na imprensa por volta de 1878 ao tornar-se colaborador do jornal O Imparcial, do Grêmio Literário Artur de Oliveira, no Rio de Janeiro; entre 1895 e 1908, foi co-fundador, diretor e redator das revistas Rio Revista, Galáxia e Mercúrio, e da revista Fon-Fon, que foi responsável pela segunda fase do movimento simbolista; colaborou ainda com os periódicos A Gazeta de Notícias, Sans Dessous, O Tagarela e Novidades; escreveu e publicou Agonias (1900), Rondas Noturnas (1901), Histórias do meu Casal (1906), Ao Léu do Sonho e à Mercê da Vida (1912) e Outono (1921, obra póstuma, com poemas de 1914 e ilustrações de Calixto e João Carlos).

Genésio dos Santos: haikai

Prossiga na viagem, clique no título acima.



teço num repente

um redondilho maior

versos d'oriente



São Paulo, abril de 2014

Minha foto
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, prestou serviços em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 a 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

domingo, 27 de abril de 2014

Pedro Xisto: O poeta é vento? (e outros haikais)

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poesia,
poema,
poeta


o poeta  evento
do poente? do oriente?
o poeta é vento?



cinco-sete-cinco
no princípio era o ritmo
cinco... sete... cinco *


espera e labor
poesia bem seria
espécie de amor


*


*

                                           **
*



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paisagem
(natureza, estações, ciclos)



a criança nua
de todo cata no lodo
farrapos de lua ***



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passagem 
(tempo, fim-início)



estradas incertas
do menino e do velhinho
passadas insertas


antigo jazigo
e a letra aberta na pedra:
amigo já sigo


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o ser refletido



assuntos a esmo:
que tenho e penso? a que venho?
assumo a mim mesmo




Notas do organizador:
* O ritmo representado pelo próprio esquema métrico do haikai: cinco-sete-cinco (sílabas). Note-se como o ritmo, acelerado no primeiro verso pela união (com hífen) entre as palavras, desacelera-se no último verso, que introduz as reticências entre as mesmas palavras.
** Cada ponto representando uma sílaba poética, eis um "esqueleto" do haikai, um poema reduzido ao esquema métrico fundamental do modelo (5-7-5 sílabas).
*** Alto e baixo, céu e solo, sublime e terreno, límpido e sujo fundem-se neste poema, que associa sonoramente as palavras nua (relativa à criança, suja de lama) e lua; esta, refletida no lodo, é recolhida "em farrapos" pela criança.
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Lumes: uma antologia de haikais, de Pedro Xisto — Organização, Seleção, Textos e Notas de Marcelo Tápia, 2008, Berlendis & Vertecchia Editores, São Paulo SP; Pedro Xisto Pereira de Carvalho (1901 1987), pernambucano de Limoeiro, formado em Direito, foi adido cultural em embaixadas brasileiras no Japão, Canadá e Estados Unidas; poeta, ensaísta, jornalista e professor, participou do Movimento Concretista iniciado por Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos, formadores do Grupo Noigandres, na década de 50; escreveu críticas literárias para o jornal Folha da Manhã (SP); integrou, juntamente com os poetas concretistas do Noigandres, e com outros, a Revista Invenção, publicando ali seus primeiros poemas concretos; em suas viagens pela Europa e pelo Oriente, ajudou na difusão da poesia de vanguarda brasileira em festivais e eventos de toda natureza como poeta, articulista e teórico; obras literárias: Poesia em Situação (1960, Imprensa Oficial do Ceará, Fortaleza edição de artigos publicados na Folha da Manhã), A Busca da Poesia (1970, in Guimarães Rosa em três dimensões “com Augusto de Campos e Haroldo de Campos”, Imprensa Oficial do Estado, São Paulo SP); HaiKais & Concretos (1960, prêmios Pen-Clube São Paulo e Fábio Prado Renata Crespi Prado, Livraria Martins Editora, São Paulo SP); 8 Haikais (1960, Coleção Shin Nippaku, Tokyo Japão); Acht Haikai (1962, música de Koellreuter para baixo e instrumentos, texto bilíngüe, Edition Moderne, Munique Alemanha); Vogaláxia (1966, Invenção, Bahia/São Paulo); Three haiku (1972, Wood Montain, Saskatchewan Canadá); Toronto poems (1972, Ganglia Press, Toronto Canadá); Partículas (1984, Massao Ohno/Ismael Guarnelli Editores, São Paulo SP); As águas glaucas (2007, antologia de poesia concreta e visual, Berlendis & Vertecchia Editores, São Paulo SP. 

Castro Meneses: (Soneto) Cruz e Sousa *

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Vieste como o cansim ** dos areais africanos,
Ébrio ainda do sol que requeima o deserto
Tentar, em pleno espaço, os vôos sobre-humanos
Dos anjos e lutar de peito descoberto.

Vieste da solidão dos tormentos insanos
À procura da luz de um grande sonho incerto,
Tendo por voz amiga o clamor dos oceanos
E por tenda o alto céu sobre tua fronte aberto.

Reabriu sobre ti um anátema eterno.
Mas, indômito e só, velho titã glorioso,
Transpuseste, sorrindo, os círculos do inferno...

E, esboçando na sombra o rictus mais tristonho,
Ficaste, como um deus, vencido e silencioso,
Emparedado, enfim, dentro do próprio sonho.

(Estrada de Damasco, 1920, Jacinto Ribeiro dos
 Santos Junior Editor, Rio de Janeiro  RJ)

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* Cruz e Sousa (1861  1898), foi um expoente da poesia simbolista.
** Cansim: vento do sul, quente e seco, que sopra no Egito na época das inundações do Nilo.
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Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia da Fase Simbolista, Organização de Manuel Bandeira, 1996, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro RJ; Álvaro de Sá Castro Meneses (1883 1920), fluminense de Niterói, formado em Direito, exerceu as funções de promotor público e juiz; foi professor, jornalista e poeta; na área literária, pertenceu ao grupo simbolista fundador da revista Rosa-Cruz; escreveu e publicou Mitos (1898) e Estrada de Damasco (1920).

domingo, 20 de abril de 2014

Genésio dos Santos: há quem ande sem alarde pela vida . . . [soneto]

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há quem ande sem alarde pela vida
há quem sofra ou de tédio ou de paixão
há quem morra muito cedo de exaustão
há quem dure até cem anos sem tolhida

há quem siga pelo mundo a cavalgar
as quimeras que povoam nossas mentes
 seres mágicos, dragões místicos, serpentes 
quer na terra quer nas nuvens quer no mar

há ainda quem caminhe sem destino
há contudo quem se perca em si mesmo
há quem note na essência um desatino

há quem veja na existência um problema
há quem busque solução no suicídio
há quem rime tudo isso num poema
São Paulo, abril de 2014

Minha foto
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Genésio dos Santos, nascido em 1952, paulista de Itapetininga, caipira e filho de ferroviário, quase ex-telegrafista da Estrada de Ferro Sorocabana, escreve desde os treze anos de idade; num dia foi bóia-fria, noutro foi ajudante de açougueiro, faturista de comércio de atacado e, ainda noutro, prestou serviços em escritórios de contabilidade; até agorinha mesmo foi bancário, hoje aposentado; poeta e cronista não tão ativo, escreveu e publicou Número Um (poesias, 1978) e Cinco Poeminhas (cartaz poético, 1981); como militante sindical, escreveu crônicas para o jornal O Espelho SP, Folha Bancária e pilotou o devezenquandário Na Moita (1991 a 1997), editados sob a responsabilidade do Sindicato dos Bancários de São Paulo; é aprendiz de blogueiro.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Raimundo Arruda Sobrinho, O Condicionado: Não (Mini-páginas)

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tivesse cobiça,
não estava assim.

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Mini-Páginas — Raimundo Arruda Sobrinho, O Condicionado (livro a ser editado); Raimundo, goiano de Piacá (hoje, Goiatins  TO), nascido em 1938, ex-morador de rua, poeta e escritor, viveu 35 anos na rua (em boa parte deste tempo viveu num dos canteiros centrais da Rua Pedroso de Morais, no bairro de Pinheiros em São Paulo); em 2011, ao ter seus trabalhos divulgados na internet por Shalla Monteiro, admiradora e colecionadora de suas poesias, o poeta acabou sendo localizado por um seu irmão e, após relutar, passou a residir com familiares em Goiânia; antes de ser morador de rua, Raimundo foi livreiro.

Gregório de Matos: Soneto (Senhor Doutor, muito bem-vindo seja)

Livro: Lirica do Direito Antologia de Versos Juridicos - Miguel ...
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Ao desembargador Belchior da Cunha Brochado,
 chegando do Rio de Janeiro à cidade da  Bahia,
 recorre o poeta, satirizando um julgador,
que o prendeu por acusar o furto de uma negra,
 a tempo que soltou o ladrão dela.

Senhor Doutor, muito bem-vinda seja
A esta mofina e mísera cidade,
Sua justiça agora, e eqüidade,
E letras com que a todos causa inveja.

Seja muito bem-vindo, porque veja
O maior disparate e iniqüidade,
Que se tem feito em uma e outra idade
Desde que há tribunais, e quem os reja.

Que me há de suceder nestas montanhas
Com um ministro em leis tão pouco visto,
Como previsto em trampas e maranhas?
*

É ministro de império, mero e misto, **
Tão Pilatos no corpo e nas entranhas,
Que solta a um Barrabás, e prende a um Cristo
.

Pequei, Senhor, mas não porque hei pecado,Da vossa piedade me despido,Porque quanto mais tenho delinqüido,Vos tenho a perdoar mais empenhado.  Se basta a vos irar tanto um pecado,A abrandar-nos sobeja um só gemido,Que a mesma culpa, que vos há ofendido,Vos tem para o perdão lisonjeado.  Se uma ovelha perdida, e já cobradaGlória tal, e prazer tão repentinovos deu, como afirmais na Sacra História:  Eu sou, Senhor, a ovelha desgarradaCobrai-a, e não queirais, Pastor divino,Perder na vossa ovelha a vossa glória.
- Gregório de Matos (1636 - 1695)

Trampas e maranhas  anota o Professor José Miguel Wisnik que o desembargador desconhece as leis na mesma proporção em que conhece trampas e maranhas, i.é., enganos e intrigas.
** Império mero e misto  jurisdição que o soberano dá aos magistrados para julgar as controvérsias, e impor pena de morte, confisco de bens, etc.
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Lírica do Direito — Antologia de Versos Jurídicos — Conexão Migalhas — Organizador: Miguel Matos, Ano 2, n.2 (diversos poetas e tradutores), sem data, Millenium Editora Ltda., Campinas SP; Gregório de Matos Guerra (1636 ? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do séc. XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo  volume 1, 1923), Lírica (Lyrical volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa  volume 3, 1930), Satírica (Satirical volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.