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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Edgar Allan Poe: O corvo


(Tradução: José Luiz de Oliveira; In Versos Reunidos, Itu, SP, 1968)

À meia-noite eu cogitava, fatigado,
Sobre volumes misteriosos do passado
Quando uns sons ouvi tais
Que me lembraram pancadinhas sobre a porta.
"É um visitante que, apesar da hora morta,
Me quer ver, nada mais..."

Ah! Com clareza o quadro todo agora lembro:
Um frio atroz cortava a pele  era dezembro!
Agonias mortais
Minha alma enchiam, pois pra dor buscava um fim
De já não ter Lenora aqui, junto de mim,
Nem seu nome ouvir mais...

Ao brando arfar de cada rubro cortinado,
Horror fantástico trazia-me aterrado
E, fugindo a esses "ais",
Me levantei a repetir: "É um visitante
Que bate à porta; vou abri-la num instante!
É só isso, não mais!"

Fortaleceu-se então minh'alma e eu disse: "Peço
Que desculpeis minha demora, pois confesso
Que dormia demais
E tão de manso vós batestes, que eu senti
Que duvidava do que ouvia..." A porta abri:
Só negror, nada mais...

Perscruto as trevas muito a fundo, estarrecido,
Sonhando um sonho por nenhum mortal vivido...
De ninguém há sinais!
Só minha voz "Lenora!" diz, num tom velado,
E o eco traz, de novo, a mim, o nome amado...
Nenhum outro som mais...

De volta ao quarto, sinto n'alma estranho ardor
E na janela escuto, então, com mais vigor,
As batidas fatais!
Pra sossegar a inquieta mente, eu digo a ela:
"É, certamente, algo que bate na janela,
Como o vento - não mais!"

Abro o postigo e então penetra, de repente,
Um corvo altivo, venerável, imponente
 De regiões noturnais!
Não me saudou nem se deteve, mas pousou
Bem sobre um busto de Minerva, e lá ficou
Sem fazer nada mais...

Pus-me a sorrir do aspecto grave que ele tinha
E então lhe disse: "Embora a crista, ave daninha,
Tenhas lisa demais,
Não és covarde... Qual teu nome, ó bicho torvo,
No escuro reino que Plutão governa?!" O corvo
Respondeu: "Nunca mais!"

Maravilhei-me quando ouvi tão claramente
Falar-me o corvo, empoleirado ali em frente,
Nos meus próprios umbrais!
Pois me parece que mortal jamais fitou
Ave falante que seu nome declarou
Ser, tão só, "Nunca mais!"

Só isso disse, e conservou-se solitário,
Como se fossem todo o seu vocabulário
As palavras fatais!
"Muitos amigos  murmurei  foram-se embora!
Também o corvo partirá, chegando a aurora..."
E ele diz: "Nunca mais!"

Estremecendo ante a resposta apropriada,
Pensei comigo: "Esta palavra malfadada,
Que ele diz, mais e mais,
Há de porvir de um dono a quem a dor feriu
Tão fundamente que, afinal, só conseguiu
Repetir "Nunca mais!"

Virei, então, uma cadeira almofadada,
Que coloquei perante o busto e a ave malvada,
Bem defronte aos umbrais,
E, ao me largar sobre o veludo, eu refletia
No que a medonha e horrível ave pretendia
Com o seu "Nunca mais!"

Enquanto ali, sem lhe falar, conjeturava,
O olhar do corvo no meu peito se cravava,
Como um par de punhais...
Minha cabeça descansava na almofada
Onde Lenora, doce e bela, a fronte amada
Não porá, nunca mais...

Subitamente, o ar se torna perfumado,
Qual se um turíbulo tivessem agitado
Serafins celestiais...
Então pra mim bradei: "Um deus te atende à prece!
Eis o remédio pra saudade! Sorve! Esquece!"
E a ave diz: "Nunca mais!"

"Profeta" - eu grito - "anjo do mal, ave ou satã,
Que penetraste nesta casa horrenda e vã,
Com teus olhos fatais!
Eu te suplico, dize logo, sem demora:
Existe um bálsamo pra dor que me devora?!"
Só ouvi: "Nunca mais!"

"Profeta"  eu grito  "anjo do mal, bicho nocivo!
Por este céu que sobre nós se estende altivo,
Pelo Deus dos mortais!
Dize à minha alma se, no Éden tão distante,
Ela verá Lenora, a bela, a radiante?!"
A ave diz: "Nunca mais!"

Eu brado, então: "Que esta resposta nos afaste!
Regressa à noite de Plutão, de onde chegaste!
Volta às trevas fatais!
Não deixes pena pra atestar essa mentira!
Tua figura, do meu lar, pra longe tira!"
Retorquiu: "Nunca mais!"

E o corvo, imóvel, inda agora está pousado
Sobre o portal, e seu olhar atormentado
Tem fulgores letais...
No chão percebo sua sombra projetada
E dentro dela está minha alma, acorrentada,
Que dali não sai mais!...
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Pela primeira vez, em 1969 e muito por acaso, em Iperó  SP, quando eu trabalhava num açougue como ajudante de açougueiro, ao folhear um jornal velho tomei contato com esta tradução do famoso poema O Corvo, de Edgar Allan Poe. Passei a conservar, dobrado entre as páginas de um dicionário escolar, o tal recorte de jornal com o poema. Com minha andança pela vida, um dia o perdi. Mais de três décadas depois, conheci várias famosíssimas traduções do mesmo poema, traduzido que foi, em diferentes épocas, por grandes literatos (Machado de Assis, Fernando Pessoa, Baudelaire, Mallarmé, Milton Amado, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, entre dezenas de outros...), mas nenhuma era aquela tradução que eu obtivera, por acaso, na minha quase-adolescência, e da qual eu me recordava tão somente das duas primeiras estrofes. Já bem mais recentemente,  com o advento da Internet, consegui o tal poema. Além de o ter como valor sentimental, gosto muito desta tradução ... ou tradução-livre ... ou recriação. Como queiram!