sábado, 31 de julho de 2021

Nicolau Tolentino de Almeida: O Bilhar [trechos]

 
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Sátira

Por fugir da cruel melancolia,
Que a estragada cabeça me atropela,
Largando o pobre leito, em que jazia,
Fui sentar-me num canto da janela;
Dali pela miúda gelosia,
Espreitando, qual tímida donzela,
De tudo quanto vi te darei parte,
Se tanto me ajudar engenho, e arte.

Mora defronte roto guriteiro.
Com jogo de bilhar e carambola;
Onde ao domingo o lépido caixeiro
Coa loja do patrão vai dando à sola;
Gira no liso, verde tabuleiro,
De indiano marfim lascada bola,
Erguendo aos ares perigosos saltos,
Chamam-lhe os mestres d’arte Truques Altos.

Ali se ajunta bando de casquilhos,
A que o vulgo mordaz chama rafados;
Alto topete, prenhe de polvilhos,
Que descalço galego deu fiados;
De quebrados tafuis, vadios filhos,
Pelas vastas tablilhas encostados.
Altercam mil questões; prontos contendem,
Prontos decidem no que nada entendem.

[ . . . ]

Alçando mais os olhos, vi defronte
Malhando a fio rígido banqueiro;
Que tendo já de marcas alto monte,
Ia despindo o mísero parceiro;
Enquanto um diz que lavre, outro que conte,
Sem valerem os óculos do olheiro,
Numa paz já vencida, um ponto afoito.
Sutilmente lhe encaixa duas de oito.

O perito banqueiro afronta os medos,
Tendo nas mãos em que se vá vingando;
Com cuspo milagroso ungindo os dedos,
Vai destramente as cartas recuando;
De ciência infernal, sutis segredos,
Com mão ligeira pronto executando,
Marcando cartas, inventando nicas,
Fazia, em vez de banca, peloticas.

Mas não se livra de sutil calote,
Que um velho mansamente lhe tecia;
Julgando todos mísero pixote.
Parolins de campanha impune erguia;
Embuçado em diáfano capote,
Por um buraco os ganhos recebia;
Fôra no Cabra das melhores pernas,
Hoje joga os Três Setes nas tavernas.

[ . . . ]

Mais ao longe, com pálida viseira,
Sujo poeta está vociferando;
Da nojosa, empeçada cabeleira,
Várias pontas de palha vem brotando;
Os papéis, que lhe pejam a algibeira,
Vão pelo forro larga porta achando;
Faz da véstia camisa; e é colarinho
Torcido solitário pescocinho.

Fora cem vezes em noturno outeiro
Da sábia padaria apadrinhado;
E diz-se que glosava por dinheiro;
Mas creio que até ‘qui não tem cobrado:
Seguindo em moço o ofício de barbeiro,
E das filhas de Jove namorado,
Abriu ao mundo aspérrima batalha,
Tanto coa pena, como coa navalha.

Falou, por afetar musa campestre,
Em surrão, e cajado muitas vezes;
Era um flagelo este tirano mestre
Dos ouvidos e faces dos fregueses;
Todos os versos leu da Estátua Equestre,
E todos os famosos entremezes,
Que no Arsenal ao vago caminhante
Se vendem a cavalo num barbante.

De cansada, rançosa poesia.
Grosso volume na algibeira andava;
Em vendo gente, logo lá corria,
E o fatal cartapácio lhe empurrava;
Acrósticos sonetos repetia,
Que só ele entendia, e só louvava;
Punha em prosa também muita parola,
E acabava por fim pedindo esmola.

Este ouvindo da turba as prosas frias,
E aceso do Parnaso em santo zelo,
Alçando a voz, cantou doces poesias,
Que invejou de Latona o filho belo;
Jurando que as fizera em poucos dias,
Prometeu que as havia dar ao prelo;
Mas da roda um dos menos depravados,
Em desconto as ouviu dos seus pecados.

Debalde, diz, o povo vil, perverso
Sobre mim descarrega tiros rudos;
Que eu não só sou poeta desde o berço,
Mas também tenho sólidos estudos;
Sei que sílabas leva cada verso,
E não misturo graves com agudos;
Rompi outeiros em Sant’Ana, e Chelas,
Chamei Sol à prelada, ás mais, estrelas.

Coas sonoras palavras Pindo, e Plectro,
Ponho em meus versos locução divina;
E sei, para cumprir as leis do metro,
Quanto a história das fábulas me ensina;
Sei que dos céus tem Júpiter o cetro,
Que nos infernos reina Proserpina;
 madrugada sempre chamo aurora.
Sempre chamo a um jasmim mimo de Flora.

[ . . . ]

As tais poesias, que a entender não chego,
Podres palavras têm desenterrado;
Se levam nó, é tão oculto, e cego,
Que quem quer desatá-lo, vai logrado;
Dizem que imitam nisto um certo grego,
Glória de Tebas, Píndaro chamado;
Se isto é assim, a sua língua de ouro
Seria grega, mas falava mouro.

Quatro rapazes estendendo o pano,
Deixam as gentes ao redor absortas;
Falando em Venuzino, e Mantuano,
As musas portuguesas põem por portas;
Aprendendo francês, e italiano,
E umas tais línguas, a que chamam mortas,
Trazem com elas perigosas modas;
Mas ainda bem que eu as ignoro todas.

[ . . . ]

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30 Séculos de Poesia — de IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Nicolau Tolentino de Almeida (1740 1811), português e lisboeta, estudou Leis na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, foi professor de Retórica, funcionário da Secretaria de Estado dos Negócios do Reino, escritor e poeta humorístico e satírico da Nova Arcádia lusitana; Tolentino, embora tivesse frequentado por muitos anos os bancos da faculdade de Direito, não chegou a se formar; suas primeiras composições vindas a público foram sátiras descritivas, sonetos e odes constantes em publicação anual da Tipografia Rollandiana, entre 1779 e 1783; obras: Miscelânea Curiosa e Proveitosa, Bilhar, Passeio, Função, Guerra, Amantes, Obras Poéticas (dois tomos, 1801); consta de sua biografia ter-lhe valido o apelido de Poeta Pedinchão, uma vez que era um seu costume queixar-se amarga e frequentemente da sua penúria financeira, penúria essa agravada com a vinda da família real portuguesa e sua corte para o Brasil, em 1807; morreu solteiro e sozinho em Lisboa.

sexta-feira, 30 de julho de 2021

Giacomo Leopardi: O Infinito

 
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[traduzido por Ivo Barroso]

Sempre cara me foi esta colina erma
e esta sebe que de extensa parte
dos confins do horizonte o olhar me oculta.
Mas, se me sento a olhar  intermináveis
espaços para além, e sobre-humanos
silêncios e quietudes profundíssimas,
na mente vou sonhando  de tal forma
que quase o coração me aflige. E, ouvindo
o vento sussurrar por entre as plantas,
o silêncio infinito à sua voz
comparo: é quando me visita o eterno,
e as estações já mortas e a presente
e viva com seus cantos. Assim, nessa
imensidão se afoga o pensamento
e doce é naufragar-me nesses mares.

Giacomo Leopardi

L’Infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle
e queste siepe, che da tanta parte
dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi de là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissime quiete
io nel pensier mi fingo; ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l’eterno
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s’annega il pensier mio;
e il naufragar m’è dolce in questo mare.

([1819] Canti — 1831)
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O Torso e o Gato — O Melhor da Poesia Universal, Tradução e Organização de Ivo Barroso, Prefácio de Antônio Houaiss, edição bilíngue, 1991, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Giacomo Leopardi (1798 1837), italiano de Recanati, incentivado pelo pai e com uma vasta biblioteca à sua disposição, desde os seis anos de idade estudou com preceptores, aprendeu latim, grego, hebraico, francês e outras línguas modernas, cultivou interesses filológicos, traduziu e comentou os clássicos que lia (Homero, entre outros), foi poeta, ensaísta e filólogo; obras: Storia dell’astronomia (1813), Saggio sopra gli errori popolari degli antichi (1815), Canti (coleção de poemas, 1ª edição em 1831) e outras obras em prosa, estudos e pensamentos.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Laurindo Rabelo: Para do mundo dar completo cabo . . . [soneto]

 
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Para do mundo dar completo cabo,
Lá do negro recinto o soberano
Meditava a forjar horrível plano
Coçando a grenha, sacudindo o rabo.

Merecedor enfim de imenso gabo,
Eis o que assim disse muito ufano:
Para a missão cumprir digesto humano
Quero fazer que nasça hoje um diabo.

E o 23 de maio nisso raia...
Teotônio nasceu, e a fama soa
Jamais ter visto infame dessa laia.

Pois para Satã ser mesmo em pessoa,
Traja, qual bruxa velha, negra saia,
Como o rei dos bandalhos tem coroa *.


Nota de Antenor Nascentes: Feito quando o poeta era ainda seminarista; ataca um sacerdote não identificado.
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Poesias Completas [Líricas] de Laurindo Rabêlo — Coleção, Anotações e Prefácio de Antenor Nascentes, Biblioteca Popular Brasileira Volume XXXIII, 1963, Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, Rio de Janeiro — RJ; Laurindo José da Silva Rabelo (1826 1864), nascido no Rio de Janeiro RJ, ordenou-se pelo Seminário São José, no Rio, abandonou a carreira eclesiástica, formou-se em Medicina, tendo estudado nas faculdades do Rio e da Bahia, tornou-se médico e ingressou no Corpo de Saúde do Exército, mas também abandonou a medicina, foi professor de História, Geografia e Português, e também poeta; consta ter recebido a alcunha de “Bocage brasileiro”, pelo seu estilo literário; teve textos publicados na Marmota Fluminense; obras: Trovas (1853), Tese apresentada e sustentada perante a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro (1856), Poesias do Dr. Laurindo da Silva Rabelo (coligidas por Eduardo de Sá Pereira de Castro, 1867), Compêndio de Gramática da Língua Portuguesa (adotado pelas escolas regimentais do Governo Imperial, 1867), Obras poéticas (poesias eróticas, 1882); Obras Completas (poesia, prosa e gramática, 1946); é o patrono da cadeira nº 26 da Academia Brasileira de Letras.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

Walt Whitman: Uma criança disse, O que é a relva? . . .

 
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[excerto de (Canção de mim mesmo)]

[traduzido por Rodrigo Garcia Lopes]

Uma criança disse, O que é a relva? Trazendo um tufo em suas mãos;
O que dizer a ela? . . . . sei tanto quanto ela o que é a relva.

Vai ver é a bandeira* do meu estado de espírito, tecida de uma
substância de esperança verde.

Vai ver é o lenço do Senhor,
Um presente perfumado e o lembrete derrubado por querer,
Com o nome do dono bordado num canto, pra que possamos ver e
examinar, e dizer É seu ?

Vai ver a relva é a própria criança . . . . o bebê grassado pela
vegetação.

Vai ver é um hieróglifo uniforme,
E quer dizer, Germino tanto em zonas amplas quanto estreitas,
Grassando em meio a gente negra e branca,
Kanuck, Tuckahoe, Congressista, Cuff **, o que lhes dou recebo, o que
me dão, recebem.

E agora a relva parece a cabeleira comprida e bonita dos túmulos.

Vou usá-la com carinho, relva ressequida,
Quem sabe você transpire do peito dos rapazes,
Quem sabe eu os tivesse amado se os tivesse conhecido;
Quem sabe você grasse dos velhos, ou dos bebês arrancados dos
colos das mães antes do tempo,
E aqui é o colo das mães.

Esta relva é escura demais pra ser das cabeças brancas das velhas
mães,
Mais escura que a barba incolor dos velhos,
Escura demais pra botar sob os céus vermelhos e débeis das bocas.

Ah, percebo agora o que tantas línguas revelam!
E percebo que não é em vão que vêm do céu das bocas.

[Folhas de Relva, 1ª edição — 1855]

Walt Withman

[excerpt from (Song of myself)]

A child said, What is the grass? fetching it to me with full
hands;
How could I answer the child? . . . . I do not know what it is
any more than he.

I guess it must be the flag of my disposition, out of hopeful
green stuff woven.

Or I guess it is the handkerchief of the Lord,
A scented gift and remembrancer designedly dropped,
Bearing the owner's name someway in the corners, that we
may see and remark, and say Whose?

Or I guess the grass is itself a child . . . . the produced babe of
the vegetation.

Or I guess it is a uniform hieroglyphic,
And it means, Sprouting alike in broad zones and narrow
zones,
Growing among black folks as among white,
Kanuck, Tuckahoe, Congressman, Cuff, I give them the same,
I receive them the same.

And now it seems to me the beautiful uncut hair of graves.

Tenderly will I use you curling grass,
It may be you transpire from the breasts of young men,
It may be if I had known them I would have loved them;
It may be you are from old people and from womem, and
from offspring taken soon out of their mothers' laps,
And here you are the mothers' laps.

This grass is very dark to be from the white heads of old
mothers,
Darker than the colorless beards of old men,
Dark to come from under the faint red roofs of mouths.

O I perceive after all so many uttering tongues!
And I perceive they do not come from the roofs of mouths for
nothing.

[Leaves of Grass — 1855]

Notas de Rodrigo Garcia Lopes:
* Flag também como abreviação da planta Sweet flag. Acorus calamus ou “cálamo aromático”. Nativa do sudoeste dos Estados Unidos e em outras partes do planeta, é um rizoma que nasce em banhados e que tem qualidades curativas e afrodisíacas. Um símbolo de fecundidade e fálico, e que seria utilizado por Whitman no grupo de poemas intitulado “Calamus”. No Brasil, o equivalente ao lírio-amarelo-dos-charcos ou lírio dos pântanos, ácoro-falso. Há um termo em nossa língua, “bandeira”, que significa “inflorescência da cana-de-açúcar; flecha”;
** Kanuck, referência aos habitantes franceses do Canadá, Tuckahoe, referência aos habitantes da Virgínia, que se alimentavam do cogumelo de mesmo nome (ou “trufa de Virgínia”); Cuff, designação comum de pessoas de descendência africana.
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Folhas de Relva — A Primeira Edição (1855) — Walt Whitman, Tradução, Notas e Posfácio de Rodrigo Garcia Lopes, edição bilíngue, 2005, reimpressão 2016, Iluminuras, São Paulo — SP; Walt Whitman (1819 1892), nascido em Huntington USA, foi poeta, ensaísta e jornalista; desde os onze anos, trabalhou com serviços de tipografia e edição de jornais, e atuou na imprensa da época; escreveu e publicou Franklin Evans (1842), Leaves of Grass (Folhas de Relva, primeira edição em 1855 e, depois, mais uma dezena de edições com modificações e acréscimo de outros poemas), Drum-Taps (1865), Democratic Vistas (1871) e outros títulos; Whitman é considerado por muitos estudiosos como o "pai do verso livre".

terça-feira, 27 de julho de 2021

Francisco Manuel do Nascimento: Já vem a primavera, desfraldando . . . [soneto]

 
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Já vem a primavera, desfraldando
Pelos ares as roupas perfumadas,
E os rios vão, nas águas jaspeadas,
Os frondíferos troncos retratando;

Vão-se as neves dos montes debruçando
Em tortuosas serpes argentadas;
Pelas veigas, o gado, alcatifadas,
A esmeraldina felpa vai tosando.

Riem-se os céus, revestem-se as campinas;
E a natureza as melindrosas cores
Esmera na pintura das boninas.

Ah! Se assim como brotam novas flores,
Se remoça todo o orbe... das ruínas
Dos zelos renascessem meus amores!

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Francisco Manuel do Nascimento (1734 1819), português e lisboeta, conhecido literariamente pelos pseudônimos Filinto Elísio ou Niceno, foi sacerdote, poeta do Arcadismo, prosador e tradutor; o poeta, perseguido pela Inquisição, teve que fugir para Paris — França e ali viveu até sua morte; durante o exílio, Filinto Elísio ocupou-se como tradutor, para sobreviver, pois todos seus bens haviam sido sequestrados; obras: Obras Completas (11 tomos, 1817 1819), Vida e Feitos de D. Manuel; traduziu La Fontaine ('As Fábulas', 1816), Chateaubriand (‘Os Mártires’), Sílio Itálico (‘Púnica’) ... e verteu para o francês, Mariana Alcoforado (‘Lettres Portugaises’).

segunda-feira, 26 de julho de 2021

W. B. Yeats: Política*

 
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[traduzido por Péricles Eugênio da Silva Ramos]

Em nosso tempo o destino do homem propõe
seus sentidos em termos políticos.
Thomas Mann.

Como posso eu, com aquela moça ali postada,
Na política romana
Ter a atenção fixada,
Ou na russa ou na espanhola,
Malgrado este homem viajado saiba
O que ele está a falar,
E lá esteja um político
Que se entregou a ler e a meditar,
E talvez seja certo o que eles dizem
Com referência à guerra e seus ameaços:
Mas ah! voltasse eu a ser moço
E a tivesse em meus braços.

W. B. Yeats

Politics

‘In hour time the destiny of man presents
its menings in political terms’
Thomas Mann.

How can I, that girl standing there,
My attention fix
On Roman or on Russian
Or on Spanish politics?
Yet here's a travelled man that knows
What he talks about,
And there's a politician
That has both read and thought,
And maybe what they say is true
Of war and war's alarms,
But O that I were young again
And held her in my arms.

* Nota do tradutor Péricles Eugênio da Silva Ramos: O poema foi escrito em 23 de maio de 1938. De acordo com [Richard J.] Finneran [editor do poeta], Yeats encontrou a epígrafe de Thomas Mann numa conferência de Archibald MacLeish, “Public Speech and Private Speech in Poetry” (Yale Review, março de 1928).
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Poemas de W. B. Yeats, Tradução, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos e Apresentação de Antônio Houaiss, Coleção Toda Poesia 4, 1987, Art Editora, São Paulo — SP; William Butler Yeats ou W. B. Yeats (1865 1939), irlandês nascido em Dublin, foi poeta e dramaturgo, representante máximo do Renascimento Literário irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX; o poeta andejou por diversos estilos e escolas literárias e foi co-fundador do Abbey Theatre; escreveu e publicou Mosada: A Dramatic Poem (1886), The Wanderings of Olsin and Other Poems (1889), John Sherman and Dhoya, tho stories (1891), Poems (1895), The Secret Rose — short stories (1897), The Wind Among the Reeds (O Vento entre os Juncos, 1899), Plays in Prose and Verse, Written for an Iris Theatre (1919), Discoveries — A Volume of Essays (1907), The Green Helmet and Other Poems (1910), Four Plays for Dancers (Quatro Peças para Dançarinos, 1921), The Cat at the Moon (1924), October Blast — poetry (1927), The Winding Stair and Other Poems (1933), entre tantos outros textos em verso e prosa e para teatro.

Púchkin: Manhã de inverno

 
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[traduzido por José Casado]

Há frio e sol: que manhã linda!
Tu, meu primor, dormes ainda.
É tempo, ó bela, de acordar.
Desvenda o olhar que o torpor cerra,
Encara a aurora sobre a terra
Qual fosses novo astro polar!

À noite, neve e tempestade
Houve e, no céu, névoa, verdade?
A mancha lívida do luar
Nos nimbos era amarelada.
Tristonha estavas e sentada;
E ora... à janela vem olhar:

Ao claro azul do céu que esplende,
Tapete raro que se estende,
A neve jaz a fulgurar;
O bosque, só, sobressai, preto;
Verdeja, sob a geada, o abeto;
Sob gelo, eis a água a lucilar.

Faz-se ambarino o quarto inteiro.
Vem estalido prazenteiro
Do recém-aceso fogão.
Meditar perto dele é grato.
Mas dize: queres que, neste ato,
A poldra parda atrele, não?

A deslizar na neve, amada,
Dar-nos-emos à galopada
Do equino e sua agitação.
Iremos ver os nus e imensos
Campos, faz pouco inda tão densos,
E a praia de minha afeição.

(1829)

Aleksandr Púchkin

ЗИМНЕЕ УТРО

Мороз и солнце; день чудесный!
Еще ты дремлешь, друг прелестный
Пора, красавица, проснись:
Открой сомкнуты негой взоры
Навстречу северной Авроры,
Звездою севера явись!

Вечор, ты помнишь, вьюга злилась,
На мутном небе мгла носилась;
Луна, как бледное пятно,
Сквозь тучи мрачные желтела,
И ты печальная сидела
А нынче… погляди в окно:

Под голубыми небесами
Великолепными коврами,
Блестя на солнце, снег лежит;
Прозрачный лес один чернеет,
И ель сквозь иней зеленеет,
И речка подо льдом блестит.

Вся комната янтарным блеском
Озарена. Веселым треском
Трещит затопленная печь.
Приятно думать у лежанки.
Но знаешь: не велеть ли в санки
Кобылку бурую запречь?

Скользя по утреннему снегу,
Друг милый, предадимся бегу
Нетерпеливого коня
И навестим поля пустые,
Леса, недавно столь густые,
И берег, милый для меня.

(1829)
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Poesia de Todos os Tempos: Púchkin — Poesias escolhidas, edição bilíngue, Seleção, Tradução do russo, Prefácio, Traços biobliográficos, Notas e Apêndice (Olavo Bilac, tradutor de Púchkin) de José Casado, 1992, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro — RJ; Aleksandr Serguéievitch Púchkin (1799 1837), russo de Moscou, foi poeta, romancista e dramaturgo; de família nobre, educado desde o berço por preceptores vindos de Paris França e devido ter tido acesso à biblioteca paterna, quase toda de literatura francesa, aprendeu o francês antes mesmo de conhecer a língua dos pais; à época, os integrantes da nobreza russa conversavam com seus pares quase sempre em francês: o idioma russo era reservado para a comunicação com os servos; o poeta e escritor veio a aprender o russo com uma avó e com uma serva da família; em 1811, ingressou no Tsarskoye Selo Lyceum, recém-inaugurado e, a partir daí, começou a escrever e divulgar seus poemas; obras: em poesia, Ruslan e Lyudmila (18171820), Prisioneiro do Cáucaso (18201821), Ladrões de irmãos (18211822), Ciganos (1824), Conde Nulin (primeira edição, 1825), Poltava (18281829), Uegene Oneguin (novela em verso, 18231832) etc, em dramaturgia, Boris Godunov (1825), O Cavaleiro Malvado, Mozart e Salieri, Convidado de pedra (todos de 1830) ..., em prosa, O conto do falecido Ivan Petrovich Belkin (1830), Dubrovsky (1833), A Rainha de Espadas, História de Pugachev (ambos em 1834), Noites egípcias (1835), Filha do Capitão (1836) etc., além de contos de fadas e outros textos em verso e prosa e para dramaturgia; o poeta, desafiado por um contendor e desafeto a duelar, aceitou o desafio e, no dia 8 de fevereiro de 1837, foi ferido, vindo a morrer dois dias após; Púchkin nos deixou muitas obras inacabadas; é considerado por seus contemporâneos como o maior dos poetas russos.

domingo, 25 de julho de 2021

Garção: Ode à Virtude

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Ligado com aspérrimas algemas
        Ao rígido penedo;
Com um agudo cravo de diamante
        O peito traspassado;
Convulso o rosto, e tinto em negro sangue,
        Que brota da ferida,
As sonoras pancadas do martelo,
Com que bate Vulcano
Nas cavernas do Cáucaso retumbam:
        Porém constante e forte
Não geme Prometeu; antes acusa
        A Júpiter de ingrato:
Inocente se julga; à força ímpia
         Não cede do tirano.
Assim, assim, a mísera pobreza,
        A contrária fortuna
Deve imóvel sofrer uma alma grande,
        Ó Sousa esclarecido!
Varra o credor soberbo a pobre casa
        Co desabrido alcaide;
Dorme no duro chão tão descansado,
        Como no leito brando,
O intrépido varão, que do destino
        Prova os fatais revezes.
Coa dourada carroça o mole eunuco
        O pise ou atropele,
Não lhe inveja a riqueza. Que outrem lavre.
Nas ribeiras do Tejo
Cos malhados bezerros longa terra,
        Não lhe acorda a cobiça.
Vente embora do Sul; caindo, açoite
        Ao negro mar que brada,
O pluvial Arcturo; a vara creste
        Do podado bacelo
Espessa chuva de árida saraiva;
        Nada lhe abala o peito.
Enroscada no braço macilento
        A venenosa serpe
Chegue ao seio cruel a triste inveja;
        E a pérfida mentira
Cos titubantes beiços o crimine,
        Rirá no cadafalso.
Só dos delitos pode o vil remorso
        Mudar-lhe a cor serena
Do tranquilo semblante: a mão potente
        De quem o fez só teme.
Os homens não receia, que a virtude
        O coração lhe anima;
E a consciência sã, a fé intacta,
        Os austeros costumes.
Não fantásticas honras isto ensinam.
        Assim douram a morte
Os Uticenses, Régulos, os Mários,
        Apesar do sepulcro.
Sobre as asas do tempo assim passaram
        As letárgicas ondas
Do rio sonolento. Assim c'roado
        De gangéticas palmas,
O destemido Castro n'alta serra,
        Que templo foi de Cíntia,
Retirado vivia; a mão invicta,
        Terror e glória d'Ásia,
Os silvestres arbustos cultivava,
        Subjugando a vaidade.
"Passe à gineta o tímido guerreiro,
        Que com as armas limpas
Da batalha fugiu espavorido;
        Porque do sangue antigo
A árvore apresenta. Ainda que honrado,
O desvalido mostre
As roxas cicatrizes das feridas
        Que sofreu pela pátria,"
Dizia o grande Castro. O lisonjeiro
        Estudando o segredo
De agradecer desprezos, não se afaste
        Da sala do ministro.
Ali dourando o sol os altos montes
        Na madrugada veja;
Ali o deixe a lua, que vermelha
        No horizonte metida,
Estende os frouxos raios pelas ondas;
        Se com pública fraude
Ao miserável órfão a capela
        Subnegar-lhe pretende.
Aspire à beca o julgador iníquo,
Que aos olhos da justiça
Roubou a santa venda, que equilibra
        Nas vendidas balanças
Os dourados delitos. Sofra, e busque
        A vergonhosa cena
Da súbita catástrofe o privado,
        Que o rosto não conhece
Da clara fama, da imortal memória,
        Da honra, e da virtude.
Mas qual Marpézia rocha, um peito forte
        Não roga, não se abate.

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30 Séculos de Poesia — De IX a.C. até o Século XVIII, Organização, Prefácio e Notas de Ary de Mesquita, 1966, Edições de Ouro, Rio de Janeiro — RJ; Pedro António Correia Garção (1724 1772), português de Lisboa, também conhecido pelo pseudônimo de Coridon Erimateu, foi poeta e um dos fundadores e presidente da Arcádia Lusitana; escreveu poesias, epístolas, comédias, dissertações e orações em defesa dos novos princípios da língua e da poesia portuguesa, além de duas peças em verso, Teatro Novo e Assembléia ou Partida; foi funcionário do Estado português e trabalhou na Gazeta de Lisboa; por ter-se incompatibilizado com o Marquês de Pombal, foi preso em 1775 e veio a morrer na prisão; suas obras foram publicadas postumamente: Obras Poéticas (1778), Obras Poéticas de P. A. Correia Garção (1888), Obras Completas (1957).

sábado, 24 de julho de 2021

Victor Hugo: O Semeador

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[traduzido por C. Tavares Bastos]

Não tarda a noite sombria,
Corre a brisa vesperal...
Admiro este fim de dia
Cuja luz ainda alumia
Do trabalho a hora final.

É assim que, no vale umbroso,
Contemplo com emoção
Um pobre velho andrajoso
Que a mancheias, sem repouso,
Semeia o bendito grão...

Sua esquálida figura
Avulta ao longe, e é de ver
Como essa boa criatura,
Desde cedo à noite escura,
Sabe o tempo despender...

Num vaivém, colhe a semente,
Reabre a mão, a semear...
E, estranho a esse augusto ambiente,
Eu, como obscuro assistente,
Entro agora a meditar...

Eis que uma estrela aparece
(Ainda se ouve algum rumor...),
Mais outra... Outra mais... Parece
Que vai surgindo a áurea messe
Ao gesto do semeador...

Victor Hugo

Saison des semailles. Le soir

C’est le moment crépusculaire.
J’admire, assis sous un portail,
Ce reste de jour dont s’éclaire
La dernière heure du travail.

Dans les terres, de nuit baignées,
Je contemple, ému, les haillons
D’un vieillard qui jette à poignées
La moisson future aux sillons.

Sa haute silhouette noire
Domine les profonds labours.
On sent à quel point il doit croire
À la fuite utile des jours.

Il marche dans la plaine immense,
Va, vient, lance la graine au loin,
Rouvre sa main, et recommence,
Et je médite, obscur témoin,

Pendant que, déployant ses voiles,
L’ombre, où se mêle une rumeur,
Semble élargir jusqu’aux étoiles
Le geste auguste du semeur.
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Antologia de Poemas para a Juventude (vários autores) — Organização e Apresentação de Henriqueta Lisboa, 2003, 2ª edição, Ediouro Publicações S/A, Rio de Janeiro — RJ; Victor-Marie Hugo (1802 1885), francês de Besançon, fez seus primeiros estudos no Seminário de Los Nobles de Madri e no Liceu Luis le Grand de Paris, foi poeta, escritor e dramaturgo do Romantismo francês; compôs poemas desde muito jovem e aos quinze anos foi premiado em concurso de poesia da Academia Francesa; em 1822 integrou-se ao Romantismo e logo tornou-se porta voz deste movimento; em 1825, liderando um grupo de jovens escritores, criou o Cenáculo; o poeta lutou contra Napoleão III e, quando este se tornou imperador, recusou a anistia e foi para o exílio em Bruxelas, Guernsey e Jersey; obras: Bug Jargal (novela, 1820), Odes et Poésies Diverses (1822), Odes et Ballades (1826), Cromwell (drama, cujo prefácio foi considerado o Manifesto do Romantismo contra o Classicismo, 1826), Marion de Lorme (peça teatral censurada, 1829), Les Orientales (poesias, 1829), Hernani (peça teatral, representando o fim do Classicismo, 1830), Notre Dame de Paris (romance histórico, 1831), Lucrèce e Marie Tudor (dramas, 1833), Littérature et Philosophie Mêlées e a novela Claude Gueux (ambas em 1834), Chants du Crépuscule (1835), Les Voix Intérieures (poesias, 1837), Les Rayons et les Ombres (poesias, 1840), Les Burgraves (teatro, 1843), Les Misérables (1845-1861) Os Castigos (1853), As Contemplações (1856), O Homem que Ri (1869) e outros títulos; Victor Hugo também foi estadista, elegendo-se deputado da Assembléia Nacional e, depois, elegendo-se senador.