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domingo, 8 de julho de 2018

Joaquim Cardoso: O Relógio

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Quem é que sobe as escadas
Batendo o liso degrau?
Marcando o surdo compasso
Com uma perna de pau?

Quem é que tosse baixinho
Na penumbra da ante-sala?
Por que resmunga sozinho?
Por que não cospe e não fala?

Por que dois vermes sombrios
Passando na face morta?
E o mesmo sopro contínuo
Na frincha daquela porta?

Da velha parede triste
No musgo roçar macio:
São horas leves e tenras
Nascendo do solo frio.

Um punhal feriu o espaço...
E o alvo sangue a gotejar;
Deste sangue os meus cabelos
Pela vida hão de sangrar.

Todos os grilos calaram
Só o silêncio assobia;
Parece que o tempo passa
Com sua capa vazia.

O tempo enfim cristaliza
Em dimensão natural;
Mas há demônios que arpejam
Na aresta do seu cristal.

No tempo pulverizado
Há cinza também da morte:
Estão serrando no escuro
As tábuas da minha sorte.

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Revista do Clube da Poesia de São Paulo  Poesia nº 3, (vários autores), Ano II, dezembro de 1978, Editor: Geraldo Pinto Rodrigues, São Paulo —  SP; Joaquim Cardoso (1897  1978), ou Joaquim Maria Moreira Cardozo, pernambucano de Recife, formado em Engenharia Civil, foi poeta, contista, engenheiro civil, desenhista, professor universitário e editor; na imprensa, fez charges para o Diário de Pernambuco, colaborou na Revista do Norte (foi diretor), Revista do Patrimônio Histórico, revistas Para Todos e Módulo; foi professor de Teoria e Filosofia da Arquitetura na antiga Escola de Belas Artes de Pernambuco; bibliografia: Poemas (1947), Signo estrelado (1960), Coronel de Macambira (1963), De uma noite de festa (1971), Poesias Completas (1971), Os anjos e os demônios de Deus (1973), O capataz de Salema, Antonio Conselheiro, Marechal, boi de carro (1975), O interior da matéria (1976), Um livro aceso e nove canções sombrias (póstumo, 1981); como engenheiro civil, participou dos cálculos de projetos de obras monumentais de Oscar Niemeyer, o Conjunto Arquitetônico da Pampulha, em Belo Horizonte  MG, e do Palácio da Alvorada, Catedral Metropolitana, Cúpula do Congresso Nacional, Palácio Itamarati, todos em Brasília  DF, além de outros trabalhos.

domingo, 30 de julho de 2017

Péricles Eugênio da Silva Ramos: Mundo, o Novo Mundo

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Porque tentasse decifrar os signos da matéria,
com seu rumor de concha sob a forma silenciosa;
porque sem olhos se entregasse a tal empenho,
feriu os pés à margem do caminho,
dilacerou as mãos nas grimpas da montanha.

Um deus, porém — ah! foi um deus! — 
penalizado o socorreu no meio da jornada,
oferecendo-lhe, na voz, os olhos com que visse,
as asas com que o vale do mistério transpusesse.

E canta o socorrido, e em sua voz um novo sol gravita,
como o que luz no céu, porém mais quente,
como o que apaga estrelas, mas sem corpo.

Ei-lo que canta, e um novo mar se encrespa;
ei-lo que canta, e um novo homem nasce,
um novo homem sob um novo sol.

Ei-lo que canta; e uma só língua ecoa pela Torre de Babel;
ei-lo que canta!
           E surge o mundo, o novo mundo, sobre o túmulo da esfinge.

(Lamentação Floral  S. Paulo  1946)

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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Péricles Eugênio da Silva Ramos (1919 1992), paulista de Lorena, formado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (atual USP), foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário  e professor; fundou, em 1947, junto com outros escritores e poetas, a Revista Brasileira de Poesia, para divulgação dos trabalhos da chamada Geração de 45, criou o Clube da Poesia de São Paulo e, por vários anos, escreveu sobre crítica literária nos periódicos Jornal de São Paulo, Correio Paulistano e Folha da Manhã e lecionou Literatura Portuguesa e Técnica Redatorial na Faculdade Cásper Libero, em São Paulo; traduziu Byron, François Villon, Gôngora, Mallarmé, Shakespeare, John Keats etc. e organizou antologias de diversos poetas e períodos poéticos; escreveu e publicou Lamentação Floral (poemas, 1946), Sol sem Tempo (poemas, 1953), O Amador de Poemas (ensaios, 1956), O Verso Romântico e Outros Ensaios (ensaios, 1959), Lua de Ontem (poemas, 1960), Do Barroco ao Modernismo: estudos da poesia brasileira (ensaios, 1967) Futuro (poemas, 1968), Poesia quase Completa (1972), A Noite da Memória (prêmio Poesia da Associação Paulista de Críticos de Arte, 1988), e outros; por sua obra, foi laureado com o Prêmio Jabuti (1969 e 1972) e o Prêmio Machado de Assis (1986).

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Antônio Rangel Bandeira: Fim do mundo

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Todos os jornais darão edições especiais
E ainda um bonde terá tempo de colher um transeunte.
O Presidente dirá palavras de conforto à Nação.
Os bombeiros ficarão a postos
Como à espera dos grandes cataclismos.
À falta de luz elétrica os homens usarão querosene
Em candeiros alados.
O poeta se perderá em cogitações
De interesse particular.
Um telegrama esclarecerá pequenos detalhes:
— As agulhas das bússolas ficarão desnorteadas
E os sinais telegráficos perder-se-ão no espaço.
Além do mais algumas estrelas cairão sobre o mar
 Parnasianas.
E entre palmas e gritos dos espectadores
A ressurreição da carne será anunciada.

(In. Supl. Autores & Livros  Rio  1943)
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Antônio Rangel Bandeira (1917 1988), nascido em Recife PE, foi advogado, jornalista, poeta, cronista e ensaísta; escreveu e publicou Poesias (1945), O Retrato Fantasma (1953), Jorge de Lima — o roteiro de uma contradição (1959), Diálogos no Espelho (1968).

sexta-feira, 17 de março de 2017

Lêdo Ivo: Soneto dos vinte anos

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Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem a encontrar.

Passem rios, estrelas, que o passar
é ficar sempre, mesmo se é esquecida
a dor de ao vento vê-los na descida
para a morte sem fim que os quer tragar.

Que eu mesmo, sendo humano, também passe
mas que não morra nunca este momento
em que eu me fiz de amor e de ventura.

Fez-me a vida talvez para que amasse
e eu a fiz, entre o sonho e o pensamento,
trazendo a aurora para a noite escura.

[Jornal do Comércio — Recife — 1946]

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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Lêdo Ivo (1924 2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; produção literária: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945), Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Curral de Peixe (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Manuel Bandeira: A Estrela

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.
Poesias Completas
(1944, Rio de Janeiro - RJ)


Manuel Bandeira *


* Desenho de Cândido Portinari
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke — Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Manuel Bandeira (1886  1968), pernambucano de Recife, foi poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura, tradutor e antologista; seu legado literário é extenso, deixou-nos muitas obras em verso e prosa e também organizou e publicou antologias de diversos autores e épocas; obra poética: A Cinza das Horas (Edição do Autor, 1917, Jornal do Comércio, Rio de Janeiro  RJ), Carnaval (Edição do Autor, 1919, Rio de Janeiro), Poesias, acrescida de O Ritmo Dissoluto (1924, Rio de Janeiro), Libertinagem (Edição do Autor, 1930, Rio de Janeiro), Estrela da Manhã (Edição do Autor, 1936, Rio de Janeiro), Poesias Completas, acrescida de Lira dos Cinquent'Anos (Edição do Autor, Rio de Janeiro), Poemas Traduzidos (1945, Rio de Janeiro), Opus 10 (1952, Niterói  RJ), Alumbramentos (1960, Rio de Janeiro), Estrela da Tarde (1960, Rio de Janeiro) e outros; obra em prosa: Crônicas da Província do Brasil (1936, Rio de Janeiro), Guia de Ouro Preto (1938, Rio de Janeiro), Noções de História das Literaturas (1940, Rio de Janeiro), Autoria das Cartas Chilenas (1940, Rio de Janeiro), Apresentação da Poesia Brasileira (1946, Rio de Janeiro), Literatura Hispano-Americana (1949, Rio de Janeiro), Gonçalves Dias, Biografia (1952, Rio de Janeiro), De Poetas e de Poesia (1954, Rio de Janeiro), A Flauta de Papel (1957, Rio de Janeiro), Andorinha, Andorinha (1966, José Olympio, Rio de Janeiro), Itinerário de Pasárgada (1966, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Colóquio Unilateralmente Sentimental (1968, Editora Record, Rio de Janeiro), Berimbau e Outros Poemas (Nova Fronteira, Rio de Janeiro) e outros; antologias: Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica, da Fase Parnasiana, da Fase Moderna — Volume 1, da Fase Moderna — Volume 2 (todas editadas pela Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia dos Poetas Brasileiros — Poesia Simbolista (Nova Fronteira, Rio de Janeiro), Antologia Poética (1961, Editora do Autor, Rio de Janeiro), Poesia do Brasil (1963, Editora do Autor, Rio de Janeiro) e outros; além disso, selecionou e organizou obras de outros autores e traduziu textos de Schiler, Shakespeare, Jean Cocteau, Zorrilla, Fréderic Mistral, Brecht, Morris West, John Ford e outros.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Dante Milano: Descobrimento da Poesia

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Quero escrever sem pensar.
Que um verso consolador
Venha vindo impressentido
Como o princípio do amor.

Quero escrever sem saber
Sem saber o que dizer,
Quero escrever uma cousa
Que não se possa entender

Mas que tenha um ar de graça,
De pureza, de inocência,
De doçura na desgraça,
De descanso na inconsciência.

Sinto que a arte já me cansa
E só me resta a esperança
De me esquecer do que sou
E tornar a ser criança.


(In Rev. Boletim de Ariel — Rio — 1933)

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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke  Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Dante Milano (1899 1991), nascido no Rio de Janeiro  RJ, foi poeta e tradutor; nos anos 30 foi colaborador do suplemento "Autores e Livros", de "A Manhã" e do "Boletim de Ariel"; nos anos seguintes trabalhou como tradutor e lançou, em 1953, "Três Cantos do Inferno" de Dante Alighieri e, em 1988, "Poemas Traduzidos de Baudelaire e Mallarmé"; obra poética: Poemas (1948) e Poesia e Prosa (1979).

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cassiano Ricardo: Relógio


Diante de coisa tão doida
conservemo-nos serenos.

Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.

Ser é apenas uma face
do não ser, e não do ser.

Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer.
(Um Dia Depois do Outro — S. Paulo — 1947)
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Antologia da Poesia Brasileira Moderna, Organização e Introdução de Carlos Burlamaqui Kopke Clube da Poesia de São Paulo, 1953; Cassiano Ricardo Leite (1895  1974), paulista de São José dos Campos, foi poeta, ensaísta e jornalista; publicou Borrões de Verde e Amarelo (1926), Vamos Caçar Papagaios (1926), Martim Cererê (1927), Deixa Estar, Jacaré (1931), O Sangue das Horas (1943), Um Dia Depois do Outro (1947), A Face Perdida (1950), Poemas Murais (1951), O Arranha-céu de Vidro (1956), João Torto e a Fábula (1956) etc.