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segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Geraldo Carneiro: urbe et orbas

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por nome de pluma Glauceste Satúrnio
natural da Vila de Mariana
sonhou com ninfas aventurosas praias
achou exílio na arcádia e entre cautelas
a própria terra feita de escrituras
penhas & palavras
amou com parcimônia quase usura
nas horas vagas cultivou o hábito
de emprestar dinheiro a juros
acumulou escravos e sonetos
e mais pudesse mais acumulara
como desconfiasse da posteridade
e de outras deusas menos inconstantes
fez imprimir os versos num volume
de esplêndida fatura e frontispício
onde o tipógrafo lavrou assim:
OBRAS COMPLETAS de C. M. da Costa

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Pandemônio — Geraldo Carneiro, Apresentação de Silviano Santiago, Coleção Toda Poesia 12, 1993, Art Editora, São Paulo — SP; Geraldo  Eduardo Ribeiro Carneiro, nascido em 1952, mineiro de Belo Horizonte, estudou Letras na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro  RJ, é poeta, ensaísta, tradutor, dramaturgo, roteirista de cinema e tevê e letrista de músicas; radicado no Rio de Janeiro desde 1955, participou da chamada Geração Marginal, grupo poético dos anos 70; por 12 anos, fez parceria musical com Egberto Gismonti e de quem produziu o primeiro disco, Água e Vinho, tendo sido também parceiro dos músicos Astor Piazolla, Tom Jobim, Wagner Tiso e Francis Hime entre outros; para a televisão, foi roteirista, produziu minisséries, seriados, novelas, roteiros musicais, adaptações de obras literárias, tendo trabalhado na Globo e antiga TV Manchete; para o teatro, estreou com o musical Lola Moreno, escrito em parceria com Bráulio Pedroso (encenada em 1982 e 1983), além de ter escrito outras peças: Folias do coração, Apenas bons amigos (ambas com Miguel Falabella e encenadas em 1983), A bandeira dos cinco mil réis  (encenada em 1986) Manu Çaruê etc. e ter traduzido várias peças, como A Tempestade (The tempest, encenada em 1982 e 1983) Uma peça como você gosta (As you like if, encenada em 1985), de Shakespeare; para o cinema, roteirizou Eternamente Pagu (1987) O Judeu (1996, escrito com Millôr Fernandes e Gilvan Pereira);  bibliografia literária: em poesia, Na busca do Sete-Estrelo (1974),  Verão Vagabundo (1980), Piquenique em Xanadu (1988), Pandemônio (1993), Folias MetafísicasPor mares nunca dantes (2000), Lira dos Cinquent’anos (2002) e Balada do Impostor (2006) entre outros títulos, em prosa, Vinícius de Moraes: a fala da paixão (1984) Leblon: a crônica dos anos loucos (1996); recebeu premiações por suas obras; Geraldo Carneiro á acadêmico da Academia Brasileira de Letras.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Cláudio Manuel da Costa: Nise? Nise? Onde * estás? Aonde espera . . . [soneto]

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XIII

Nise? Nise? Onde estás? Aonde espera
Achar te uma alma, que por ti suspira,
Se quanto a vista se dilata, e gira, 
Tanto mais de encontrar te desespera!

Ah se ao menos teu nome ouvir pudera 
Entre esta aura suave, que respira! 
Nise, cuido, que diz; mas é mentira. 
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.

Grutas, troncos, penhascos da espessura, 
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde, 
Mostrai, mostrai me a sua formosura.

Nem ao menos o eco me responde! 
Ah como é certa a minha desventura! 
Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?

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Nota da ediçãoOndeaonde: eram palavras equivalentes, tanto em Cláudio como em Gonzaga (e outros poetas)
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Poesia do Ouro (Antologia) — Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729  1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano uma versão diz que ele se suicidou, já outra, que foi assassinado.

sábado, 5 de agosto de 2017

Cláudio Manuel da Costa: Se os poucos dias, que vivi contente, . . . [soneto]

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Se os poucos dias, que vivi contente,
Foram bastantes para o meu cuidado,
Que pode vir a um pobre desgraçado,
Que a idéia de seu mal não acrescente!

Aquele mesmo bem que me consente,
Talvez propício, meu tirano fado,
Esse mesmo me diz, que o meu estado
Se há de mudar em outro diferente.

Leve pois a fortuna os seus favores;
Eu os desprezo já, porque é loucura
Comprar a tanto preço as minhas dores:

Se quer que me não queixe a sorte escura,
Ou saiba ser mais firme nos rigores,
Ou saiba ser constante na brandura.

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729 1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano uma versão diz que ele se suicidou e outra, que foi assassinado.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Cláudio Manuel da Costa: Ai Nise amada! se este meu tormento, . . . [soneto]

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Lira XXIX *

Ai Nise amada! se este meu tormento,
Se estes meus sentidíssimos gemidos
Lá no teu peito, lá nos teus ouvidos 
Achar pudessem brando acolhimento;

Como alegre em servir-te, como atento
Meus votos tributaria agradecidos!
Por séculos de males bem sofridos 
Trocara todo o meu contentamento.

Mas se na incontrastável ** pedra dura 
De teu rigor não há correspondência,
Para os doces afeitos de ternura;

Cesse de meus suspiros a veemência; 
Que é fazer mais soberba a formosura 
Adorar o rigor da resistência.

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Notas da Edição
O soneto, dos mais musicais de Cláudio, ostenta figuras de palavras e aliterações, sábia distribuição de tônicas e versos amplamente sugestivos, como os dois últimos da segunda quadra.
** Incontrastável: contra a qual é inútil lutar.
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Poesia do Ouro (Antologia) — Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729  1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano uma versão diz que ele se suicidou e outra, que foi assassinado.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Tomás Antônio Gonzaga: Meu prezado Glauceste * . . . [Lira IX]

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Lira IX

          Meu prezado Glauceste,
          Se fazes o conceito,
          Que, bem que réu, abrigo
A cândida Virtude no meu peito;
Se julgas, digo, que mereço ainda
          Da tua mão socorro ;
          Ah! vem dar-mo agora,
          Agora sim que morro!

          Não quero que, montado
          No Pégaso fogoso,
          Venhas com dura lança
Ao monstro infame traspassar raivoso.
Deixa que viva a pérfida calúnia,
          E forje o meu tormento:
          Com menos, meu Glauceste,
          Com menos me contento.

          Toma a lira doirada,
          E toca um pouco nela:
          Levanta a voz celeste
Em parte que te escute a minha bela;
Enche todo o contorno de alegria;
          Não sofras, que o desgosto
          Afogue em pranto amargo
          O seu divino rosto.

          Eu sei, eu sei, Glauceste,
          Que um bom cantor havia,
          Que os brutos amansava;
Que os troncos, e os penedos atraía.
De outro destro Cantor também afirma
          A sábia Antiguidade,
          Que as muralhas erguera
          De uma grande Cidade.

          Orfeu as cordas fere;
          O som delgado, e terno
          Ao Rei Plutão abranda,
E o deixa, que penetre o fundo Averno.
Ah, tu a nenhum cedes, meu Glauceste,
          Na lira, e mais no canto:
          Podes fazer prodígios,
          Obrar ou mais, ou tanto.

          Levanta pois as vozes:
          Que mais, que mais esperas?
          Consola um peito aflito;
Que é menos inda, que domar as feras.
Com isto me darás no meu tormento
          Um doce lenitivo;
          Que enquanto a bela vive,
          Também, Glauceste, vivo.

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* Nota da EdiçãoGlauceste: Cláudio Manuel da Costa. Gonzaga ignorava que ele estivesse preso ou que tivesse morrido.
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Poesia do Ouro (Antologia) Os Mais Belos Versos da “Escola Mineira”, Introdução, Seleção e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos, 1964, Edições Melhoramentos, São Paulo SP; Tomás Antônio Gonzaga (1744 1810), português do Porto, foi jurista, ativista político e poeta; aos quatro anos de idade mudou-se para o Brasil, tendo estudado no Colégio dos Jesuítas, na Bahia, e se formado em Leis pela Universidade de Coimbra; posteriormente, retornando de Portugal, fixou residência em Vila Rica (atual Ouro Preto MG) e ali foi nomeado ouvidor e juiz; escreveu Marília de Dirceu (Dirceu foi um seu pseudônimo arcádico) e Cartas Chilenas; com participação ativa na Inconfidência Mineira, teve seus bens sequestrados, foi preso na Ilha das Cobras, Rio de Janeiro, e depois degredado para Moçambique, continente africano, onde cumpriu o restante da pena e morreu; parte de sua obra foi escrita na prisão e a primeira impressão só se deu com o poeta já no exílio.

sábado, 22 de julho de 2017

Cláudio Manuel da Costa: Continuamente estou imaginando . . . [soneto]

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Continuamente estou imaginando
Se esta vida, que logro, tão pesada
Há de ser sempre aflita, e magoada,
Se com o tempo enfim se há de ir mudando:

Em golfos de esperança flutuando
Mil vezes busco a praia desejada;
E a tormenta outra vez não esperada
Ao pélago infeliz me vai levando.

Tenho já o meu mal tão descoberto,
Que eu mesmo busco a minha desventura,
Pois não pode ser mais seu desconcerto.

Que me pode fazer a sorte dura,
Se para não sentir seu golpe incerto,
Tudo o que foi paixão, é já loucura!

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Roteiro da Poesia Brasileira — Arcadismo, Seleção e Prefácio de Domício Proença Filho, Direção de Edla van Steen, Editora Global, 2006, São Paulo — SP; Cláudio Manuel da Costa (1729 1789), mineiro de Mariana (antiga Vila do Ribeirão do Carmo), foi advogado, magistrado, e poeta; fez seus primeiros estudos em Vila Rica, hoje Ouro Preto, estudou no Colégio dos Jesuítas, no Rio de Janeiro, e formou-se em Cânones (Direito), pela Universidade de Coimbra, em Portugal; por vezes assinou seus textos com o pseudônimo de Glauceste Satúrnio; escreveu e publicou Culto Métrico (1749), Munúsculo Métrico (poesia, 1751), Epicédio (poesia, 1753), Obras Poéticas de Glauceste Satúrnio (1768), O Parnaso Obsequioso e Obras Poéticas (1768), Vila Rica (poesia, 1773), Poesias Manuscritas (1779); de família rica, fazendeiro e minerador, participou da Inconfidência Mineira, foi preso em maio de 1789 e encontrado morto na prisão em julho do mesmo ano — uma versão diz que ele se suicidou e outra, que foi assassinado.