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Que mal vos fez a vida, ó
serenos filósofos, para o encherdes do mais negro Pessimismo, como de uma treva
noturna e dolorosa e de um rio de sangue eternamente caudaloso?!
Para ti, Shopenhauer, a
existência é a materialidade, o alimento, para ti, é apenas a necessidade de
prevalecer na luta, a força para a função dos órgãos nervosos, a bem de que se
propague a espécie: — enquanto que para outros, ó
sombrios monges do Pensamento, o alimento é a lascívia, a lascívia da Carne,
que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.
Basta, para ti, que o
estômago metodicamente funcione, na normalidade cronométrica de um relógio, a
fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste aos vermes e à seca
dissecação dos fenômenos da natureza.
No entanto, para outros, o
sentimento palatal educado, gozando o requinte das iguarias faustosas, de
incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades
de dourados vinhos, apenas, bastam para que os sonhos sejam felizes e o sorriso
seja alegre.
Para esses, os alimentos,
como no Oriente o fumo, tem insubstituíveis encantos, voluptuosas graças de
viver, que afilam, acendem a imaginação, fazem abrir e flamejar por todos os
pontos do mundo, infinitamente, os mais inauditos sóis do espírito.
Neles, é um fluido, um alado
perfume de úmidas bocas purpúreas de rosa, de níveos colos cor de camélia, de
veludosos seios, macios com a alva plumagem fresca de um pássaro real; um
amoroso ansiar de etéreos olhos de estrelas, atravessando em visão, claros e
pesados de luz, com o brilho aceso e ardente de preciosas e raras pedrarias, a
quase extinta noite remota das recordações.
Para ti, Shopenhauer, os
seres orgânicos não têm senão o caráter essencial da consciência vital e
representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor dos elementos inorgânicos,
químicos e físicos da terra.
Assim, a pedra, o fogo, o
ar, a água, são tantas forças complexas da vida como o homem — ou labore pelo psiquismo, num século de livros, sob o complicado
aparelho da ciência ou, simplesmente, ame, seja fator da evolução humana, dando
a forma do Amor ao princípio genesíaco da sensualidade.
Por isso, ó egrégio magnificente
filósofo alemão, eu, que no entanto sinto e percebo a sua radiante e clara verdade,
que brilha e fere como as arestas agudas de um cristal, — verdade aceita pelos homens sob a nebulosa denominação de
Pessimismo, — eu tenho tédio, profundo, supremo, e inesgotável
tédio, vendo que a vida orgânica é toda ela adstrita à matéria, e que apenas,
para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura de um forte e belo
animal, premunido de garras para o assalto, de dentes para devorar e com a
regular circulação do sangue para o equilíbrio do coração e do cérebro.
* Nota de Andrade Muricy: NO
[jornal Novidades, Rio de Janeiro — RJ], 26 mar. 1892.
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Obra
Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral,
Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira
edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa
(1861 — 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos
alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido
pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as
primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do
marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu
francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta
considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores
teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas
particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições
raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com
Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário
Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo),
viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu
Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental;
em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas
em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de
Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de
quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas;
alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant,
Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel
Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando
definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa,
publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo,
colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo
dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas
em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só
conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central
(do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela
tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena — MG,
aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao
Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio
tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898),
Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).