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quinta-feira, 1 de maio de 2025

Cruz e Sousa: Doença psíquica *

 
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Que mal vos fez a vida, ó serenos filósofos, para o encherdes do mais negro Pessimismo, como de uma treva noturna e dolorosa e de um rio de sangue eternamente caudaloso?!
          Para ti, Shopenhauer, a existência é a materialidade, o alimento, para ti, é apenas a necessidade de prevalecer na luta, a força para a função dos órgãos nervosos, a bem de que se propague a espécie: enquanto que para outros, ó sombrios monges do Pensamento, o alimento é a lascívia, a lascívia da Carne, que fazia, desde os romanos, a carne viçosa e rica.
          Basta, para ti, que o estômago metodicamente funcione, na normalidade cronométrica de um relógio, a fim de que tenhas a positiva segurança de que subsiste aos vermes e à seca dissecação dos fenômenos da natureza.
          No entanto, para outros, o sentimento palatal educado, gozando o requinte das iguarias faustosas, de incomparáveis gourmandises, as vaporosas luminosidades de dourados vinhos, apenas, bastam para que os sonhos sejam felizes e o sorriso seja alegre.
          Para esses, os alimentos, como no Oriente o fumo, tem insubstituíveis encantos, voluptuosas graças de viver, que afilam, acendem a imaginação, fazem abrir e flamejar por todos os pontos do mundo, infinitamente, os mais inauditos sóis do espírito.
          Neles, é um fluido, um alado perfume de úmidas bocas purpúreas de rosa, de níveos colos cor de camélia, de veludosos seios, macios com a alva plumagem fresca de um pássaro real; um amoroso ansiar de etéreos olhos de estrelas, atravessando em visão, claros e pesados de luz, com o brilho aceso e ardente de preciosas e raras pedrarias, a quase extinta noite remota das recordações.
          Para ti, Shopenhauer, os seres orgânicos não têm senão o caráter essencial da consciência vital e representam no mundo, funcionalmente, o mesmo valor dos elementos inorgânicos, químicos e físicos da terra.
          Assim, a pedra, o fogo, o ar, a água, são tantas forças complexas da vida como o homem ou labore pelo psiquismo, num século de livros, sob o complicado aparelho da ciência ou, simplesmente, ame, seja fator da evolução humana, dando a forma do Amor ao princípio genesíaco da sensualidade.
          Por isso, ó egrégio magnificente filósofo alemão, eu, que no entanto sinto e percebo a sua radiante e clara verdade, que brilha e fere como as arestas agudas de um cristal, verdade aceita pelos homens sob a nebulosa denominação de Pessimismo, eu tenho tédio, profundo, supremo, e inesgotável tédio, vendo que a vida orgânica é toda ela adstrita à matéria, e que apenas, para ser feliz, nada mais é preciso do que ter a estrutura de um forte e belo animal, premunido de garras para o assalto, de dentes para devorar e com a regular circulação do sangue para o equilíbrio do coração e do cérebro.


* Nota de Andrade Muricy: NO [jornal Novidades, Rio de Janeiro — RJ], 26 mar. 1892.
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Obra Completa: Cruz e Sousa — Edição Comemorativa do Centenário, Organização Geral, Introdução, Notas, Cronologia e Bibliografia por Andrade Muricy, primeira edição, 1961, Editora José Aguilar Ltda., Rio de Janeiro — RJ; João da Cruz e Sousa (1861 1898), catarinense nascido em Desterro, atual Florianópolis, filho de escravos alforriados [Carolina Eva da Conceição e Guilherme, ‘mestre-pedreiro’] e acolhido pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa e esposa, tomou contato com as primeiras letras com Dona Clarinda de Sousa [sua protetora e esposa do marechal], estudou e se educou no Ateneu Provincial Catarinense, onde aprendeu francês, inglês, latim, grego, matemática e ciências naturais, foi poeta considerado um dos expoentes do simbolismo no Brasil; com a morte de seus protetores teve que abandonar os estudos e, sendo obrigado a trabalhar, passou a dar aulas particulares; publicou seus primeiros versos em jornais da província; sofreu perseguições raciais, foi proibido de assumir o cargo de promotor público; em 1881, com Virgílio Várzea e Santos Louzada, criou o jornal ‘hebdomadário’ literário Colombo, em cujas páginas proclamou adesão à Escola Nova (então parnasianismo), viajou pelo país acompanhando a Companhia Dramática Julieta dos Santos, leu Baudelaire, Leconte de Lisle, Leopardi, Guerra Junqueiro e Antero de Quental; em 1885, dirigiu o jornal ilustrado O Moleque e publicou Tropos e Fantasias (poemas em prosa), em conjunto com Virgílio Várzea; em 1888 seguiu para o Rio de Janeiro, conheceu o poeta Luís Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, de quem se tornou grande amigo e através do qual teve suas obras divulgadas; alguns meses depois, de retorno a Santa Catarina, leu Flaubert, Maupassant, Théophile Gautier, Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias, Ezequiel Freire, B. Lopes e iniciou sua conversão ao Simbolismo; em 1890, voltando definitivamente ao Rio, aprofundou contato com a poesia simbolista francesa, publicou textos-manifestos do Simbolismo na Folha Popular e n’O Tempo, colaborou no jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio; fez parte do grupo dos Novos, assim chamados os “decadentistas” ou simbolistas; publicou Missal (poemas em prosa, 1893) e Broquéis (poemas, 1893); no Rio, mesmo bastante conhecido, só conseguiu arrumar um emprego miserável, como arquivista, na Estrada de Ferro Central (do Brasil); em 19 de março de 1898, o poeta Cruz e Sousa, vencido pela tuberculose, morreu na localidade de Curral Novo, próxima à Barbacena MG, aonde fora levado às pressas, três dias antes, e teve seu corpo retornado ao Rio em um vagão destinado ao transporte de cavalos, com José do Patrocínio tendo se encarregado dos funerais; postumamente, foram editados Evocações (1898), Faróis (coletânea organizada por Nestor Vítor, 1900) e Últimos Sonetos (1905).