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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2025

John Keats: Ode a um rouxinol

 
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[traduzido por Augusto de Campos]

Meu peito dói; um sono insano sobre mim
         Pesa, como se eu me tivesse intoxicado
De ópio ou veneno que eu sorvesse até o fim,
         Há um só minuto, e após no Letes me abismado:
Não é porque eu aspire ao dom de tua sorte,
         É do excesso de ser que aspiro em tua paz
                Quando, Dríade leve-alada em meio à flora,
                        Do harmonioso recorte
         Das verdes árvores e sombras estivais,
                Lanças ao ar a tua dádiva sonora.

Ah! um gole de vinho refrescado longamente
         Na solidão do solo muito além do chão,
Sabendo a flor, a seiva verde e a relva quente,
         Dança e Provença e sol queimando na canção!
Ah! uma taça de luz do Sul, plena e solar,
         Da fonte de Hipocrene enrubescida e pura,
                Com bolhas de rubis à beira rebordada
                        Nos lábios a brilhar,
         Para eu saciar a sede até chegar ao nada
                E contigo fugir para a floresta escura.

Fugir e dissolver-me, enfim, para esquecer
         O que das folhas não aprenderás jamais:
A febre, o desengano e a pena de viver
         Aqui, onde os mortais lamentam os mortais;
Onde o tremor move os cabelos já sem cor
         E o jovem pálido e espectral se vê finar,
                Onde pensar é já uma antevisão sombria
                        Da olhipesada dor,
         Onde o Belo não pode erguer a luz do olhar
                E o Amor estremecer por ele mais que um dia.

Adeus! Adeus! Eu sigo em breve a tua via,
         Não em carro de Baco e guarda de leopardos,
Antes, nas asas invisíveis da Poesia,
         Vencendo a hesitação da mente e os seus retardos;
Já estou contigo! suave é a noite linda,
         Logo a Rainha-Lua sobe ao trono e luz
                Com a legião de suas Fadas estelares,
                        Mas aqui não há luz,
         Salvo a que o céu por entre as brisas brinda
                Em meio à sombra verde e ao musgo dos lugares.

Não posso ver as flores a meus pés se abrindo,
         Nem o suave olor que desce das ramagens,
Mas no escuro odoroso eu sinto defluindo
         Cada aroma que incensa as árvores selvagens,
A impregnar a grama e o bosque verde-gaio,
         O alvo espinheiro e a madressilva dos pastores,
                Violetas a viver sua breve estação;
                        E a princesa de maio,
         A rosa-almíscar orvalhada de licores
                Ao múrmuro zumbir das moscas do verão.

Às escuras escuto; em mais de um dia adverso
         Me enamorei, de meio-amor, da Morte calma,
Pedi-lhe docemente em meditado verso
         Que dissolvesse no ar meu corpo e minha alma.
Agora, mais que nunca, é válido morrer,
         Cessar, à meia-noite, sem nenhum ruído,
                Enquanto exalas pelo ar tua alma plena
                        No êxtase do ser!
         Teu som, enfim, se apagaria em meu ouvido
                Para o teu réquiem transmudado em relva amena.

Tu não nasceste para a morte, ave imortal!
         Não te pisaram pés de ávidas gerações;
A voz que ouço cantar neste momento é igual
         À que outrora encantou príncipes e aldeões:
Talvez a mesma voz com que foi consolado
         O coração de Rute, quando, em meio ao pranto,
                Ela colhia em terra alheia o alheio trigo;
                        Quem sabe o mesmo canto
         Que abriu janelas encantadas ao perigo
                Dos mares maus, em longes solos, desolado.

Desolado! a palavra soa como um dobre,
         Tangendo-me de ti de volta à solidão!
Adeus! A fantasia é véu que não encobre
         Tanto como se diz, duende da ilusão.
Adeus! Adeus! Teu salmo agora tristemente
         Vai-se perder no campo, e além, no rio silente,
                Nas faldas da montanha, até ser sepultado
                        Sob o vale deserto:
         Foi só uma visão ou um sonho acordado?
                A música se foi durmo ou estou desperto?

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 05.08.84]

John Keats

Ode to a Nightingale

My heart aches, and a drowsy numbness pains
         My sense, as though of hemlock I had drunk,
Or emptied some dull opiate to the drains
         One minute past, and Lethe-wards had sunk:
‘Tis not through envy of thy happy lot,
         But being too happy in thine happiness,
                That thou, light-winged Dryad of the trees
                        In some melodious plot
         Of beechen green, and shadows numberless,
                Singest of summer in full-throated ease.

O, for a draught of vintage! that hath been
         Cool’d a long age in the deep-delved earth,
Tasting of Flora and the country green,
         Dance, and Provencal song, and sunburnt mirth!
O for a beaker full of the warm South,
         Full of the true, the blushful Hippocrene,
                With beaded bubbles winking at the brim,
                        And purple-stained mouth;
         That I might drink, and leave the world unseen,
                And with thee fade away into the forest dim:

Fade far away, dissolve, and quite forget
         What thou among the leaves hast never known,
The weariness, the fever, and the fret
         Here, where men sit and hear each other groan;
Where palsy shakes a few, sad, last gray hairs,
         Where youth grows pale, and spectre-thin, and dies;
                Where but to think is to be full of sorrow
                        And leaden-eyed despairs,
         Where Beauty cannot keep her lustrous eyes,
                Or new Love pine at them beyond to-morrow.

Away! away! for I will fly to thee,
         Not charioted by Bacchus and his pards,
But on the viewless wings of Poesy,
         Though the dull brain perplexes and retards:
Already with thee! tender is the night,
         And haply the Queen-Moon is on her throne,
                Cluster’d around by all her starry Fays;
                        But here there is no light,
         Save what from heaven is with the breezes blown
                Through verdurous glooms and winding mossy ways.

I cannot see what flowers are at my feet,
         Nor what soft incense hangs upon the boughs,
But, in embalmed darkness, guess each sweet
         Wherewith the seasonable month endows
The grass, the thicket, and the fruit-tree wild;
         White hawthorn, and the pastoral eglantine;
                Fast fading violets cover’d up in leaves;
                        And mid-May’s eldest child,
         The coming musk-rose, full of dewy wine,
                The murmurous haunt of flies on summer eves.

Darkling I listen; and, for many a time
         I have been half in love with easeful Death,
Call’d him soft names in many a mused rhyme,
         To take into the air my quiet breath;
Now more than ever seems it rich to die,
         To cease upon the midnight with no pain,
                While thou art pouring forth thy soul abroad
                        In such an ecstasy!
         Still wouldst thou sing, and I have ears in vain
                To thy high requiem become a sod.

Thou wast not born for death, immortal Bird!
         No hungry generations tread thee down;
The voice I hear this passing night was heard
         In ancient days by emperor and clown:
Perhaps the self-same song that found a path
         Through the sad heart of Ruth, when, sick for home,
                She stood in tears amid the alien corn;
                        The same that oft-times hath
         Charm’d magic casements, opening on the foam
                Of perilous seas, in faery lands forlorn.

Forlorn! the very word is like a bell
         To toil me back from thee to my sole self!
Adieu! the fancy cannot cheat so well
         As she is fam’d to do, deceiving elf.
Adieu! adieu! thy plaintive anthem fades
         Past the near meadows, over the still stream,
                Up the hill-side; and now ‘tis buried deep
                        In the next valley-glades:
         Was it a vision, or a waking dream?
                Fled is that music: Do I wake or sleep?

Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. E Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; John Keats (1795 1821), britânico de Londres, teve educação irregular, abandonou os estudos e as práticas de medicina para se dedicar às letras e foi o último dos expoentes do Romantismo na literatura inglesa, ao lado de Byron e Shelley, seus contemporâneos; compôs odes e sonetos, teve seu primeiro poema, o soneto ‘O Solitude’, publicado no Examiner, jornal editado por seu amigo Leigh Hunt, jornalista, ensaísta e também poeta; suas obras: Poems (1817), Endymion (Endimião, 1818), Hyperion (inconcluso, 1819), The Eve of St. Agnes and Other Poems (A Véspera de Santa Inês, poema narrativo, 1820), Isabella, Lamia; morreu jovem, em Roma, de tuberculose.

sexta-feira, 18 de outubro de 2024

Vladímir Maiakóvski: Romança [fragmento do longo poema 'Sobre Isto']


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[traduzido por Trajano Vieira]

Um menino avança, a vista fixa no ocaso
Era o caso de um amarelo insuperável.
Até a neve do posto Tver amarelava.
Ninguém por perto e o menino segue.
Num ato, da ação
arreda
o passo.
Na mão
da seda
o aço.
O pôr-do-sol olha por uma hora
a renda que atrás dele se enredara.
A neve crispante roía as rótulas.
Por que?
Para quê?
Para quem?
Ventoladro o garoto era checado.
O bilhete passa seu direito ao vento
que pára pra ligar do parque Pedro:
Adeus...
Tudo acabado...
Que ninguém seja culpado...

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 27.07.86

Vladímir Maiakóvski

Романс

Мальчик шёл, в закат глаза уставя.
Был закат непревзойдимо жёлт.
Даже снег желтел к Тверской заставе.
Ничего не видя, мальчик шёл.
Шёл,
вдруг
встал.
В шёлк
рук
сталь.
С час закат смотрел, глаза уставя,
за мальчишкой лёгшую кайму.
Снег хрустя разламывал суставы.
Для чего?
Зачем?
Кому?
Был вором-ветром мальчишка обыскан.
Попала ветру мальчишки записка.
Стал ветер Петровскому парку звонить:
 Прощайте…
Кончаю…
Прошу не винить…

[1923]

Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Vladímir Vladimirovitch Maiakóvski (1893 1930), nascido em Baghdati, Geórgia (Império Russo), considerado um dos expoentes da poesia do século XX, foi poeta, dramaturgo e teórico; aos 15 anos de idade filiou-se ao partido bolchevique, foi preso algumas vezes e “no cárcere começou a escrever poemas e se dedicou à leitura de romances e poesia russa”; seu primeiro poema, Noite, data de 1912; em 1911, iniciava seus estudos na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura de Moscou e, aluno, fez parte do grupo artístico fundador do então chamado cubo-futurismo russo, tornando-se “célebre por sua atitude irreverente e por suas polêmicas”; em 1914, o poeta sofreu expulsão da escola, “por sua ligação com o movimento futurista”; após serem expulsos, ele e outros alunos do grupo, viajaram pela Rússia objetivando difundir suas concepções artísticas; em 1915, em temporada na Finlândia, concluiu Nuvem de calças, o primeiro de seus poemas longos, tal obra o consagrou em definitivo entre seus pares e no ambiente literário russo; teve presença ativa no movimento revolucionário russo de 1917; durante a Guerra Civil, o poeta dedicou-se a criar desenhos e legendas para cartazes de propaganda e, no início do novo Estado, exaltou campanhas sanitárias, fez publicidade de produtos diversos, etc.; participou ativamente de conferências, recitais e debates; colaborou com os jornais Izvestia, Pravda, O Trabalho, com seus textos sendo divulgados diariamente em jornais e revistas; em 1923, fundou a revista LEF (de Liévi Front, Frente de Esquerda), na qual agrupava escritores e artistas com a intenção de aliar a forma revolucionária a um conteúdo de renovação social; por razões estéticas, e na defesa de suas concepções artístico-literárias, polemizou com outros grupos de intelectuais e também com a burocracia do governo que se iniciava; suas obras: livros de poesia, de viagens e memórias, A Flauta Vertebrada (1915), A Nuvem de Calças (1916), O Homem (1917), Guerra e Paz (1918), 150 Milhões (1920), Amo (1922), Sobre Isto (1923), Lênin (1925), Muito Bem! (1927), A Plenos pulmões (1930), longos poemas líricos e épicos, cada qual formando, por si só, um livro; para o teatro, publicou Eu (1913), O Mistério Bufo (1921), O Percevejo (1928), O Banho (1929), e tantos outros textos, além de trabalhos para circo, argumentos para cinema e mais de mil páginas de poesia para crianças; suicidou-se em 14 de abril de 1930.

domingo, 9 de junho de 2024

Velimir Khlébnikov: Os números


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[traduzido por Trajano Vieira]

Eu vos esc [ . . . ]
E o vosso surto assume vestes quadrúpedes.
Com a mão apoiada sobre entulho de carvalho.
Ofereceis a unidade entre o móvel serpentiforme
Da coluna cósmica e a canga-dança,
Além do aval de seculamentar como os dentes
De um gargalhar relâmpago.
Minhas pupilas abrem-se videntes,
Saber o que Eu será, quando seu dividendo uni-
Ficar.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.10.81]

Velimir Khlébnikov

ЧИСЛА

Я всматриваюсь в вас, о, числа,
И вы мне видитесь одетыми в звери, в их шкурах,
Рукой опирающимися на вырванные дубы.
Вы даруете единство между змееобразным движением
Хребта вселенной и пляской коромысла,
Вы позволяете понимать века, как быстрого хохота зубы.
Мои сейчас вещеобразно разверзлися зеницы
Узнать, что будет [Я], когда делимое его единица.

[1912]

Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Viktor Vladimirovitch Khlébnikov, ou Velímir Khlébnikov (1885 1922), russo nascido em Tundutov, então Império Russo, estudou Física e Matemática na Universidade de Kazan e, depois, Ciências Naturais, Sânscrito e Eslavística na Universidade de São Petersburgo, foi poeta, prosador, pensador, matemático, ornitólogo, pintor, figura expoente e um dos mais originais da arte vanguardista-futurista russa; após ter sido expulso da faculdade por falta de pagamento, passou a dedicar-se à poesia, literatura e pesquisas matemático-filosóficas; teve participação no círculo de poetas de São Petersburgo, conheceu escritores, filósofos, pintores, músicos e artistas, e se aproximou, por um período, dos simbolistas e acmeístas [movimento literário modernista russo]; conheceu um grupo de jovens pintores e poetas, aos quais posteriormente se juntaram Maiakóvski e outros, o que resultou na formação do Grupo Guileia (1910 1914) e daí se transformando no movimento dos cubo-futuristas (o cubo-futurismo é considerado o resultado da interação entre poetas-futuristas e pintores-cubistas), com apresentação inicial na imprensa através da publicação do almanaque poético Viveiro dos Juízes (Садок судей 1910); apoiou a Revolução Russa de outubro de 1917, foi conferencista no quartel-general do exército revolucionário e vigia noturno; o poeta escreveu muito, adorava quando o publicavam, mas não fazia nenhum esforço para isso; a maior parte de seus textos só se tornou conhecida postumamente: em 1923, editou-se um seu livro de versos; em 1925, veio a edição d’O Caderno de Notas de Velímir Khlébnikov; somente em 1928, publicou-se uma edição de suas obras, em cinco volumes, que seria completada com inéditos em 1940; em 1936, foi publicado o livro Versos Escolhidos; de seus primeiros trabalhos poéticos, praticamente nada é conhecido; Khlébnikov teve uma vida na pobreza, foi solitário, fechado e pouco prático para o cotidiano do viver.

terça-feira, 23 de abril de 2024

Goethe: Crítico

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[traduzido por Nelson Ascher]

Eis que me veio uma visita
do tipo achei que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto, ali, que
não sobrou nada em casa; e quando
notei-o quase arrebentando,
o Demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
"A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo".
Que morra paralítico!
Com mil demônios! Era um crítico.

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 18.05.86

Goethe

Rezensent

Da hatt ich einen Kerl zu Gast,
Er war mir eben nicht zur Last;
Ich hatt just mein gewöhnlich Essen,
Hat sich der Kerl pumpsatt gefressen,
Zum Nachtisch, was ich gespeichert hatt.
Und kaum ist mir der Kerl so satt,
Tut ihn der Teufel zum Nachbar führen,
Über mein Essen zu räsonieren:
»Die Supp hätt können gewürzter sein,
Der Braten brauner, firner der Wein.«
Der Tausendsakerment!
Schlagt ihn tot, den Hund! Es ist ein Rezensent.

[1774]

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro (1941 — 1991), trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificadas através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; Johann Wolfgang von Goethe (1749 1832), alemão de Frankfurt am Main (no antigo Sacro Império Romano-Germânico), teve na infância educação de múltiplas faces, formou-se em Direito, polímata, foi poeta, romancista, dramaturgo, diretor teatral, teórico de arte, filósofo, diplomata e funcionário do governo; Goethe realizou suas primeiras obras poéticas (canções e odes) ainda jovem; obras: Die Laune des Verliebten (1768), Götz von Berlinchingen (1771 e 1773), Prometheus (1774), Os Sofrimentos do Jovem Werther (Die Leiden des jungen Werther, 1774), Clavigo (drama, 1774), Urfaust (Fausto Zero, 1775), Egmont (1775), Ifigênia em Táurides (Iphigenie auf Tauris [prosa] 1779 e 1786 [versos]), Torquato Tasso (1789), Xenien (em conjunto com Friedrich Schiller, 1796), O Aprendiz de Feiticeiro (1797), Hermann e Dorothea (1798), Die natürliche Tochter (18011803), Fausto (parte I, 1806), Os anos de aprendizado de Wilhelm Meister (1807), Teoria das Cores (Farbenlehre, 1810), Aus meinem Leben Dichtung und Wahreit (De minha vida. Poesia e verdade, autobiografia, 18111833), Viagem à Itália (relatos autobiográficos, 18131817), West-östlicher Divan (Divã Ocidento-Oriental, 1819, e versão ampliada em 1827), Fausto (parte II, publicação póstuma, 1832) e muitas outras publicações em poesia, prosa e para dramaturgia; o poeta fez parte de dois movimentos literários importantes na Alemanha, o romantismo e o expressionismo, e influenciou a literatura em todo o mundo; Goethe teve muito de sua poesia musicada por centenas de compositores, entre os quais Beethoven, Franz Schubert, Anna Amalia, Hermann Behn, Hector Berlioz, Arrigo Boito, Johannes Brahms, Luigi Dallapicola, Robert Franz, François Gounod, Franz Liszt, Johann Carl Gottfried Lowe, Gustav Mahler, Mozart, Robert Schumann, Tchaikovsky, Giuseppe Verdi, Richard Wagner...

quarta-feira, 6 de março de 2024

William Carlos Williams: Descender

____________________
[traduzido por Vinicius Dantas]

O descender nos leva
como o ascender nos levara.
A memória é uma forma
de consumar-se,
um tipo de renovo
mesmo
uma iniciação, uma vez serem os espaços que
abrem novos lugares
povoados por hordas
dantes inimagináveis,
de espécimes novas
uma vez visarem seus movimentos
a objetivos novos
(mesmo que anteriormente abandonados).

Nenhuma derrota é feita tão só de derrota uma vez
ser o mundo que abre sempre um lugar
anteriormente
insuspeito. Um
mundo perdido,
um mundo insuspeito,
nos leva a novos lugares
e nenhuma brancura (perdida) é tão branca como a
memória
da brancura

Ao cair da tarde, o amor desperta
embora suas sombras
que vivem em virtude
da luz do sol
alastrem-se sonolentas e larguem
do desejo
O amor sem sombras alenta-se agora
principiando a despertar
quando a noite
avança.

O descender
feito de desesperos
e sem consumar-se
imagina um novo despertar:
o qual é o inverso
do desespero.
O que não podemos consumar, o que
é negado ao amor,
o que perdemos na antecipação
um descender prossegue,
infindo e indestrutível

[suplemento dominical de cultura] Folhetim*, 11.09.83

William Carlos Williams

The Descent

The descent beckons
                     as the ascent beckoned.
                                             Memory is a kind
of accomplishment,
                     a sort of renewal
                                             even
an initiation, since the spaces it opens are new places
                     inhabited by hordes
                                             heretofore unrealized,
of new kinds 
                     since their movements
                                             are toward new objectives
(even though formerly they were abandoned).

No defeat is made up entirely of defeat  since
the world it opens is always a place
                     formerly
                                             unsuspected. A
world lost,
                     a world unsuspected,
                                             beckons to new places
and no whiteness (lost) is so white as the memory
of whiteness.

With evening, love wakens
                     though its shadows
                                             which are alive by reason
of the sun shining 
                     grow sleepy now and drop away
                                             from desire.

Love without shadows stirs now
                     beginning to awaken
                                             as night
advances

The descent
                     made up of despairs
                                             and without accomplishment
realizes a new awakening:
                                             which is a reversal
of despair.
                     For what we cannot accomplish, what
is denied to love,
                     what we have lost in the anticipation 
                                             a descent follows,
endless and indestructible.

* Nota do blogue Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página registra que Folhetim foi um suplemento dominical de cultura do jornal Folha de São Paulo; criado e dirigido por Tarso de Castro, trazia como objetivo inicial ser um “caderno de leitura e humor” e, com linha editorial e estrutura modificada através do tempo, circulou entre 1977 e 1989; o jornalista Tarso de Castro também foi um dos fundadores do semanário Pasquim, periódico de origem carioca.
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Folhetim: Poemas traduzidos [vários poetas e tradutores], Organização de Matinas Susuki Jr. e Nelson Ascher e Apresentação de Matinas Susuki Jr., 1987, Edições Folha de São Paulo, São Paulo — SP; William Carlos Williams (1883 1963), estadunidense de Rutherford, New Jersey, formou-se pela Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, foi médico pediatra e clínico geral, romancista, ensaísta e poeta do modernismo e do imagismo norte-americano; Williams, antes mesmo de aprender o inglês, aprendeu o espanhol, visto que sua mãe, de origem basca, nascera em Porto Rico, Caribe, e em casa seus pais conversavam neste idioma; suas obras: Poems (1909), Kora in Hell: Improvisations (poema-prosa, 1920), The Great American Novel (novela, 1923), Novelette and Other Prose (1932), An Early Martyr and Other Poems (1935), White Mule (novela, 1937), Life along the Passaic River (contos, 1938), The Complete Collected Poems of William Carlos Williams 1906—1938 (1938), The Wedge (poesias, 1944), Paterson — Book I (1946), Autobiography (1951), The Desert Music and Other Poems (1954), Selected Essays (1954), Pictures from Brueghel and Other Poems (1962), Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams (drama, 1962) e outros textos em verso e prosa; William Carlos Williams recebeu premiações por sua obra, entre as quais o National Book Award for Poetry, o Prêmio Bollingen e, postumamente, o Pulitzer de Poesia, por Pictures from Brueghel and Other Poems.