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sábado, 15 de fevereiro de 2025

Maria Rita Kehl: pompéia & cânhamo

 
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pompéia

Cachorros    lâmpadas
pernas das meninas

rua de pedra se precipitando
do alto sobre o mundo incendiado

Avião furando nuvens
galho seco na sarjeta.

— o —

cânhamo

Serenidade de estrela

Meu pensamento desistiu da ordem
posso assistir à dança das imagens
trançadas    velozes
curtas:
um desperdício de idéias.

Aceito porque o corpo está contente
não preciso do futuro
não espero meu amor.

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Processos Primários — poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho, 1996, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, mestrado em Psicologia Social, doutorado em Psicanálise pela Pontifícia Universidade Católica PUC-SP,  é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal semanário Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Imprevisão do Tempo, O Amor é uma Droga Pesada e Processos Primários (1979, 1983 e 1996, todos de poesia), Deslocamento do Feminino — A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011) ...; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país; recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010, e o Prêmio Direitos Humanos, na categoria “Mídia e Direitos Humanos”, concedido pelo governo federal.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Maria Rita Kehl: lua numa rua

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Você não sabe se ganha, se perde
se vem
não sabe a força dessa hesitação
e o morcego que eu sou diante dela
capaz de me orientar por um suspiro
um sopro
uma taquicardia.

Eu provo que a noite é puro leite
vício branco da lua
e a cidade se dissolve no meu quarto feito uma pastilha.

Um olho tem fome e você é tão novo
nem sabe quanto te encanta
meu convite de suicida.

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Processos Primários — poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho, 1996, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro, ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Processos Primários — poemas (1996), Deslocamento do Feminino — A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011), etc; ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Maria Rita Kehl: recurso

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O método faz milagres.
Passar no quarto das crianças antes de deitar
só matar os insetos comprovadamente nocivos
sair lá fora no escuro, cinco minutos na primeira noite,
dez na segunda, até conseguir no mínimo uma hora de contemplação
sem terror.

O método tece uma teia 
horários  rotas de ônibus  receitas 
telefonemas na 6a. 
caderninhos 

quando a trama é bem firme cada gesto idiota adquire sentidos surpreendentes
imprescindíveis depois de algum tempo
capazes de sustentar uma existência inteira.

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Processos Primários — poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho 1996, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro, ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Processos Primários — poemas (1996), Deslocamento do Feminino — A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011), etc; ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Maria Rita Kehl: corte de cabelos para ficar triste

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Tipo faça-você-mesma. Trabalho incansável.
Pode durar uma noite  ou mais  fio por fio 
a memória na ponta da tesoura,
obcecada.
Medo crescente. Medo até a paixão.
Ou até conferir pelo espelho:
aquela lá morreu mesmo.

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Processos Primários — poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho, 1996, Estação Liberdade, São Paulo — SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro, ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Processos Primários — poemas (1996), Deslocamento do Feminino — A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011), etc; ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Maria Rita Kehl: literária

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A poesia de Cummings: antipática de tão pessoal.
Ezra Pound, um atleta das bibliotecas.
Faço o caminho precário, de pedra em pedra, saltando rápido pra não cair.
Concentração difusa: quem me diz hoje pode ser Novalis
ou o poeta que acabo de descobrir  "me importa a felicidade de todas as coisas".
Pulo fora. Telefono pra você. Sei tomar atitudes assim, numa emergência: conectar com o sexo o que está desligado,
premente, sem nome pairando aflito à flor da inteligência.

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Processos Primários  poemas, Prefácio de Armando Freitas Filho, 1996, Estação Liberdade, São Paulo  SP; Maria Rita Kehl, nascida em 1951, paulista de Campinas, formada em Psicologia pela USP Universidade de São Paulo, é psicanalista, jornalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista; começou a escrever para o Jornal do Bairro, ainda quando cursava a graduação, depois participou da edição do jornal Movimento, um dos mais importantes da chamada imprensa alternativa que vicejou durante o regime militar pós 1964, e também do Em Tempo, outro semanário, e já atuou como jornalista 'freelancer' para diversos jornais e revistas; escreveu e publicou Processos Primário poemas (1996), Deslocamento do Feminin A Mulher Freudiana na Passagem para a Modernidade (1998), Função Fraterna (2000), Sobre Ética e Psicanálise (2000), O Tempo e o Cão (2010), 18 crônicas e mais algumas (2011), etc; ganhou o Prêmio Jabuti de Literatura na categoria "Educação, Psicologia e Psicanálise" com a obra O Tempo e o Cão, em 2010; integrou a Comissão Nacional da Verdade, instalada em 2012 para apurar as violações aos Direitos Humanos havidas no período de 1946 a 1988 no país.

sábado, 10 de março de 2012

Maria Rita Kehl: Amor e Dor


Resultado de imagem para Poesia Jovem — Anos 70, Literatura Comentada,
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Quanto mais você demora
mais me assalta.

Depois
não sei se quero o homem que me chega
ou o que me
falta.

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Poesia Jovem  Anos 70, Literatura Comentada, Seleção de textos, notas, estudos biográfico, histórico e crítico e exercícios por: Heloísa Buarque de Holanda e Carlos Alberto Messeder Pereira, Editora Abril, 1982, São Paulo SP; Maria Rita Kehl, nascida em Campinas  SP, em 1951, é psicanalista, ensaísta, crítica literária, poetisa e cronista, com diversos livros publicados.

domingo, 10 de outubro de 2010

Maria Rita Kehl: Dois pesos... (e duas medidas!)

Reproduzo o texto de autoria de Maria Rita Kehl, publicado no Estadão de 02 de outubro último, texto este que não deve ter saído ao gosto dos donos daquela empresa de comunicação. Se sim, como entender o fato da autora, colunista e psicanalista ter tido sua coluna quinzenal "descontinuada" das páginas do grupo empresarial dos Mesquita? Eis, enfim,  um exemplo de mídia que se diz censurada, proclama ser contra a censura, polemiza acerca da regulação dos meios de comunicação e se afirma a favor da liberdade de imprensa. Dois pesos... e duas medidas! Clique no título acima, para ler sobre a repercussão do assunto na blogosfera.
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Dois pesos...
02 de outubro de 2010 | 0h 00
Maria Rita Kehl - O Estado de S.Paulo
Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.
Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.
Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por "uma prima" do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.
Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da "esmolinha" é político e revela consciência de classe recém-adquirida.
O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de "acumulação primitiva de democracia".
Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.
Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos. 
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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.

Chauí fala sobre eleições, mídia, Governo PT/Lula e aliados, política...

Para leitura e reflexão dos leitores e eleitores, reproduzo parte da entrevista da pensadora Marilena Chauí dada à Rede Brasil Atual, parte esta divulgada em http://www.redebrasilatual.com.br.
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POLÍTICA

'Desinformação' não serve à democracia, diz Marilena Chauí

Em entrevista exclusiva à Rede Brasil Atual, a professora de filosofia da USP aponta setores ruralistas e classe média urbana como focos de anti-Lula. Ela faz reiteradas críticas à ameaça à liberdade de expressão provocada pela concentração dos meios de comunicação










Publicado em 10/10/2010, 13:22
Última atualização às 13:22

'Desinformação' não serve à democracia, diz Marilena Chauí
"Vão pintar a saracura, como diria minha mãe. Mas é isso aí. Deixa pintar a saracura que nós ficamos em pé", diz professora da USP (Foto: Filipe Chaves/UFMG)
São Paulo – Marilena Chauí pensa que a velha mídia está nos seus estertores. A filósofa e professora da Universidade de São Paulo (USP) entende que o surgimento da internet, o crescimento das alternativas e as atuais eleições delineiam o fim de um modelo.
A professora, que deixou de escrever e de falar para a velha mídia por não concordar com a postura de vários desses veículos, entende que a imprensa tem papel fundamental para a ausência de debate de temas-chave nas atuais eleições, alimentando questões que favorecem à candidatura de José Serra (PSDB).
Ela considera que não é possível falar de democracia quando se tem o poder da comunicação concentrado em poucas famílias, sem que a sociedade tenha a possibilidade de contestação. Após ato pró-Dilma Rousseff (PT), na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, no centro da capital paulista, a filósofa manifestou à Rede Brasil Atual que os ruralistas e a classe média urbana são os setores que alimentam o ódio a Lula.
Marilena Chauí aponta, sempre em meio a muitos gestos e a uma fala enfática, que o presidente jamais será perdoado. O motivo? Combateu a desigualdade no país.
Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista.
Rede Brasil Atual – O único ponto aparente de consenso entre os institutos de pesquisa é quanto à aprovação do governo Lula. Que grupos estão entre os 4% da população que consideram ruim ou péssimo o desempenho do presidente?
Marilena Chauí - É um mistério para mim. Tudo que tenho ouvido, sobretudo no rádio, em entrevistas sobre os mais diversos temas, vai tudo muito bem. Os setores que eu imaginaria que diriam que o governo ruim não são. Surpreendentemente.
Mas há dois setores que são "pega pra capar". Um é evidentemente a agroindústria, mas é assim desde o primeiro governo Lula. Eles formam esse mundo ruralista que o DEM representa. Não são nem adversários, são inimigos. Inimigos de classe.
"A classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora." – Marilena Chauí
O segundo setor é a classe média urbana, que está apavorada com a diminuição da desigualdade social e que apostou todas suas fichas na ideia de ascensão social e de recusa de qualquer possibilidade de cair na classe trabalhadora. Ao ver o contrário, que a classe trabalhadora ascende socialmente e que há uma distribuição efetiva de renda, se apavorou porque perdeu seu próprio diferencial. E seu medo, que era de cair na classe trabalhadora, mudou. Foram invadidos pela classe trabalhadora.
Rede Brasil Atual – Os trabalhadores têm reconquistado direitos e, com isso, setores do empresariado reclamam que há risco de perda de competitividade pelo mercado brasileiro.
Marilena Chauí – Isso é uma conversa para a campanha eleitoral. É coisa da Folha, do Estadão, do Globo, da Veja, não é para levar a sério. E se você for lá e pedir para provar (que perderia competitividade), vão dizer que não falaram, que foi fruto das circunstâncias. Eles sabem que é uma piada isso que estão dizendo, não tem qualquer consistência.
Rede Brasil Atual – A senhora passou por uma situação parecida à da psicanalista Maria Rita Kehl, agora dispensada pelo Estadão por ter elogiado o governo Lula...
Marilena Chauí – Não foi parecida porque não fui demitida. Eu disse a eles que me recusava a escrever lá. Tanto no Estado quanto na Folha. Tomei a iniciativa de dizer a eles que não teriam minha colaboração.
Quando li o artigo da Maria Rita Kehl, pensei mesmo que poderia dar algum problema. Como é que o Estadão deixou o artigo sair? Era de se esperar que houvesse uma censura prévia.
Agora, se você tomar o que aconteceu nos últimos oito ou nove anos, vai ver que houve uma peneirada e uma parte das pessoas de esquerda simplesmente desistiu de qualquer relação com a mídia. Outras tiveram relação esporádica em momentos muito pontuais em que era preciso se expressar publicamente.
Houve, em um primeiro momento, um deslocamento das pessoas de esquerda para o Estadão, mas um deslocamento que não tinha como durar porque o jornal não tinha como abrigar esse tipo de pensamento.
Desapareceu para valer qualquer pretensão da mídia até mesmo de se oferecer sob uma perspectiva liberal. E sob uma perspectiva democrática. É formidável que no momento em que dizem que nós, do PT, ameaçamos a liberdade de imprensa, eles demitam a Maria Rita.
O que acho, com o segundo turno das eleições de Lula e as eleições da Dilma, é que há um estilo de mídia que está nos seus estertores. O fato de que haja internet e mídia alternativa que se espalha pelo Brasil inteiro muda completamente o padrão.
Passa-se de jornais que tinham função de noticiar para jornais que têm a função de opinar, o que é um contrassenso. A busca pela notícia faz com que não se vá mais em direção ao jornal, vá se buscar em outros lugares.
Rede Brasil Atual – Em períodos eleitorais, tem sido recorrente a associação entre mídia e partidos políticos. Qual a implicação disso na tentativa de consolidação da democracia?
Marilena Chauí – Isso é o que atrapalha a democracia do ponto de vista da liberdade do pensamento e de expressão. O que caracteriza uma sociedade democrática é o direito de produzir informação e de receber informação, de modo que possa circular, ser transformada. O que se tem é a ausência da informação, a manipulação da opinião e a mentira.
Acabo de ver em um site a resposta do Marco Aurélio Garcia (um dos coordenadores de campanha de Dilma) à manchete da Folha. Como é que a Folha dá manchete falando que Dilma vai tirar a questão do aborto do programa de governo se essa questão não está no programa? É dito qualquer coisa.
"Desapareceu o compromisso mínimo com a verdade, o compromisso mínimo com a informação. É uma coisa de partido, puramente ideológica, perversa, de produção da mentira. (...) A desinformação. Isso não serve para a democracia." – Marilena Chauí
Desapareceu o compromisso mínimo com a verdade, o compromisso mínimo com a informação. É uma coisa de partido, puramente ideológica, perversa, de produção da mentira. Isso me lembra muito um ensaio que Hannah Arendt escreveu na época da Guerra do Vietnã. Ela comentava as mentiras que a TV, o rádio e os jornais apresentavam. Apresentavam a vitória no Vietnã, até o instante em que a mentira encontrou um limite tal nos próprios fatos que a verdade teve que aparecer. Ela chamou isso de crise da República, que é quando tem a mentira no lugar da informação. Ou seja, a desinformação. Isso não serve para a democracia.
Rede Brasil Atual - O governo Lula teve, internamente, a convivência de polos opostos. Talvez tenha sido o primeiro a ter, por exemplo, Ministério de Desenvolvimento Agrário voltado a agricultura familiar e dialogando com o MST e o Ministério da Agricultura, voltado para o agronegócio. O governo e o presidente se saíram bem na tarefa de fazer opostos conviverem?
Marilena Chauí - Sim. E isso é um talento peculiar que o presidente Lula tem, de ser um negociador nato. Como uma boa parte do trabalho do governo foi feita pela Casa Civil, podemos dizer que Dilma Rousseff tem a capacidade de fazer esse trânsito e essa negociação.
Rede Brasil Atual - Mas como explicar as reações provocadas?
Marilena Chauí - Duas coisas são muito importantes com relação ao atual governo. A primeira é que o governo Lula jamais será perdoado por ter enfrentado a questão da desigualdade social. Lula enfrentou a partir da própria figura dele. O fato de você ter um presidente operário, que tem o curso primário (Lula tem o ensino médio completo), significou a ruína da ideologia burguesa. Todos os critérios da ideologia burguesa para ocupar este posto (Presidência da República), que é ser da elite financeira, ter formação universitária, falar línguas estrangeiras, ter desempenho de gourmet... Enfim, foi descomposta uma série de atrativos que compõem a figura que a burguesia compôs para ocupar a Presidência. Ponto por ponto.
"Alguém tinha de vir das classes trabalhadoras para dizer o que precisa fazer no Brasil. Os governos anteriores sequer levavam em conta que isso (desigualdade social) existia." – Marilena Chauí, professora de filosofia da USP
A burguesia brasileira e a classe média protofascista nunca vão perdoar isso ter acontecido. Imagine como eles se sentem. Houve (Nelson) Mandela, Lula, (Barack) Obama, (Hugo) Chávez. É muita coisa para a cabeça deles. É insuportável. É a sensação de fim de mundo.
Tudo que fosse possível fazer para destruir esse governo foi feito. Por que não caiu? Não caiu porque foi capaz de operar a negociação entre os polos contrários. Isso é uma novidade no caso do Brasil porque, normalmente, opera-se por exclusão. O que o governo fez foi operar por entendimento. E a possibilidade de corrigir uma coisa pela outra.
Agora, há milhares de problemas que o próximo governo vai ter de enfrentar. Não podemos cobrar de nós mesmos que façamos em oito ou em 16 anos o que não foi feito em 500. Mas quando se olha o que já foi feito, leva-se um susto. A redução da desigualdade, a inclusão no campo dos direitos de milhões de pessoas, o Luz para Todos, a casa (Minha Casa, Minha Vida), o Bolsa-Família, a (geração de empregos com) carteira assinada... É uma coisa nunca feita no Brasil.
Rede Brasil Atual - A sra. faz uma avaliação muito positiva do governo. Por que essas medidas não ocorreram antes?
Marilena Chauí - Alguém tinha de vir das classes trabalhadoras para dizer o que precisa fazer no Brasil. Os governos anteriores sequer levavam em conta que isso existia. O máximo que existia era o incômodo de ver essa gente pela rua, embaixo da ponte, fazendo greve, no ponto de ônibus, caindo pelas tabelas na condução pública. Era uma coisa assim que incomodava - (diziam:) "é meio feio, né? É antiestético". O máximo de reação que a presença de classes populares causava era por serem antiestéticos. É a primeira vez que essa classe foi levada a sério.
Eles vão estrebuchar, vão gritar, vão xingar. Vão pintar a saracura, como diria minha mãe. Mas é isso aí. Deixa pintar a saracura que nós ficamos em pé.
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Genésio dos Santos é aprendiz de blogueiro e tem um lado; entorta, mas não verga pra direita.