Olhem para mim e vejam
que no meu masculino
meu feminino é lindo.
Ornamental,
para a sociedade tão sacal,
a minha alma tão natural.
Experimento,
já que no fluido que sou
tudo está em movimento.
És lindo.
Mas eu tenho que ser findo?
Para quem me resumi a um menino?
Para rodar a saia
tenho que ter uma vagina?
Deixar que me determinem
a um ponto na esquina?
Para ser viril
tenho que negar
a flor do meu gentil?
Em ideologias brigar?
E rezar pra um dia estar
onde eu sempre pude transitar?
Porque tenho que ser Marina?
Ou me conformar em ser Roberto?
Mas se tudo no ser é incerto,
eu só não posso ser liberto?
Sou, fui.
Serei, seremos.
Será que o mundo todo
está em dois extremos?
Em duas caixas?
Só por fugir disso tenho uma moral baixa?
Mas, e se minha alma não se encaixa?
Querido, querida, queride,
E se eu lhe contar que ainda há quem duvide?
Da identidade de pessoas
que só querem ser felizes,
reconhecides e ouvides.
Bom, mas e se eu for
quem dizem quem eu sou
Tudo bem, me deixe que eu vou
aos poucos descobrir.
Só me deixe fluir
para nessa ideologização
de homem e mulher
eu não sucumbir.
Não precisamos ser eternamente
o que nos determinaram
quando nascemos.
Nós somos transformação,
tudo isso é construção.
É que para o capital
para onde eu vou é contra-mão!
Tudo isso é nascer.
Tudo isso é viver.
Tudo isso é ser.
Na boa, quem tá recitando isso aqui
não é Lucas,
é Luq, muito prazer!
“Eu quero nascer
é Luq, muito prazer!
“Eu quero nascer
Quero viver
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”. *
* Nota do Verso e Conversa: O atrevido aprendiz de blogueiro desta página registra que os versos em itálico são fragmentos da composição ‘Preciso me encontrar’, letra e música de Candeia; clique no título lá em cima, veja o vídeo e ouça a música nas vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte e instrumentação musical de Yamandu Costa e Hamilton de Holanda.
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Antologia Trans — 30 poetas
trans, travestis e não binários, Apresentação do espaço Aquilo que a nós veio,
gerado do Cursinho Popular Transformação e do TRANSarau, texto-introdução de Linn da quebrada e Prefácio de Amara Moira, 2017, Editora Invisíveis Produções, São Paulo — SP; sobre Luq Souto Ferreira, assim como
sobre todos os demais autor(e)s dos demais textos desta Antologia Trans, nenhum traço
biobliográfico foi registrado pela edição; em pesquisa ‘googleana’, o atrevido
aprendiz de blogueiro deste Verso e Conversa também nada encontrou; a visitant(e)s
e leitor(e)s deste blogue, fica a dica: quem encontrar alguma notícia referente a autor(e)s aqui editados, e quiser/puder compartilhar, o blogueiro-piloto desta
página agradece.