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segunda-feira, 24 de abril de 2023

Boris Pasternak: Ah, se eu antes soubera desta sina, . . .


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[traduzido por Haroldo de Campos
e Boris Schnaiderman]

Ah, se eu antes soubera desta sina,
Quando me preparava para a estreia,
Que há morte nestas linhas, assassinas!,
Como um golpe de sangue na traquéia.

Os folguedos desta busca de avessos
Eu deixaria, inúteis, de uma vez 
Já tão remoto o esforço do começo,
Tão temeroso o primeiro interesse.

Mas a velhice é Roma. Não lhe peça
Que venha com estórias de ninar.
Ela exige do ator mais que uma peça,
Uma entrega total, um naufragar.

Quando o verso é um ditado do mais íntimo,
Ele imola um escravo em cena aberta.
E aqui termina a arte, o pano fecha,
Ao respirar da terra e do destino.

1932

Boris Pasternak

О, знал бы я, что так бывает

О, знал бы я, что так бывает,
Когда пускался на дебют,
Что строчки с кровью убивают,
Нахлынут горлом и убьют!

От шуток с этой подоплекой
Я б отказался наотрез.
Начало было так далеко,
Так робок первый интерес.

Но старость это Рим, который
Взамен турусов и колес
Не читки требует с актера,
А полной гибели всерьез.

Когда строку диктует чувство,
Оно на сцену шлет раба,
И тут кончается искусство,
И дышат почва и судьба.

1932 r.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Boris Pasternak: Ser famoso não é bonito. . . .


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[traduzido por Augusto de Campos]

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves dissociar
Teu sucesso de teu fracasso.

Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

1956-1960

Boris Pasternak

Быть знаменитым некрасиво.

Быть знаменитым некрасиво.
Не это подымает ввысь.
Не надо заводить архива,
Над рукописями трястись.

Цель творчества самоотдача,
А не шумиха, не успех.
Позорно, ничего не знача,
Быть притчей на устах у всех.

Но надо жить без самозванства,
Так жить, чтобы в конце концов
Привлечь к себе любовь пространства,
Услышать будущего зов.

И надо оставлять пробелы
В судьбе, а не среди бумаг,
Места и главы жизни целой
Отчеркивая на полях.

И окунаться в неизвестность,
И прятать в ней свои шаги,
Как прячется в тумане местность,
Когда в ней не видать ни зги.

Другие по живому следу
Пройдут твой путь за пядью пядь,
Но пораженья от победы
Ты сам не должен отличать.

И должен ни единой долькой
Не отступаться от лица,
Но быть живым, живым, и только,
Живым и только до конца.

1956 r.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Boris Pasternak: Minha irmã vida hoje se desborda, . . .


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[traduzido por Haroldo de Campos
e Boris Schnaiderman]

Minha irmã vida hoje se desborda,
Desfaz-se contra todos como chuva.
Ó gente de berloques que rabuja
E ferroa polida feito cobra!

Os bem-postos terão razões aos centos,
Mas de tuas razões quem não rirá?
Olhos e relvas roxas na tormenta
E o horizonte odora a resedá.

Quando em maio, você, estrada afora,
Lê horários de trem, ramais floridos,
Mais grandeza que nos Livros de Horas
Há nisto, e os olhos quedos, absorvidos.

Quando apenas o ocaso reverbera
Sitiantes à beira-ferrovia,
Percebi que a estação não era esta
E o sol-posto de mim se condoía.

Três salpicos de sino: o trem se afasta.
 Não é aqui! se desculpa, aos rechaços.
No vagão, odor de noite queimada.
Dos degraus a estepe cai para os astros.

Piscapiscando, a amada, olhos mortiços,
Fata-morgana sonhava lá fora.
O coração borrifa os passadiços
E expulsa para a estepe as portinholas.

1917

Boris Pasternak

Сестра моя жизнь . . .

Сестра моя жизнь и сегодня в разливе
Расшиблась весенним дождем обо всех,
Но люди в брелоках высоко брюзгливы
И вежливо жалят, как змеи в овсе.

У старших на это свои есть резоны.
Бесспорно, бесспорно смешон твой резон,
Что в грозу лиловы глаза и газоны
И пахнет сырой резедой горизонт.

Что в мае, когда поездов расписанье
Камышинской веткой читаешь в купе,
Оно грандиозней святого писанья
И черных от пыли и бурь канапе.

Что только нарвется, разлаявшись, тормоз
На мирных сельчан в захолустном вине,
С матрацев глядят, не моя ли платформа,
И солнце, садясь, соболезнует мне.

И в третий плеснув, уплывает звоночек
Сплошным извиненьем: жалею, не здесь.
Под шторку несет обгорающей ночью
И рушится степь со ступенек к звезде.

Мигая, моргая, но спят где-то сладко,
И фата-морганой любимая спит
Тем часом, как сердце, плеща по площадкам,
Вагонными дверцами сыплет в степи.

Лето 1917
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

Boris Pasternak: Hamlet


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[traduzido por Augusto de Campos]

O murmúrio cessou. Subo ao tablado.
Apoiado ao umbral da porta,
Procuro distinguir no eco apagado
Os desígnios da minha sorte.

A penumbra da noite me devassa
Por trás de mil binóculos iguais.
Se for possível, Abba, meu pai,
Afasta de mim essa taça.

Amo a Tua obstinada trama
E aceito o papel que me foi dado.
Mas agora representam outro drama.
Ao menos dessa vez, deixa-me de lado.

Mas a ordem das cenas foi prevista
E a estrada chega fatalmente ao fim.
Estou só. Tudo afunda em farisaísmo.
Viver não é passear por um jardim.

1957(?)

Boris Pasternak

Гамлет

Гул затих. Я вышел на подмостки.
Прислонясь к дверному косяку,
Я ловлю в далеком отголоске,
Что случится на моем веку.

На меня наставлен сумрак ночи
Тысячью биноклей на оси.
Если только можно, Aвва Oтче,
Чашу эту мимо пронеси.

Я люблю Твой замысел упрямый
И играть согласен эту роль.
Но сейчас идет другая драма,
И на этот раз меня уволь.

Но продуман распорядок действий,
И неотвратим конец пути.
Я один, все тонет в фарисействе.
Жизнь прожить не поле перейти.

1957(?)
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Boris Pasternak: A Morte do Poeta


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Não queríamos crer delírio!
Mas dois, três, todos, incessantes,
O repetiam. Ajustados no trilho
Do instante, estacavam os domicílios
De burocratas e comerciantes.
Áreas e árvores, e no alto sobre os galhos
Corvos no fumo do sol fogo
Ralhavam como esposas-gralhas:
Que não metessem o nariz no pecado
As tolas! Todas ao diabo!
Mas nos rostos, um úmido descomposto
Como nas pregas de uma rede rota.

Um dia inócuo, inócuo, mais inócuo
Que uma dezena de teus dias passados.
No vestíbulo, a turba se coloca
Em fila, premida por um disparo.

Como um jorro de lúcios e de bremas
Achatados, cuspidos das maremas
Pelo estouro de um petardo entre caniços,
Como um suspiro de tiros não-fictícios.

O leito armado sobre a maledicência,
Você dormia, agora plácido, em paz.
Vinte e dois anos, belo, e a pré-ciência
De tudo isto em teu poema quadriparte*.

Você dormia, rosto preso ao travesseiro,
Dormia, a plenas pernas, a plenos tornozelos,
Penetrando de novo, de um só golpe,
No fabulário das legendas jovens.

E penetrando da maneira mais direta
Porque nele você entrava de um salto.
Teu disparo parecia um Etna
Sobre encostas de covardes e de fracos.

1930

Boris Pasternak

Смерть поэта

Не верили, считали бредни,
Но узнавали от двоих,
Троих, от всех. Равнялись в строку
Остановившегося срока
Дома чиновниц и купчих,
Дворы, деревья, и на них
Грачи, в чаду от солнцепека
Разгоряченно на грачих
Кричавшие, чтоб дуры впредь не
Совались в грех, да будь он лих.
Лишь бы на лицах влажный сдвиг,
Как в складках порванного бредня.

Был день, безвредный день, безвредней
Десятка прежних дней твоих.
Толпились, выстроясь в передней,
Как выстрел выстроил бы их.

Как, сплющив, выплеснул из стока б
Лещей и щуку минный вспых
Шутих, заложенных в осоку,
Как вздох пластов нехолостых.

Ты спал, постлав постель на сплетне,
Спал и, оттрепетав, был тих,
Красивый, двадцатидвухлетний.
Как предсказал твой тетраптих.

Ты спал, прижав к подушке щеку,
Спал, со всех ног, со всех лодыг
Врезаясь вновь и вновь с наскоку
В разряд преданий молодых.
Ты в них врезался тем заметней,
Что их одним прыжком достиг.
Твой выстрел был подобен Этне
В предгорьи трусов и трусих.

1930

* Nota do tradutor Haroldo de Campos: Alusão ao poema “A Nuvem de Calças”, composto de um prólogo e quatro partes, escrito por Maiakóvski em 1915, quando ele tinha 22 anos.
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Boris Pasternak: Definição de Poesia


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[traduzido por Haroldo de Campos]

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado.
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

1917

Boris Pasternak

Определение поэзии

Это круто налившийся свист,
Это щелканье сдавленных льдинок,
Это ночь, леденящая лист,
Это двух соловьев поединок,

Это сладкий заглохший горох,
Это слезы вселенной в лопатках,
Это с пультов и флейт Фигаро
Низвергается градом на грядку.

Все, что ночи так важно сыскать
На глубоких купаленных доньях,
И звезду донести до садка
На трепещущих мокрых ладонях.

Площе досок в воде духота.
Небосвод завалился ольхою.
Этим звездам к лицу б хохотать,
Ан вселенная место глухое.

1917
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Poesia Russa Moderna [vários autores] — Traduções e Notas de Augusto e Haroldo de Campos e de Boris Schnaiderman, com revisão e colaboração mútuas dos tradutores, e Prefácios da 1ª e 2ª edições de Boris Schnaiderman, Coleção Signos Volume 33, 2ª reimpressão da 6ª edição, 2012, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.

terça-feira, 14 de abril de 2015

Boris Pasternak: Sobre estes Versos

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[Traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]

Pelas calçadas trituro
Meio a meio, vidro e sol.
Abro no frio para o sótão,
Dou de ler aos cantos úmidos.

A água-furtada recita
À neve, por esquadrias.
Pula-pulando às cornijas
Penas, cenas, bizarrias.

Varre o fim, cobre o início,
Meses a fio, a nortada.
Me lembro que o sol existe!
E a luz, como está mudada!

Natal  pequenina pega,
E a tardinha dissoluta
Mostrou-me e à minha dileta
Quanta coisa que era oculta.

Cache-nez, rosto escondido,
Grito aos meninos lá fora:
Queridos (pelo postigo)
Que milênio soa agora?

Quem à porta rompe em rumo
Da furna, poeira só,
Enquanto eu com Byron fumo
E viro a taça com Poe?

Darial me serve de abrigo 
De inferno, arsenal, paiol.
E embebo a vida no vinho.
Lábios. Tremor. Liermontóv.

Boris Pastermak

Про эти стихи

На тротуарах истолку
С стеклом и солнцем пополам,
Зимой открою потолку
И дам читать сырым углам.

Задекламирует чердак
С поклоном рамам и зиме,
К карнизам прянет чехарда
Чудачеств, бедствий и замет.

Буран не месяц будет месть,
Концы, начала заметет.
Внезапно вспомню: солнце есть;
Увижу: свет давно не тот.

Галчонком глянет Рождество,
И разгулявшийся денек
Прояснит много из того,
Что мне и милой невдомек.

В кашне, ладонью заслонясь,
Сквозь фортку крикну детворе:
Какое, милые, у нас
Тысячелетье на дворе?

Кто тропку к двери проторил,
К дыре, засыпанной крупой,
Пока я с Байроном курил,
Пока я пил с Эдгаром По?

Пока в Дарьял, как к другу, вхож,
Как в ад, в цейхгауз и в арсенал,
Я жизнь, как Лермонтова дрожь,
Как губы в вермут окунал.

[1917]
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Quatro Mil Anos de Poesia — vários autores, Organização e Prefácio de J. Guinsburg e Introdução de Zulmira Ribeiro Tavares, 1969, Editora Perspectiva, São Paulo — SP; Boris Leonidovitch Pasternak (1890 1960), russo de Moscou, foi poeta, romancista, crítico e tradutor; estudou composição no Conservatório de Moscou, filologia na Universidade de Moscou e, mais tarde, cursou filosofia na Alemanha; escreveu e publicou, entre outros títulos em verso e prosa, Temas e Variações (poesia, 1917), Minha Irmã, Vida (poesia, 1922), Salvo-conduto (autobiografia romanceada, 1931), Nascer de Novo (prosa, 1932), Poemas Coligidos, Nos Trens Matinais (poesia), Doutor Jivago (romance, publicado inicialmente na Itália, 1957); Pasternak é considerado, por suas versões das tragédias de Shakespeare, do Fausto de Goethe, de Rainier Maria Rilke, de Petöffi e outros autores georgianos, um dos mais notáveis tradutores russos de poesia; no auge da Guerra Fria (Estados Unidos versus União Soviética), em 1958, com a publicação de Doutor Jivago no ocidente, o escritor e poeta foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura, mas, por intensas pressões políticas de autoridades e da imprensa russa, recusou-se a recebê-lo.