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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Vinicius de Moraes: Desaparição de Tenório Júnior

 
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Sei que agora estás só. Não ouço nada
Do som do teu piano.
Sei que estás só, apenas respirando
O branco pó da madrugada
E indefinidamente caminhando
Caminhando sem fim por uma estrada
Ninguém sabe por quê, como nem quando.

Sei somente que vieram e te levaram
Para um grande vazio
O céu te pareceu desmesurado
Cheio de estrelas que faziam frio.
Tinhas os olhos brancos das estátuas
e os zigomas contraídos
Havia pó e sangue em tua barba
E o tempo de um sorriso.

Sei que estás muito só, muito em silêncio
Como dentro de um túnel.
Mas caminhas, no branco trip imenso
Do princípio e do fim que se confundem.
Do pó vieste, ao pó voltaste enfim
Amigo terno e puro...
Dize-me agora, apenas para mim:
A morte é branca assim, Tenório Júnior?

Buenos Aires, 25 de março de 1976: uma semana depois de sua misteriosa e total desaparição

[Poema inédito — extraído de documentos do Arquivo-Museu
de Literatura Brasileira (AMLB) da Fundação Casa de Rui Barbosa]

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50 poemas macabros [inclui poemas inéditos]: Vinicius de Moraes, Organização e Posfácio de Daniel Gil, Ilustrações de Alex Cerveny, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Vinicius de Moraes (1913 1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford Inglaterra; foi poeta, crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para o filme Orfeu Negro, que se tornaria premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; seus principais parceiros na música: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra ...; como crítico de cinema, trabalhou no jornal A Manhã; foi colaborador da revista Clima e dirigiu o suplemento literário de O Jornal; obras poéticas: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.; produção musical, discografia: Orfeu da Conceição (1956), Vinicius e Odette Lara (1963), Vinicius e Caymmi (1965), Os Afro-Sambas: Baden e Vinicius (1966), Vinicius: poesia e canção (volumes I e II, 1966), Vinicius em Portugal (1969), Como dizia o poeta: Vinicius, Marilia Medalha e Toquinho (1971), Vinicius, Bethânia e Toquinho: En La Fusa — Mar del Plata (1971), Poeta, moça e violão: Vinicius, Clara Nunes e Toquinho (1973), O Poeta e o Violão: Toquinho e Vinicius (1975), A Arca de Noé (músicas para crianças, 1980), Um pouco de ilusão: Toquinho e Vinicius (1980) ...; como diplomata, atuou em Los Angeles Estados Unidos, Paris França, Roma Itália e Montevidéu Uruguai; em 1968, período de ditadura militar, foi afastado da carreira diplomática e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, com a alegação de ter comportamento boêmio, e que isso o impedia de cumprir funções diplomáticas; em 1998, o poeta foi anistiado (post-mortem) pela Justiça brasileira.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Vinicius de Moraes: O poeta Hart Crane* suicida-se no mar

 
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Quando mergulhaste na água
Não sentiste como é fria
Como é fria assim na noite
Como é fria, como é fria?
E ao teu medo que por certo
Te acordou da nostalgia
(Essa incrível nostalgia
Dos que vivem no deserto...)
Que te disse a Poesia?

Que te disse a Poesia
Quando Vênus que luzia
No céu tão perto (tão longe
Da tua melancolia...)
Brilhou na tua agonia
De moribundo desperto?

Que te disse a Poesia
Sobre o líquido deserto
Ante o mar boquiaberto
Incerto se te engolia
Ou ao navio a rumo certo
Que na noite se escondia?

Temeste a morte, poeta?
Temeste a escarpa sombria
Que sob a tua agonia
Descia sem rumo certo?
Como sentiste o deserto
O deserto absoluto
O oceano absoluto
Imenso, sozinho, aberto?

Que te falou o Universo
O Infinito a descoberto?
Que te disse o amor incerto
Das ondas na ventania?
Que frouxos de zombaria
Não ouviste, ainda desperto
Às estrelas que por certo
Cochichavam luz macia?

Sentiste angústia, poeta
Ou um espasmo de alegria
Ao sentires que bulia
Um peixe nadando perto?
A tua carne não fremia
À ideia da dança inerte
Que teu corpo dançaria
No pélago submerso?

Dançaste muito, poeta
Entre os véus da água sombria
Coberto pela redoma
Da grande noite vazia?
Que coisas viste, poeta?
De que segredos soubeste
Suspenso na crista agreste
Do imenso abismo sem meta?

Dançaste muito, poeta?
Que te disse a Poesia?

Rio, 1953

(Novos Poemas II — 1959)


* Nota do blogue Verso e Conversa: O atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página, registra o contido no ‘tag’ ‘Hart Crane’ desta página:
Harold Hart Crane (1899 — 1932), estadunidense de Garretsville, Ohio, foi poeta e escritor; de sua biografia, por seus principais estudiosos, ficamos sabendo que o poeta, que em parte de sua infância e juventude morou com a avó, nunca superou seu problema psicológico originado pelos desentendimentos com o pai e, deste, com a mãe, problema de resto não resolvido, e talvez daí derivasse a raiz de seu homossexualismo e também de seu alcoolismo incontrolável; bibliografia: White Buildings (Edifícios Brancos, 1926), The Bridge (A Ponte, 1930), The Collected Poems of Hart Crane (Os poemas coletados de Hart Crane, 1933); o poeta, depois de ter obtido uma bolsa de estudos no México e lá ter permanecido por algum tempo, em sua viagem de retorno por via marítima, cometeu suicídio atirando-se às águas.
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50 poemas macabros [inclui poemas inéditos]: Vinicius de Moraes, Organização e Posfácio de Daniel Gil, Ilustrações de Alex Cerveny, 2023, Companhia das Letras, São Paulo — SP; Vinicius de Moraes (1913 1980), carioca, estudou no Colégio Santo Inácio, na Faculdade Nacional de Direito (atual UFRJ) e língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford Inglaterra; foi poeta, crítico de cinema, autor teatral (escreveu Orfeu da Conceição, que serviu de roteiro para o filme Orfeu Negro, que se tornaria premiado), letrista concorrido da Música Popular Brasileira e diplomata; seus principais parceiros na música: Tom Jobim, Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque, Carlos Lyra ...; como crítico de cinema, trabalhou no jornal A Manhã; foi colaborador da revista Clima e dirigiu o suplemento literário de O Jornal; obras poéticas: O caminho para a distância (1933), Forma e exegese (1935), Ariana, a mulher (1936), Novos Poemas (1938), Poemas, Sonetos e Baladas (1946), Novos Poemas II (1959), Para viver um grande amor (1964) etc.; produção musical, discografia: Orfeu da Conceição (1956), Vinicius e Odette Lara (1963), Vinicius e Caymmi (1965), Os Afro-Sambas: Baden e Vinicius (1966), Vinicius: poesia e canção (volumes I e II, 1966), Vinicius em Portugal (1969), Como dizia o poeta: Vinicius, Marilia Medalha e Toquinho (1971), Vinicius, Bethânia e Toquinho: En La Fusa — Mar del Plata (1971), Poeta, moça e violão: Vinicius, Clara Nunes e Toquinho (1973), O Poeta e o Violão: Toquinho e Vinicius (1975), A Arca de Noé (músicas para crianças, 1980), Um pouco de ilusão: Toquinho e Vinicius (1980) ...; como diplomata, atuou em Los Angeles Estados Unidos, Paris França, Roma Itália e Montevidéu Uruguai; em 1968, período de ditadura militar, foi afastado da carreira diplomática e aposentado compulsoriamente pelo Ato Institucional nº 5, com a alegação de ter comportamento boêmio, e que isso o impedia de cumprir funções diplomáticas; em 1998, o poeta foi anistiado (post-mortem) pela Justiça brasileira.

quarta-feira, 13 de abril de 2022

José Paulo Paes: Sem barra

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Enquanto a formiga
carrega comida
para o formigueiro,
a cigarra canta,
canta o dia inteiro.

A formiga é só trabalho.
A cigarra é só cantiga.

Mas sem a cantiga
da cigarra
que distrai da fadiga,
seria uma barra
o trabalho da formiga!

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Varal de Poesia — José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana e Fernando Paixão, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

sábado, 26 de fevereiro de 2022

José Paulo Paes: Barriga cheia & Metamorfose

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Barriga cheia

Olha lá
o tamanduá
tomando ar!

Sua língua comprida
entra feito lombriga
no formigueiro
para comer formiga.

Olha lá, olha lá!
Quem disse que formiga
não enche barriga
de tamanduá?

Metamorfose

Me responda você
que parece um sabichão:

Se lagarta vira borboleta
por que trem não vira avião?

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Varal de Poesia — José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana e Fernando Paixão, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Fernando Paixão: Macacalho

 
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Tinha no campo um espantalho
Que há muito tempo achava chato
Ficar sempre parado
Plantado no meio do mato.

O macaco por sua vez
Corria sem nunca parar.
Subia e descia qualquer lugar
Com a mesma rapidez.
Mas na verdade chato também era
Ficar correndo a vida inteira.

Já cansado de tanto esforço
O macaco topou no buraco de um poço.
Ficou ali embatucado
Bem pertinho do espantalho.
Melhor coisa não podia acontecer
Para eles poderem se conhecer.

Minha vida não tem alegria
Reclamou triste o espantalho.
Vejo a mesma coisa todo o dia
Fico logo aporrinhado.
Para mim é diferente disse o outro.
Canso de pular de galho em galho.

Cada um com suas novidades
Eles muito conversaram.
Em pouco tempo ganharam amizade
Até que um dia se tocaram.
Deram um abraço tão bom e apertado
Que ambos se sentiram transformados.
Desse abraço surgiu macacalho
Mistura de macaco e espantalho.
Parava quando queria
Se quisesse também corria.
E como ficaram contentes.
Abraçados: eram diferentes.

Um bicho novo assim surgia
De dois amigos que se uniam.
Pois na floresta da amizade
O que vale é a imaginação.
Aqui os bichos se misturam à vontade:
Girafante, macacoruja, bufaleão.

E por que não um espantilo
Meio espantalho meio crocodilo?

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Varal de Poesia — Fernando Paixão, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes e Mário Quintana, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; Fernando Augusto Magalhães Paixão, nascido em 1955, português da aldeia de Beselga  Penedono, mudou-se para São Paulo  SP em 1961, formado em jornalismo pela USP, com mestrado pela Unicamp, Campinas  SP (Estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro) e doutorado pela PUCSP (tese sobre o gênero do poema em prosa), é editor, professor e poeta; obras: Rosa dos Tempos (1980), O Que É Poesia? — coleção Primeiros Passos (1982), Fogo dos Rios (1989), 25 Azulejos (1994), Poesia a Gente Inventa (literatura infantil, 1996), Poeira (2001) e outros; professor de literatura pelo IEB-USP-SP, colabora com jornais e revistas na área de literatura e temas afins; foi professor visitante pela Universidade de Berkeley e Universidade da Califórnia em Los Angeles UCLA, ambas nos Estados Unidos, e na Universidade Nova de Lisboa, Portugal; por mais de 30 anos Fernando Paixão atuou profissionalmente na área editorial; recebeu premiações por sua obra.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

José Paulo Paes: Infância

 
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Eu tenho oito anos e já sei ler e escrever.
Por isso ganhei de presente a história de Peter Pan.
As aventuras dele com o Capitão Gancho e o jacaré que engoliu um relógio até que são engraçadas.
Mas achei uma bobagem aquela mania do Peter Pan de querer ficar sempre menino.
Já imaginaram se todos quisessem ficar sempre pequenos e nunca mais crescer?
Aí quem ia cuidar da gente? Fazer comida, passar pito, mandar tomar banho, dizer que é hora de ir pra cama?
Sarar a gente da dor de barriga e da dor de dente?

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Varal de Poesia — José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana e Fernando Paixão, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Fernando Paixão: A menina e as asas

 
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Marcolina sabia muitas histórias.
Aquelas que mamãe contava
outras que lera nos livros
também as de sua imaginação.

Mas agora torce o nariz
quando percebe a repetição:
o cavalo de asas, o  peixinho de asas,
o burro de quatro asas
e até as asas de um herói grego
derretendo no calor do sol.

"Por que tantas histórias iguais?"
quer saber Marcolina
imaginando a bicharada voar sem direção.
"Se todos tivessem asas, que seria do céu?"

“Em que pedaço de nuvem dormiria o elefante?
Será que o leão, parecido com anjo,
deixaria em paz o veado voador?”
Ia ser uma grande confusão.
E os passarinhos, coitados,
teriam que andar no chão.

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Varal de Poesia — Fernando Paixão, Henriqueta Lisboa, José Paulo Paes e Mário Quintana, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; Fernando Augusto Magalhães Paixão, nascido em 1955, português da aldeia de Beselga Penedono, mudou-se para São Paulo SP em 1961, formado em jornalismo pela USP, com mestrado pela Unicamp, Campinas SP (Estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro) e doutorado pela PUCSP (tese sobre o gênero do poema em prosa), é editor, professor e poeta; obras: Rosa dos Tempos (1980), O Que É Poesia? — coleção Primeiros Passos (1982), Fogo dos Rios (1989), 25 Azulejos (1994), Poesia a Gente Inventa (literatura infantil, 1996) e outros; professor de literatura pelo IEB-USP-SP, colabora com jornais e revistas na área de literatura e temas afins; foi professor visitante pela Universidade de Berkeley e Universidade da Califórnia em Los Angeles  UCLA, ambas nos Estados Unidos, e na Universidade Nova de Lisboa, Portugal; por mais de 30 anos Fernando Paixão atuou profissionalmente na área editorial; recebeu premiações por sua obra.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

José Paulo Paes: Poesia e prosa

 
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Pode-se escrever em prosa ou em verso.
Quando se escreve em prosa, a gente enche a linha do caderno até o fim, antes de passar para a outra linha.
E assim por diante até o fim da página.
Em poesia não: a gente muda de linha antes do fim, deixando um espaço em branco antes de ir para a linha seguinte.
Essas linhas incompletas se chamam versos.
Acho que o espaço em branco é para o leitor poder ficar pensando.
Pensando bem no que o poeta acabou de dizer.
Algumas vezes, lendo um verso, a gente tem de voltar aos versos de trás para entender melhor o que ele quer dizer.
Principalmente quando há uma rima, isto é, uma palavra com o mesmo som de outra lida há pouco.
Então a gente vai procurá-la para ver se é isso mesmo.
A prosa é como trem, vai sempre em frente.
A poesia é como o pêndulo dos relógios de parede de antigamente, que ficava balançando de um lado para outro.
Embora balançasse sempre no mesmo lugar, o pêndulo não marcava sempre a mesma hora.
Avançava de minuto a minuto, registrando a passagem das horas: 1, 2, 3, até 12.
Também a poesia vai marcando, na passagem da vida, cada minuto importante dela.
De tanto ir e vir de um verso a outro, de uma rima a outra, a gente acaba decorando um poema e guardando-o na memória.
E quando vê acontecer alguma coisa parecida com um poema que já leu, a gente logo se recorda dele.
Geralmente, a prosa entra por um ouvido e sai pelo outro.
A poesia, não: entra pelo ouvido e fica no coração.

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Varal de Poesia — José Paulo Paes, Henriqueta Lisboa, Mário Quintana e Fernando Paixão, Ilustrações de Alex Cerveny, 2008, 1ª edição, 8ª impressão, Editora Ática, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926 1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo, O Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; suas obras: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Poemas para brincar (infantil, 1989), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992), Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor e tradutor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.