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sábado, 17 de setembro de 2022

Carlos Rennó & Chico Brown e Pedro Luís: "Hino" ao inominável

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"Hino" ao inominável: 'na íntegra, são 202 versos, mais o refrão, contra o ódio e a ignorância no poder no Brasil. Porém, apesar dele  e do que, e de quem e quantos ele representa  a mensagem final é de luz, a luz que resiste, pois, como canta o refrão: "Mas quem dirá que não é mais imaginável / erguer de novo das ruínas o país?"'

letra: Carlos Rennó
música: Chico Brown e Pedro Luís
intérpretes: André Abujamra, Arrigo Barnabé, Bruno Gagliasso, Caio Prado, Cida Moreira, Chico Brown, Chico César, Chico Chico, Dexter, Dora Morelenbaum, Héloa, Hodari, Jorge Du Peixe, José Miguel Wisnik, Leci Brandão, Lenine, Luana Carvalho, Marina Íris, Marina Lima, Monica Salmaso, Paulinho Moska, Pedro Luís, Péricles Cavalcanti, Preta Ferreira, Professor Pasquale, Ricardo Aleixo, Thaline Karajá, Vitor da Trindade, Wagner Moura, Zélia Duncan
Músicos: Ana Karina Sebastião, Cauê Silva, Fábio Pinczowski, Juba Carvalho, Léo Mendes, Thiago Silva, Webster Santos, Xuxa Levy
Vídeo: Coletivo Bijari
Edição: Guilherme Peres
Direção de fotografia: Toni Nogueira

domingo, 28 de julho de 2013

Gregório de Matos: Carregado de mim ando no mundo, ...

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Segue neste soneto a máxima de bem viver que é envolver-se na confusão dos néscios para passar melhor a vida

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,*
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco c'os demais que só, sisudo.


* ousadas: James Amado registra ornadas.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636? 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Gregório de Matos: Décima (a um livreiro que havia comido um canteiro de alfaces com vinagre)

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Levou um livreiro a dente
de alface todo um canteiro,
e comeu, sendo livreiro,
desencadernadamente.
Porém, eu digo que mente
a quem disso o quer taxar;
antes é para notar
que trabalhou como um mouro,
pois meter folhas no couro,
também é encadernar.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Define a sua cidade

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          Mote

De dous ff se compõe
esta cidade a meu ver,
um furtar, outro foder.


          Glosa

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito,
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta,
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o
furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B A H I A,
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.


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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923),  Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última —  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

sábado, 15 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Soneto (Descreve a vida escolástica)

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Mancebo sem dinheiro, bom barrete,
Medíocre o vestido, bom sapato,
Meias velhas, calção de esfola-gato 
1,
Cabelo penteado, bom topete;

Presumir de dançar, cantar falsete,
Jogo de fidalguia, bom barato,
Tirar falsídia 2 ao Moço do seu trato,
Furtar a carne à ama, que promete;

A putinha aldeã achada em feira,
Eterno murmurar de alheias famas,
Soneto infame, sátira elegante;

Cartinhas de trocado para a freira,
Comer boi, ser Quixote com as damas,
Pouco estudo: isto é ser estudante.

Notas:
1 esfola-gato: deve estar no sentido de um certo jogo da região do Minho, brincadeira de rapazes com cambalhotas.
2 tirar falsídia: contar mentira (?)
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP; Gregório de Matos Guerra (1636? — 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra — Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Soneto (Necessidades forçosas da natureza humana)

Descarto-me da tronga que me chupa,
Corro por um conchego todo o mapa,
O ar da feia me arrebata a capa,
O gadanho da limpa até a garupa.

Busco uma freira, que me desentupa
A via que o desuso às vezes tapa,
Topo-a, topando-a todo o bolo rapa,
Que as cartas lhe dão sempre com chalupa.

Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
E na hora de ver repleta a tripa,
Darei por quem mo vase toda Europa?

Amigo, quem se alimpa da carepa,
Ou sofre uma muchacha, que o dissipa,
Ou faz da sua mão sua cachopa.
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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo —SP; Gregório de Matos Guerra (1636? — 1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra — Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno;  sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em  2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Gregório de Matos: Soneto (À cidade da Bahia)

Da série: Poemas considerados clássicos nos meios acadêmicos e literários da língua portuguesa.

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Triste Bahia! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante 1,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples
2 aceitas do sagaz brichote 3.

Oh se quisera Deus que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!

Notas de José Miguel Wisnik:
1 trocou-te a máquina mercante: trocou-te: com duplo sentido, de comerciar e modificar; máquina mercante: as naus que aportam para comerciar;
2 simples: ingredientes que entram na composição de drogas (Antônio Soares Amora - Panorama da Poesia Brasileira, 1959, Civilização Brasileira, Rio de Janeiro - RJ);
3 brichote: designação pejorativa de estrangeiro.

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Gregório de Matos  Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo SP; Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra — Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo  volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa  volume 3, 1930), Satírica (Satirical  volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última  volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

Gregório de Matos: Soneto (A certa personagem desvanecida)

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Um soneto começo em vosso gabo;
Contemos esta regra por primeira,
Já lá vão duas, e esta é a terceira,
Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo;
A sexta vá também desta maneira:
Na sétima entro já com grã canseira,
E saio dos quartetos muito brabo.

Agora nos tercetos que direi?
Direi que vós, senhor, a mim me honrais
Gabando-vos a vós, e eu fico um rei.

Nesta vida um soneto já ditei;
Se desta agora escapo, nunca mais:
Louvado seja Deus, que o acabei.


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Gregório de Matos — Poemas Escolhidos (Introdução e Notas de José Miguel Wisnik), Círculo do Livro S/A, década de 80 do século 20, São Paulo — SP;  Gregório de Matos Guerra (1636?  1695?), baiano de Salvador, formado em Direito pela Universidade de Coimbra  Portugal, construiu uma obra literária na qual expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a vida do poeta vire um verdadeiro inferno, daí resultando a origem do seu apelido: Boca do Inferno; sua obra só foi registrada em livro postumamente, e, entre os anos 20 e 30 do século XX, a Academia Brasileira de Letras publicou uma coleção de sua poesia em seis volumes: Sacra (Santo — volume 1, 1923), Lírica (Lyrical — volume 2, 1923), Graciosa (Graciosa — volume 3, 1930), Satírica (Satirical — volumes 4 e 5, 1930) e Última (Última — volume 6, 1933); vale a pena ver o filme Gregório de Matos, direção de Ana Carolina, lançado em 2002, e que traz no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); no filme, os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Gregório de Matos: Soneto (Ao casamento de Pedro Álvares da Neiva)


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Sete anos a nobreza da Bahia 1
Servia a uma pastora indiana bela,
Porém servia à Índia e não a ela,
Que à Índia só por prêmio pretendia.

Mil dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la,
Mas frei Tomás usando de cautela,
Disse-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.

Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sua dona Elvira,
Quase a golpes de um maço e de uma goiva:

Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não vira
Para tão limpo amor tão suja noiva.

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Nota de José Miguel Wisnik:
1 sete anos a nobreza da Bahia: Gregório satiriza parafraseando um soneto de Camões sobre assunto bíblico ("Sete anos de pastor Jacó servia", que termina com o verso "Para tão longe amar tão curta a vida")
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Gregório de Matos (1636?  1695?) — Poemas Escolhidos — Introdução e Notas de José Miguel Wisnik, novembro de 1975, Círculo do Livro S.A, São Paulo  SP; a obra do poeta expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo fazendo com que a sua vida vire um verdadeiro inferno. Pelo conteúdo de sua obra, ele foi apelidado de Boca do Inferno; as Notas  com numeração alterada neste blog , conforme Wisnik, "visam a esclarecer expressões estrangeiras (especialmente espanholas e latinas), elementos mitológicos e enciclopédicos em geral, termos que caíram em desuso ou que são usados em sentido muito especial, em certo contexto, e, ... registro de variantes"; vale a pena ver o filme sobre o poeta baiano Gregório de Mattos, lançado em 2002: tem no elenco Waly Salomão (Gregório de Mattos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua); todos os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta; a direção é de Ana Carolina.

sábado, 10 de julho de 2010

Gregório de Matos: Reprovações

Se sois homem valoroso,
    Dizem que sois temerário,
    Se valente, espadachim,
    E atrevido, se esforçado.

Se resoluto
 arrogante,
    Se pacífico, sois fraco,
    Se precatado 
 medroso,

    E se o não sois  confiado.

Se usais justiça, um Herodes 1,
    Se favorável, sois brando,
    Se condenais, sois injusto,
    Se absolveis, estais peitado 2.

Se vos dão 3, sois um covarde,
    E se dais, sois desumano,
    Se vos rendeis, sois traidor,
    Se rendeis 
— afortunado.

Se sois plebeus, sois humilde,
    Soberbo, se sois fidalgo,
    Se sois segundo 4, sois pobre,
    E tolo se sois morgado 5.

Se galeais 6, sois fachada 7,
    E se não 
 não sois bizarro 8,
    Se vestis bem, sois grã-moda 9,
    Se mal vestis, sois um trapo.

Se comeis muito, guloso,
    E faminto, se sois parco,
    Se comeis bem, regalão,
    E se mal, nunca sois farto.

Se não sofreis, imprudente,
    Se sofreis, sois um coitado,
    Se perdoais, sois bom homem,
    E se não sois 
 um tirano.

Se brioso, tendes fumos 10,
    E se não, sois homem baixo,
    Se sois sério, descortês,
    Se cortês, afidalgado.

Se defendeis, sois amigo,
    Se o não fazeis, sois contrário 11,
    Se sois amigo, suspeito,
    Se o não sois 
 afeiçoado.

Se obrais mal, sois ignorante,
    Se bem obrais, foi acaso,
    Se não servis, sois isento,
    E se servis, sois criado.

Se virtuoso
 fingido,
    E hipócrita se beato,
    Se zeloso
 impertinente,
    E se não, sois um pastrano.

Se sois sisudo 
 intratável,
    Se sois devoto, sois falso,
    Pertinaz, se defendente,
    Se argüinte, porfiado.

Se discreto
 prevenido,
    E se não, sois insensato,
    Se sois modesto, sois simples,
    E se o não sois, sois um diabo.

Se sois gracioso, sois fátuo,
    E se não sois, um marmanjo.
    Se sois agudo 
 tresledes 12,
    E se o não sois, sois um asno.

Se não compondes, sois néscio,
    Se escreveis, sois censurado,
    Se fazeis versos, sois louco,
    E se o não fazeis, sois parvo.

Se previsto 
 feiticeiro,
    E se não, desmazelado,
    Se verdadeiro 
 bom homem,
    Muito humilde, se sois lhano.

Se robusto, sois grosseiro,
    Se dedicado, sois brando,
    Se descansado 
  ocioso,
    Se para pouco, sois tranco.

Se sois gordo, sois balofo,
    Sois tísico, se sois magro.
    Se pequeno, sois anão,
    E gigante, se sois alto.

Se sois nobre, sois pelão 13,
    E se oficial, sois baixo,
    Se solteiro 
 extravagante,
    Se noivo, sois namorado.

Se corado, figadal,
    Descorado, se sois alvo,
    Se grande nariz 
 judeu,
    Se trigueiro, sois mulato.

Se liberal, sois perdido,
    E se o não sois, sois escasso,
    Se sois pródigo, vicioso,
    E avarento, se poupado.

Se não despendeis 
 mesquinho,
    Se despendeis, sois mui largo,
    Se não gastais 
 miserável,
    Se gastais  esperdiçado.

Se honesto sois, não sois homem,
    Impotente, se sois casto,
    Se não namorais, fanchono 14.
    Se o fazeis, sois estragado.

Se não luzis, não sois gente,
    Se luzis, sois mui pregado,
    Se pedis, sois pobretão,
    E se não, fazeis Calvários.


Se andais devagar - mimoso,
    Se depressa, sois cavalo,
    Mal-encarado, se feio,
    Se gentil, efeminado.


Se falais muito, palreiro,
    Se falais pouco, sois tardo,
    Se em pé, não tendes assento,
    Preguiçoso, se assentado.


E assim não pode viver
    Neste Brasil infestado,
    Segundo o que vos refiro,
    Quem não seja reprovado.


Notas de José Miguel Wisnik:
1 Herodes: rei da Judéia, que reinou de 39 ao ano 4 antes de Cristo, odiado pelos judeus em virtude de sua crueldade, e famoso pela degolação de inocentes (as notas referentes ao poema "Reprovações" são, basicamente, de Segismundo Spina — Gregório de Matos, São Paulo, Assunção, s.d. '1946').
2 peitado: corrupto por peita, isto é, pago para que faça alguma coisa ilícita, subornado.
3 se vos dão: se vos fazem.
4 segundo: diz-se em português: pão segundo, por pão ordinário. Pode significar inferior, do que se conclui a expressão portuguesa: não ser segundo a nenhum, não ser inferior a outrem.
5 morgado: filho primogênito, herdeiro dos bens vinculados.
6 galear: namorar, galantear.
7 fachada: ostentoso, de boa presença.
8 bizarro: está no sentido vernáculo de gentil, bem-apessoado.
9 grã-moda: grã-fino.
10 fumos: soberba, vaidade, presunção.
11 contrário: inimigo, antagonista.
12 tresler: querer saber mais do que se cumpre.
13 pelão: (hoje desusado): diz-se do ricaço de pouca inteligência. Magnatas de segunda ordem, janotas.
14 fanchono: efeminado, mole.

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Gregório de Matos (1636?  1695?)  Poemas Escolhidos   Círculo do Livro S.A, Introdução e Notas de José Miguel Wisnik, novembro de 1975; a obra do poeta expõe as mazelas dos poderosos da Bahia de outrora, os quais passam a combatê-lo e fazem com que a sua vida vire um verdadeiro inferno. Pelo conteúdo de sua obra, ele foi apelidado de Boca do Inferno; as Notas  com numeração alterada neste blogue , conforme Wisnik, "visam a esclarecer expressões estrangeiras (especialmente espanholas e latinas), elementos mitológicos e enciclopédicos em geral, termos que caíram em desuso ou que são usados em sentido muito especial, em certo contexto, e, ... registro de variantes".

Vale a pena ver o filme sobre o poeta baiano Gregório de Matos, lançado em 2002. Tem no elenco Waly Salomão (Gregório de Matos), Marília Gabriela, Ruth Escobar e Guida Viana (Abadessas), Rodolfo Bottino (Capitão), Virginia Rodrigues (Cantora) e Xuxa Lopes e Elisa Lucinda (Mulheres de rua). Todos os personagens se revezam em recital de poemas do autor, sendo intercalados pela personagem de Marília Gabriela que apresenta relatos biográficos do poeta; A direção é de Ana Carolina.