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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Friedrich Hölderlin: Hipérion a Belarmino (Canção do Destino) *

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[traduzido por Erlon José Paschoal]

     Por acaso, o barco que deveria me levar para Calauria ficou retido até o entardecer, na manhã em que Alabanda havia tomado o seu caminho.
     Permaneci no litoral contemplando o mar em silêncio, hora após hora, exausto pelas dores da despedida. Meu espírito repassou os dias de sofrimento de minha juventude, a qual agonizava lentamente, e pairou errante como uma bela pomba sobre o porvir. Quis me fortalecer e peguei meu alaúde há muito esquecido a fim de cantar uma canção do destino que outrora, na juventude feliz e incompreendida, aprendera com o meu Adamas.
     
     Caminhais lá em cima na luz
          Sobre solo macio, gênios bem-aventurados!
               Esplêndidas brisas divinas
                    Vos tocam com leveza,
                         Como os dedos da artista
                              As cordas sagradas.

     Sem destino, como o bebê
          Dormindo, respiram os celestiais;
               Guardando-se casto
                    No modesto botão
                         Floresce eternamente
                              Neles o espírito,
                                   E os olhos bem-aventurados
                                        Contemplam a silenciosa
                                             E eterna claridade.

     Mas não nos foi dado,
          Descansar em parte alguma
               Desaparecem, tombam
                    Os homens que sofrem,
                         Cegamente hora
                              Após hora,
                                   Como a água lançada abaixo
                                        De falésia em falésia
                                             Anos a fio no incerto.

     Assim cantei tocando as cordas. Mal havia terminado, quando vi chegar um barco no qual reconheci de imediato o meu criado que me entregou uma carta de Diotima.
     “Então ainda está nessa terra?”, escreveu ela, “ainda vê a luz do dia! Pensei encontrá-lo noutro lugar, meu querido! Recebi antes do que você depois desejou a carta escrita antes da batalha de Cesme, e por isso vivi uma semana acreditando que havia se lançado nos braços da morte, até chegar seu criado com a alegre notícia de que ainda estava vivo. De qualquer modo, alguns dias depois da batalha, soube que o navio em que estava havia voado pelos ares com toda a tripulação.
     Mas, oh, doce voz! Volto a ouvi-lo, a linguagem do amor ainda me toca outra vez como o ar de maio e suas belas alegrias esperançosas, a visão graciosa de nossa felicidade futura por um momento também me iludiram.
     Querido sonhador, por que tenho de despertá-lo? Por que não posso dizer: venha e torne realidade os belos dias que me prometeu! Mas é tarde demais, Hipérion, é tarde demais. Sua menina murchou, desde a sua partida, um fogo foi me consumindo aos poucos e sobrou muito pouca coisa. Não se espante! Tudo o que é natural se purifica e, em toda a parte, as flores da vida desabrocham mais livres, cada vez mais livres da matéria bruta.
     Queridíssimo Hipérion! Com certeza não pensava ouvir nesse ano o meu canto do cisne.”

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Hyperion an Bellarmin (Hyperions Schicksalslied)

     Zufällig hielt das Fahrzeug, das nach Kalaurea mich bringen sollte, noch bis zum Abend sich auf, nachdem Alabanda schon den Morgen seinen Weg gegangen war.
     Ich blieb am Ufer, blickte still, von den Schmerzen des Abschieds müd, in die See, von einer Stunde zur andern. Die Leidenstage der langsamsterbenden Jugend überzählte mein Geist, und irre, wie die schöne Taube, schwebt' er über dem Künftigen. Ich wollte mich stärken, ich nahm mein längstvergessenes Lautenspiel hervor, um mir ein Schicksalslied zu singen, das ich einst in glücklicher unverständiger Jugend meinem Adamas nachgesprochen.

     Ihr wandelt droben im Licht
          Auf weichem Boden, selige Genien!
               Glänzende Götterlüfte
                    Rühren euch leicht,
                         Wie die Finger der Künstlerin
                              Heilige Saiten.

     Schicksallos, wie der schlafende
          Säugling, atmen die Himmlischen;
               Keusch bewahrt
                    In bescheidener Knospe,
                         Blühet ewig
                              Ihnen der Geist,
                                   Und die seligen Augen
                                        Blicken in stiller
                                             Ewiger Klarheit.

     Doch uns ist gegeben,
          Auf keiner Stätte zu ruhn,
               Es schwinden, es fallen
                    Die leidenden Menschen
                         Blindlings von einer
                              Stunde zur andern,
                                   Wie Wasser von Klippe
                                        Zu Klippe geworfen,
                                             Jahr lang ins Ungewisse hinab.

     So sang ich in die Saiten. Ich hatte kaum geendet, als ein Boot einlief, wo ich meinen Diener gleich erkannte, der mir einen Brief von Diotima überbrachte.

     So bist du noch auf Erden? schrieb sie, und siehest das Tageslicht noch? Ich dachte dich anderswo zu finden, mein Lieber! Ich habe früher, als du nachher wünschtest, den Brief erhalten, den du vor der Schlacht bei Tschesme schriebst und so lebt ich eine Woche lang in der Meinung, du habst dem Tod dich in die Arme geworfen, ehe dein Diener ankam mit der frohen Botschaft, daß du noch lebest. Ich hatt auch ohnedies noch einige Tage nach der Schlacht gehört, das Schiff, worauf ich dich wußte, sei mit aller Mannschaft in die Luft geflogen.

     Aber o süße Stimme! noch hört ich dich wieder, noch einmal rührte, wie Mailuft, mich die Sprache des Lieben, und deine schöne Hoffnungsfreude, das holde Phantom unsers künftigen Glücks, hat einen Augenblick auch mich getäuscht.

     Lieber Träumer, warum muß ich dich wecken? warum kann ich nicht sagen, komm, und mache wahr die schönen Tage, die du mir verheißen! Aber es ist zu spät, Hyperion, es ist zu spät. Dein Mädchen ist verwelkt, seitdem du fort bist, ein Feuer in mir hat mählich mich verzehrt, und nur ein kleiner Rest ist übrig. Entsetze dich nicht! Es läutert sich alles Natürliche, und überall windet die Blüte des Lebens freier und freier vom gröbern Stoffe sich los.

     Liebster Hyperion! du dachtest wohl nicht, mein Schwanenlied in diesem Jahre zu hören.


* Nota deste Verso e Conversa: O poema Canção do Destino (Hyperions Schicksalslied) faz parte de um texto do “Volume II, Livro II” deste Hipérion ou O Eremita na Grécia; em gutenberg.spiegel.de/buch/hyperion-264/62, o texto e o poema correspondente constam no “Kapitel 62 des Buches: Hyperion von Friedrich Hölderlin” (Capítulo 62 do Livro: Hyperion, de Friedrich Hölderlin).
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Hipérion ou O Eremita na Grécia Friedrich Hölderlin: Tradução de Erlon José Paschoal, Apresentação de Marcus Vinicius Mazzari e Posfácio de Alexander Honold, 2003, Editora Nova Alexandria, São Paulo SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (Hyperion oder Der Eremit in Griechenland, 17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Friedrich Hölderlin: Hipérion ou O eremita na Grécia [Prólogo]

“Hipérion ou O Eremita na Grécia”, de Hölderlin
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[traduzido por Erlon José Paschoal]

Volume I, Livro I, Prólogo

                    Gostaria que este livro recebesse o amor dos alemães. Mas receio que alguns o lerão como um compêndio, dando demasiada atenção ao fabula docet *, enquanto outros não o levarão a sério e ambas as partes não irão entendê-lo.
                    Quem apenas cheira minha planta não a conhece e quem a colhe apenas para estudá-la também não a conhece.
                    A dissolução das dissonâncias num certo caráter não é algo para a simples reflexão, nem para o prazer vazio.
                    O cenário onde se desenrola o que se segue não é novo e confesso que já fui infantil o suficiente para tentar modificar esse aspecto do livro, mas me convenci de que ele era o único adequado ao caráter elegíaco de Hipérion, e envergonhei-me por ter me deixado levar de maneira tão exagerada pelo provável julgamento do público.
                    Lamento que, no momento, ainda não seja possível avaliar o projeto. Mas o segundo volume deve se seguir o mais rápido possível.

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Hyperion oder Der Eremit in Griechenland

Erster Band, Erstes Buch, Vorrede

                    Ich verspräche gerne diesem Buche die Liebe der Deutschen. Aber ich fürchte, die einen werden es lesen, wie ein Kompendium, und um das fabula docet sich zu sehr bekümmern, indes die andern gar zu leicht es nehmen, und beide Teile verstehen es nicht.
                    Wer bloß an meiner Pflanze riecht, der kennt sie nicht, und wer sie pflückt, bloß, um daran zu lernen, kennt sie auch nicht.
                    Die Auflösung der Dissonanzen in einem gewissen Charakter ist weder für das bloße Nachdenken, noch für die leere Lust.
                    Der Schauplatz, wo sich das Folgende zutrug, ist nicht neu, und ich gestehe, daß ich einmal kindisch genug war, in dieser Rücksicht eine Veränderung mit dem Buche zu versuchen, aber ich überzeugte mich, daß er der einzig angemessene für Hyperions elegischen Charakter wäre, und schämte mich, daß mich das wahrscheinliche Urteil des Publikums so übertrieben geschmeidig gemacht.
                    Ich bedaure, daß für jetzt die Beurteilung des Plans noch nicht jedem möglich ist. Aber der zweite Band soll so schnell, wie möglich, folgen.

* Nota da edição: “que conta a história”.
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Hipérion ou O Eremita na Grécia Friedrich Hölderlin: Tradução de Erlon José Paschoal, Apresentação de Marcus Vinicius Mazzari e Posfácio de Alexander Honold, 2003, Editora Nova Alexandria, São Paulo SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 17971800), Hipérion ou O Eremita na Grécia (Hyperion oder Der Eremit in Griechenland, 17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.