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[traduzido por Erlon José Paschoal]
Por acaso, o barco que deveria me levar para Calauria ficou retido até o entardecer, na manhã em que Alabanda havia tomado o seu caminho.
Permaneci no litoral contemplando o mar em silêncio, hora após hora, exausto pelas dores da despedida. Meu espírito repassou os dias de sofrimento de minha juventude, a qual agonizava lentamente, e pairou errante como uma bela pomba sobre o porvir. Quis me fortalecer e peguei meu alaúde há muito esquecido a fim de cantar uma canção do destino que outrora, na juventude feliz e incompreendida, aprendera com o meu Adamas.
Caminhais lá em cima na luz
Sobre solo macio, gênios bem-aventurados!
Esplêndidas brisas divinas
Vos tocam com leveza,
Como os dedos da artista
As cordas sagradas.
Sem destino, como o bebê
Dormindo, respiram os celestiais;
Guardando-se casto
No modesto botão
Floresce eternamente
Neles o espírito,
E os olhos bem-aventurados
Contemplam a silenciosa
E eterna claridade.
Mas não nos foi dado,
Descansar em parte alguma
Desaparecem, tombam
Os homens que sofrem,
Cegamente hora
Após hora,
Como a água lançada abaixo
De falésia em falésia
Anos a fio no incerto.
Assim cantei tocando as cordas. Mal havia terminado, quando vi chegar um barco no qual reconheci de imediato o meu criado que me entregou uma carta de Diotima.
“Então ainda está nessa terra?”, escreveu ela, “ainda vê a luz do dia! Pensei encontrá-lo noutro lugar, meu querido! Recebi antes do que você depois desejou a carta escrita antes da batalha de Cesme, e por isso vivi uma semana acreditando que havia se lançado nos braços da morte, até chegar seu criado com a alegre notícia de que ainda estava vivo. De qualquer modo, alguns dias depois da batalha, soube que o navio em que estava havia voado pelos ares com toda a tripulação.
Mas, oh, doce voz! Volto a ouvi-lo, a linguagem do amor ainda me toca outra vez como o ar de maio e suas belas alegrias esperançosas, a visão graciosa de nossa felicidade futura por um momento também me iludiram.
Querido sonhador, por que tenho de despertá-lo? Por que não posso dizer: venha e torne realidade os belos dias que me prometeu! Mas é tarde demais, Hipérion, é tarde demais. Sua menina murchou, desde a sua partida, um fogo foi me consumindo aos poucos e sobrou muito pouca coisa. Não se espante! Tudo o que é natural se purifica e, em toda a parte, as flores da vida desabrocham mais livres, cada vez mais livres da matéria bruta.
Queridíssimo Hipérion! Com certeza não pensava ouvir nesse ano o meu canto do cisne.”
Hyperion an Bellarmin (Hyperions Schicksalslied)
Zufällig hielt das Fahrzeug, das nach Kalaurea mich bringen sollte, noch bis zum Abend sich auf, nachdem Alabanda schon den Morgen seinen Weg gegangen war.
Ich blieb am Ufer, blickte still, von den Schmerzen des Abschieds müd, in die See, von einer Stunde zur andern. Die Leidenstage der langsamsterbenden Jugend überzählte mein Geist, und irre, wie die schöne Taube, schwebt' er über dem Künftigen. Ich wollte mich stärken, ich nahm mein längstvergessenes Lautenspiel hervor, um mir ein Schicksalslied zu singen, das ich einst in glücklicher unverständiger Jugend meinem Adamas nachgesprochen.
Ihr wandelt droben im Licht
Auf weichem Boden, selige Genien!
Glänzende Götterlüfte
Rühren euch leicht,
Wie die Finger der Künstlerin
Heilige Saiten.
Schicksallos, wie der schlafende
Säugling, atmen die Himmlischen;
Keusch bewahrt
In bescheidener Knospe,
Blühet ewig
Ihnen der Geist,
Und die seligen Augen
Blicken in stiller
Ewiger Klarheit.
Doch uns ist gegeben,
Auf keiner Stätte zu ruhn,
Es schwinden, es fallen
Die leidenden Menschen
Blindlings von einer
Stunde zur andern,
Wie Wasser von Klippe
Zu Klippe geworfen,
Jahr lang ins Ungewisse hinab.
So sang ich in die Saiten. Ich hatte kaum geendet, als ein Boot einlief, wo ich meinen Diener gleich erkannte, der mir einen Brief von Diotima überbrachte.
So bist du noch auf Erden? schrieb sie, und siehest das Tageslicht noch? Ich dachte dich anderswo zu finden, mein Lieber! Ich habe früher, als du nachher wünschtest, den Brief erhalten, den du vor der Schlacht bei Tschesme schriebst und so lebt ich eine Woche lang in der Meinung, du habst dem Tod dich in die Arme geworfen, ehe dein Diener ankam mit der frohen Botschaft, daß du noch lebest. Ich hatt auch ohnedies noch einige Tage nach der Schlacht gehört, das Schiff, worauf ich dich wußte, sei mit aller Mannschaft in die Luft geflogen.
Aber o süße Stimme! noch hört ich dich wieder, noch einmal rührte, wie Mailuft, mich die Sprache des Lieben, und deine schöne Hoffnungsfreude, das holde Phantom unsers künftigen Glücks, hat einen Augenblick auch mich getäuscht.
Lieber Träumer, warum muß ich dich wecken? warum kann ich nicht sagen, komm, und mache wahr die schönen Tage, die du mir verheißen! Aber es ist zu spät, Hyperion, es ist zu spät. Dein Mädchen ist verwelkt, seitdem du fort bist, ein Feuer in mir hat mählich mich verzehrt, und nur ein kleiner Rest ist übrig. Entsetze dich nicht! Es läutert sich alles Natürliche, und überall windet die Blüte des Lebens freier und freier vom gröbern Stoffe sich los.
Liebster Hyperion! du dachtest wohl nicht, mein Schwanenlied in diesem Jahre zu hören.
* Nota deste Verso e Conversa: O poema Canção do Destino (Hyperions Schicksalslied) faz parte de um texto do “Volume II, Livro II” deste Hipérion ou O Eremita na Grécia; em gutenberg.spiegel.de/buch/hyperion-264/62, o texto e o poema correspondente constam no “Kapitel 62 des Buches: Hyperion von Friedrich Hölderlin” (Capítulo 62 do Livro: Hyperion, de Friedrich Hölderlin).
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Hipérion ou O Eremita na Grécia — Friedrich Hölderlin: Tradução de Erlon José Paschoal, Apresentação de Marcus Vinicius Mazzari e Posfácio de Alexander Honold, 2003, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 — 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 1797—1800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (Hyperion oder Der Eremit in Griechenland, 1797—1799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.
[traduzido por Erlon José Paschoal]
Por acaso, o barco que deveria me levar para Calauria ficou retido até o entardecer, na manhã em que Alabanda havia tomado o seu caminho.
Permaneci no litoral contemplando o mar em silêncio, hora após hora, exausto pelas dores da despedida. Meu espírito repassou os dias de sofrimento de minha juventude, a qual agonizava lentamente, e pairou errante como uma bela pomba sobre o porvir. Quis me fortalecer e peguei meu alaúde há muito esquecido a fim de cantar uma canção do destino que outrora, na juventude feliz e incompreendida, aprendera com o meu Adamas.
Caminhais lá em cima na luz
Sobre solo macio, gênios bem-aventurados!
Esplêndidas brisas divinas
Vos tocam com leveza,
Como os dedos da artista
As cordas sagradas.
Sem destino, como o bebê
Dormindo, respiram os celestiais;
Guardando-se casto
No modesto botão
Floresce eternamente
Neles o espírito,
E os olhos bem-aventurados
Contemplam a silenciosa
E eterna claridade.
Mas não nos foi dado,
Descansar em parte alguma
Desaparecem, tombam
Os homens que sofrem,
Cegamente hora
Após hora,
Como a água lançada abaixo
De falésia em falésia
Anos a fio no incerto.
Assim cantei tocando as cordas. Mal havia terminado, quando vi chegar um barco no qual reconheci de imediato o meu criado que me entregou uma carta de Diotima.
“Então ainda está nessa terra?”, escreveu ela, “ainda vê a luz do dia! Pensei encontrá-lo noutro lugar, meu querido! Recebi antes do que você depois desejou a carta escrita antes da batalha de Cesme, e por isso vivi uma semana acreditando que havia se lançado nos braços da morte, até chegar seu criado com a alegre notícia de que ainda estava vivo. De qualquer modo, alguns dias depois da batalha, soube que o navio em que estava havia voado pelos ares com toda a tripulação.
Mas, oh, doce voz! Volto a ouvi-lo, a linguagem do amor ainda me toca outra vez como o ar de maio e suas belas alegrias esperançosas, a visão graciosa de nossa felicidade futura por um momento também me iludiram.
Querido sonhador, por que tenho de despertá-lo? Por que não posso dizer: venha e torne realidade os belos dias que me prometeu! Mas é tarde demais, Hipérion, é tarde demais. Sua menina murchou, desde a sua partida, um fogo foi me consumindo aos poucos e sobrou muito pouca coisa. Não se espante! Tudo o que é natural se purifica e, em toda a parte, as flores da vida desabrocham mais livres, cada vez mais livres da matéria bruta.
Queridíssimo Hipérion! Com certeza não pensava ouvir nesse ano o meu canto do cisne.”

Hyperion an Bellarmin (Hyperions Schicksalslied)
Zufällig hielt das Fahrzeug, das nach Kalaurea mich bringen sollte, noch bis zum Abend sich auf, nachdem Alabanda schon den Morgen seinen Weg gegangen war.
Ich blieb am Ufer, blickte still, von den Schmerzen des Abschieds müd, in die See, von einer Stunde zur andern. Die Leidenstage der langsamsterbenden Jugend überzählte mein Geist, und irre, wie die schöne Taube, schwebt' er über dem Künftigen. Ich wollte mich stärken, ich nahm mein längstvergessenes Lautenspiel hervor, um mir ein Schicksalslied zu singen, das ich einst in glücklicher unverständiger Jugend meinem Adamas nachgesprochen.
Ihr wandelt droben im Licht
Auf weichem Boden, selige Genien!
Glänzende Götterlüfte
Rühren euch leicht,
Wie die Finger der Künstlerin
Heilige Saiten.
Schicksallos, wie der schlafende
Säugling, atmen die Himmlischen;
Keusch bewahrt
In bescheidener Knospe,
Blühet ewig
Ihnen der Geist,
Und die seligen Augen
Blicken in stiller
Ewiger Klarheit.
Doch uns ist gegeben,
Auf keiner Stätte zu ruhn,
Es schwinden, es fallen
Die leidenden Menschen
Blindlings von einer
Stunde zur andern,
Wie Wasser von Klippe
Zu Klippe geworfen,
Jahr lang ins Ungewisse hinab.
So sang ich in die Saiten. Ich hatte kaum geendet, als ein Boot einlief, wo ich meinen Diener gleich erkannte, der mir einen Brief von Diotima überbrachte.
So bist du noch auf Erden? schrieb sie, und siehest das Tageslicht noch? Ich dachte dich anderswo zu finden, mein Lieber! Ich habe früher, als du nachher wünschtest, den Brief erhalten, den du vor der Schlacht bei Tschesme schriebst und so lebt ich eine Woche lang in der Meinung, du habst dem Tod dich in die Arme geworfen, ehe dein Diener ankam mit der frohen Botschaft, daß du noch lebest. Ich hatt auch ohnedies noch einige Tage nach der Schlacht gehört, das Schiff, worauf ich dich wußte, sei mit aller Mannschaft in die Luft geflogen.
Aber o süße Stimme! noch hört ich dich wieder, noch einmal rührte, wie Mailuft, mich die Sprache des Lieben, und deine schöne Hoffnungsfreude, das holde Phantom unsers künftigen Glücks, hat einen Augenblick auch mich getäuscht.
Lieber Träumer, warum muß ich dich wecken? warum kann ich nicht sagen, komm, und mache wahr die schönen Tage, die du mir verheißen! Aber es ist zu spät, Hyperion, es ist zu spät. Dein Mädchen ist verwelkt, seitdem du fort bist, ein Feuer in mir hat mählich mich verzehrt, und nur ein kleiner Rest ist übrig. Entsetze dich nicht! Es läutert sich alles Natürliche, und überall windet die Blüte des Lebens freier und freier vom gröbern Stoffe sich los.
Liebster Hyperion! du dachtest wohl nicht, mein Schwanenlied in diesem Jahre zu hören.
* Nota deste Verso e Conversa: O poema Canção do Destino (Hyperions Schicksalslied) faz parte de um texto do “Volume II, Livro II” deste Hipérion ou O Eremita na Grécia; em gutenberg.spiegel.de/buch/hyperion-264/62, o texto e o poema correspondente constam no “Kapitel 62 des Buches: Hyperion von Friedrich Hölderlin” (Capítulo 62 do Livro: Hyperion, de Friedrich Hölderlin).
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Hipérion ou O Eremita na Grécia — Friedrich Hölderlin: Tradução de Erlon José Paschoal, Apresentação de Marcus Vinicius Mazzari e Posfácio de Alexander Honold, 2003, Editora Nova Alexandria, São Paulo — SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 — 1843), alemão de Lauffen, região da Suábia, foi poeta, romancista, dramaturgo, tradutor e filósofo; estudou teologia no convento de Tübingen, recebeu formação humanística, conviveu com Hegel e Schelling, tendo colaborado com estes na formação inicial da corrente filosófica conhecida como Idealismo alemão; frequentou a Universidade de Iena; na sua trajetória intelectual, também conviveu e estabeleceu relações com Schiller, Fichte e Goethe; o poeta teve quatro de suas poesias publicadas pela primeira vez no Almanaque das Musas para o ano de 1792 (Musenalmanach für das Jahr 1792), depois vieram outras publicações no Florilégio Poético para o Ano de 1793 (Poetische Blumenlese für das Jahr 1793), na edição de inverno da revista Nova Thalia (Neue Thalia), Almanaque das Musas de 1807 (Musenalmanach 1807)...; traduziu Sófocles e os fragmentos de Píndaro; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, drama, 1797—1800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (Hyperion oder Der Eremit in Griechenland, 1797—1799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826), Gedichte vor 1800 (Poemas anteriores a 1800, volume 1, 1944), Gedichte nach 1800 (Poemas após 1800, volume 2, 1961)...; relata a sua biografia que, a partir de 1807 e pelo resto de sua vida, o poeta viveu confinado em uma torre, sendo cuidado pela família e auxiliares, após ter recebido o diagnóstico médico de loucura ou insanidade irreversível; Hölderlin, mesmo após esta data, continuou escrevendo e produziu textos em seus momentos de lucidez.