quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

José Paulo Paes: lisboa: aventuras

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tomei um expresso
cheguei de foguete

subi num bonde
desci de um elétrico

pedi cafezinho
serviram-me uma bica

quis comprar meias
só vendiam peúgas

fui dar à descarga
disparei um autoclisma

gritei “ó cara!”
responderam-me “ó pá!”

positivamente
as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

(A poesia está morta mas juro que não fui eu  1988)

Jose Paulo Paes
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José Paulo Paes: Melhores Poemas — Ensaio e Seleção de Davi Arrigucci Jr., 2ª edição, 2000, Global Editora, São Paulo — SP; José Paulo Paes (1926  1998), paulista de Taquaritinga, foi poeta, tradutor, ensaísta, crítico literário, jornalista e editor; formado em Química Industrial, durante anos trabalhou em laboratório farmacêutico (Curitiba PR), sem jamais ter deixado de lado a literatura, gosto adquirido através de seu avô que era livreiro; na cidade paranaense colaborou com a revista Joaquim (1946 — 1948), dirigida por Dalton Trevisan; transferindo-se para São Paulo, passou a colaborar com os jornais Folha de São PauloO Estado de São PauloO Tempo, Jornal de Notícias e Revista Brasiliense; escreveu e publicou: O Aluno (1947), Cúmplices (1951), Novas Cartas Chilenas (1954), Mistério em Casa (1961), Anatomias (1967), Resíduo (1973), Calendário Perplexo (1983), É isso Ali (1984), Gregos & Baianos (ensaio, 1985), Um por Todos (poesia reunida, 1988), A Poesia Está Morta Mas Juro Que Não Fui Eu (1988), Prosas Seguidas de Odes Mínimas (1992),  Lé com Cré (1993), A Meu Esmo (1995), De Ontem Para Hoje (1996), Um passarinho me contou (1997), Melhores poemas (1998), Uma Letra Puxa a Outra (1998), Ri Melhor Quem Ri Primeiro (1999), O Lugar do Outro  (1999), Socráticas (livro inédito, edição póstuma, 2001) e tantos outros títulos em parceria com poetas e escritores, no gênero poesia infantil e infanto-juvenil; como editor, verteu para o português autores gregos, dinamarqueses, italianos, norte-americanos e ingleses, tais como Charles Dickens, Joseph Conrad, Pietro Aretino, Konstantínos Kaváfis, Laurence Sterne, W. H. Auden, William Carlos Williams, J. K. Huysmans, Paul Éluard, Hölderlin, Paladas de Alexandria, Edward Lear, Rilke, Seféris, Lewis Carroll, Níkos Kazantzákis, Ovídio etc.; foi laureado com diversos prêmios literários nas categorias poesia, literatura infanto-juvenil e tradução.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Adelmar Tavares: A Gente Nunca Está Só

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A gente nunca está só.
Ou se está com uma saudade
De um sonho desfeito em pó;
Ou se está com uma esperança
De nova felicidade
No coração que não cansa…

Sempre uma sombra com a gente,
Constantemente,
Uma sombra… Boa… ou má…
Só é que nunca se está.

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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti (1888 1963), pernambucano de Recife, formado pela Faculdade de Direito de Recife, foi advogado, professor, jurista, magistrado e poeta; ainda estudante em Recife, colaborou na imprensa como redator do Jornal Pequeno; ao mudar-se para o Rio de Janeiro, continua sempre a colaborar com a imprensa e, além ter exercido a função de professor de Direito Penal na Faculdade de Direito da então capital federal, também ocupou vários cargos públicos na área da justiça e do direito; bibliografia: Descantes —  trovas (1907), Trovas e Trovadores (conferência, 1910), Miriam, luz dos meus olhos (poesia, 1912), A poesia das violas (poesia, 1921), Noite cheia de estrelas (poesia, 1923), A linda mentira (prosa, 1926), Poesias (1929), Trovas (1931), O caminho enluarado (poesia, 1932), A luz do altar (poesia, 1934), Poesias completas (1958) etc.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Adauto: minha poesia não canta nada

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minha poesia não canta nada
 como haveria de cantar? 
berra todo nosso sufoco
como um doido na camisa-de-força.

vem do útero do ânus estuprado
do peito doente
da cirrose do fígado.

minha poesia é o pânico
a quarta dimensão terrível
da vida consumada no porto da barra pesada
das penitenciárias dos hospícios
do pervintin da maconha da cachaça
do povo na rua
 do povo de minha laia.

minha poesia é o hino
dos libertinos
q conspiram na noite dos generais...

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26 Poetas Hoje — antologia, Organização, Introdução e Posfácio de Heloísa Buarque de Hollanda, 2001, 5ª edição, Editora Aeroplano, Rio de Janeiro —  RJ; Adauto ou Ras Adauto ou Adauto de Souza Santos, nascido em 1950, carioca, bacharel em Letras pela UFRJ, é poeta, ator, multimídia, roteirista e cineasta independente; fez parte da geração surgida na década de 1970 e conhecida como poetas da 'Poesia Marginal' e da 'Geração Mimeógrafo', no Rio de Janeiro, em São Paulo e em algumas outras capitais; bibliografia: Konfa & Marafona II — urbanóide (1975), Antologia folha de rosto (poesias, 1976), Ih, botaram fogo no mato (1992), Alô, hallo, Caetano (1994), O dia em que encontrei Frida Kahlo na rua (1998), A saga de D. Leopoldina do Brasil (1998); atualmente vive em Berlim, onde participa da cena artística e multicultural da capital alemã e divulga as artes e as múltiplas formas da cultura brasileira.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Friedrich Hölderlin: Canção do Destino de Hipérion

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[traduzido por Antonio Cicero]

Andais lá em cima na luz
    Em chão macio, gênios felizes!
        Cintilantes brisas divinas
            Tocam-vos de leve
                Como os dedos da artista
                    Cordas sagradas.

Sem destino, qual o lactente
    Adormecido, respiram os divinos;
        Casto, guardado
            Em botão simples
                Floresce-lhes
                    Eterno o espírito
                        E os olhos felizes
                            Fitam em calma
                                Eterna claridade.

Mas a nós não é dado
    Em lugar algum repousar:
        Fenecem, caem
            Os homens sofredores
                Cegamente de uma
                    Hora para outra
                        Como água de penhasco
                            Em penhasco lançada
                                Incessantemente no incerto.

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Friedrich Hölderlin

Hyperions Schicksalslied

Ihr wandelt droben im Licht
   Auf weichem Boden, selige Genien!
      Glänzende Götterlüfte
         Rühren euch leicht,
            Wie die Finger der Künstlerin
               Heilige Saiten.

Schicksallos, wie der schlafende
    Säugling, atmen die Himmlischen;
        Keusch bewahrt
            In bescheidener Knospe,
                Blühet ewig
                    Ihnen der Geist,
                        Und die seligen Augen
                            Blicken in stiller
                                Ewiger Klarheit.

Doch uns ist gegeben,
    Auf keiner Stätte zu ruhn;
        Es schwinden, es fallen
            Die leidenden Menschen
                Blindlings von einer
                    Stunde zur andern,
                        Wie Wasser von Klippe
                            Zu Klippe geworfen,
                                Jahrlang ins Ungewisse hinab.
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Poetas que pensaram o mundo Organização de Adauto Novaes, 2005, Companhia das Letras, São Paulo SP; Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770 1843), alemão de Lauffen am Neckar, foi poeta lírico, romancista e filósofo; bibliografia: A Morte de Empédocles (fragmentos, 17971800), Hiperion ou O Eremita na Grécia (17971799), Tragédias de Sófocles (1804), Poemas de Friedrich Hölderlin (editados por Ludwig Uhland e Gustav Schwab, 1826) etc.

domingo, 27 de janeiro de 2019

José Oiticica: A Poesia

Resultado de imagem para josé Oiticica: Da anarquia à anarcopesia de Maria Aparecida Munhoz de Omena
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Minha poesia é um cômoro viçoso
De ervas secretas e medicinais...
Entre elas tenho, eu, servo, o meu repouso
E encontro, meditando, os meus sinais.

Minha poesia é a colcha azul que eu coso
Com linhas invisíveis aos mortais...
Colcha para o altar-mor onde, enfim, ouso
Pontificar com incógnitos rituais.

Minha poesia, abstrata Madalena,
Ama um Jesus que ainda não nasceu
E se faz pura em sua cantilena.

Mas, chispas de um incêndio todo meu,
Ela ilumina a inolvidável cena
Em que minha consciência compreendeu!

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José Oiticica: Da anarquia à anarcopoesia — Maria Aparecida Munhoz de Omena, Apresentação de Diva Cardoso de Camargo, 2010, Annablume Editora, São Paulo — SP; José Rodrigues Leite e Oiticica (1882 1957), mineiro de Oliveira, fez seus primeiros estudos em Maceió AL, e daí para o Rio de Janeiro, ingressou na Politécnica e desistiu de ser engenheiro; cursou Direito na Faculdade de Recife e no Rio, mas, bacharel, nunca se utilizou do diploma; frequentou o primeiro ano da Faculdade de Medicina no Rio, e também não concluiu; dedicando-se ao magistério e à filologia, foi professor, filólogo, foneticista, jornalista, escritor e poeta; como poeta, fez parte do grupo que, em sua época, "deu conteúdo social à arte, pois, partidário do anarquismo, seus versos refletem bem as idéias que esposou e que, por mais de uma vez, levaram-no à cadeia" relata Fernando Góes em Panorama da Poesia Brasileira, Volume V; fundou os jornais Spartacus (co-fundador, Astrogildo Pereira, 1919), 5 de Julho (jornal clandestino, 1929) e Ação Direta (1929); divulgou textos políticos, poéticos e em prosa, e colaborou com a imprensa operária libertária, através de A Lanterna, SpartacusA PlebeLivre Pensador, e da revista A Vida; bibliografia: Sonetos, primeira série (1911), Ode ao Sol (1915), Estudos de Fonologia (1916), Sonetos, segunda série (1919), Princípios e Fins do Programa Comunista-Anarquista (1919), A Trama dum Grande Crime (1922), Manual de Estilo (1923), Azalan! (peça teatral, 1924), Do Método de Estudo das Línguas Sul-Americanas (1930), A Doutrina Anarquista ao Alcance de Todos (1945), Fonte Perene (sonetos, 1954), Roteiro de Fonética FisiológicaTécnica do Verso e Dicção (1955) e outros títulos.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Lêdo Ivo: A bruxa

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A voz que ouvi na bruma
não era voz nenhuma.
Apenas o silêncio
de teus lábios abertos
e pálidos de espuma.

Era, ao cair da noite,
a ameaça cumprida
de tua aparição,
sombra que não deixava
luz ou sombra no chão.

Emissária importuna
de um reino sem palavras
estragavas meu dia
com teu rosto de bruxa
e tua boca fria.

Sentinela calada
junto à guardamoria!
O sinistro oceano
costurava na treva
teu coração de pano.

Em que língua falavas
se nada me dizias?
Tua cara de cinza
e os teus olhos de conta
apenas me miravam.

Não sei se me chamavas
ou se me repelias.
No lugar em que estávamos
eu somente escutava
a maré que crescia.

Junto ao mar que fedia
cheio de peixes mortos
e podres mexilhões
vinha de teus pulmões
o ar que me entontecia.

E eu vivo estremecia
sabendo o que querias,
neblina rastejante
do amanhecer fingido
da noite que descia.

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Lêdo Ivo: Crepúsculo Civil — Poesia, 1990, Editora Record, São Paulo —  SP; Lêdo Ivo (1924  2012), alagoano de Maceió, foi jornalista, poeta, romancista, contista, cronista, ensaísta e tradutor; em 1943, mudando-se para o Rio de Janeiro, formou-se em Direito na Faculdade Nacional de Direito  hoje UFRJ , passou a colaborar com suplementos literários e a trabalhar como jornalista; bibliografia: em poesia, As Imaginações (1944), Ode e Elegia (1945),  Acontecimento do Soneto (1948), Ode ao Crepúsculo (1948), Calabar (1985), Mar Oceano (1987), Crepúsculo Civil (1990), Curral de Peixe  (1997) e outros; em prosa, As Alianças (romance, 1947), O Caminho Sem Aventura (romance, 1948), Lição de Mário de Andrade (ensaio, 1951), O Preto no Branco. Exegese de um poema de Manuel Bandeira  (ensaio, 1955), A Cidade e os Dias (crônicas, 1957), Raimundo Correia: poesia (ensaio  apresentação, seleção e notas, 1958), Use a Passagem Subterrânea (contos, 1961), O Sobrinho do General (romance, 1964), O Flautim (contos, 1966), O Navio Adormecido no Bosque (crônicas, 1971), Ninho de Cobras (romance, 1973), Modernismo e Modernidade  (ensaio, 1972), Teoria e Celebração (ensaio, 1976), Confissões de um poeta (autobiografia, 1979), A Ética da Aventura (ensaio, 1982), O Canário Azul (infanto-juvenil, 1990), O aluno relapso (autobiografia, 1991), O Menino da Noite (infanto-juvenil, 1995), e tantos outros títulos em verso ou prosa, além de ter seus poemas e contos editados em muitas antologias literárias; o autor, que obteve diversas premiações literárias, teve obras vertidas para o espanhol, italiano, inglês, holandês, francês e sueco e, por sua vez, traduziu Austen, Maupassant, Rimbaud e Dostoievski.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Lima Barreto: Elogio da Morte *

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                    Não sei quem foi que disse que a Vida é feita pela Morte. É a destruição contínua e perene que faz a vida.
                    A esse respeito, porém, eu quero crer que a Morte mereça maiores encômios.
                    É ela que faz todas as consolações das nossas desgraças; é dela que nós esperamos a nossa redenção; é ela a quem todos os infelizes pedem socorro e esquecimento.
                    Gosto da Morte porque ela é o aniquilamento de todos nós; gosto da Morte porque ela nos sagra. Em vida, todos nós só somos conhecidos pela calúnia e maledicência, mas, depois que Ela nos leva, nós somos conhecidos (a repetição é a melhor figura de retórica), pelas nossas boas qualidades.
                    É inútil estar vivendo, para ser dependente dos outros; é inútil estar vivendo para sofrer os vexames que não merecemos.
                    A vida não pode ser uma dor, uma humilhação de contínuos e burocratas idiotas; a vida deve ser uma vitória. Quando, porém, não se pode conseguir isso, a Morte é que deve vir em nosso socorro.
                    A covardia mental e moral do Brasil não permite movimentos de independência; ela só quer acompanhadores de procissão, que só visam lucros ou salários nos pareceres. Não há, entre nós, campo para as grandes batalhas de espírito e inteligência. Tudo aqui é feito com o dinheiro e os títulos. A agitação de uma idéia não repercute na massa e quando esta sabe que se trata de contrariar uma pessoa poderosa, trata o agitador de louco.
                    Estou cansado de dizer que os malucos foram os reformadores do mundo.
                    Le Bon dizia isto a propósito de Maomé, nas suas  Civilisation des Arabes, com toda a razão; e não há chanceler falsificado e secretária catita que o possa contestar.
                    São eles os heróis; são eles os reformadores; são eles os iludidos; são eles que trazem as grandes idéias, para melhoria das condições da existência da nossa triste Humanidade.
                    Nunca foram os homens de bom senso, os honestos burgueses ali da esquina ou das secretarias chics que fizeram as grandes reformas no mundo.
                    Todas elas têm sido feitas por homens, e, às vezes mesmo mulheres, tidos por doidos.
                    A divisa deles consiste em não ser panurgianos e seguir a opinião de todos, por isso mesmo podem ver mais longe do que os outros.
                    Se nós tivéssemos sempre a opinião da maioria, estaríamos ainda no Cro-Magnon e não teríamos saído das cavernas.
                    O que é preciso, portanto, é que cada qual respeite a opinião de qualquer, para que desse choque surja o esclarecimento do nosso destino, para própria felicidade da espécie humana.
                    Entretanto, no Brasil, não se quer isto. Procura-se abafar as opiniões, para só deixar em campo os desejos dos poderosos e prepotentes.
                    Os órgãos de publicidade por onde se podiam elas revelar, são fechados e não aceitam nada que os possa lesar.
                    Dessa forma, quem, como eu nasceu pobre e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que fazer elogios à Morte.
                    Ela é a grande libertadora que não recusa os seus benefícios a quem lhe pede. Ela nos resgata e nos leva à luz de Deus.
                    Sendo assim, eu a sagro, antes que ela me sagre na minha pobreza, na minha infelicidade, na minha desgraça e na minha honestidade.
                    Ao vencedor, as batatas!

Lima_Barreto


* Nota da edição: Título original. In: A.B.C., Rio de Janeiro, 19/10/1918. O artigo integra Marginália. Cf. BARRETO, Lima, op. cit., vol. XII, pp. 42-43.
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Lima Barreto: Um Longo Sonho do Futuro  Diários, cartas, entrevistas e confissões dispersas, Nota Editorial de Bernardo de Mendonça, Série Revisões, 1993, Graphia Editorial, Rio de Janeiro  RJ; Afonso Henriques de Lima Barreto (1881  1922), carioca, estudou no Colégio Pedro II e, depois de formado, ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, não chegando a concluir seus estudos; foi contista, romancista e jornalista; desde 1902, escreveu para jornais e revistas, Fon-Fon, A.B.C. e Careta dentre eles; particularmente para o Correio da Manhã, em 1905, redigiu uma série de artigos acerca da demolição do Morro do Castelo e foi reconhecido como literato; em 1911, junto com amigos, chegou a fundar um periódico, a revista Floreal; obras literárias: O Subterrâneo do Morro do Castelo (1905), Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909), O Triste Fim de Policarpo Quaresma (editado em folhetins, 1911, e editado em livro, 1915), O Homem que Sabia Javanês e Outros Contos  (1911), Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá (1919), Cemitério dos Vivos  (obra inacabada, publicação póstuma, 1920), Os Bruzundangas (coletânea de contos publicados em jornal, editado em livro em 1923), Clara dos Anjos  (publicação póstuma, 1948) e outros...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Heinrich Heine: Lorelai

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[traduzido por João Ribeiro]

Eu não sei qual o sentido
Dessa tristeza em que estou;
Um conto há tempos ouvido
Da mente não me passou:

"É fresca a brisa. Anoitece,
Vai o Reno manso, a flux,
Ao sol-posto resplandece
O cimo da rocha em luz.

Vê-se bela, reclinada,
Lorelai sobre o arrebol,
Que alisa a trança dourada
Dos seus cabelos de sol.

E, ao mover o pente de ouro,
Canta a fada uma canção…
Oh! Na voz desse tesouro
Que melodias estão!

Passa o barqueiro nas águas
E, embevecido de a ouvir,
Não sente o risco das fráguas,
Olha p'ro céu a sorrir.

Devora-o a vaga inimiga,
Naufraga o barco, já vai…
Por causa dessa cantiga,
Por causa de Lorelai."

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Die Loreley

Ich weiß nicht, was soll es bedeuten,
Daß ich so traurig bin;
Ein Mährchen aus alten Zeiten,
Das kommt mir nicht aus dem Sinn.

Die Luft ist kühl, und es dunkelt,
Und ruhig fließt der Rhein;
Der Gipfel des Berges funkelt
In Abendsonnenschein.

Die schönste Jungfrau sitzet
Dort oben wunderbar,
Ihr goldenes Geschmeide blitzet,
Sie kämmt ihr goldenes Haar.

Sie kämmt es mit goldnem Kamme
Und singt ein Lied dabey;
Das hat eine wundersame,
Gewaltige Melodey.

Den Schiffer im kleinen Schiffe
Ergreift es mit wildem Weh;
Er schaut nicht die Felsenriffe,
Er schaut nur hinauf in die Höh'.

Ich glaube, die Wellen verschlingen
Am Ende Schiffer und Kahn;
Und das hat mit ihrem Singen
Die Lore-ley gethan.
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Antologia de Poemas para a infância (diversos autores), Organização de Henriqueta Lisboa e Ilustrações de Dawidson França, 3ª edição, 2009, Ediouro Publicações, Rio de Janeiro — RJ; Christian Johann Heinrich Heine (1797  1856), alemão de Dusseldorf, formado em Direito, foi poeta, ensaísta, jornalista e crítico literário; teve boa parte de sua obra lírico-poética musicada por vários compositores de sua época (Franz Shubert, Robert Schumann, Felix Mendelssohn, Brahms, Hugo Wolf, Richard Wagner), e, já no século XX, por José Maria Rocha Ferreira, Hans Werner Henze e Lord Berners; escreveu e publicou Gedichte (Poesias, 1821), Buch der Lieder  (poesias, Livro das Canções, 1827), Neue Gedichte (Novos Versos, 1844),  Romanzero (poesias, Romanceiro, 1851), Der Doktor Faust — Ein Tanzpoem (Doutor Fausto — um poema-dança, 1851), Die Götter im Exil (Os deuses no exílio, 1853), Letzte Gedichte (publicação póstuma,  Últimos Versos, 1869), entre outros títulos.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Fahtma Dias: Canibalismo, sem perceber

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Comemos cadáveres de animais.
Comemos também as ideias e ideais de nossos entes queridos,
sem perceber!

Engolimos falsas verdades engarrafadas nas TVs,
junto com belos garotos e belas garotas,
ou coroas com suposta experiência e muito charme,
sem perceber!

Comemos cadáveres pasteurizados de antigos ídolos
servidos com os mais modernos molhos dos grandes capitais,
sem perceber!

E assim...

Deixamos que sirvam nossos cérebros, músculos e vísceras,
nos banquetes de nossos patrões,
sem perceber!
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Antologia de Poetas Vermelhos, Apresentação de Antonio Rodrigues Belon, Prefácio de Celso Alencar e Organização de Jorge Breogan, 2015, Editora Sundermann, Selo Literário Outra Margem, São Paulo — SP; sobre Fahtma Dias, a autora do poema, o livro não nos traz notícia; esta antologia é resultado do Concurso Literário Sandra e Icauã, assim batizado em homenagem à militante Sandra Lúcia Fernandes e seu filho Icauã Rodrigues, assassinados em fevereiro de 2014 em Olinda  PE; o concurso literário também foi em homenagem aos 20 anos de fundação do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados PSTU (fundação: 5 de junho de 1994); a quem trouxer notícia biográfica de Fahtma Dias, este Verso e Conversa agradece.