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segunda-feira, 20 de junho de 2022

Mário de Sá-Carneiro: Apoteose

 
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Mastros quebrados, singro num mar de Ouro
Dormindo fogo, incerto, longemente...
Tudo se me igualou num sonho rente,
E em metade de mim hoje só moro...

São tristezas de bronze as que inda choro
Pilastras mortas, mármores ao Poente...
Lajearam-se-me as ânsias brancamente
Por claustros falsos onde nunca oro...

Desci de mim. Dobrei o manto de Astro,
Quebrei a taça de cristal e espanto,
Talhei em sombra o Oiro do meu rastro...

Findei... Horas-platina... Olor-brocado...
Luar-ânsia... Luz-perdão... Orquídeas-pranto...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ó pântanos de Mim jardim estagnado...

Paris, 28 de junho de 1914

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Mário de Sá-Carneiro: A um suicida

 
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À memória de Tomás Cabreira Júnior

Tu crias em ti mesmo e eras corajoso,
Tu tinhas idéias e tinhas confiança.
Oh!, quantas vezes desesp’rançoso,
Não invejei a tua esp’rança!

Dizia para mim: Aquele há-de vencer
Aquele há-de colar a boca sequiosa
Nuns lábios cor-de-rosa
Que eu nunca beijarei, que me farão morrer...

A nossa amante era a Glória
Que para ti era a vitória,
E para mim asas partidas.
Tinhas esp’ranças, ambições...
As minhas pobres ilusões,
Essas estavam já perdidas...

Imersa no azul dos campos siderais
Sorria para ti a grande encantadora,
A grande caprichosa, a grande amante loura
Em quem tínhamos posto os nossos ideais.

Robusto caminheiro e forte lutador
Havias de chegar ao fim da longa estrada
De corpo avigorado e de alma avigorada
Pelo triunfo e pelo amor.

Amor! Quem tem vinte anos
Há-de por força amar.
Na idade dos enganos
Quem se não há-de enganar?

Enquanto tu vencerias
Na luta heroica da vida
E, sereno, esperarias
Aquela segunda vida
Dos bem-fadados da Glória
Dos eternos vencedores
Que revivem na memória
Sem triunfos, sem amores,
Eu teria adormecido
Espojado no caminho,
Preguiçoso, entorpecido,
Cheio de raiva, daninho...

Recordo com saudade as horas que passava
Quando ia a tua casa e tu, muito animado,
Me lias um trabalho há pouco terminado,
Na salazinha verde em que tão bem se estava.

Dizíamos ali sinceramente
As nossas ambições, os nossos ideais:
Um livro impresso, um drama em cena, o nome nos jornais...
Dizíamos tudo isto, amigo, seriamente...

Ao pé de ti, voltava-me a coragem:
Queria a Glória... Ia partir!
Ia lançar-me na voragem!
Ia vencer ou sucumbir!...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ai!, mas uma dia, tu, o grande corajoso,
Também desfaleceste.
não te espojaste, não. Tu eras mais brioso:
Tu morreste.

Foste vencido? Não sei.
Morrer não é ser vencido.
Nem é tão pouco vencer.

Eu por mim, continuei
Espojado, adormecido,
A existir sem viver.

Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte
Mais triste do que a minha e mal-aventurada.
... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
E há tantos como eu que não alcançam nada...

Lisboa, 1º de outubro de 1911

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

sexta-feira, 4 de março de 2022

Mário de Sá-Carneiro: Feminina

 

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Eu queria ser mulher pra me poder estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer potins muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos mesmo ao predileto
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher pra me poder recusar...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Paris, fevereiro de 1916

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

sábado, 1 de janeiro de 2022

Mário de Sá-Carneiro: Aquele outro

 
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O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito.
O Rei-lua postiço, o falso atônito
Bem no fundo o covarde rigoroso.

Em vez de Pajem, bobo presunçoso
Sua Alma de neve, asco de um vômito.
Seu ânimo, cantado como indômito
Um lacaio invertido e pressuroso.

O sem nervos nem Ânsia o papa-açorda,
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal.

O raimoso, o corrido, o desleal
O balofo arrotando Império astral:
O mago sem condão, o Esfinge gorda.

Paris, fevereiro de 1916


* Nota do Verso e Conversa: o atrevidíssimo aprendiz de blogueiro desta página expõe que Alexei Bueno, organizador de Poesia Reunida..., anota em sua Apresentação que “Em outubro de 1912 parte Sá-Carneiro para a sua adorada Paris, [ . . . ] encontramos Sá-Carneiro no apogeu do seu gênio, no qual se manterá nos dois e anos e meio que lhe restarão de vida. [ . . . ] Trata-se de uma poesia visceralmente original, com muito de autobiográfico  o que ocorre em toda a sua obra  mas um autobiográfico não confessional, transcendendo qualquer limitação personalista. A beleza intrínseca de sua poesia [ . . . ], vem lado a lado com uma espécie de autoirrisão trágica, um desprezo sarcástico de si próprio, como constatamos neste terrível autorretrato:” [Aquele outro]
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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Epígrafe & Fim

 
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Epígrafe

A sala do castelo é deserta e espelhada.

Tenho medo de Mim. Quem sou? Donde cheguei?...
Aqui, tudo já foi... Em sombra estilizada,
A cor morreu e até o ar é uma ruína...
Vem de Outro tempo a luz que me ilumina
Um som opaco me dilui em Rei...

— 

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes
Façam escalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas.

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza:
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro...

Paris, fevereiro de 1916

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

domingo, 7 de novembro de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Distante melodia . . .

 
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Num sonho de Íris, morto a ouro e brasa,
Vêm-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.

Então os meus sentidos eram cores,
Nasciam num jardim as minhas ânsias,
Havia na minha alma Outras distâncias
Distâncias que o segui-las era flores…

Caía Ouro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me…
Noites-lagoas, como éreis belas
Sob terraços-lis de recordar-me!…

Idade acorde de Inter-sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz anseios de Princesa nua…

Balaústres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume…
Domínio inexprimível de Ópio e lume
Que nunca mais, em cor, hei-de habitar…

Tapetes doutras Pérsias mais Oriente…
Cortinados de Chinas mais marfim…
Áureos Templos de ritos de cetim…
Fontes correndo sombra, mansamente…

Zimbórios-panteões de nostalgias,
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar…
Escadas de honra, escadas só, ao ar…
Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias…

Lembranças fluidas… cinza de brocado…
Irrealidade anil que em mim ondeia…
Ao meu redor eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia…

Paris, 30 de junho de 1914

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; suas obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

sábado, 30 de outubro de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Pied-de-nez

 
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Lá anda a minha Dor às cambalhotas
No salão de vermelho atapetado
Meu cetim de ternura engordurado,
Rendas da minha ânsia todas rotas…

O Erro sempre a rir-me em destrambelho
Falso mistério, mas que não se abrange…
De antigo armário que agoirento range,
Minha alma atual o esverdinhado espelho…

Chora em mim um palhaço às piruetas;
O meu castelo em Espanha, ei-lo vendido
E, entretanto, foram de violetas,

Deram-me beijos sem os ter pedido…
Mas como sempre, ao fim bandeiras pretas,
Tômbolas falsas, carrossel partido…

Paris, novembro de 1915

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; obras: Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Mário de Sá-Carneiro: Salomé

 
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Insônia roxa. A luz a virgular-se em medo,
luz morta de luar, mais alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
alastra-se pra mim num espasmo de segredo...

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro!... A minha alma parou...
E o seu corpo resvala a projetar estátuas...

Ela chama-me em íris. Nimba-se a perder-me,
golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer morrer-me:

mordoura-se a chorar  há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto e vou arder-me
na boca imperial que humanizou um santo...

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Livro das Cortesãs, 1500 — 1900 (Poetas Portugueses e Brasileiros), Seleção, Organização e Notas de Sergio Faraco, Volume 59 da Coleção L&PM Pocket, 2004 (reimpressão), L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Mário de Sá-Carneiro: Certa vez na noite, ruivamente

60 poetas trágicos | Amazon.com.br
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Esquivo sortilégio o dessa voz, opiada
em sons cor de amaranto, às noites de incerteza,
que eu lembro não sei de onde a voz duma princesa
bailando meia nua entre clarões de espada.

Leonina, ela arremessa a carne arroxeada;
e bêbada de si, arfante de beleza,
acera os seios nus, descobre o sexo… Reza
o espasmo que a estrebucha em alma copulada…

Entanto nunca a vi mesmo em visão. Somente
a sua voz a fulcra ao meu lembrar-me. Assim
não lhe desejo a carne a carne inexistente…

É só de voz-em-cio a bailadeira astral
e nessa voz-estátua, ah! nessa voz-total,
é que eu sonho esvair-me em vícios de marfim...

Lisboa 1914  janeiro 31

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60 Poetas Trágicos — Organização, seleção, nota de apresentação e traços biobibliográficos de Sergio Faraco, 2016, L&PM Editores, Porto Alegre — RS; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português e lisboeta, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; o poeta cometeu suicídio em 26 de abril de 1916, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Mário de Sá-Carneiro: Feminina

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Eu queria ser mulher para poder me estender
Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.
Eu queria ser mulher para poder estender
Pó-de-arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés.

Eu queria ser mulher para não ter que pensar na vida
E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro 
Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro
A falar de modas e a fazer potins — muito entretida.

Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios
E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar 
Eu queria ser mulher para que me fossem bem estes enleios
Que num homem, francamente, não se podem desculpar.

Eu queria ser mulher para ter muitos amantes
E enganá-los a todos — mesmo ao predileto
Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto,
Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...

Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,
Eu queria ser mulher para me poder recusar...

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Paris, fevereiro de 1916

Resultado de imagem para mário de sá-carneiro
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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa. 

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Mário de Sá-Carneiro: Dispersão

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Perdi-me dentro de mim 
Porque eu era labirinto, 
E hoje, quando me sinto, 
É com saudades de mim. 

Passei pela minha vida 
Um astro doido a sonhar. 
Na ânsia de ultrapassar, 
Nem dei pela minha vida... 

Para mim é sempre ontem, 
Não tenho amanhã nem hoje: 
O tempo que aos outros foge 
Cai sobre mim feito ontem. 

(O Domingo de Paris 
Lembra-me o desaparecido 
Que sentia comovido 
Os Domingos de Paris: 

Porque um domingo é família, 
É bem-estar, é singeleza, 
E os que olham a beleza 
Não têm bem-estar nem família). 

O pobre moço das ânsias... 
Tu, sim, tu eras alguém! 
E foi por isso também 
Que te abismaste nas ânsias. 

A grande ave dourada 
Bateu asas para os céus, 
Mas fechou-as saciada 
Ao ver que ganhava os céus. 

Como se chora um amante, 
Assim me choro a mim mesmo: 
Eu fui amante inconstante 
Que se traiu a si mesmo. 

Não sinto o espaço que encerro 
Nem as linhas que projeto: 
Se me olho a um espelho, erro  
Não me acho no que projeto. 

Regresso dentro de mim, 
Mas nada me fala, nada! 
Tenho a alma amortalhada, 
Sequinha, dentro de mim. 

Não perdi a minha alma, 
Fiquei com ela, perdida. 
Assim eu choro, da vida, 
A morte da minha alma. 

Saudosamente recordo 
Uma gentil companheira 
Que na minha vida inteira 
Eu nunca vi... Mas recordo 

A sua boca doirada 
E o seu corpo esmaecido, 
Em um hálito perdido 
Que vem na tarde doirada. 

(As minhas grandes saudades 
São do que nunca enlacei. 
Ai, como eu tenho saudades 
Dos sonhos que não sonhei!...) 

E sinto que a minha morte  
Minha dispersão total  
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas pra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me na alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a, mas permaneço...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Paris, maio de 1913

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Poesia Reunida — Mário de Sá-Carneiro — Texto Integral, Organização e Apresentação de Alexei Bueno, Edições Saraiva de Bolso, 2014, Nova Fronteira — Rio de Janeiro — RJ; Mário de Sá-Carneiro (1890 1916), português de Lisboa, cursou Direito em Coimbra, sem concluir os estudos, e foi poeta, contista e ficcionista, sendo considerado um dos expoentes do Modernismo em Portugal; foi responsável pela edição da revista literária Orpheu, causadora de escândalo nos meios literários à época; seus textos foram registrados, parte em vida, nas revistas Alma Nova e Contemporânea, e, depois, postumamente, também nas revistas Pirâmide e Sudoeste; são de sua autoria Amizade (peça teatral, 1912), Princípio (novelas, 1912), A Confissão de Lúcio (romance, 1914), Dispersão (poesias, 1914), Céu em Fogo (novelas, 1915); publicações póstumas: Indícios de Oiro (textos mais significativos de sua obra, 1937), Cartas a Fernando Pessoa (correspondências, 2 volumes, 1958 e 1959) e outros títulos; cometeu suicídio, não sem antes revelar tal intenção em correspondência a seu amigo e poeta Fernando Pessoa.