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Ao alto
(no centro da mesa)
a lamparina espalha pelos comensais
a luz que lhes falta: tudo é carvão
vidas encardidas nas cavernas,
na escuridão. Geradas (como elas)
no negrume da terra
(no seu útero) —
as batatas as sustentam (apenas o suficiente)
para que durem e recomecem o dia trevoso
no baixo mundo
— no paciente aguardo da morte.
Tudo (ao derredor)
tem a cor do ar que respiram,
espécie de nervuras, escuro tule que recobre as paredes
— metáfora que radiografa os pulmões.
A menina de costas é
a única promessa de futuro,
muito embora ela o tenha
(à sua frente)
nas esbatidas e sumidas figuras das velhas
que a servem.
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Livro de possuídos — Maria Lúcia
Dal Farra, Apresentação de Haquira Osakabe, 2002, Editora Iluminuras, São Paulo
— SP; Maria Lúcia Dal Farra, nascida em 1944, paulista de Botucatu, é escritora,
poeta e professora universitária; graduada em Letras, com mestrado em Letras Clássicas
e Vernáculas pela Universidade de São Paulo, professora na USP e na UNICAMP, estudou
em sua terra natal, São Paulo, Lisboa e Paris; aposentou-se como professora-titular
em Letras na Universidade Federal de Sergipe, foi pesquisadora do CNPq, além de
ter lecionado em universidades nacionais e internacionais; bibliografia: O narrador
ensimesmado (estudo de romances de Vergílio Ferreira, crítica literária, 1978),
A Alquimia da linguagem (leitura da cosmogonia poética de Herberto Helder, crítica
literária, 1986), Florbela Espanca, trocando olhares (1994), Livro de auras (poesia,
1994), Livro de possuídos (poesia, 2002), Inquilina do intervalo (contos e crônicas,
2005), Alumbramentos (laureado pelo Prêmio Jabuti, poesia, 2012) e outros títulos.


