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Quando vim da minha terra,
se é que vim da minha terra
(não estou morto por lá?),
a correnteza do rio
me sussurrou vagamente
que eu havia de quedar
lá donde me despedia.
Os morros, empalidecidos
no entrecerrar-se da tarde,
pareciam me dizer
que não se pode voltar,
porque tudo é conseqüência
de um certo nascer ali.
Quando vim, se é que vim
de algum para outro lugar,
o mundo girava, alheio
à minha baça pessoa,
e no seu giro entrevi
que não se vai nem se volta
de sítio algum a nenhum.
Que carregamos as coisas,
moldura da nossa vida,
rígida cerca de arame,
na mais anônima célula,
e um chão, um riso, uma voz
ressoam incessantemente
em nossas fundas paredes.
Novas coisas, sucedendo-se,
iludem a nossa fome
de primitivo alimento.
As descobertas são máscaras
do mais obscuro real,
essa ferida alastrada
na pele de nossas almas.
Quando vim da minha terra,
não vim, perdi-me no espaço,
na ilusão de ter saído.
Ai de mim, nunca saí.
Lá estou eu, enterrado
por baixo de falas mansas,
por baixo de negras sombras,
por baixo de lavras de ouro,
por baixo de gerações,
por baixo, eu sei, de mim
mesmo,
este vivente enganado,
[enganoso.

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Farewell, Prefácio de Humberto
Werneck, segunda edição, 1996, Editora Record, Rio de Janeiro — RJ; Carlos
Drummond de Andrade (1902 — 1987), mineiro de Itabira, poeta,
contista e cronista, viveu intensamente o seu tempo e nos ofereceu como legado
incontáveis obras em verso e prosa, publicadas em livros, jornais e revistas,
pelo país afora e no resto do mundo: Alguma Poesia (1930); Brejo das
Almas (1934); Sentimento do Mundo (1940); José (1942); Confissões
de Minas, crônicas e artigos (1944); A Rosa do Povo (1945); Novos
Poemas; Claro Enigma (1951); Contos de Aprendiz (1951); Viola
de Bolso (1952); Passeios na Ilha, crônicas e artigos (1952); Fazendeiro
do Ar (1954); Fala, Amendoeira, crônicas (1957); A Bolsa
& A Vida, crônicas (1962); A Vida Passada a Limpo; Lição de
Coisas (1962); Cadeira de Balanço, crônicas (1966); Versiprosa (1967); Boitempo (1968); A Falta que Ama (1968); Caminhos de João Brandão,
crônicas (1970); O Poder Ultrajovem, crônicas (1972); As
Impurezas do Branco (1973); Menino Antigo — Boitempo II (1973); De
Noticias & Não Notícias faz-se a Crônica (1974); Discurso de
Primavera, e algumas sombras (1977); Contos Plausíveis (1981); Boca
de Luar, crônicas (1984); Amar Se Aprende Amando (1985); O
Avesso das Coisas, aforismos (1988); Farewell (1996) e
tantos outros títulos...
