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[traduzido por José Saramago]
Minha mulher está morta,
sou livre!
Posso agora beber quanto
quiser.
Quando chegava a casa sem
dinheiro
Rasgava-me as fibras aos
gritos.
Sou tão feliz como um rei;
O ar é puro, o céu
admirável...
Tivemos um Verão assim!
Quando me apaixonei por
ela.
A horrível sede que me
dilacera
Precisaria para se
satisfazer
De tanto vinho quanto pode
conter
O túmulo dela; — e não é
dizer pouco:
Atirei-a ao fundo de um
poço,
E empurrei-lhe mesmo para
cima
Todas as pedras do bucal.
Hei-de esquecê-lo se
puder!
Em nome dos juramentos de
ternura,
De que nada pode
desligar-nos,
E para nos reconciliarmos
Como nos bons tempos do
nosso entusiasmo,
Implorei-lhe um encontro,
À noite, numa rua escura.
Ela veio! — doida
criatura!
Todos somos mais ou menos
doidos!
Estava ainda bonita,
Embora fatigada! e eu,
Amava-a de mais! por isso
Lhe disse: Sai desta vida!
Ninguém pode entender. Um
só
Desses bêbedos estúpidos
Terá pensado nas noites
mórbidas
Fazer do vinho uma
mortalha?
Essa crápula invulnerável
Como as máquinas de ferro
Nunca, de Verão ou de
Inverno,
Conheceram o verdadeiro
amor,
Com os seus negros
bruxedos,
Seu cortejo infernal de
alarmes,
Seus frascos de veneno,
suas lágrimas,
Sem ruídos de grilhões e
de ossadas!
— Eis-me livre e
solitário!
Esta noite estarei bêbedo
a cair;
Depois, sem medo e sem
remorso,
Deitar-me-ei no chão,
E dormirei como um cão!
A galera de pesadas rodas
Carregada de pedras e de
lamas,
O vagão desgarrado pode
vir
Esmagar-me a cabeça
culpada
Ou cortar-me pelo meio,
Rio-me de tudo como de
Deus,
Do Diabo ou da Santa Mesa!
 |
| Charles Baudelaire |
Le vin de l’assassin
Ma femme est mort, je suis
libre!
Je puis donc boire tout mon
soûl.
Lorsque je rentrais sans un
sou,
Ses cris me déchiraient la
fibre.
Autant qu'un roi je suis
heureux;
L'air est pur, le ciel
admirable...
Nous avions un été semblable
Lorsque j'en devins amoureux!
L'horrible soif qui me déchire
Aurait besoin pour s'assouvir
D'autant de vin qu'en peut
tenir
Son tombeau; — ce n'est pas
peu dire:
Je l'ai jetée au fond d'un
puits,
Et j'ai même poussé sur ele
Tous les pavés de la margelle.
— Je l'oublierai si je le puis!
Au nom des serments de
tendresse,
Dont rien ne peut nous délier,
Et pour nous réconcilier
Comme au beau temps de notre
ivresse,
J'implorai d'elle un
rendez-vous,
Le soir, sur une route
obscure.
Elle y vint! — folle créature!
Nous sommes tous plus ou moins
fous!
Elle était encore jolie,
Quoique bien fatiguée! et moi,
Je l'aimais trop! voilà
pourquoi
Je lui dis: Sors de cette vie!
Nul ne peut me comprendre. Un
seul
Parmi ces ivrognes stupides
Songea-t-il dans ses nuits morbides
A faire du vin un linceul?
Cette crapule invulnérable
Comme les machines de fer
Jamais; ni l'été ni l'hiver,
N'a connu l'amour véritable,
Avec ses noirs enchantements,
Son cortège infernal
d'alarmes,
Ses fioles de poison, ses
larmes,
Ses bruits de chaîne et
d'ossements!
— Me voilà libre et solitaire!
Je serai ce soir ivre mort;
Alors, sans peur et sans
remord,
Je me coucherai sur la terre,
Et je dormirai comme un chien!
Le chariot aux lourdes roues
Chargé de pierres et de boues,
Le wagon enragé peut bien
Écraser ma tête coupable
Ou me couper par le milieu,
Je m'en moque comme de Dieu,
Du Diable ou de la Sainte
Table!
[Les Fleurs du mal — 1857]
* Nota do tradutor José
Saramago: Ao escolher uma fidelidade ao sentido literal, o tradutor sabia já
que não escolhera o melhor caminho: muitas vezes, senão sempre, a literalidade
é meramente aproximativa. Daí que se decidisse pelo que lhe pareceu o mal
menor: colocar a pálida tradução possível ao lado dos textos originais.
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Os Paraísos Artificiais —
Charles Baudelaire [acrescido de poemas ‘do ciclo do vinho’ e ensaios
complementares ‘Do vinho e do haxixe’], traduzidos por José Saramago, 1971, 3ª
edição, Editorial Estampa, Lisboa — Portugal; Charles-Pierre Baudelaire (1821 —
1867), francês e parisiense, estudou no Liceu Louis-le-Grand, levou vida boêmia
no Quartier Latin (região no entorno da Universidade de Sorbonne), foi poeta, crítico
de arte, ensaísta, tradutor e literato; considerado um dos precursores do Simbolismo
e reconhecido internacionalmente como um dos fundadores da tradição moderna em poesia,
sua obra teórica também influenciou profundamente as artes plásticas do século XIX;
traduziu Edgar Allan Poe; suas obras: As Flores do Mal (poemas, 1857), Os Paraísos
Artificiais (ensaios, 1860), O Spleen de Paris: pequenos poemas em prosa (edição
póstuma, 1869) e outros.